Ainda não sei em quantos poços hei de descer para ver meu próprio rosto na água que o carbureto ilumina. Mas sei que, em cada um deles, o eco vai me mostrar algo mais do que somente a minha voz. Nas entranhas das pedras, não encontrei jamais a escuridão, mas um vazio repleto de pensamentos. Solon Almeida Netto, explorador de cavernas.
Cavidades
Neste texto você basicamente encontrará cavernas calcárias. Elas estão situadas no semiárido nordestino. Não têm nem longos comprimentos nem decorações notáveis. Mas tanto elas como seus ambientes são especiais, com aquele aspecto forte, quente e sofrido tão típico da caatinga.
Furna Feia
Um dos maiores projetos brasileiros de fruticultura irrigada chamava-se Maisa e foi implantado em 20 mil hectares do semiárido nordestino, próximo a Mossoró (RN). O projeto foi vitorioso durante a década de 1980, diversificando e exportando a produção. Mas passou a sofrer com os vacilos da economia (alta inflação e câmbio fixo) e com repetidos furtos internos. No início dos anos 2000, a Maísa faliu.
A empresa chegou a empregar 6 mil pessoas, tendo construído uma vila para esses funcionários. Com a falência, o INCRA adquiriu parte da propriedade e implantou uma dezena de agrovilas. Parte das terras foi também vendida para uma cooperativa de ex-funcionários. A proximidade desta população começou a ameaçar a integridade da Furna Feia, uma caverna próxima desde há muito conhecida.

O Parque partiu da reserva legal da antiga Maisa, que correspondeu a quase metade da área total.
A região pertence à Chapada do Apodi, de solos calcários. A origem destes foram as invasões marinhas ao longo de milênios, que depositaram no Rio Grande do Norte esqueletos ricos em cálcio. Esses sedimentos foram adensados por compactação, gerando a rocha calcária. Por ser solúvel em água, o calcário tende a formar por dissolução grandes e belas cavernas.
O CECAV, órgão do ICMBio envolvido com a pesquisa e a conservação das cavernas, ao tentar proteger o entorno ameaçado da Furna Feia, começou a identificar muitas outras cavidades, que ultrapassaram duas centenas.
Surgiu então a ideia de se aproveitar e ampliar a reserva legal da antiga Maisa – área de 20% de uma propriedade rural que não pode ser por Lei explorada. Era 4 mil hectares, úteis para a formação de uma Unidade de Conservação.
Foi desta forma que surgiu em 2012 o Parque Nacional da Furna Feia, a primeira unidade de conservação federal no Estado. Ele continua sobrevivendo apenas no papel, pois ainda não teve sua situação fundiária resolvida e não foi ainda estruturado para a visitação.
Conta com quase 9 mil hectares e é envolvido por uma zona de amortecimento de 25 mil hectares, que conflita com os povoados ao redor. Nesta ZA, são permitidas atividades de mineração (de calcário), extração de petróleo (o RN tem produção em terra) e geração de energia (no caso, eólica) – o que provavelmente irá descaracterizá-la no futuro, se não mesmo comprometê-la e danificá-la.

Planta do PN Furna Feia. A área clara corresponde à zona de amortecimento e a escura, à unidade de conservação. Os pontos indicam cavernas, que ficam a oeste.
A área do PN é quase repartida igualmente entre os municípios de Baraúna e Mossoró. O acesso é pelas rodovias BR 304 e RN 017, distando cerca de 35 km de Mossoró. A estrada final é em terra, podendo se mostrar precária em períodos úmidos, principalmente no acesso final aos atrativos.
A proximidade e mesmo sobreposição com os assentamentos de 400 famílias trazem problemas de corte de madeira, retirada de calcário e pisoteio pelo gado. As lagoas intermitentes (e também os açudes fora do PN) são usados pelos caçadores para concentrar e abater a fauna. A estrada do Juremal, que é o acesso à UC e a via de transporte das comunidades, tem causado atropelamentos da fauna nativa.
Embora o PN seja parcialmente seco, sendo atravessado por três riachos intermitentes, ele é divisor entre as duas grandes bacias potiguares, o Jaguaribe a oeste e o Mossoró a leste. Contém a Lagoa do Pinga e cursos que correm por galerias subterrâneas, importantes para abastecer os dois preciosos aquíferos da região.

(a) – Panorama do PN Furna Feia.

(b) – Lagoa do Pinga, próxima ao Abrigo do Letreiro.
Não é visualmente bonito, acho que por duas razões: é plano, sem nenhum relevo que traga um visual diferente (pois a Serra de Mossoró que fica no seu interior é baixa), e recoberto por uma caatinga arbustiva (e às vezes arbórea) monótona e ressecada quando da estiagem. Surpreendentemente, é rico em flora e fauna, com mais de uma centena de plantas e quase duas de aves. Abriga a jaguatirica, todas as espécies de gatos silvestres, a raposa e o guaxinim, o veado catingueiro e o tamanduá mirim.
Mas existem também animais diferentes, que vivem dentro das muitas cavernas do PN. São chamados coletivamente pelo elegante nome de troglóbios. Segundo o CECAV, a maioria não tem pigmentação nem visão. Possuem em compensação longas antenas e olfato sensível. Entre esses há diversos tipos de peixes, crustáceos e aranhas. A maior parte é endêmica do Parque.
Os atrativos são subterrâneos, as cavernas calcárias. Devido ao aspecto ameaçador de sua grande boca, a maior delas foi chamada de Furna Feia. Possui mais de 700 metros (o que é um tamanho razoável) e algumas decorações interessantes.

(a) – A espetacular entrada da Furna Feia (Fonte – aventuramango).

(b) – Dupla claraboia da Caverna Furna Feia.

(c) – Decoração calcária na Furna Feia.
Já a Furna Nova é outra formação próxima de 250 metros apenas, com acesso um tanto apertado, mas espeleotemas mais interessantes, inclusive uma linda cortina calcária. Acho que, no futuro, outras cavidades conhecidas poderão contribuir com belas decorações. Seis delas foram identificadas como candidatas à visitação.

(a) – Interior da Caverna Crote, com a velha oiticica no seu final.

(b) – Cortina da Caverna Furna Nova.
O Abrigo do Letreiro é uma cavidade aberta com teto baixo, com 50 metros de extensão, ao fim da qual uma árvore de mulungu solitário busca a luz da claraboia. É uma visão emocionante, assim como a das muitas pinturas rupestres de traço esquemático e geométrico em seus tetos e paredes. O interior do Letreiro é envolvente e você acaba se sentido parte do passado, como se pudesse conversar com os autores dos enigmas desenhados na pedra.

Este é o mulungu que cresceu pela claraboia do Abrigo do Letreiro.
Um lajedo é sempre uma superfície horizontal e irregular. Porém no Lajedo em Pé existem curiosas rochas encaixadas perpendicularmente nas fraturas do piso. Suspeita-se haver em baixo um sítio arqueológico escondido. Acredito que muitos outros virão a enriquecer esse Parque precioso e rústico.

O curioso Lajedo em Pé no PN Furna Feia Fonte – Divulgação).
Rosário
O pequeno município de Felipe Guerra deve este nome a um político da região. Fica vizinho a Apodi, do qual se emancipou. Essa é uma região calcária do semiárido potiguar, próxima a Mossoró. Pertence integralmente à bacia do Apodi-Mossoró. Quando as chuvas permitem, existem belas cachoeiras, como Roncador e Caripina, mas o principal atrativo fica escondido pelo Lajedo do Rosário.

Vista do Lajedo do Rosário (Fonte – Argos Foto).
Há na região a Caverna da Carrapateira, onde se conta que a população local se escondeu, quando o bando de cangaceiros de Lampião passou no local, rumo a Mossoró. Na época, o povoado chamava-se Pedra de Abelha, nome tão simpático, que não deveria ter sido mudado.
Entrementes, Mossoró resistiu bravamente aos invasores, feito de que até hoje se orgulham seus moradores, ao mostrarem a torre da igreja crivada de balas cangaceiras e ao construírem com capricho o Memorial da Resistência.
O Rosário é uma típica superfície calcária, recoberta por lapiás acinzentados e fraturados, com escassa vegetação espinhosa de urtigas, macambiras e favelas. Apesar de plana, é difícil caminhar sobre ela, devido às pontas agudas das rochas, às fendas perigosas e ao calor intenso. É um lajedo grande, com 3 km² no sentido SW-NE. Mas não é a superfície que interessa, e sim o seu interior.
Anna Andrade escreveu: O percurso debaixo da terra é cheio de caminhos estreitos, fendas em que a pessoa quase não passa e locais onde o solo é irregular e pontiagudo, que só é possível atravessar rastejando. Em algumas cavernas, esse caminho se alarga e leva aos salões. Eles variam de tamanho e alguns são iluminados pelas fendas que permitem a passagem de luz solar. Nesse ambiente se vê as árvores por baixo, com suas longas raízes descendo metros para se fincar ao solo.

Passagem para a entrada da Caverna Crote, no Lajedo do Rosário.
Assim como no PN da Furna Feia, existem no município duas centenas de cavernas, até hoje sem proteção. Note que cavernas são consideradas Patrimônio da União, ou seja, são propriedades federais. Apesar disto, têm ocorrido prospecção de petróleo e atividade de mineração junto às cavidades do município – talvez nem se saiba quantas formações terão sido danificadas.
Duas das cavernas mais procuradas são a Crote e a Catedral. Embora um pouco distantes entre si, pertencem ao mesmo Lajedo do Rosário. Suas entradas são exíguas, especialmente a da segunda, que exige uma descida de quase dez metros. A Crote (nome de uma planta de folhas largas) mede 300 metros e apresenta ao fim de sua galeria uma velha oiticica, que emerge lindamente através de uma claraboia.

(a) – Interior da Caverna Crote, com a velha oiticica no seu final.

(b) – Caverna Catedral.
As cavidades na região são em geral secas, o que é o caso das duas. A Caverna Catedral é menor, com desenvolvimento de 200 metros, porém apresenta sugestivas decorações que lhe deram este nome. Elas recobrem um grande salão de 30 metros, onde termina. Porém a dificuldade maior é escalar de volta a apertada fenda da entrada.
Há talvez outra meia dúzia de cavernas bem conhecidas e visitadas, pois o lajedo contém meia centena de cavidades, abrigos e abismos – são em geral rasas e curtas, com média de cem metros. As claraboias acontecem no encontro das fraturas, quando é comum plantas crescerem nelas.

A Caverna Trapiá, provavelmente a maior do RN (Fonte – Solon Almeida Netto).
Mas a maior de todas as formações até o momento conhecidas é a Caverna Trapiá, neste caso uma formação úmida e quente. Termina a pouca distância do Rio Apodi, com o qual se comunica. Tem 2.400 metros de desenvolvimento, com um abismo de duas dezenas de metros de rapel. Acredita-se que seja a maior do Estado. Até que outras, talvez mais impressionantes, sejam descobertas.












