Nossas Serras (6/25): A Canastra

0

Como comento a seguir, a região da Canastra é estranhamente pouco conhecida. Mas é deslumbrante, tem uma natureza panorâmica, de horizontes infinitos, imensos céus parados, amenos campos de gramíneas, águas frias e rápidas e longas cristas planas, num mundo envolvido por um eterno silêncio.

Dizem os geólogos que a Serra da Canastra foi criada em tempos imemoriais por um empurrão horizontal da crosta. Isto acarretou uma falha de cavalgamento, quando rochas mais antigas foram dobradas sobre rochas mais jovens.

O material soerguido foi sujeito ao longo de eras a esforços erosivos, inclusive de mares revoltos, com deposições de filitos (um tipo de xisto) intercalados com os quartzitos. Estes últimos compõem a rocha básica da Canastra.

Mapa de Localização da Serra da Canastra (Fonte: 4x4brasil.com.br)

Estes eventos criaram uma geografia enorme no sudoeste mineiro. Quem atravessa o Rio Grande vindo de São Paulo encontra uma série de serras longas e paralelas, correndo num sentido vagamente E-W (transversal ao empurrão original). Elas criam três dobras sucessivas, afastando-se do rio, cada qual um pouco mais alta do que a anterior.

Serra Preta, Delfinópolis, Canastra MG

A primeira ondulação é formada pelos 40 km das Serras Preta e Grande, alinhadas entre si e separadas pelo nervoso Ribeirão das Bateias. Neste sistema, frontal a quem cruza o Rio Grande, a linha do relevo é bem mais acidentada do que as demais, as altitudes máximas atingem 1.300m, a vegetação é predominantemente de cerrado e a rocha é o arenito.

A segunda, com extensão semelhante, inclui o alinhamento das Serras do Cemitério, Sete Voltas e Guarita. A rocha é quartzítica, a vegetação é de campo e os pontos mais altos estão a 1.400m. As últimas duas serras convergem à frente do Chapadão da Babilônia, uma grande chapada que limita um vale encaixado e retilíneo. Repleta de belezas naturais, o Chapadão limita-se entre os vales dos Rios Grande e São Francisco, a partir do qual dilui-se em colinas esparsas.

Os Enrugamentos da Região da Canastra (Fonte: aventureirodoar.blogspot.com.br)

O terceiro sistema é o maior deles, formado pelos 150 km de campos rupestres e reflorestamentos que correm da Canastra aos Chapadões próximos. Contém um parque nacional, as nascentes do São Francisco, sua impressionante queda na Casca D’Anta e o ponto culminante da região a 1.500m na Serra Brava.

Vista Aérea da Serra da Canastra (Fonte: turismo.culturamix.com)

Mas existe uma formação correndo por 10 km no sentido norte-sul, que por assim dizer fecha o Chapadão da Babilônia: é a Serra de Santa Maria. Sua orientação e seu perfil acidentado contrastam com as cristas planas das serras paralelas. Como vocês podem perceber, toda esta geografia permite longas travessias de cristas, com fácil orientação e muitas vistas cênicas, embaixo de um céu que a altura torna imenso.

Mapa Ilustrativo do PN Serrada Canastra, MG (Fonte: Divulgação)

O PN da Serra da Canastra foi criado lá com o principal objetivo de preservar as nascentes do Rio São Francisco, que nele se origina. É bastante extenso, com mais de 70 mil hectares. Sua forma é a de um imenso retângulo, com lados de 10 e 70 km, disposto aproximadamente no sentido E-W. Mais recentemente, o Parque foi expandido, incluindo o Chapadão da Babilônia e atingindo (ainda no papel) 200 mil ha.

Entardecer na Serra da Canastra, MG (Fonte: Jorge Soto)

A região da Canastra não é muito conhecida, acho que por duas razões. Uma é o acesso, um tanto longo para quem mora numa das capitais do Sudeste. Assim, grande parte dos visitantes vêm do interior de São Paulo. O segundo motivo é que é muito extensa para o andarilho, sendo necessário carro ou moto para aproveitá-la. Não há pontos próximos e interessantes de fácil acesso.

Mas andarilhos resistentes têm na região a possibilidade de grandes travessias pela Canastra, pelos Cândidos, pela Babilônia, Guarita ou Sete Voltas. Um trajeto digamos básico pode percorrer 65 km em três dias, mas sempre são possíveis extensões maiores, de 80 km ou mais.

Os Campos Ondulados da Guarita, MG

Embora escarpada, a Serra da Canastra é acessível por estrada, havendo várias delas. A principal é a leste por São Roque de Minas, mas há outra no lado oposto do retângulo, em Sacramento, além de duas secundárias e transversais, a sul e a norte. O lado mais impressionante da Serra da Canastra é o sul, num longo paredão vertical com a forma de uma arca, o que aliás explica o seu nome.

A Cachoeira Casca D´Anta, Canastra, MG (Fonte: henriktour.blogspot.com.br)

É deste lado que o ainda jovem São Francisco se precipita, formando os 200 m da Casca D´Anta, uma das cachoeiras mais cênicas do Brasil. Já o lado norte tem uma aparência mais suave, diluindo-se nos planaltos mineiros.

Se você subir a serra pelo leste, logo chegará ao alto que corresponde à tampa da arca. A altitude média deve ser da ordem de 1.300 a 1.400m. A paisagem é muito regular, com ondulações ligeiras no relevo e uma forte sensação de espaço. Este é uma região estranha, de uma beleza silenciosa e monumental.

Campo de Sempre Vivas na Canastra, MG (Fonte: Divulgação)

A vegetação é formada por gramíneas, com árvores pequenas nas calhas dos riachos. Encontrei cerca de uma dúzia de diferentes flores, em cores variadas. O parque é habitado por diversas espécies de animais: lobos guarás, seriemas, gaviões, tamanduás, calangos. Naturalmente, só os mais óbvios são visíveis.

Se tomar a estradinha dos altos da serra, poderá conhecer as nascentes do São Francisco e ver o espetáculo – que chega a ser dramático – de sua formação e precipitação. Se prosseguir, encontrará bem além à direita a Serra Brava, seu ponto culminante.

Serra das Sete Voltas, Canastra, MG (Fonte: Alessandro Abdala)

Depois, o chapadão estende-se indefinidamente: por 20 ou 30 km, acompanhado pelas Serras das Sete Voltas ao sul e pelo Chapadão da Zagaia ao norte, vale dizer à esquerda e à direita de quem avança. A extensão total da estrada que percorre a Canastra é de 80 km – se você vier de Sacramento, acrescente mais de 60 km do Chapadão do Bugre.

A Canastra Vista da Serra da Guarita, MG

O leitor curioso encontrará outros atrativos na região, que é rica em rios, serras, cachoeiras e sobretudo histórias, como costuma acontecer neste vasto mundo de Minas Gerais.

Compartilhar

Sobre o autor

Alberto Ortenblad - Colunista

Nasci no Rio, vivo em São Paulo, mas meu lugar é em Minas. Fui casado algumas vezes e quase nunca fiquei solteiro. Meus três filhos vieram do primeiro casamento. Estudei engenharia e depois administração, e percebi que nenhuma delas seria o meu destino. Mas esta segunda carreira trouxe boa recompensa, então não a abandonei. Até que um dia, resultado do acaso e da curiosidade, encontrei na natureza a minha vocação. E, nela, de início principalmente as montanhas. Hoje, elas são acompanhadas por um grande interesse pelos ambientes naturais. Então, acho que me transformei naquela figura antiga e genérica do naturalista.

Deixe seu comentário