A Cordilheira Branca

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Este é o segundo e último texto acerca da Cordilheira Branca, consulte a coluna imediatamente anterior.

Parque Nacional de Huascarán, Cordilheira Branca, Peru (Fonte – Divulgação)

Ao longo dos seus 180 km, a Cordilheira Branca está contida no Parque Nacional Huascarán, uma reserva estreita que naturalmente acompanha o seu curso. É bem grande, com 340 mil hectares, sendo seu ponto culminante o Huascarán, maior montanha peruana.

A característica do Parque é a topografia acidentada, com vertentes abruptas, vales estreitos e picos nevados. Os vales dos lados oeste e leste da Cordilheira estão a 2.400 e 3.400m e os principais cumes variam de 5.000 a 6.700m. Há cerca de 300 lagoas, das quais as mais interessantes são as mais antigas, nos fundos dos vales, com suas incríveis colorações azuladas, como as de Llanganuco.

Existem mais de 600 glaciares, que estão infelizmente retrocedendo. Você poderá notar faixas acinzentadas no dorso alto das montanhas da região, logo abaixo das linhas da neve. São um triste testemunho das encostas anteriormente nevadas. Muitos peruanos dizem que não haverá mais cumes nevados após um quarto de século. Assim, a Cordilheira talvez se transforme de Branca em Cinza, perdendo aquela beleza etérea que a brancura lhe confere.

Se você observar algum mapa da Cordilheira Branca, irá notar que ela se compõe de cerca de dez grandes maciços nevados, separados por passos, como se fossem uma sucessão de dentes ou de gomos. Alguns dos passos são locais de passagem de estradas que a atravessam. São quatro as estradas, sendo as principais as de Llanganuco, com notáveis vistas das lagoas e montanhas, e de Chavín, acesso a um importante sítio arqueológico da região.

A Cordilheira tem cerca de 85 montanhas escaláveis, que começaram a ser conquistadas pelas expedições austríacas. Foi então que o Chopicalqui, o Artesonraju e o Copa tiveram suas primeiras ascensões. O Huascarán foi conquistado em 1908, e por uma mulher! Curiosamente, só a partir das décadas de 70-80 novas rotas passaram a ser praticadas, já então por escaladores americanos e europeus.

Picos Norte e Sul do Huascarán, Cordilheira Branca, Peru

Moraina do Alpamayo, Cordilheira Branca, Peru

As principais montanhas são o Huscarán, com seus cumes Sul e Norte (este com 6.768, o ponto culminante do País), os quatro picos Huandoy (6.395m) de magnífico desenho agitado, os perigosos Huantsán, Chacraraju e Artesonraju, o Copa com sua extensa crista horizontal e os belos Alpamayo e Garcilaso de formatos piramidais – estes sendo os únicos abaixo de 6.000 m.

A neve é firme, embora em alguns picos existam gretas e avalanches. As ascensões normalmente não tomam mais de três dias, para os bem aclimatados. Mas lembre-se de que a ação do degelo, ao expor as encostas altas das montanhas, tornou as escaladas algo mistas e mais difíceis. E que algumas morainas são especialmente trabalhosas, com seu solo movediço e irregular.

Os peruanos usam três nomes para indicar um vale: valle, quando é plano e amplo; callejón, quando encaixado entre serras elevadas; quebrada, quando estreito. O vale do Rio Santa é conhecido como Callejón de Huaylas, pois é uma depressão entre as Cordilheiras Branca e Negra.

Ancash, na Quebrada Huaripampa, Cordilheira Branca, Peru (Fonte – Divulgação)

É uma bela região fértil, com pequeninas lavouras em patamares ao pé de imponentes maciços nevados. As culturas são muito diversificadas e as propriedades são individuais, mas o trabalho pode ser comunitário, ao longo das simpáticas vilas espalhadas pelas encostas agrícolas.

Mais do que as montanhas, as quebradas concentram o maior número de visitantes. A mais conhecida é a Santa Cruz, que sai de Cashapampa, sobe ao passo Punta Unión e chega na outra vertente na Quebrada Huaripampa, numa extensão de talvez 35 km. As Quebradas Cedros, Ulta, Uquián e Raria são razoavelmente longas e atingem passos que atravessam a cordilheira. Há outras que apenas chegam às paredes rochosas ou às lagoas glaciais, sem transpô-las, como Parón, Cojup e Quillcahuanca.

São trilhas fáceis, bem marcadas e sinalizadas. Partem de altitudes médias, da ordem de 3.000 m e sobem a passos, normalmente acima de 4.500 m. As distâncias entre paradas são medianas, talvez inferiores a 10 km. Assim, você poderá optar por travessias mais ou menos rápidas, conforme seu preparo físico.

Os acampamentos são excelentes, dos melhores que já encontrei: amplos, planos, com terreno fofo, água abundante e insolação fácil. Os turistas das quebradas me pareceram mais jovens e grupais, alguns sendo latinos. Os das montanhas costumam ser europeus e americanos de meia idade.

Estive em seis quebradas, cada qual com uma distinta beleza natural. Algumas vezes serão as pastagens planas habitadas por cavalos e ovelhas. Outras serão os vales agrícolas de variados verdes e os bosques de encosta coloridos pelas árvores. Outras ainda, as paredes nevadas, com cristas distantes que ligam picos de aspecto arrogante. Ou então os rios turbulentos e pedregosos e as lagoas azuis varridas pelo vento. Panoramas que irão encantar sua visita e enriquecer sua memória.

Cerro Chacraraju, Cordilheira Branca, Peru (Fonte – Divulgação)

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Sobre o autor

Alberto Ortenblad - Colunista

Nasci no Rio, vivo em São Paulo, mas meu lugar é em Minas. Fui casado algumas vezes e quase nunca fiquei solteiro. Meus três filhos vieram do primeiro casamento. Estudei engenharia e depois administração, e percebi que nenhuma delas seria o meu destino. Mas esta segunda carreira trouxe boa recompensa, então não a abandonei. Até que um dia, resultado do acaso e da curiosidade, encontrei na natureza a minha vocação. E, nela, de início principalmente as montanhas. Hoje, elas são acompanhadas por um grande interesse pelos ambientes naturais. Então, acho que me transformei naquela figura antiga e genérica do naturalista.

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