Escalando o Monte Fuji: A Realidade por Trás do Cartão-Postal do Japão

4

O Monte Fuji, com seus 3.776 metros de altitude, reina soberano na paisagem e no imaginário coletivo do Japão. Visto à distância, a partir da baía de Tóquio ou do Shinkansen em velocidade de cruzeiro, o seu cone quase perfeito e frequentemente encimado por uma simétrica camada de neve transmite uma noção quase divina de paz e harmonia. Não à toa, os japoneses o veneram há milênios como a montanha sagrada, o epicentro espiritual do arquipélago, cultuado no Shintoísmo como a morada da deusa Konohanasakuya-hime. Contudo, para quem encara o gigante vulcânico de perto com a responsabilidade de liderar uma expedição, a montanha despoja-se de qualquer aura poética de cartão-postal. O que se encontra em suas vertentes é uma caminhada árdua, altamente burocrática, exposta às instabilidades atmosféricas do verão asiático e moldada por uma complexa e impressionante história geológica.

O Monte Fuji, montanha mais alta do Japão.

Basalto com estrutura Pahoehoe, também chamada de lava em corda. Foto do Museu do Monte Fuji. Arquivo Pedro Hauck

Sob a perspectiva da geologia e da geomorfologia, o Fuji é um estratovulcão construído por sucessivas erupções sobre estruturas vulcânicas mais antigas. Segundo a Agência Meteorológica do Japão (JMA), ele se sobrepõe aos vulcões Komitake e Ko-Fuji. A paisagem aparentemente regular esconde uma longa história de construção, erosão e colapsos do edifício vulcânico.

Suas rochas são predominantemente basálticas, mas a erupção Hoei, de 1707, também expeliu materiais andesíticos e dacíticos. Andesito também ocorre fora da cordilheira dos Andes, como mostra o próprio Fuji. O Fuji continua sendo um vulcão ativo, monitorado pela JMA. A ausência de erupções recentes não dispensa a consulta aos avisos de atividade vulcânica antes de uma visita.

Preparativos

Liderando a expedição brasileira Montanhas do Japão, cheguei ao país apreensivo com as restrições impostas pelas autoridades locais. A temporada oficial de ascensão concentra-se no verão, mas as datas precisam ser conferidas para cada rota e ano. Na Yoshida, utilizada por nós, a janela anunciada para 2026 foi de 1º de julho a 10 de setembro. Sob a ótica do montanhismo, questiono a ideia de associar um calendário de verão a tempo necessariamente favorável: nessa época também ocorrem chuva, tempestades e influência de tufões. A abertura das trilhas, portanto, não garante condições meteorológicas adequadas para subir.

No verão, a redução da cobertura de neve deixa mais exposta a escória e o basalto escuro. Como montanhista, prefiro o apelo visual do outono ou da montanha coberta de neve na primavera. Essa preferência pessoal, porém, não significa que subir fora da temporada seja mais seguro: neve, gelo, ventos fortes e fechamento dos serviços mudam profundamente as condições de uma ascensão. Para agravar o cenário da nossa viagem, a previsão meteorológica apontava chuva ininterrupta e tempestades severas, acendendo o alerta para a possível formação ou aproximação de um sistema ciclônico tropical.

Nascer do Sol desde a quinta estação do Monte Fuji. Foto Pedro Hauck

Diante desse cenário, reavaliamos o plano. Percebendo brechas curtas de estabilidade durante as madrugadas e o início das manhãs, optamos por descartar a ideia original de pernoitar em um dos abrigos de altitude e realizamos a subida e a descida no mesmo dia, partindo de nossa base na cidade de Gotemba. Foi uma decisão tomada naquele contexto, com um grupo acompanhado por guia, e não um modelo a ser reproduzido indiscriminadamente. As orientações oficiais de segurança alertam para os riscos de subir sem descanso suficiente e de tentar alcançar o cume rapidamente.

A ascensão

O alarme tocou à 1h da manhã. Deslocamo-nos de carro até a sede do parque e, às 3h, tomamos um táxi rumo à 5ª Estação da Rota Yoshida, situada a cerca de 2.300 metros de altitude. Às 4h13 da manhã, devidamente registrados e após o pagamento da taxa de acesso, iniciamos nossa caminhada no escuro.

Primeiros raios de sol durante o verão japonês na rota Yoshida do Fuji. Foto Pedro Hauck

Totem que marca o cume do Monte Fuji. Relógio bateu a altitude correta!

A Rota Yoshida é a via mais tradicional do Monte Fuji e conta com abrigos e serviços durante a temporada. O terreno desenvolve-se em ziguezagues sobre a rocha vulcânica. Essa infraestrutura, contudo, pode criar a falsa ilusão de que a ascensão é um passeio trivial. A inclinação é forte, o terreno de piroclastos soltos drena a energia a cada pisada e o esforço aumenta com a altitude. A resposta à rarefação do ar varia entre as pessoas; não há um marco de três mil metros que separe automaticamente quem pode ou não sentir seus efeitos.

Gerenciar um grupo heterogêneo nesse ambiente exige leitura individual constante. Luis Cavalieri, veterano de seis expedições ao meu lado, passara por uma cirurgia complexa de artroplastia total de quadril, com colocação de prótese na cabeça dos dois fêmures. Surpreendendo a todos, ele assumiu a vanguarda do grupo com uma cadência impecável, subindo sem queixas de dor e demonstrando excelente condicionamento cardiorrespiratório.

Já o “Jefão”, companheiro experiente de expedições no Kilimanjaro e no Campo Base do Everest, com mais de 70 anos de idade, sentiu a combinação da inclinação acentuada com a altitude. Demonstrando a maturidade que diferencia os verdadeiros montanhistas, tomou a decisão consciente de interromper a subida e retornar com segurança. Na retaguarda, a Simone, de 65 anos, encarava a primeira montanha da sua vida. Acompanhada por sua esposa e pelas companheiras Kátia e Gláucia, Simone cadenciou o passo, manteve a determinação psicológica e foi vencendo metro a metro da vertente norte do vulcão.

 

Ver essa foto no Instagram

 

Um post compartilhado por Pedro Hauck (@pehauck)

Torii que marca a chegada na borda da cratera do Monte Fuji.

Atingir o portal de madeira (torii) que marca a chegada à borda da cratera é um momento de alívio, mas o ponto mais alto não fica ali. O ápice do Fuji é o Kengamine, com 3.776 metros, junto ao antigo observatório meteorológico. A partir da chegada da Yoshida, alcançá-lo exige uma caminhada adicional pela borda. Isso não deve ser confundido com completar toda a volta da cratera, o Ohachimeguri. O tempo necessário depende do trajeto, do ritmo e das condições; é preciso reservar energia e tempo para a descida, sem insistir na travessia com vento forte, tempestade ou baixa visibilidade.

O esforço da madrugada compensou de forma espetacular quando atingimos o topo. Ficamos totalmente acima do mar de nuvens (Unkai), contemplando uma camada alva e densa que cobria a paisagem abaixo de nós sob um céu azul profundo. O brado de Banzai! ecoou no ponto mais alto do Japão, coroando o esforço do grupo no topo de uma das montanhas mais emblemáticas da Terra.

Arco-íris formado durante a chuva na descida

Se a subida exige resistência física, a descida da Rota Yoshida impõe um desgaste mecânico severo. O caminho de regresso inclui trechos dedicados à descida, cobertos por uma espessa camada de scree — os detritos vulcânicos soltos que chamamos de acarreo nos Andes. Esse piso exige atenção e controle dos passos. Com a fadiga acumulada, frear o peso do corpo a cada passada tornou-se um martírio físico. A sinalização da rota também merece cuidado para não seguir uma descida que termine em outra 5ª Estação.

Foi justamente nessa etapa que o verão japonês mostrou sua face mais perigosa. Fomos subitamente engolidos por uma massa de nuvens carregadas e a montanha foi palco de uma tempestade elétrica de extrema intensidade. O som seco dos trovões reverberava na encosta desprovida de vegetação ou abrigo. Em um momento crítico, um raio atingiu o solo a pouca distância da nossa posição na trilha, propagando uma onda de choque que nos obrigou a acelerar o ritmo sob uma chuva torrencial e gelada. Veste-se o anorak às pressas, ajusta-se a atenção ao terreno que se transforma rapidamente em um lamaçal escorregadio e foca-se na sobrevivência tática até a perda de altitude.

Cratera do Monte Fuji

Missão cumprida

Alcançamos a base no final da tarde, encharcados, exaustos, mas ilesos e com a missão cumprida. A experiência no Monte Fuji reforça uma análise crítica que nós, guias profissionais, devemos fazer sobre o turismo de montanha no Japão. Na minha avaliação, estar dentro da temporada oficial pode transmitir uma falsa sensação de segurança a quem chega sem preparação. Há grandes diferenças de temperatura entre a base e o cume, além da possibilidade de frio intenso, chuva e tempestades elétricas. Enfrentar essas condições exige vestuário adequado, conhecimento de montanha e disposição para mudar os planos.

Neve, gelo, altitude, terreno e instabilidade atmosférica podem tornar uma montanha perigosa, especialmente quando faltam preparação e boas decisões. Na rota de verão que percorremos, o Fuji não exigiu técnicas de escalada, mas cobrou esforço físico e respeito às condições. Esta foi apenas a primeira etapa de nossa expedição. O gigante vulcânico foi superado, e o nosso foco agora se volta para as cristas graníticas e os picos mais selvagens dos Alpes Japoneses.

Planejamento e equipamentos para o Monte Fuji

Atualização editorial em 4 de outubro de 2026. As sugestões abaixo complementam o relato e não correspondem a um teste dos produtos realizado pelo autor durante a expedição.

A temporada de 2026 já terminou, e o portal oficial do Monte Fuji informa o fechamento das trilhas superiores e da volta da cratera. Para uma próxima viagem, consulte as datas e regras do ano correspondente antes de reservar transporte e hospedagem.

Em 2026, Yoshida e Subashiri tiveram abertura anunciada para 1º de julho; Fujinomiya e Gotemba, para 10 de julho, todas com término previsto em 10 de setembro e possibilidade de ajustes por condições locais. As regras da Yoshida incluíam taxa de 4.000 ienes por pessoa por ascensão, restrição de entrada das 14h às 3h para quem não estivesse hospedado em abrigo e limite diário de 4.000 pessoas, com exceções para hóspedes dos abrigos. Nas rotas de Shizuoka, o cadastro e a preparação prévia eram feitos pelo FUJI NAVI. Reserva de acesso e reserva de abrigo são procedimentos diferentes.

O checklist oficial de equipamentos inclui roupa de frio, conjunto impermeável com jaqueta e calça, calçado de caminhada, lanterna com energia de reserva, água, alimentos e proteção solar. Uma jaqueta impermeável sozinha não completa o conjunto de chuva. Na Loja AltaMontanha, algumas opções para compor essa preparação são:

  • Camada externa: a jaqueta Columbia Watertight II masculina Black tem membrana Omni-Tech e costuras seladas. É uma opção de proteção contra chuva para o tronco; combine-a com calça impermeável e camadas compatíveis com a previsão.
  • Aquecimento: o fleece Columbia Fast Trek III Half Zip masculino Black pode compor a camada intermediária sob o anorak. A quantidade de isolamento necessária depende do frio, do vento, das pausas e da pessoa.
  • Iluminação: a lanterna de cabeça Petzl Tikkina 300 lumens deixa as mãos livres na caminhada. Teste-a antes de sair e leve pilhas ou bateria de reserva; a autonomia varia com o modo de iluminação.
  • Apoio na caminhada: o bastão Naturehike Trail Lite tem comprimento ajustável e é vendido por unidade. Familiarize-se com seu uso antes da viagem, confira as travas e respeite a orientação local de usar proteção na ponteira.

Confira tamanho e ajuste das roupas antes de viajar. Dimensione água e alimentação para o percurso completo, incluindo a descida, e confirme quais abrigos estarão funcionando. Os produtos indicados ajudam a compor o equipamento, mas não tornam segura uma ascensão sob tempestade nem protegem contra raios. Reveja a previsão e os avisos de atividade vulcânica; se as condições forem desfavoráveis, adie a saída ou interrompa a subida.

Reserve tempo para descanso e adaptação à altitude, caminhe em ritmo compatível com o grupo e não trate o cume como uma obrigação. Consulte também as orientações oficiais sobre saúde e altitude: piora do estado físico exige reavaliar a ascensão e buscar ajuda, sem insistir em ganhar altitude.

Compartilhar

Sobre o autor

Natural de Itatiba-SP e residente em Curitiba-PR desde 2007, Pedro Hauck é uma figura proeminente no montanhismo brasileiro. Sua formação inclui graduação em Geografia pela Unesp Rio Claro e mestrado em Geografia Física pela UFPR. Com uma carreira de mais de 27 anos, ele é guia de montanha profissional e instrutor de escalada credenciado pela ABGM, a única associação de guias de escalada profissional do Brasil. Seu currículo inclui a ascensão de mais de 180 montanhas acima de 4 mil metros, com mais da metade ultrapassando os 6 mil metros, além de um pico de 8 mil metros no Himalaia e dois de 7 mil. Pedro Hauck também atua como empresário do setor outdoor, sendo sócio da Loja AltaMontanha, uma das mais conceituadas lojas de montanhismo do país, da Via AltaMontanha, um dos maiores ginásios de escalada de Curitiba, e da Soul Outdoor, agência especializada em ascensão, trekking e cursos de montanhismo. Acompanhe Pedro Hauck no Instagram: @pehauck.

4 Comentários

  1. Escalei o Fuji san em 2008 e foi tudo tranquilo. Melhor passeio da minha vida , inesquecível.Li a matéria,e não me dei conta de que corri riscos,afinal fui a passeio e nunca havia escalado nada.

  2. Nada como ter uma descrição técnica de quem entende de escalação de alta performance!!! Obrigada Pedro Halck e equipe!!!!

  3. Alberto Ortenblad em

    Banzai! Que belo relato, Pedro. Uma vez quase fui atingido por um raio, mas em baixa ou moderada altitude – mal imagino o perrengue que passaram. Parabens pela façanha e pelo relato. Mas fiquei curioso como possa haver andesito no Mointe Fuji, pensei que fosse exclusivamente andino. Boa sorte nos Alpes Japoneses!