Escalando o Monte Fuji: A Realidade por Trás do Cartão-Postal do Japão

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O Monte Fuji, com seus 3.776 metros de altitude, reina soberano na paisagem e no imaginário coletivo do Japão. Visto à distância, a partir da baía de Tóquio ou do Shinkansen em velocidade de cruzeiro, o seu cone quase perfeito e frequentemente encimado por uma simétrica camada de neve transmite uma noção quase divina de paz e harmonia. Não à toa, os japoneses o veneram há milênios como a montanha sagrada, o epicentro espiritual do arquipélago, cultuado no Shintoísmo como a morada da deusa Konohanasakuya-hime. Contudo, para quem encara o gigante vulcânico de perto com a responsabilidade de liderar uma expedição, a montanha despoja-se de qualquer aura poética de cartão-postal. O que se encontra em suas vertentes é uma caminhada árdua, altamente burocrática, exposta às instabilidades atmosféricas do verão asiático e moldada por uma complexa e impressionante história geológica.

O Monte Fuji, montanha mais alta do Japão.

Basalto com estrutura Pahoehoe, também chamada de lava em corda. Foto do Museu do Monte Fuji. Arquivo Pedro Hauck

Sob a perspectiva da geologia e da geomorfologia, o Fuji não é um evento isolado, mas sim o produto de um dinamismo tectônico dos mais violentos do planeta. A ilha de Honshu situa-se na confluência de quatro grandes placas tectônicas — a do Pacífico, a Filipina, a Euroasiática e a da América do Norte. A subducção contínua da Placa do Pacífico sob a Placa Filipina e a Eurasiática força a fusão parcial do manto, alimentando um arco magmático hiperativo. O Fuji que observamos hoje é, na verdade, um estratovulcão complexo construído em camadas sobre as ruínas de estruturas vulcânicas mais antigas.

Ele se sobrepõe ao “Sen-Komitake” e ao “Komitake”, que começaram a expelir lava há centenas de milhares de anos. A estrutura atual, chamada de “Shin-Fuji” ou Novo Fuji, formou-se em grande parte nos últimos dez mil anos através de sucessivas erupções basálticas e andesíticas que alternaram fluxos de lava viscosa, piroclastos e cinzas. Essa composição predominantemente basáltica é atípica para estratovulcões de zonas de subducção, confere à rocha uma coloração escura e porousíssima e explica a simetria de suas encostas. Embora sua última erupção histórica tenha ocorrido em 1707 — a famosa Erupção Hoei, desencadeada semanas após um terremoto devastador de magnitude 8.6 —, o Fuji é classificado pelos vulcanólogos como um vulcão ativo com baixo risco imediato, mas de monitoramento crítico constante.

Preparativos

Liderando a expedição brasileira Montanhas do Japão, cheguei ao país apreensivo com as restrições impostas pelas autoridades locais. O governo japonês estabelece uma janela estritamente regulamentada para a ascensão ao Fuji, que se limita aos meses de verão, de 1º de julho a 10 de setembro. Sob a ótica do montanhismo técnico, essa imposição estatal de calendário é um equívoco conceitual. O verão no Japão não é sinônimo de tempo bom; pelo contrário, é a época da estação chuvosa (Tsuyu) e do início da temporada de tufões trazidos pelas massas de ar quente e úmido vinda do Oceano Pacífico.

A montanha perde completamente sua vestimenta de neve e reduz-se a uma monumental pilha de escória e basalto escuro. Como montanhista, prefiro mil vezes a estabilidade atmosférica e o apelo visual do frio seco do outono ou a cobertura de neve compacta da primavera. Para agravar o cenário, a previsão meteorológica para os nossos dias de escalada apontava chuva ininterrupta e tempestades severas, acendendo o alerta para a possível formação ou aproximação de um sistema ciclônico tropical.

Nascer do Sol desde a quinta estação do Monte Fuji. Foto Pedro Hauck

Diante do risco iminente, a liderança na montanha exige flexibilidade tática. Percebendo que o padrão climático oferecia brechas curtas de estabilidade durante as madrugadas e o início das manhãs, optamos por descartar a ideia original de pernoitar em um dos abrigos de altitude — onde ficaríamos vulneráveis às tempestades convectivas violentas que se formam nas tardes de verão — e adotamos uma estratégia de ataque rápido (alpine style adaptado) partindo diretamente da base na cidade de Gotemba.

A ascensão

O alarme tocou à 1h da manhã. Deslocamo-nos de carro até a sede do parque e, às 3h, tomamos um táxi rumo à 5ª Estação da Rota Yoshida, situada a 2.300 metros de altitude. Às 4h13 da manhã, devidamente registrados e após o pagamento da taxa de conservação ambiental recém-implementada para conter o excesso de frequentadores, iniciamos nossa caminhada no escuro.

Primeiros raios de sol durante o verão japones na rota Yoshida do Fuji. Foto Pedro Hauck

Totem que marca o cume do Monte Fuji. Relógio bateu a altitude correta!

A Rota Yoshida é a via mais tradicional e hiperestruturada do Monte Fuji. O terreno desenvolve-se em ziguezagues intermináveis sobre a rocha vulcânica, contando com postos de apoio, venda de suprimentos e banheiros a cada ganho vertical relevante. Essa infraestrutura, contudo, cria a falsa ilusão de que a ascensão é um passeio trivial. A inclinação é forte, o terreno de piroclastos soltos drena a energia a cada pisada e a rarefação do ar começa a se fazer sentir acima dos três mil metros.

Gerenciar um grupo heterogêneo nesse ambiente exige leitura individual constante. Luis Cavalieri, veterano de seis expedições ao meu lado, passara por uma cirurgia complexa de artroplastia total de quadril, com colocação de prótese na cabeça dos dois fêmures. Surpreendendo a todos, ele assumiu a vanguarda do grupo com uma cadência impecável, subindo sem queixas de dor e demonstrando excelente condicionamento cardiorrespiratório.

Já o “Jefão”, companheiro experiente de expedições no Kilimanjaro e no Campo Base do Everest, com mais de 70 anos de idade, sentiu a combinação da inclinação acentuada com a altitude. Demonstrando a maturidade que diferencia os verdadeiros montanhistas, tomou a decisão consciente de interromper a subida e retornar com segurança. Na retaguarda, a Simone, de 65 anos, encarava a primeira montanha da sua vida. Acompanhada por sua esposa e pelas companheiras Kátia e Gláucia, Simone cadenciou o passo, manteve a determinação psicológica e foi vencendo metro a metro da vertente norte do vulcão.

 

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Tori que marca a chegada na borda da cratera do Monte Fuji.

Atingir o portal de madeira (Torii) que marca a borda da cratera a 3.700 metros de altitude é um momento de alívio, mas o cume geográfico não fica ali. O ápice verdadeiro do Fuji, chamado Ken-ga-mine, onde se localiza o antigo observatório meteorológico, exige contornar a cratera principal (Ohachi-meguri) por mais uma hora em um terreno exposto a rajadas de vento e variações abruptas de relevo.

O esforço da madrugada compensou de forma espetacular quando atingimos o topo. Ficamos totalmente acima do mar de nuvens (Unkai), contemplando uma camada alva e densa que cobria todo o arquipélago abaixo de nós sob um céu azul profundo. O brado de Banzai! ecoou no ponto mais alto do Japão, coroando o esforço do grupo no topo de uma das montanhas mais emblemáticas da Terra.

Arco Íris formado durante a chuva na descida

Se a subida exige resistência física, a descida da Rota Yoshida impõe um desgaste mecânico severo e riscos ambientais elevados. O caminho de regresso é feito por uma vertente dedicada, coberta por uma espessa camada de scree — os detritos vulcânicos soltos que chamamos de acarreo nos Andes. Descer deslizando por essa brita vulcânica exige técnica de calcanhar e joelhos saudáveis. Quando a musculatura está descansada, o progresso é rápido; contudo, com a fadiga acumulada, prender o peso do corpo a cada passada torna-se um martírio físico.

Foi justamente nessa etapa que o verão japonês mostrou sua face mais perigosa. Fomos subitamente engolidos por uma massa de nuvens carregadas e a montanha foi palco de uma tempestade elétrica de extrema intensidade. O som seco dos trovões reverberava na encosta desprovida de vegetação ou abrigo. Em um momento crítico, um raio atingiu o solo a pouca distância da nossa posição na trilha, propagando uma onda de choque que nos obrigou a acelerar o ritmo sob uma chuva torrencial e gelada. Veste-se o anorak às pressas, ajusta-se a atenção ao terreno que se transforma rapidamente em um lamaçal escorregadio e foca-se na sobrevivência tática até a perda de altitude.

Cratera do Monte Fuji

Missão cumprida

Alcançamos a base no final da tarde, encharcados, exaustos, mas ilesos e com a missão cumprida. A experiência no Monte Fuji reforça uma análise crítica que nós, guias profissionais, devemos fazer sobre o turismo de montanha no Japão. A rigidez do governo em confinar as ascensões aos meses mais quentes cria uma falsa sensação de segurança para milhares de leigos que sobram na trilha sem equipamentos adequados, expostos à hipotermia e aos raios. Enfrentar variações térmicas que vão de quase 30 graus na base até o frio congelante na crista somado a tempestades elétricas exige vestuário técnico e conhecimento de montanha.

Não é a presença de neve que torna uma montanha perigosa, mas sim a instabilidade atmosférica associada à falta de preparação. O Fuji não é tecnicamente complexo, mas é uma montanha física e impiedosa com a negligência. Esta foi apenas a primeira etapa de nossa expedição. O gigante vulcânico foi superado, e o nosso foco agora se volta para as cristas graníticas e os picos mais selvagens dos Alpes Japoneses.

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Sobre o autor

Natural de Itatiba-SP e residente em Curitiba-PR desde 2007, Pedro Hauck é uma figura proeminente no montanhismo brasileiro. Sua formação inclui graduação em Geografia pela Unesp Rio Claro e mestrado em Geografia Física pela UFPR. Com uma carreira de mais de 27 anos, ele é guia de montanha profissional e instrutor de escalada credenciado pela ABGM, a única associação de guias de escalada profissional do Brasil. Seu currículo inclui a ascensão de mais de 180 montanhas acima de 4 mil metros, com mais da metade ultrapassando os 6 mil metros, além de um pico de 8 mil metros no Himalaia e dois de 7 mil. Pedro Hauck também atua como empresário do setor outdoor, sendo sócio da Loja AltaMontanha, uma das mais conceituadas lojas de montanhismo do país, da Via AltaMontanha, um dos maiores ginásios de escalada de Curitiba, e da Soul Outdoor, agência especializada em ascensão, trekking e cursos de montanhismo. Acompanhe Pedro Hauck no Instagram: @pehauck.

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