Cerro Plata de forma independente: Parte 2

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Leia a primeira parte do Relato. Cerro Plata de Forma Independente:

Cerro Plata de forma independente

DIA 04 – El Salto de altitude.

O dia novamente amanheceu aberto em Piedra Grande (3.600m), sem nuvens, um visual dos sonhos para quem já sonhava em pisar nos cumes de Córdon del Plata. Todos acordaram super bem, não houve nenhuma dor de cabeça, náusea ou qualquer sintoma do mal de montanha. Decidimos então tomar café da manhã e mudar o acampamento para el Salto (4.300m).

Desta vez mais pesados, fizemos os aprox, 03km em 02h30m em um dos trechos de maior desnível acumulado, e terreno pedregoso muito fácil de se escorregar.

Foto: Silvester Natan Sanches, Trilha para El Salto com tempo aberto e ensolarado.

Chegamos então em El Salto (4.300m) e montamos acampamento, foi então ao matar a sede, quando descobrimos que a água do rio de degelo a esquerda chega com muitos sedimentos e materiais, tornando a água marrom, e com péssimo gosto, fator que tornaria ainda mais difícil manter muito tempo neste local, fora o frio, vento e altitude, que mudará de forma significante. A partir daí que as condições externas começam pesar cada dia mais. Por isso logo tratamos de portear as botas duplas, crampons e comida para o próximo acampamento, em Hoyada (4.700m) e aproveitamos para analisar se seria melhor avançar ou manter se em El Salto (4.300m).

Foto: Silvester Natan Sanches, água de degelo de El Salto (4.300m) com muitos sedimentos e materias.

Após comermos alguns snacks, partimos para Hoyada (4.700m) que fica 1.9km de El Salto (4.300m) no qual percorremos em 01 hora cravada. Chegando a Hoyada, o tempo estava fechado, com muita neve, cobrindo quase todo acampamento, deixando apenas 02 lugares de terreno mais regular para montar acampamento e com ponto de água um pouco longe do acampamento, num rio de degelo abaixo do glaciar e com acesso bem chato.

Foto: Silvester Natan Sanches, Acampamento em Hoyada (4.700m) com muita neve.

Deixamos os equipamentos escondidos e retornamos então para El Salto (4.300m), notamos então uma movimentação em todas as barracas, de outros montanhistas falando sobre o tempo, e organizando equipamentos. Foi quando decidi conversar com alguns chicos de Bariloche, e outros de Córdoba, e os mesmo informaram que iriam atacar o cume do Cerro Plata ou Vallecitos, naquela mesma noite.

Havia também uma garota de Buenos Aires, que estava com rádio e passava as atualizações de previsão do tempo coletada com os refúgios abaixo. Foi aí que tivemos a segunda mudança brusca nos planos da expedição, ao descobrir que naquela noite, poderia ser a única janela nos próximos 4 ou 5 dias, devido a fortes ventos que estavam chegando, e aumentando gradualmente a cada dia, começando em 55km/h e chegando até 100km/h no seu ápice de mal tempo.

Discutimos os riscos de tentar progredir tão alto, em pouco espaço de tempo e descanso, porém todos nós 03, sentíamos muito bem e decidimos aproveitar a tal janela, dado o fato que após isso iria piorar, e logo teríamos que regressar ao Brasil, não podendo ter uma 2ª chance.

Fizemos o jantar, arrumamos as coisas e por volta das 21h30, quando começou escurecer, se entocamos para barraca, para descansar um pouco e logo levantar para o ataque ao Cume do Cerro Plata (5.930m).

Foto: Silvester Natan Sanches, Acampamento em El Salto (4.300m).

DIA 05 – O ataque, de ventos.

Após algumas poucas horas de sono, acordamos então as 01h00 da madrugada, continuei deitado enquanto o Alexandre e Ediceu tomavam café e se preparavam para o ataque, quando os 02 saíram as 01h35 da madruga, comecei tomar café e me trocar, dado que eu sairia um pouco depois, já que meu ritmo era mais rápido e eu não queria ficar esperando exposto ao vento da noite gelada vinda das cordilheiras andinas.

Com café tomado, e pronto, sai então exatamente as 02h10m da madrugada do 5º dia, de El Salto (4.300m) para o ataque ao Cerro Plata (5.930m), e desta vez leve, fiz o trajeto entre El Salto (4.300m) e Hoyada (4.700m) em apenas 43 minutos, quando cheguei e o Ediceu e Alexandre já calçavam suas botas duplas.

Foto: Silvester Natan Sanches, noite de ataque ao cume, após acampamento Hoyada (4.700m)

Rapidamente calcei minhas botas duplas em Hoyada (4.700m) e sai a frente, montanha acima, com o GPS Garmin 62S ligado. Era possível ver algumas lanternas acima, de 02 grupos que partiram um pouco mais cedo, e após atravessarmos um pequeno trecho com neve, que não estava tão dura, e por isso não foi necessário utilizarmos crampons, começou uma subida infernal, e logo na metade da subida, a garota de Buenos Aires, que passava informações do tempo com o rádio, estava descendo, devido ao famoso mal de montanha, perguntamos se estavam bem, e ela disse que conseguiria descer sozinha.

Subindo em ritmo forte, numa trilha bem batida e íngreme de cascalhos e pedras, logo alcancei o companheiro da chica que desceu, era o Argentino, chamado Mauro, de Buenos Aires.

Parei para tomar um café quente com Mauro, e o mesmo se ofereceu para seguir em direção ao ataque conosco, uma vez que ele estaria sozinho, obviamente concordei e continuei a frente.

Em seguida vinha Mauro, que mostrava um bom ritmo, logo após Alexandre e Ediceu, um pouco atrás, mas sempre mantendo contato visual. O vento aumentava cada vez mais que subíamos e a ficávamos expostos na montanha, e parar para descansar se tornava cada vez mais congelante. O tempo estava limpo, sem nenhuma nuvem, o céu super estrelado porém com ventos cada vez mais fortes quando se aproximávamos do colo (5.200m), que divide o caminho a esquerda para Cerro Plata e direita para o elegante Cerro Vallecitos.

Foto: Silvester Natan Sanches, Alexandre no colo (5.200m) que divide Cerro Plata e Cerro Vallecitos.

Chegamos abaixo do Colo (5.150m) aos primeiros raios de luz, quando aguardei o quanto pude meus companheiros se aproximarem, até que com o frio extremo me açoitando, assim que o Alexandre se aproximou, continuei o caminho e virei para parte superior do colo (5.200m), que fica totalmente aberta numa espécie de canaleta natural de vento, já com visual para os pés do Pico Plata (5.827m), conhecido também como falso cume, para aqueles que vão em direção ao Cerro Plata (5.930m).

Ao entrar na parte superior do Colo, mal conseguia se manter de pé com as rajadas de fortes ventos, após alguns passos se segurava nos bastões para não cair, quando Alexandre gritou questionando se eu iria continuar, olhei algumas pedras empilhadas a cerca de 20 metros à frente e decidi se arrastar até lá para se proteger e pensar o que fazer, este momento o relógio marcava as 06h45 da manhã.

Foto: Silvester Natan Sanches, momentos no colo (5.200m) se protegendo dos ventos, ao fundo Aconcágua.

Pouco depois o Alexandre chegou, e ficamos deitados abaixo das pedras para não sermos arrastados pelo vento, olhamos para trás e não víamos o Ediceu e o Argentino Mauro, o que nos fizera pensar que haviam descido quando sentiram a força do vento naquele Colo (5.200m).

Olhamos para o Cume do Plata, e toda neve estava sendo varrido do seu cume e onde mais havia neve ao seu redor, formando um lindo efeito visual, conhecido com ‘’vento branco’’ e ao mesmo tempo assustador, pois sabíamos que seria muito difícil ficar de pé e lutar contra as fortes rajadas de ventos naquela altitude.

Alguns minutos depois, se surpreendemos com o Ediceu e Mauro chegando no nosso abrigo de pedras, ambos pensavam o mesmo, que seria muito perigoso ganhar mais altitude e ficarmos expostos nas encostas da montanha com aquele incessante vento agressivo.

Foto: Silvester Natan Sanches, Ventos de aprox 80km/h formando o ‘’vento branco’’ no cume do Pico Plata.

Aguardamos deitados, consumindo em alguns momentos a bebida quente que carregávamos na mochila, para resistirmos a baixa sensação térmica do vento que assolava. Quando Alexandre começou a parar de sentir os dedos dos pés, decidiu então retornar e abortar o ataque daquele ponto, aprox. as 07h30.

Eu, Ediceu, e Mauro mantivemos fortes, mesmo sofrendo com os ventos, quando outro grupo chegou e também se abrigou nas pedras, estes tentariam o Cerro Vallecitos, porém foram espancados pelo mesmo vento. As 08h15 após acabar a bebida quente, e algumas fortes dores nos dedos dos pés e das mãos devido à baixa temperatura, decidimos todos abortarmos e regressarmos para El Salto.

Quando estávamos baixando encontramos alguns grupos também descendo, e outro que estavam indo tentar, e após chegar em El Salto (4.300m), hora após hora, foram chegando cada vez mais duplas, e trios que desceram sem sucesso devido aos fortes ventos. Sendo somente os 03 chicos de Bariloche que saíram 02horas a nossa frente, os únicos a lograr êxito ao cume naquela noite, relatando terem enfrentado o vento mais forte que já pegaram em montanhas, qual estimamos em aprox 80km/h, e após o bate papo, com muito frio e cansaço, fomos todos então dormir.

Foto: Silvester Natan Sanches, Mais uma noite de perrengue com 02 pessoas dividindo a mesma barraca.

DIA 06 – Hora de baixar para subir

Início do 6º dia, time com moral baixa, praticamente todas barracas que estavam no acampamento sendo desmontadas e indo embora, dado que não havia muitas perspectivas de tempo para atacar o cume nos próximos 2 ou 3 dias.

Nosso companheiro Alexandre nos noticiou no café da manhã que estava baixando, pois não estava bem psicologicamente, não sabemos ao certo os motivos, porém respeitamos sua decisão e desejamos sorte em seu retorno naquela manhã.

Com o tempo fechado, fortes ventos e muito frio, não havia o que fazer a não ser ficar deitado na barraca matando o tempo, ao mesmo tempo sentia que não estava se recuperando muito rápido parado ali naquela altitude de El Salto (4.300m) e não fazia sentido nenhum ficar ali com péssimas condições, enquanto a próxima janela poderia acontecer somente em 02 dias.

Foto: Silvester Natan Sanches, visual do caminho que vem de pedra, da borda da cachoeira de El Salto (4.300m).

Conversei com Ediceu e dei a ideia então de deixarmos acampamento montado e descermos no final da tarde para o refúgio Ski & Montanã (2.900m) para dormir e acelerar a recuperação. Saímos então de El Salto (4.300m) as 15h00 do dia 29/12, desta vez com o Argentino Mauro, que estava sozinho, agora oficialmente conosco e baixamos direto para o refúgio, chegando aprox 18h30 no refúgio (2.900m).

Ao chegar fomos sedentos ao banho quente, e as acomodações, conseguimos sinal de internet após 6 dias, e fomos verificar a previsão do tempo para os próximos dias, surgiu ai então o inesperado!

A previsão do tempo havia mudado bruscamente e a próxima ‘’janela’’ com melhor chance de sucesso, seria no dia seguinte, com ventos entre 50 e 60km/h, e depois disso aumentando para 80,90km/h excedendo o tempo que teríamos em Córdon del Plata.

Isso significava que teríamos que fazer um ataque ao cume do Cerro Plata (5.930m) saindo desde o refúgio Ski&Montanã (2.900m), enfrentando um desnível acumulado de quase 3mil metros em menos de 24 horas.

E foi o que decidimos, Ediceu e Mauro, concordaram com a ideia e decidimos então apostar as últimas fichas, fizemos um jantar coletivo, comendo tudo que era possível para armazenar calorias e fomos dormir.

Foto: Silvester Natan Sanches, Verificando a previsão do tempo no refúgio Ski&Montana (2.900m)

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Cerro Plata de forma independente: Final

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