O conceito de extinção na natureza não existia até o século XIX, todos os naturalistas, a exemplo de Charles Darwin, acreditavam no gradualismo. Porém nessa época Georges Cuvier desenvolveu sua teoria do catastrofismo, que afirmava a existência de grandes cataclismos naturais.
Mas foi só em 1982 que dois cientistas da Universidade de Chicago se basearam no estudo estatístico do passado para identificar as cinco extinções em massa na história da Terra.

(1) No eixo vertical, percentuais de gêneros extintos. Um gênero é um conjunto de espécies de origem comum. Existem mais de 10 milhões de diferentes espécies, reunidas em um milhão de gêneros. (2) No eixo horizontal, milhões de anos passados desde o presente. A era paleozoica estendeu-se de 550 a 250 milhões de anos, a mesozoica de 250 a 65 milhões e a cenozoica de 65 milhões ao presente.
Já abordei no passado esse assunto, que resumo na página a seguir.
Talvez valha começar definindo o que é uma espécie, pois você encontrará muitas vezes a seguir essa palavra. É uma linhagem de organismos de aspecto semelhante, capazes de se reproduzirem e gerarem descendentes férteis.
As Cinco Extinções em Massa
| Nome | Época | Extinção | Vida Afetada | Principais Causas |
| Ordoviciano-Siluriano | 440 milhões | 85%
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a fauna então existente de invertebrados marinhos – pequenos seres de grandes nomes, como anelídeos, trilobitas e artrópodes
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1. Os movimentos tectônicos das placas continentais rumo ao Polo Sul acarretaram a queda das temperaturas, a formação dos glaciares, a redução do oxigênio e o rebaixamento do nível dos mares, afetando a vida inteira
2. Á medida que a Terra se aqueceu, todos os continentes fundiram-se num único, chamado Pangeia – com essa enorme massa territorial, seu interior se tornou mais seco, ameaçando a vida terrestre 3. A fragmentação de Pangeia, o continente ancestral que continha todos os demais, foi associada a erupções de lava e a emissões de gás carbônico, que levaram ao superaquecimento da atmosfera e à acidificação dos mares 4. Proliferação dos vegetais que surgiram, sequestrando o oxigênio da superfície das águas, tornando-as tóxicas aos seres marinhos 5. Variação do nível dos oceanos, tornando difícil a continuidade da vida nas faixas litorâneas, devido aos alagamentos ou aos rebaixamentos dos mares 6. Impactos de asteroides e cometas, liberando nuvens de poeira que bloquearam a luz do Sol, interromperam a fotossíntese e provocaram chuvas ácidas, alterando a composição e iluminação da atmosfera, bem como ocasionando vulcanismos, incêndios, tsunamis e terremotos 7. Atividades vulcânicas, com mudança climática, aumento do metano antes congelado no fundo dos mares, liberação do gás carbônico oriundo dos depósitos de carvão, acidificação do oceano pelo aquecimento global e redução do oxigênio disponível para a vida |
| Devoniano-Carbonífero | 360 milhões | 75% | seres marinhos primitivos, com pulmões, nadadeiras e mandíbulas, junto com os novos vertebrados e as grandes plantas que surgiram e cresceram nos continentes, ainda sem herbívoros para controlá-las | |
| Permiano-Triássico | 250 milhões | 95% | organismos terrestres e marinhos, incluindo quase todos os insetos, os anfíbios, os peixes, corais e moluscos – e os répteis, que agora governavam o mundo | |
| Triássico-Jurássico | 200 milhões | 75%
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famílias marinhas de peixes, corais e moluscos – mas grandes répteis assumiram a hegemonia, com dinossauros na terra, pterossauros no ar e plessiossauros no mar
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| Cretáceo-Paleogeno | 65 milhões | 80%
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dinossauros herbívoros não aviários e toda a vida marinha e terrestre, incluindo peixes, répteis e plantas – e os nichos ecológicos começaram a ser povoados por mamíferos |
1. O número de extinções foi provavelmente bem maior, pois só foram pesquisadas a partir de ½ bilhão de anos atrás. Teriam ocorrido vinte extinções menores, em especial o evento ancestral do Cambriano, com possíveis 80% de extinção, para a qual faltam entretanto maiores evidências.
2. A Terra foi formada há 4.5 bilhões de anos, como um planeta inviavelmente quente. Seu resfriamento levou à formação das rochas e da atmosfera e, depois, dos mares e dos continentes. A vida primitiva de algas e bactérias surgiu há 3.5 bilhões de anos, com a formação do oxigênio livre, quando a Terra deixou de ser bombardeada por asteroides. A fotossíntese apareceu há 2.5 bilhões de anos, junto com os organismos multicelulares. A vida passou cerca de 1.0 bilhão de anos dormente, até explodir em formas complexas a partir de 0.5 bilhão de anos, com seres pluricelulares. Seguiram-se os peixes, plantas, insetos e répteis, que se tornaram enormes, até serem extintos e darem espaço aos mamíferos. Eles passaram então a governar o planeta.
3.Uma extinção em massa representa catástrofes naturais que eliminariam a partir de 50% (ou 75%) das espécies, ao longo de aproximadamente 3 milhões de anos. Das cinco extinções, teriam sobrevivido apenas uma dentre dez mil espécies, se todas elas tivessem sido contemporâneas. Entretanto, como as espécies proliferaram entre extinções, acredita-se que, entre as dez milhões das espécies hoje vivas, tenham sobrevivido talvez 2% daquelas que coexistiram às extinções.
Por exemplo, os cavalos, que podem cruzar entre si, com crias férteis. Mas o cruzamento com outras espécies próximas, como o jumento e a zebra, produz descendentes inférteis. O mesmo acontece com os felídeos, como os tigres, os leões, as onças e os gatos.
O conjunto das espécies semelhantes no aspecto e funcionamento forma um gênero. Por exemplo, o gênero dos citrus é composto por três espécies, como a cidra e a tangerina – e muitos híbridos, desenvolvidos pelo engenho humano. O dos pinus engloba mais de uma centena de espécies, como a araucária e o pinho bravo. Dois gêneros com ampla distribuição são os dos felídeos e canídeos, cada qual com quatro dezenas de diferentes espécies.
Não sou cientista, mas acredito que estamos no meio de uma nova extinção em massa – a sexta e talvez a última para nós, que a provocamos. Embora seja impossível assegurar o número de espécies existentes e o ritmo de seu desaparecimento, atual ou passado, as evidências são assustadoras.
Veja os dados citados pela física Lisa Randall, que compara no tempo as extinções de diferentes classes animais:
| Classes Animais | Extinções proporcionais em cinco séculos | Extinções proporcionais último século |
| Aves | 1 | 20 |
| Mamíferos | 1 | 32 |
| Anfíbios | 1 | 100 |
Existe a suspeita de que a situação é ainda pior, com a atual taxa de extinção sendo mais de cem vezes maior do que o normal – e isso só leva em conta os tipos de animais que conhecemos. Os oceanos e as florestas hospedam um número incalculável de espécies, muitas das quais provavelmente desaparecerão antes mesmo de as conhecermos, no entender da autora Elisabeth Kolbert.
Mas o que seria uma taxa normal de extinção? Naturalmente este é um número um tanto aproximado, acho eu que principalmente em função do tempo de duração desses eventos, ao logo de milhões de anos. E veja que provavelmente só conhecemos uma em cada 8 espécies existentes – isso numa hipótese otimista, pois creio que a proporção não seja inferior a 1:20.
Os biólogos dizem que, ao longo da história da Terra, desapareceram de 1 a 10 espécies a cada século, por conjunto de 100 mil espécies. Bem vago, não? Mas hoje a taxa de extermínio é muito maior. Eles concluíram que cada vertebrado extinto deveria ter levado de 800 a dez mil anos para desaparecer. Mas agora eles desaparecem na média em apenas cem anos.
Não sei se existe algum acordo entre os cientistas, pois há estimativas elevadas que chegam a 30 milhões de espécies existentes na natureza e 140 mil extinções por ano. Neste caso, metade da vida estaria extinta em um século. Mas a variação é enorme – entre 70 ou 180 anos ou até 550 anos para a extinção total. Suspeito que ninguém realmente sabe.

A extinção do Permiano.
Os cientistas que se debruçam sobre as mudanças ambientais costumam encontrar uma semelhança perturbadora com as do Permiano (P-Tr), a terceira e pior delas, há 250 milhões de anos.
As elevações da temperatura, do dióxido de carbono e da acidez oceânica são parecidas, bem como as presenças das zonas mortas sem oxigênio. Uma atmosfera venenosa de que resultou a morte de quase toda a vida. Só que agora a origem não serão os gases dos vulcões, mas as ações dos homens.
Observe que hoje as extinções nos parecem menores do que de fato foram, pois muitos animais dados como vivos são exclusivamente mantidos em cativeiro ou apenas encontrados em locais isolados ou remotos. E, pior, existe um grande descaso pelas extinções dos artrópodes, como insetos, aranhas e crustáceos, que compõem as espécies afinal mais numerosas.
É impressionante como não percebemos as extinções relativamente recentes. O período do pleistoceno, quando terminaram as sucessivas idades do gelo, encerrou-se há meros 12 mil anos atrás. Foi nele que desapareceram os neandertais e a megafauna.
Os humanos conviveram com aqueles homens primitivos, chegamos a herdar 4% dos seus genes. A desaparição da megafauna é amplamente documentada – vou apenas lembrar os mamutes e rinocerontes lanudos, os cavalos norte-americanos, os tigres dente de sabre, as aves como dodôs, íbis e moas, além dos tatus, preguiças, lagartos e cangurus gigantes.

Aves gigantes extintas.
Aves Gigantes não Voadoras Extintas
- Avestruz Africana
- Dystrima
- Pássaro Elefante
- Moa Gigante Ilha do Sul
- Seriema Gigante
- Moa Gigante Ilha Norte
- Ema Maior
- Ema de Darwin
- Casuar
- Ema Australiana
- Dodô

Mamíferos extintos.
Mamíferos Extintos
- Megatério, o Gigante Preguiçoso
- Mastodonte
- Mamute
- Rinocotério do Pleistoceno
- Urso de Cara Curta
- Cavalo Americano do Pleistoceno
- Camelo do Pleistoceno
- Bisão Antigo
- Tigre Dentes de Sabre
- Lobo do Pleistoceno
- Giptodonte
- Eremotério
Também a paisagem foi profundamente alterada. Surgiram grandes tundras geladas e extensas florestas dotadas de flores e frutos. O Amazonas era um lago imenso, ainda não um rio. E a Amazônia passou por períodos de secura e resfriamento, com a fragmentação da floresta em savanas. Os Andes teriam se erguido de forma abrupta tão recentemente como 6 milhões de anos atrás. O Canadá e a Europa eram semelhantes à Antártida, com grandes geleiras. O mundo era ocupado por enormes lagos e o nível dos mares era uma centena de metros inferior, com ligações terrestres entre a Europa e a América e entre as ilhas do Sudeste da Ásia.
O influente professor Edward O. Wilson dizia que, ao ritmo atual, metade de todas as espécies de vida do planeta morrerão em menos de um século. Mas porque isto estará acontecendo?
Começo pela perda do habitat na natureza para outros usos, principalmente para a agropecuária e a urbanização. Diz Elisabeth Kolbert que: Trouxemos espécies invasoras. Estamos agora mudando o clima, muito, muito rapidamente, por padrões geológicos. Estamos mudando a química de todos os oceanos. Estamos mudando a superfície do planeta. Cortamos florestas, plantamos a agricultura monocultora, o que não é bom para muitas espécies. Fazemos sobrepesca. E a lista continua.
Não se preocupe, a minha será uma lista curta. A poluição destrói a vida do solo, com agrotóxicos que interferem nos microrganismos e na matéria orgânica, empobrecendo-o. Afeta as águas pelos efluentes domésticos e industriais. Contamina o ar pela emissão do gás carbônico da ruminação bovina, da fumaça das queimadas e da combustão de veículos e indústrias.
O desflorestamento traz impactos terríveis, pela destruição dos habitats nativos e redução da polinização, pela queda dos rendimentos agrícolas e colapso dos mananciais, pelo aumento dos incêndios, estiagens e inundações. E também pela falência da fotossíntese e consequente desequilíbrio entre as emissões de CO2 e O2. Com o avanço do efeito estufa, está ocorrendo a acidificação dos mares, degradando a vida marinha e terrestre.
A vida é complexa demais para se ajustar a essa maciça simplificação de todo o planeta. Esse mundo simplificado torna-se também pobre: animais e plantas carregam fortes associações espirituais, folclóricas, artísticas e éticas com o homem, que lhes atribuiu ou encontrou neles poderes, inteligência, beleza, e mesmo sabedoria, e os reproduziu em sua arte, os viu em seus sonhos e falou com eles, aprendendo mistérios, e até os adorou como deuses.

A simplificação do planeta.
Quando uma espécie no ecossistema desaparece, ela corrói o sistema inteiro e empurra outras espécies para a aniquilação. E os humanos não mais podem viver num mundo isento de algum estado de recuperação de uma extinção passada, se não mesmo no meio de uma, como observa Kolbert.
Mas, após o fim de uma extinção em massa, há uma irradiação adaptativa, como uma nova aurora. Nela, um pequeno número de espécies anteriores se diversifica em um número maior de descendentes. Isto lhes permite ocupar uma variedade mais ampla de nichos ecológicos.
Quer dizer, a vida resiste – como continuou para as samambaias, para as aves e répteis e para os pequenos mamíferos. Alguns gêneros desaparecem, mas outros prosperam.
A palavra antropoceno foi criada recentemente para indicar a atual era geológica influenciada pelo homem. A escritora de ficção N K Jemisin escreveu: O antropoceno é caracterizado por sua velocidade, tamanho, conectividade e surpresa. Isso é importante porque a biodiversidade é integral para a estabilidade do sistema de vida na Terra – a atmosfera, os oceanos, placas de gelo, o ciclo hidrológico e a vida — e as mudanças desse ciclo estão acelerando.
Mas, mesmo que haja a sexta extinção em massa, a espécie humana poderá prosseguir e mesmo avançar. A biodiversidade certamente diminuirá, o que será uma terrível ameaça aos humanos: somos geneticamente muito parecidos, pois evoluimos rapidamente de uma pequena população. E também nossa fertilidade parece estar comprometida. Em termos estritamente naturais, podemos vir a ser uma das espécies ameaçadas, como essas que você encontra nos manuais.

A evolução do cérebro humano.
Talvez valha a pena comentar que, 75 mil anos atrás, a erupção do vulcão Toba na Ásia contaminou o ambiente e devastou a comunidade de humanos, que então procurava migrar para a Europa. Pesquisadores mais ousados dizem que fomos reduzidos a meros dez mil indivíduos, ou seja, quase fomos extintos. A proteção da floresta africana permitiu que sobrevivêssemos – porém à custa de uma forte concentração genética.
Mas a humanidade tem mostrado uma notável adaptabilidade aos mais diversos ambientes, do frio polar ao calor tropical, da aridez desértica à umidade amazônica. Parte dela decorreu de fatores mentais e sociais, como memória, engenho e sociabilidade. E o homem do futuro poderá resultar dos benefícios da engenharia genética, da biotecnologia, da robótica e da inteligência artificial.
Dizem os cientistas que as espécies mamíferas sobrevivem por meio milhão de anos vs. dezenas de milhões para as árvores ou os insetos. A média de todas as espécies estaria em um milhão de anos. Como já caminhamos sobre o planeta há 200 mil anos, é de se supor que continuaremos nele por mais 800 mil. Desde que ainda reste planeta para caminhar.
Pense por um momento no que significa sobreviver ao longo de uma escala geológica de tempo. Quando apenas 1 a 2% das espécies que existiram na história continuam ainda presentes.
É uma conquista épica, única – significa que nossos antepassados fundamentalmente nunca erraram, sempre escaparam, nunca se perderam, sempre evoluíram. Por mais breve que tenha sido a vida de nossa espécie humana. Então, até agora fomos heróis.
Para escrever esse texto, é claro que pesquisei sobre as possiveis causas de extinção do homem, incluindo as não naturais. Sobre essas últimas, fiquei impressionado com o que encontrei: guerra nuclear total, inteligência artificial descontrolada, miniburaco negro, ataque biológico global, novos humanos malignos de origem artificial, nanotecnologia desordenada, pandemia mundial, explosão estelar de super nova e invasão alienígena.


Ameaças futuristas.
Achei que, diante disto, a erupção de um megavulcão ou a colisão de um supercometa seriam até triviais. Mas a professora Kate Jones não prioriza o ser humano quando diz que: Acho que as espécies dominantes foram, continuam sendo e provavelmente sempre serão os micróbios. Segundo ela, por seu número, biomassa, onipresença e antiguidade – pois estão em toda a parte, desde 3.5 bilhões de anos.
(Deixe-me fazer um comentário: a biomassa dos animais que nos alimentam é de 800 milhões de toneladas; a nossa é de 400 milhões; e a da fauna silvestre não atinge 100 milhões.)
E pode-se até dizer que eles já nos dominam, uma vez que em nossos corpos existem mais bactérias e outros micróbios do que células humanas. Mais ainda, a poucos km abaixo do fundo dos mares, na ausência da luz e do oxigênio, existem bactérias e micróbios alimentados pela energia geotermal, provavelmente protegidos da catástrofe de uma nova extinção.
De fato, a vida na Terra surgiu das bactérias e é possível que recomece com elas. De tal forma que o grande ciclo cósmico possa dar à inteligência na Terra uma segunda chance. E, quem sabe, de uma maneira mais benigna.








