ACE – Algumas linhas – 5/9 Travessia Alpha Crucis Express

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Em nosso 5º dia de travessia, acordamos com a alvorada, preparamos um café da manhã mais robusto, apreciando a fartura de mantimentos da qual nos despedíamos para trilhar novamente sobre o equilíbrio entre a fome e o peso nas cargueiras. Às 6h50, ainda com o interior da mata tomado pelas sombras, partimos em passo seguro, com as lanternas prestando seus serviços na madrugadinha que findava.

Às 7h32, pouco depois de iniciarmos a caminhada do dia, encontrei um dos prêmios desse role pelo menos ao meu olhar: uma ponte invertida, provavelmente resquício do Caminho da Graciosa Colonial.

Fig.1 – Ponte invertida na Estrada da Graciosa Colonial?

 Seguimos caminhando pela nova ligação pensada pelo Elcio Douglas e concretizada em trabalho intenso e diligente pelos ACEs que se somaram, no cansativo avaliar, validar e sinalizar. Certamente suaram alguns bons litros, ali. Seguindo os rastros e as fitas de marcação, logo chegamos ao Rio Cascata, onde ainda busquei um rastro tênue, na margem oposta, talvez de uma única passagem anterior. Após subir até praticamente alcançar a estrada, com as marcas de passagem em total desacordo com o que seguíamos pouco antes, dei o comando de “volta”. Buscamos e encontramos, no outro lado do calmo regato, o caminho certo e passamos a subir pela margem esquerda constatando, com pesar, a enormidade de lixo que a sociedade lançou a partir da estrada.

Fig. 2 – Gaiola destruída às margens da Estrada da Graciosa. Lamentável impacto antrópico.

Comprovando a facilidade de acesso, entranhada na mata, uma miríade de resíduos nos rodeava: garrafas, cascas de coco, latas de bebidas, restos de roupas e até uma carcaça de gaiola. Caminhamos com cautela adicional, pelo risco de algum material cortante oculto pelas folhas, até alcançar a ponte sobre o Rio Cascata, por baixo da qual nos esprememos com o garbo que nos abundava na manhã ensolarada às 8h05.

Fig. 3 – Ponte sobre o Rio Cascata. Acesso ao conjunto da Farinha Seca.

Após passarmos por sob a ponte, subi alguns metros pela margem direita, antes de observar que me afastava da rota pretendida, pelas fitas com cores divergentes. Retomamos a base da cascata e observando para a encosta esquerda, logo encontramos uma discreta fita azul a sinalizar nosso rumo. Em se tratando de travessia de montanhas, no Paraná, claro que era uma subida íngreme, quase à prumo. Logo alcançamos novamente um trecho mais amplo e plano, talvez remanescente de um caminho de tropas antigo. Acredito que fosse um trecho do próprio caminho Colonial da Graciosa ou um ramo alternativo dele, do período em que trabalhou a produção e transporte de erva-mate, alguma variante de acesso.

A caminhada fluía bem, enquanto revezávamos o trabalho de “ponta” no rastreio da trilha. Por vezes, o “ponta” deixava passar algum desvio e, ao perceber informava apenas: “erro, volta”. Quem seguia na retaguarda, conferia as bifurcações e logo o grupo seguia pelo caminho correto, com o “ponta” fazendo vezes de “fecha” até que um novo erro trouxesse a oportunidade de retomar a frente do grupo, no rastreio.

Conversávamos sobre as dificuldades vivenciadas, tanto no caminhar quanto nas gélidas noites acampados, com o trabalho de manutenção dos pés e machucados, antes de adormecer. A impressão que tínhamos, por vezes, era que havíamos acabado de deitar e a Aurora já vinha nos despertar para mais um dia intenso de caminhada e desconfortos.

Fig. 4- Douglas e a marcação ACE após o Rio Cascata.

 

Passamos pela base da Casa Garber, nos detendo alguns minutos em apreciar o primoroso trabalho de recuperação em curso. Trocamos algumas palavras com o Amaury e logo nos pirulitamos pela encosta do Mãe Catira, passando pelas faixas do Corpo de Bombeiros às 11h18 em algum trabalho de contenção de perdidos anteriores. Muitas vezes não percebemos, mas os bravos estão sempre engajados em alguma atividade de salvamento e resgate ou de prevenção.

Fig. 5 – Contenção pelo Corpo de Bombeiros.

 

 

Continuamos a subida, sem esmorecer o passo ou descuidar do horário, alcançando o e mirante às 11h58, onde uma vista espetacular para a Serra do Ibitiraquire Marumbi nos aguardava. No cruzo de acesso Polegar X Mãe Catira, deixamos as cargueiras e fizemos um ataque tranquilo ao cume, registrando nossa passagem ao lado do Marco Geográfico às 12h07.

Fig. 6 – Vista do Ibitiraquire – 1ª Serra.

Retomamos nossas mochilas e tratamos de descer a encosta do Mãe Catira até o vale, para retomarmos altitude até o cume do Pequeno Polegar, onde registramos nossa passagem no último livro de livro de cume da Farinha Seca, deixamos um chocolate para a dupla Jailson e Leandro que trilhavam com cerca de um dia de defasagem em relação à nossa travessia. Mantendo o procedimento que adotamos a partir da nossa travessia AC, em 2023, dedicamos alguns minutos para registrar com fotografia todas as páginas do livro desde nossa passagem anterior. Esse procedimento permite que, uma eventual degradação do caderno de cume não leve a se perder toda a informação histórica ali registrada.

Fig. 7 – A equipe, no cume do Mãe Catira.

Fig. 8 – Registro de passagem e surpresa.

Desse cume perdemos algumas dezenas de metros de altitude até alcançar as grandes rochas que engaram muitos incautos no passado, e que receberam sinalização absolutamente inquestionável, antes de percorremos a extensa descida até o vale entre o Polegar e o CasFrei. Nos abastecemos na pequena nascente e tratamos de retomar a caminhada, agora buscando o terceiro cume da nossa travessia da Farinha Seca Real.

Fig. 9 – Douglas fazendo o rastreio da trilha.

Uma curta descida e uma longa subida em crista nos levaram ao cume do Esporão do Vita, pela encosta do qual acessamos a calha do rio Taquari à direita. Passamos a subir alternando talvegue e margem esquerda. Superamos uma pequena queda empregando a vegetação como apoio. Algumas dezenas de metros à frente, encontrei uma passagem bastante marcada na margem oposta e optei por seguir por ela por umas centenas de metros, avaliando sua destinação. Não encontrei nada que a justificasse, talvez fosse apenas um perdido que alguém dedicou mais tempo “forçando a mão” contra a mata antes de resignar-se à própria limitação. Retomamos o caminhar pelas pedras do rio Taquari até as proximidades da sua nascente, deixando a calha do rio para galgar algumas dezenas de metros de encosta do Tapapuí.

Fig. 10 – Crepúsculo na Farinha Seca.

Cruzamos a encosta do Tapapuí e começamos a descer buscando a calha do Rio do Meio, tido como “Rio da Fuga” em alguns registros. Perdemos altitude pela calha do rio, de pedras escorregadias, até alcançarmos a “árvore da fuga” às 19h18, quando deixamos o rio pela sua margem esquerda e passamos a subir, em direção ao Morro da Farinha Seca, alcançado sob o estrelado da noite. Do cume do Farinha Seca, voltamos a perder altitude em direção ao extenso trecho de vales e colos entre o Farinha Seca e as encostas do Morro dos Macacos, onde por duas vezes cruzamos regatos de areias douradas e águas cristalinas. No primeiro regato, fizemos uma parada mais demorada, aproveitando para preparar o jantar e esticar as pernas. Após o jantar retomamos as subidas finais, alcançando o cume do Morro dos Macacos, após uma breve desorientação, às 23h48. Rapidamente nos preparamos para o pernoite, seguindo o protocolo de cuidar dos pés e dos equipamentos antes de adormecer.

Deitado confortavelmente na barraca, dentro do saco de dormir e com o estômago cheio, ponderei por alguns momentos a enormidade do que palmilháramos até ali. Nosso primeiro dia, agreste e, francamente, hostil. Iniciado na Lirio do Vale e concluído no acampar tardio no bosque do Itapiroca. Os dias subsequentes, de recuperação, com o tempo ainda instável, alternando chuviscos, períodos nublados e aberturas de sol. Nossa progressão não se fazia célere, mas segura e constante, em jornadas extensas, onde nos suportávamos mutuamente com bom humor e muita, muita perseverança. Talvez esse seja o grande fulcro desse desafio, manter a coesão do grupo, enquanto cada qual luta suas próprias batalhas frente à dor, ao cansaço e às dúvidas que ululam por trás do sorriso fácil.

 

 

 

Fig. 11 (a) e (b) –Marcações na Farinha Seca e o passar dos anos.

Nesse dia, andamos por 16h34, com os registros de GPS (não tratados) somando 31,47 km.

… continua…

Leia também:

ACE, Algumas linhas

ACE, Algumas linhas – Parte 2 Travessia Alpha Crucis Express

ACE – Algumas linhas – Parte 3 Travessia Alpha Crucis Express

ACE – Algumas linhas – Parte 4 Travessia Alpha Crucis Express

 

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Sobre o autor

Brinco que sou Montanhista de fim de semana. Engenheiro por formação, mestrado aplicado ao entendimento da massa de ar que chamamos de vento. Grande apreciador de leituras históricas e do entendimento geográfico/político/social. Diletante no estudo de biologia aplicada - basicamente flora comestível. O cume não deve ser a maior alegria do rolê. Me divirto em planejar prévio, estudando cartas topográficas e relatos. Detalhista no arrumar da cargueira, buscando a melhor relação peso-segurança. Trilhando em família desde os anos 80… e hoje sigo os passos do meu irmão, que em meados dessa década já se aventurava pela Serra do Mar com toneladas de equipamentos e tento honrar seus ensinamentos. Busco, no divulgar das aventuras estudos contribuir com o Montanhismo Nacional e seu desenvolvimento sustentável como esporte e como atividade econômica.

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