Naomi Uemura, o grande aventureiro japonês

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Estou em Tóquio, no Japão, iniciando os primeiros dias de uma viagem de aventura para escalar o Monte Fuji e outros vulcões pelo arquipélago japonês. Aproveitando o tempo livre nesta imensa capital, peguei o metrô até o bairro de Itabashi, local onde viveu o lendário aventureiro Naomi Uemura. Hoje, a comunidade local conta com um pequeno museu em sua memória, situado em um centro esportivo que leva o seu nome.

Naomi Uemura

Uemura mudou-se para Itabashi aos 28 anos e mantinha ali um apartamento simples, que servia de base fixa entre suas constantes e longas viagens. Naquela morada, ele contava apenas com um saco de dormir para passar as noites e muitos equipamentos de montanha— uma rotina despojada que me lembra bastante a minha própria vida antes de morar com a Maria. Mas, agora, vamos conhecer um pouco mais sobre a trajetória desse célebre japonês.

Naomi Uemura (1941–1984) foi um dos maiores nomes da era de ouro do montanhismo e da exploração solo mundial. Conhecido por sua incrível resistência física, humildade e por preferir a solidão das grandes jornadas em uma época dominada por pesadas expedições comerciais, ele redefiniu os limites do que um ser humano é capaz de realizar sozinho.

O Início: O Geógrafo que Descobriu a Montanha

Nascido em Hidaka (hoje parte de Toyooka), na província de Hyogo, Uemura era o caçula de uma família de agricultores. Sua entrada no montanhismo aconteceu quase por acaso: ao ingressar na Universidade Meiji, em Tóquio, para estudar Geografia, ele se sentia tímido e complexado por sua baixa estatura. Para ganhar autoconfiança e fazer amigos, juntou-se ao clube de alpinismo da universidade.

O que começou como um hobby logo se tornou uma obsessão. Após se formar, ele pegou todas as suas economias (cerca de 110 dólares na época) e embarcou em um navio para os Estados Unidos, decidido a escalar pelo mundo. Trabalhou em fazendas na Califórnia e como patrulheiro de esqui em Chamonix, na França, para financiar suas primeiras grandes escaladas nos Alpes.

Os Anos de Ouro e os Recordes Mundiais

Uemura ficou mundialmente famoso por sua velocidade, estilo minimalista e autonomia. Entre o final dos anos 1960 e a década de 1970, ele empilhou conquistas impressionantes:

  • Huandoy (Pico Oeste – 6.356 m): Em 1967, Uemura realizou a primeira ascensão absoluta da face sul do Huandoy Oeste. Essa escalada é considerada um feito extraordinário na história do montanhismo andino devido à extrema verticalidade, ao terreno misto de rocha podre e gelo e ao enorme perigo de avalanches e desmoronamentos. Foi uma subida altamente técnica que exigiu o máximo de sua habilidade em escalada artificial e de proteção.
  • O Primeiro Grand Slam (Os Cinco Cumes): Ele foi a primeira pessoa no mundo a escalar o pico mais alto de cinco continentes (na época, a lista que ele seguiu incluía o Mont Blanc na Europa, Kilimanjaro na África, Aconcágua na América do Sul, Everest na Ásia e o Denali na América do Norte). Na época não havia o conceito do Dick Bass de incluir a Oceania e a Antártida. 
  • O Everest (1970): Ele integrou a primeira expedição japonesa a atingir o topo do Everest. Apenas três meses depois dessa conquista, ele escalou o Denali (Alasca) sozinho, fechando seu circuito dos cinco cumes.
  • Estilo Solo: Embora tenha participado de grandes expedições (como a histórica e trágica Expedição Internacional ao Everest em 1971), Uemura descobriu que sua verdadeira força estava em operar sozinho, dependendo exclusivamente de suas próprias decisões e instintos.

Uemura no Everest

Aventura na Amazônia

Naomi Uemura navegando na Amazônia.

Antes de se tornar uma lenda do montanhismo e do exploracionismo polar, Naomi Uemura também buscou o desconhecido em águas tropicais. Em 1971, movido por seu espírito inquieto, ele realizou uma audaciosa descida solitária do Rio Amazonas em uma jangada, percorrendo cerca de 6.000 quilômetros desde a nascente nos Andes peruanos até a foz no Atlântico. Essa expedição, que durou vários meses, foi um marco importante em sua trajetória, servindo como um teste extremo de resistência e autonomia antes de seus feitos históricos no Ártico e nas montanhas mais altas do mundo.

A Transição para o Ártico

Após dominar as montanhas, Uemura voltou seus olhos para as regiões polares, onde a logística e a navegação eram os maiores desafios. Para se preparar, ele viveu por quase um ano com os Inuits na Groenlândia, aprendendo a guiar trenós de cães, caçar para sobreviver e construir iglus.

  • A Travessia do Ártico (1974–1976): Ele realizou uma jornada solo de trenó de cães cobrindo 12.000 quilômetros da Groenlândia até o Alasca, uma das maiores demonstrações de resistência da história da exploração.
  • Polo Norte Solo (1978): Uemura tornou-se a primeira pessoa a atingir o Polo Norte em uma expedição solo de trenó de cães. Ele recebia suprimentos via aérea, mas enfrentou ataques de ursos polares e o gelo se partindo sob suas tendas. No mesmo ano, cruzou a Groenlândia de norte a sul, também sozinho.

O Último Desafio: Denali, Winter Solo (1984)

Em fevereiro de 1984, aos 43 anos, Uemura buscou o que seria uma de suas maiores façanhas: a primeira subida solo invernal do Denali (6.190 m), no Alasca — uma montanha conhecida por seu frio extremo e ventos brutais de inverno.

Ele atingiu o cume com sucesso em 12 de fevereiro de 1984. No dia seguinte, durante a descida, ele fez o último contato via rádio. Uma terrível tempestade atingiu a montanha logo em seguida. Equipes de resgate encontraram alguns de seus equipamentos e diários deixados em cavernas de neve pelo caminho, mas o corpo de Uemura nunca foi localizado. Ele permanece na montanha que tanto amava.

“O que me move não é o desejo de competir com os outros ou quebrar recordes. É o desejo de testar meus próprios limites e ver o que está além do horizonte.” — Naomi Uemura

Postumamente, ele recebeu o Prêmio de Honra do Povo do Japão, e sua abordagem limpa, autossuficiente e respeitosa em relação às populações nativas e ao meio ambiente continua sendo uma das maiores inspirações para montanhistas e exploradores de todas as gerações.

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Sobre o autor

Natural de Itatiba-SP e residente em Curitiba-PR desde 2007, Pedro Hauck é uma figura proeminente no montanhismo brasileiro. Sua formação inclui graduação em Geografia pela Unesp Rio Claro e mestrado em Geografia Física pela UFPR. Com uma carreira de mais de 27 anos, ele é guia de montanha profissional e instrutor de escalada credenciado pela ABGM, a única associação de guias de escalada profissional do Brasil. Seu currículo inclui a ascensão de mais de 180 montanhas acima de 4 mil metros, com mais da metade ultrapassando os 6 mil metros, além de um pico de 8 mil metros no Himalaia e dois de 7 mil. Pedro Hauck também atua como empresário do setor outdoor, sendo sócio da Loja AltaMontanha, uma das mais conceituadas lojas de montanhismo do país, da Via AltaMontanha, um dos maiores ginásios de escalada de Curitiba, e da Soul Outdoor, agência especializada em ascensão, trekking e cursos de montanhismo. Acompanhe Pedro Hauck no Instagram: @pehauck.

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