A Beleza da Impermanência: Memórias de um Montanhista no Japão

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Há poucos dias, meus olhos estavam fixos no horizonte árido e monumental de Arequipa, no Peru. Deixei para trás a “Cidade Branca”, guardada pelo imponente Misti, após uma temporada intensa em que coloquei os pés no topo de seis vulcões andinos. Mas o descanso do montanhista dura pouco, ou melhor, dura o tempo de um voo transoceânico. Meu próximo destino era o Japão, uma terra onde o fogo do planeta moldou não apenas o relevo vertical, mas a própria alma de um povo.

Entretanto, cruzar o Pacífico para subir o Monte Fuji e percorrer as cristas dos Alpes do Norte não era apenas mais uma etapa do meu currículo de expedições. Era o fechamento de um ciclo íntimo, um reencontro com fantasmas, memórias de infância e laços familiares que o tempo e a morte trataram de dissipar.

O Japão que nasceu no quintal de casa

Com meus primos na infância. Foto Pedro Hauck

Minha fascinação pelo País do Sol Nascente não começou nas leituras de montanhismo ou nos mapas de geografia. Começou na minha infância, através da família. Minha tia Selma, irmã da minha mãe, casou-se com o tio Jorge, um nissei filho de japoneses nascido no Brasil. Ir a São Paulo visitar meus primos — Fábio, Tatiana e Daniel — era muito mais do que celebrar uma amizade de infância: era um mergulho em um universo estético e afetivo fascinante.

Na casa deles, a cultura nipônica era viva e cotidiana. Era o gohan quentinho na mesa, o sushi preparado em família, as tardes inesquecíveis diante dos videogames e a leitura dos primeiros mangás. Estendíamos essa convivência aos primos do meu primo, em especial ao Bruno, primo de primeiro grau do Daniel e de quem nos tornamos inseparáveis. Nas férias, trocávamos fitas de videogame; mais tarde, na adolescência, trocávamos CDs de clássicos do rock. Éramos um bando unido por risadas e descobertas.

A vida, contudo, tem a precisão cirúrgica de alterar rotas sem aviso.

Em 2000, enquanto eu realizava minha primeira grande viagem de carona pela Patagônia, a minha “Odisséia Austral“, recebi a notícia de que o Bruno fora tragicamente atropelado e falecera. Eu estava no fim do mundo, sem celular ou comunicação rápida, e sequer pude me despedir. Foi a primeira vez que a morte me roubou um amigo.

Após essa tragédia, um distanciamento silencioso e sem culpados se instalou entre nós. Não houve briga. Cada um apenas seguiu sua gravidade. Eu me afundei cada vez mais no montanhismo, usando todas as férias da faculdade de Geografia para escalar picos nos Andes. Meu primo Daniel também tomou o caminho das estradas, mas sobre duas rodas, cruzando a América Latina de bicicleta. Poderíamos ter nos reencontrado pela paixão comum pelas viagens, mas ficamos cada um em seu canto, até porque eu acabei indo parar em Curitiba. Anos depois, Daniel buscou o silêncio: comprou um camping em Ubatuba e foi viver seu próprio paraíso particular, longe dos holofotes.

Pouco antes de eu embarcar para o Japão, veio o segundo golpe: soube que o Daniel também havia partido. Uma morte quieta, pacífica, em seu canto à beira-mar. Embarquei para Tóquio carregando a bagagem das expedições, mas também o peso invisível dessa família japonesa da qual a vida me distanciou.

O impacto da chegada: Entre o labirinto urbano e o legado de Uemura

Pousar em Tóquio no raiar do dia foi o batismo inevitável. Logo na alfândega, o paradoxo da imigração personificou-se no Kevin, um nissei de Maringá que nos recebeu e que já vive no Japão há mais tempo do que viveu no Brasil. Em seguida, reuni a equipe de expedição: a Simone, o Luis Cavalieri, parceiro de seis expedições pela Soul Outdoor, retornando às montanhas após uma complexa cirurgia de prótese nos dois fêmures, o Jefão e a Kátia, amigos que conheci numa expedição ao Kilimanjaro e por fim a Glaucia, que esteve com a Soul na Bolívia..

Tóquio nos testou rapidamente. Tentando chegar ao clássico mercado de peixes através do complexo e compartilhado metrô da capital, erramos a composição e fomos parar em Yokohama, 30 quilômetros ao sul. O erro, contudo, é o tempero da exploração. Quando finalmente chegamos às ilhas artificiais da Baía de Tóquio para saborear o primeiro sushi da viagem, de frescor e técnica incomparáveis, o desvio já tinha virado história.

Naomi Uemura navegando na Amazônia.

Essa primeira fase de aclimatação urbana na megalópole uniu o resgate histórico e a inspiração geográfica. O itinerário que havíamos traçado previa essa transição gradual: começamos pelo reduto de Itabashi em Tóquio, partimos para o desafio vulcânico e a instabilidade de verão do Monte Fuji a 3.776 metros de altitude, adentramos a verticalidade e a tradição milenar dos Alpes do Norte em Kamikochi, Karamatsu-dake e Norikura, e encerramos na imersão cultural entre os templos zen de Kyoto e nos templos habitados por cervos de Nara.

Antes de rumarmos para as montanhas, fiz questão de ir até Itabashi, um pacato bairro residencial na zona norte de Tóquio. Ali fica o memorial dedicado a Naomi Uemura, um dos maiores nomes do montanhismo mundial. Como geógrafo, sinto uma conexão quase imediata com Uemura: ele também se formou em Geografia e partiu pelo mundo com quase nada no bolso, tornando-se o primeiro japonês no cume do Everest, além de ter cruzado o Ártico de trenó e descido o Rio Amazonas em uma jangada. Ele desapareceu precocemente aos 43 anos no Denali. Estar ali, diante de seus equipamentos, foi a ignição perfeita para o nosso próprio desafio.

A ascensão ao Monte Fuji: Fogo, rocha e tempestades elétricas

Escalar o Monte Fuji (3.776 m) exige desconstruir a imagem perfeita do cartão-postal. A janela estival imposta pelo governo japonês (julho a setembro) transforma o vulcão em um gigante desprovido de neve, sujeito a calor abafado e tempestades severas.

Percebendo a instabilidade atmosférica, alteramos a tática: abandonamos o pernoite nos abrigos e optamos por um “ataque rápido” de madrugada pela rota Yoshida. Demos os primeiros passos na trilha às 4h13 da manhã.

A subida exige constância. O ar rarefeito e a inclinação íngreme testaram a equipe. Ver o Cavalieri progredir rápido e sem dores no pós-operatório foi uma aula de superação. Ao mesmo tempo, a maturidade do “Jefão”, aos seus 72 anos, revelou-se quando ele soube identificar o limite do corpo e optar por um retorno seguro. Eu, Simone, Kátia e Gláucia seguimos até a borda da cratera e contornamos o cume até atingir o ponto mais alto do Japão sob um céu limpo, acima de um mar de nuvens.

Cratera do Monte Fuji

Banzai! Estávamos no cume do maior símbolo do país do sol nascente.

A descida, contudo, reservava o verdadeiro perigo. Na rota de pedras soltas (acarreo), fomos engolidos por uma nuvem densa e atingidos por uma tempestade elétrica severa. Um raio caiu a poucos metros do nosso grupo, fazendo o chão vibrar e os trovões ecoarem com violência na rocha nua. Descemos sob chuva congelante e terreno escorregadio, chegando exaustos, mas seguros. O Fuji provou que o verão japonês não entrega nada de graça.

O Shugendō e a tradição ancestral do montanhismo japonês

Após a experiência no Fuji, visitei o Omachi Alpine Museum, aos pés dos Alpes do Norte. Como estudioso da geografia e montanhista habituado aos Andes, sempre mantive a convicção de que os Incas haviam sido os grandes precursores da cultura de altitude. No entanto, o acervo de Omachi transformou minha percepção.

Representação das vestimentas usadas pelos Yamabushis. Foto Pedro Hauck – Omachi Alpine Museum

O Japão desenvolveu uma cultura sistemática de escalada a picos elevados séculos antes do ápice da civilização Inca e muito antes do nascimento do alpinismo esportivo europeu. Trata-se do Sangaku Shinkō (veneração das montanhas) e do Shugendō, tradição ascética cujos praticantes, os Yamabushi, viam a montanha não como um obstáculo a ser dominado, mas como um santuário de purificação física e espiritual.

Essa busca espiritual construiu marcas impressionantes ao longo dos séculos. O Monte Fuji, com seus 3.776 metros, teve sua primeira ascensão documentada ainda no ano de 663 d.C., atribuída ao monge En no Gyōja. Pouco depois, em 701 d.C., os ascetas alcançavam o cume do Tateyama a mais de 3 mil metros, e em 717 d.C. o monge Taicho conquistava o Monte Hakusan, consolidando a Tríade Sagrada do país. A audácia técnica desses pioneiros impressiona até hoje: em 1828, o monge Banryū venceu a crista pontiaguda do Yarigatake (3.180 m) e fixou correntes de ferro na rocha para permitir a passagem de futuros peregrinos.

Enquanto a impressionante cultura Inca de altitude foi interrompida pelo colapso espanhol no século XVI, o Japão manteve uma continuidade histórica de 13 séculos. Os abrigos de monges viraram os refúgios modernos; a busca espiritual fundiu-se naturalmente com o alpinismo contemporâneo. No Japão, o montanhismo nunca precisou ser reinventado: ele apenas mudou de linguagem.

Nos Alpes japoneses: De Kamikochi ao Karamatsu-dake

Seguimos para o vale de Kamikochi (1.500 m), o berço do montanhismo moderno no país, explorado no século XIX pelo reverendo inglês Walter Weston. O caminhamento ao longo do Rio Azusa, entre a Lagoa Taisho e a Ponte Kappabashi, revela uma paisagem fascinante: um vale glaciar cercado pelas paredes verticais do maciço de Hotaka. Geologicamente jovem, a própria Lagoa Taisho foi formada há pouco mais de um século, quando a erupção do vulcão Yakedake em 1915 represou o rio.

Na sequência, partimos de Hakuba para a ascensão do Karamatsu-dake (2.696 m). A caminhada começou em passarelas de madeira (boardwalks), mas logo se transformou em uma trilha técnica de pedras soltas e cristas expostas. Cruzamos por centenas de caminhantes locais, recebidos sempre com o cordial “Konnichiwa!”.

Acompanhei o ritmo do Jefão em seu esforço final rumo ao topo. Entubados na nuvem densa, atingimos o totem de madeira do cume. A descida contra o relógio para não perder o último teleférico das 16h15 exigiu gestão de crise, aliviando o peso da mochila do meu amigo e incentivando cada passo até a estação final. Mais uma montanha superada com sucesso e Jefão encontrou-se com a montanha.

A geometria do imperfeito: O Wabi-Sabi e o reencontro com a infância

Deixamos os Alpes em direção a Kyoto, optando por dirigir pelas estradas secundárias. Cruzamos a vila histórica de Narai-juku — posto preservado do século XVII ao longo da antiga rota samurai Nakasendō, e pernoitamos em Nakatsugawa, dormindo sobre o tradicional futon e tatame de palha de arroz. Vivenciamos a pureza do banho termal (onsen) sob uma chuva leve em um rotenburo (banho ao ar livre), praticando o conceito de Hadaka no Tsukiai (comunhão na nudez, sem vaidades ou distinções).

Quando chegamos a Kyoto e caminhei entre os pinheiros de Tenryū-ji e os jardins de musgo do Kinkaku-ji, uma memória esquecida há 35 anos emergiu de forma avassaladora.

Lembrei-me de um sonho recorrente que eu tinha aos 10 anos de idade, na casa onde cresci em Itatiba. No sonho, eu ia ao quintal de manhã cedo. No canto onde meu pai havia despejado areia de construção e cercado com blocos rudimentares de granito da Serra da Jurema, a natureza havia feito seu trabalho: a grama e o musgo cobriam as pedras, arbustos cresciam sem poda e, sobre a estrutura, erguiam-se um torii e uma estátua de Buda. Era uma cena de pura contemplação.

Ao me deparar com a arquitetura dos templos japoneses, entendi que meu inconsciente infantil já buscava a essência do Wabi-Sabi (侘寂): a filosofia estética que celebra a beleza da imperfeição, da impermanência e do desgaste natural do tempo.

  • Wabi: A simplicidade voluntária e a austeridade serena.
  • Sabi: A apreciação das marcas do tempo, da pátina na madeira e do musgo na rocha.
  • Mujo: A aceitação da impermanência intrínseca de todas as coisas.

O retorno de trem-bala e o encerramento do ciclo

Encerrando o circuito por Kyoto, Nara e seus veados sagrados (sika), retornamos a Tóquio a mais de 300 km/h a bordo do lendário Shinkansen (o trem-bala). Na capital, visitei a Torre de Tóquio, erguida nos anos 1950 com ferro reciclado de tanques da Segunda Guerra Mundial, um símbolo de um povo que se reergueu das cinzas atômicas para se tornar uma referência mundial.

Ao olhar a silhueta das montanhas japonesas se afastando pela janela do trem, percebi que essa viagem cumpriu um papel muito maior do que atingir cumes vulcânicos.

A vida de montanhista muitas vezes nos empurra para a solitude das grandes altitudes. Buscamos nos Andes, no Himalaia ou nos Alpes uma resposta para o caos do mundo cá embaixo. Mas a cultura japonesa me ensinou que a montanha e a memória não são lugares de fuga; são lugares de permanência.

Não pude me despedir do Bruno na Patagônia em 2000. Não pude me despedir do Daniel em Ubatuba antes de voar para o Oriente. Mas caminhando sob a névoa do Monte Fuji, ouvindo o som da chuva nas pedras dos onsens e contemplando a quietude dos templos de Kyoto, eu finalmente me reconectei com eles. A minha família japonesa, da qual me distanciei fisicamente, esteve presente em cada passo desta jornada.

O Wabi-Sabi nos ensina que as coisas incompletas, rachadas e imperfeitas possuem sua própria e profunda beleza. A nossa história familiar não precisava de um final perfeito de cartão-postal; ela precisava apenas ser aceita na sua impermanência. Entre o fogo dos vulcões e a paz dos jardins de pedra, fiz a minha oração e fechei o meu ciclo. O Japão não foi apenas um destino de expedição; foi o lugar onde recuperei a minha própria memória.

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Sobre o autor

Natural de Itatiba-SP e residente em Curitiba-PR desde 2007, Pedro Hauck é uma figura proeminente no montanhismo brasileiro. Sua formação inclui graduação em Geografia pela Unesp Rio Claro e mestrado em Geografia Física pela UFPR. Com uma carreira de mais de 27 anos, ele é guia de montanha profissional e instrutor de escalada credenciado pela ABGM, a única associação de guias de escalada profissional do Brasil. Seu currículo inclui a ascensão de mais de 180 montanhas acima de 4 mil metros, com mais da metade ultrapassando os 6 mil metros, além de um pico de 8 mil metros no Himalaia e dois de 7 mil. Pedro Hauck também atua como empresário do setor outdoor, sendo sócio da Loja AltaMontanha, uma das mais conceituadas lojas de montanhismo do país, da Via AltaMontanha, um dos maiores ginásios de escalada de Curitiba, e da Soul Outdoor, agência especializada em ascensão, trekking e cursos de montanhismo. Acompanhe Pedro Hauck no Instagram: @pehauck.

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