Como de hábito, a informação de que havia um “chamamento” à comunidade de montanhismo menos vivida, mas igualmente comprometida com o elã de cooperação pelo desenvolvimento da atividade bastou para que a administração da Equipe Arcanjos se mobilizasse e propusesse um desafio insano. Como MDA de carteirinha, insanidades me cativam. E, ainda mais, se à reduzida sensatez soma-se objetivo nobre, como a busca de expandir a cultura do montanhismo no Brasil.

Figura 1. Arranjo de equipamentos. Dois dias, em bivaque autônomo até 5ºC. Peso total, sem água, 4,5 kg.
Na 25ª hora, uma desistência trouxe o Rafael Soares, outro MDA, ao seleto grupo. Como a semana anterior à viagem eu estive em férias, cuidando dos meus pais, não consegui parar para estudar de forma mais detalhada e adequada o proposto para a travessia. Apenas preparei e imprimi um mapa com a região que seria percorrida.
Certo da elevada competência do grupo em desenrolar mesmo os novelos mais enodoados, pouco, quase nada, estudei da proposta. Mais de uma semana antes da viagem, a cargueira já estava arrumada. Como de hábito, reduzi o peso das tralhas, procurando maximizar a segurança. Somei ao caráter de ineditismo do traçado proposto o desconhecimento sobre a região e as condições de permeabilidade de suas trilhas. Encontramos poucos registros e, mesmo esses, já com alguns anos de idade.
Em trechos de mata com abundância de sol e água, a passagem descontinua de grupos de montanhistas deixa poucos rastros. Após alguns anos, esses rastros se mostram, muitas vezes, tênues. A vegetação que primeiro ocupa as antigas veredas e caminhos muitas vezes é composta por taquaras, samambaias e cipós espinescentes, tornando o progresso extremamente custoso. Nesse aspecto, trechos de trilhas em florestas mais formadas, estáveis, são menos impactados pela baixa frequência de passagem. O denso dossel vegetal que as árvores de maior altura formam, ainda que não alcance o esplendor de matas virgens, basta para sombrear o solo, refreando o crescimento das espécies de baixa altura. Não seria o caso dos três trechos de maior resistência à nossa passagem: a subida ao Pereira (eu, Amanda, Maroka e Cícero), a descida por sob a linhão de Alta Tensão (Rafael Soares, Rafael Pereira, Michele, Cainã, Rodrigo, Fran, Danilo, Ricardo, Gustavo e Diego) e, finalmente, nas encostas da Pedra Mãe (Ricardo, Fran, Diego e Gustavo) para cume-á-la por uma face impoluta. Os outros também sofreriam a macega que tomou trechos de trilhas devido a quedas de árvores e deslizamentos de terra.

Figura 2. Pretendido (em ciano) x Realizado. Em rosa: Rogério, Amanda, Maroka e Cícero (total). Lucas, Sávio, Eduardo, Ivanildo (parcial, sem cumear Pereira). Em branco: Ricardo, Fran, Diego e Diego (total). Rafael Soares, Rafael Pereira, Michele, Cainã e Danilo (parcial, sem cumear Pedra Mãe).
Esse descuido no planejamento, traria consequências para minha caminhada. O Rafael Soares analisou o proposto e, entendendo inviável frente ao tempo exíguo de que dispúnhamos, riscou uma alternativa menos extensa, mas ainda extremamente desafiadora. Me baseei na enquete da própria sexta: dos 19, apenas uma pessoa declarou que faria a Cobiçado – Ventania “simples”, outros 12 sinalizaram que tentariam o traçado completo. Não cogitei alternativas frente aos trajetos vaticinados na véspera. Baixei o trajeto “completo” para o GPS de pulso e confiei que, em 12 ou mais, pois pessoas notoriamente empenhadas nas trilhas não haviam se manifestado, daríamos jeito de seguir os passos uns dos outros.
Minha incúria se mostraria crítica, quando o grupo se separou entre os mais céleres e os mais tranquilos, já no campo. Sendo todos autônomos, o separar não enseja maiores cuidados. Decorre dos diferentes interesses das pessoas: há quem se divirta muito na trilha, no rastrear e no observar de plantas, animais, caminhos e descaminhos. Quem se detenha em estudar uma parede, uma ponte, um rastro inesperado (meu caso). Outras, amam banhar-se em cachoeiras ermas. Há aquelas que fotografam as flores ou animais encontrados. Outras ainda, vibram pelo superar dos próprios limites, desafiando o próprio condicionamento físico. Não há nada de ominoso no natural separar do grupo, lembrando sempre que todos são autônomos e já se testaram em condições adversas. Para eventualidades não administráveis, há o Protocolo de Segurança do grupo, com instruções detalhadas sobre como proceder. Esse protocolo, de conhecimento de todos, é repassado nas vésperas, para facilitar a consulta, caso necessário.

Figura 3. (E) Fita indicativa de trajeto, em verde (exceção, no trecho Cobiçado Ventania). (D) Sinalização padronizada, mesmo trecho.
Com a separação, não havia como saber qual o trajeto que pretendiam fazer, restando manter o planejado mesmo com o grupo fortemente desfalcado. Como a separação ocorreu relativamente cedo, decidimos manter o planejado pois até ali o progresso não fora muito dificultoso. Subimos em direção ao cume do Pereira, varando mato encosta acima, na expectativa de que lá, encontrássemos uma trilha menos fechada que permitisse prosseguir conforme planejado. Talvez do cume, pudéssemos divisar nossos amigos em um cume próximo, de forma que pudéssemos alcançá-los mais à frente. Começamos a galgar a encosta em 8: Amanda Mascaro, Cícero de Brito (Bigode), Itamara França (Maroka), Eduardo Inocêncio, Lucas Barroca, José Ivanildo, Sávio e eu. Poucos minutos depois, o quarteto Sávio, Lucas, Ivanildo e Eduardo nos informou que decidira retornar ao Ventania, abortando a travessia. Se somariam ao Matheus “Big Four”, primeiro a abortar, ao alcançar o Ventania às 10h25, com apenas 9,1 dos 45 quilômetros pretendidos, sem nenhuma dificuldade de navegação ou progresso, pois até ali, a trilha se apresenta bastante batida e aberta.

Figura 4. Placa informativa do Parque Nacional da Serra dos Órgãos.
O valoroso trio a panhara um pouco da mata na descida conosco da encosta do Ventania e no alcançar do vale entre este e o Pereira. Avaliando a enormidade do que ainda havia a ser percorrido, às PÚBLICA13h20 nos informaram da decisão, somaram-se ao Sávio e tomaram o caminho de volta, de forma cautelosa e tranquila. Chegariam ao cume do Ventania para montar acampamento ainda com luz do dia. Trilhando até o Ventania em quadra, com o Lucas, o Eduardo e Amanda, eu aprendera que todas as flores de Ipê são comestíveis, mas amargas (pelo menos as que eu provei) e que as flores dos Manacás da Serra e das Quaresmeiras, também são comestíveis, mas bem mais saborosas.
Agora em quarteto, apertamos o passo encosta acima, buscando a nossa “Passagem Noroeste” que viabilizaria retornarmos ao jogo e, quiçá, de posse de razoável montante para cacifar apostas futuras. Mantive-me à frente, escolhendo dentro do bosque da encosta do Pereira, trechos em que o progresso era menos árduo, com a vegetação mais permeável, declinando um pouco à esquerda. Na cota de 1215 metros, o taquaral se mostrou intransponível e cedi a primazia ao Cícero. Escudado pela Maroka se lançou à frente e acima com um ímpeto de menino. Quem vê esse senhor de cabelos enevoados nas trilhas abertas não faz a menor ideia do empenho e da competência com que vara um mato, parece que nasceu para isso. De cargueira pesada e sorriso no rosto, galgava metros entre taquarinhas, bromélias e espinhos.

Figura 5. Detalhe do registro, ida e volta ao Pereira. Divergência na descida.
Finalmente, às 13h39, a inclinação da encosta arrefeceu e passamos a enfrentar apenas a vegetação bravia e não mais a combinação extenuante (gravidade + vara mato). O progresso se tornou menos árduo e pouco depois, começamos a notar sinais de passagens pregressas, ainda que tênues. Aqui e ali, uma bromélia crescendo em um ângulo anormal, um galho ou arbusto quebrado na altura das mãos humanas. Raríssimas marcas de corte por facão eram sinais inequívocos de que não éramos os primeiros ali. Seguimos pelo platô do cume, subindo e descendo alguns metros, atentos a algo que sinalizasse o remédio para nossas dores e angústias. Mas remédio não havia. Cruzamos todo o cume pela crista, observando apenas o que parecia um tênue rastro chegando à esquerda. Após alcançarmos a encosta nordeste do Pereira, a inclinação aumentou subitamente, nos indicando que aquela não seria uma rota segura.

Figura 6. Coccocypselum sp. PANC ?
Poderíamos descer algumas vintenas de metros para sermos obrigados a retornar encosta acima. Ou, cenário ainda mais perigoso, rasgarmos com nosso peso a trama vegetal que nos ancorava e despencarmos no vazio de alguma face rochosa que não conhecíamos. Por alguns minutos nos detivemos avaliando as alternativas. Honra e glória haviam ficado para trás. Não completaríamos o desafio insano que havíamos ousado sonhar. Prosseguir ao desconhecido, em quadra e com o tempo de que dispúnhamos para sair em algum lugar onde a van pudesse nos resgatar para o retorno não seria ousadia, seria imprudência. Com o Vitamina como exemplo do tipo de montanhismo que me encanta, aquele de palmilhar o desconhecido, mas voltar para contar, decidimos retornar sobre nossos passos.
Ainda fizemos uma derradeira tentativa, ao passarmos pela chegada de rastro, agora à nossa direita. Pedi que aguardassem e desci uns 15 metros, se tanto, com a serrapilheira me alcançando quase os joelhos. Havia tempo para explorar melhor ali, mas a decisão de retornar havia abalado minha convicção. Em verdade, eu já subira ao cume abrindo, na medida do possível, o rastro para facilitar um eventual retorno, ação que nunca descarto de tomar, se a prudência se mostra mais pertinente que a ousadia. Com o Cícero empenhado nos trabalhos de navegação e de abertura, escudado pela dupla Maroka/ Amanda, eu aproveitava para deixar a passagem bem batida, para que outros (quem?) nos seguissem no futuro, penando menos. Ao iniciarmos a volta, invertemos a fila, de forma que me coube ficar à frente e agora manejar o facão gurkha que o Cícero havia levado.
Na volta, no trecho do platôzinho de cume, pouco fugimos dos rastros batidos da ida. A ida consumira 1h20 para ser vencida e a volta, pela vereda que havíamos aberto, menos de 50 minutos. Mas Murphy não dorme e errei a navegação na última dezena de metros, fazendo com que assim que começamos a descer, déssemos de frente com um taquaral virgem de passagens. Havia errado e o natural e mais produtivo era retornar ao ponto em que eu perdera o rastro da subida e aproveitarmos o suor vertido na abertura durante a subida.
Seja a forma com que expressei que deveríamos retornar e corrigir, seja a obstinação da dupla Maroka / Cícero, enquanto eu retornava com a Amanda até o ponto do erro, os dois lançaram-se encosta abaixo, a varar mato. Por um momento, ainda cogitei deixá-los e descer pelo rastro batido até o regato do vale, aguardando que nos alcançassem. Um senso de responsabilidade em boa parte indevido, frente à autonomia de todos e entendi mais adequado que não fracionássemos ainda mais o grupo e, com a anuência tácita da Amanda, abandonamos a seara permeável pelo varar de mato encosta abaixo.

Figura 7. Amanda e Maroka no vara mato do cume do Pereira.
Ora desescalando barrancos de dois ou três metros, ora nos arrastando por sob os talos de taquarinhas e bambus que tão diligentemente havíamos contornado ou rompido na subida. A montanha parecia tripudiar dos nossos esforços, nos afastando cada vez mais do trajeto em que havíamos subido. A Amanda, estoicamente pouco falava, mas eu percebia o esforço que fazia por vezes ao encher os pulmões. As costelas quebradas, a última há pouco menos de uma quinzena ainda demandava cuidados e castrava o fôlego. Seguisse as recomendações médicas, estaria em absoluto repouso. Perdendo altitude do jeito que conseguíamos, ou melhor, que a mata nos permitia, chegamos ao riacho às 16h23h. O subir nos tomara 23 min, abrindo passagem. Descer nos tomara 39 min, mas estávamos todos juntos e assim prosseguiríamos até acamparmos, no Ventania às 18h26. Um pouco à frente passamos por uma abertura na mata, onde mais cedo um boi preto dera uma corrida no Cícero e na Maroka.

Figura 8. Impacto antrópico, Ventania. (E) Primeira área de camping, lixo (D) Marcas de fogueiras na segunda
Com a dupla Cícero e Maroka à frente tocamos por dentro da mata fazendo uma breve pausa para hidratação na pequena nascente que cruzamos antes do riacho. Após descansar alguns minutos, toquei para o regato pouco acima para adiantar a coleta d’água. Abasteci minhas garrafas ao máximo, com 3,5 litros. Somados ao que a Amanda levava na mochila dela, dispúnhamos de abundância, para a subida, pernoite e descida no dia seguinte.
Retornamos encosta acima sem forçar o passo, permitindo que todos recuperassem muito do desgaste na própria caminhada. Não seria exagero dizer que chegamos praticamente descansados, plenos de energia. Nas últimas horas, enquanto subíamos, revisávamos o que sabíamos de cada um que estava na travessia: Matheus Big Four e uma moça, haviam ficado no cume do Ventania. À eles se somavam o quarteto que abortara na encosta do Pereira: Lucas, Eduardo, Sávio e Ivanildo. Conosco, somávamos 10 pessoas. Discutíamos onde estariam os 9 restantes: Rafael Soares, Rafael Pereira, Cainã, Michele, Fran, Gustavo, Diego, Danilo e Ricardo. Especial preocupação tínhamos com o Danilo, pois a última informação era de que avançava pelo vale, sozinho. Procuramos delinear o melhor possível a sua última localização para qualquer intercorrência. Preparamos tudo para o nosso bivaque, ao lado do Lucas que inaugurava em grande estilo, o bivacar. Para o jantar, preparei purê de batata com molho de tomate e queijo ralado com suco de jaboticaba e duas sopas instantâneas.
O cume do Ventania conta com duas áreas de camping, estávamos na área mais afastada, próxima da crista nordeste. O Matheus e a moça que ficara com ele não estavam ali, de forma que supomos que haviam descido para a cidade. Não dispúnhamos de comunicação que não fosse pelo comunicador via satélite, que consultamos por desencargo de consciência: não havia nenhuma mensagem. Restava dormir e, no dia seguinte, desenrolar o que fosse necessário para nos reunirmos todos para a volta a São Paulo.

Figura 9. Primeiro acampamento: Lucas e Amanda no bivaque. Sávio, Maroka e Ivanildo, optaram por barracas. Cícero e Lucas estrearam no bivaque, com total sucesso.
Já dentro do saco de dormir, deitado sobre o isolante e usando a mochila com roupas e tênis como travesseiro, fiquei alguns minutos tentando encontrar as constelação de Aquário , radiante das Delta Aquáridas, chuva de meteoros que tivera o auge na noite anterior. Mesmo sob o forte brilho da lua cheia, consegui ver uma delas, muito destacada. Animado, fiquei mais um bom tempo tentando observar mais alguma sem êxito. A noite foi bastante amena, pois estávamos preparados para temperaturas ainda inferiores aos 10ºC que seria a mínima.
Antes de prosseguir com a nossa travessia, abortada no cume do Pereira, quero trazer um olhar imperfeito sobre o que ocorrera com nossos amigos, que haviam declinado por um “atalho” que se mostraria mais factível que nossa aposta. Que meu leitor não se engane: factível, não simples. A provação dos 9 bravos começou, à vera, logo após deixarem o trajeto mais extenso e tomarem o atalho que seguia a sequência de torres de alta tensão. Avançaram algumas centenas de metros, por um caminho relativamente aberto, fitado com fitas zebradas amarelas e pretas e, vez por outra com fitas de outras cores.
Aqui tomarei base, com certa licença, das palavras e reportes dos bravos colegas, com o fito de registrar “tudo” que ocorreu naquela serra, nesse fim de semana de árduas pernadas, com o varar de mato (bambus e taquaras, muitas vezes) sem perder o bom humor, nem deixar de curtir o desafiar-se frente a algo que, realmente, era inviável no tempo de que dispúnhamos.

Figura 10. Rafael Pereira Quem e Pico Maior de Magé ao fundo.
Após estudar e analisar a track do caminho proposto, considerando trechos extensos, com remotos registros de passagem, inferi que haveria tal quantidade de vara mato que tornaria o proposto originalmente, algo inviável. Considerei uma alternativa mais factível: ao chegar no Vale Ventania/Pereira, seguir pela trilha Caxambu X Santo Aleixo. Vi que haviam passado por ali recentemente, e propus isso ao Ricardo, que tratou de buscar melhores informações com o Edu, (Eduardo Joaquim) bravo conhecedor das trilhas locais. Chegado no crux, informei os companheiros ali presentes do planejado, que sem pestanejar, concordaram. A tracklog de que dispúnhamos como referência mostrava vários “nós”, voltas e curvas, marcando trechos onde sabíamos que o avanço seria dificultoso, travado, do mais puro bambu. Seguimos descendo em declive acentuado, acompanhando as fitas zebradas de amarelo e preto. Nossa equipe até ali: Ricardo Bianchetti, Diego de Lima, Fran Mori, Michele Morais, Gustavo Ridgue, Cainã Brasileiro, Rafael Pereira e eu, Rafael Soares.
Demoramos certa de duas horas pra avançar aproximadamente 500 metros de trilha bastante fechada pelo crescer dos bambus, unhas de gatos e todos tipo de vegetação que impedia que avançássemos. Tomei frente a navegação e desobstrução do caminho, por aproximadamente uma hora. Em dado momento, numa curva do caminho, seguimos uma corrida d’água, avançando por uns 20, 30 metros para fora do trajeto pretendido. O avanço logo se mostrou impraticável, frente ao entrelaçado da vegetação que se fechara ainda mais enodoada. No rádio, que por prudência levávamos, copiamos o chamado de rádio do Danilo Sanches (Danilo Bioaterramento), que avançava defasado de uns 40 minutos (Rafael Soares).

Figura 11. Ricardo no vara mato da encosta do Pereira Mãe. Registro por Gustavo Ridgue.
Orientamos que seguisse as fitas zebradas, em nosso encalço. Constatado o erro de caminho, pedi que alguém retornasse até a última fita identificada, e Diego se prontificou rapidamente: tirou a mochila e subiu, encontrando a fita e nos informando. Ricardo já varava mato pelo menos uns 15 metros à frente, tentando achar alguma fita que indicasse estarmos no trajeto correto. Com o reporte do Diego, constatamos que deveríamos retornar algumas dezenas de metros encosta acima, então Gustavo, Fran e Michele subiram até o Diego, o Gustavo com duas cargueiras, nesse retorno. Aguardei o Ricardo juntar-se a mim, enquanto isso comi 2 ovos e deixei as cascas ali, ao lado. Nesse momento, mal sabia que serviriam de referência crucial para o Danilo quando nos chamasse novamente ao rádio (Rafael Soares).
Seguimos avançando lentamente fazendo diversas manobras corporais para transpassar o bambual. Ora por cima forçando, ora por baixo nos arrastando, quando possível, quebrando os talos secos. Em determinado momento, bastante desgastado e cansado, com hematomas nos braços e até no couro cabeludo, me rendi, pedindo que outro tomasse a dianteira, sendo atendido na hora por Ricardo que tomou o posto de navegador e desbravador. Fiquei por último, pois sabia que o passar dos companheiros tornaria o caminho melhor para avançar e me permitiria recuperar um pouco do desgaste acumulado. De tempos em tempos conferia a track de referência e a ansiedade gritava para que saíssemos logo daquela floresta de bambus. Nesse momento, já se aproximava do meio-dia e logo mais haveríamos superado os trechos de pior progressão desse dia (Rafael Soares).
Seguia em solitário, descendo no rastro do pelotão da dianteira, de quem vez por outra conseguia ouvir fragmentos de falas. Mantinha o rádio comigo, o que me trazia alguma tranquilidade. Supunha que havia outros a me seguir, sem saber se haviam tentado fazer a ligação pelo Pereira, conforme o traçado original e que, não conseguindo, haviam decidido abortar, retornando ao Ventania. Por mais que apertasse o passo, sempre com cautela para evitar alguma entorse mais séria, não alcançava o pelotão à frente (Danilo).

Figura 12. Trecho de progressão morosa e de navegação mais complexa. Em magenta: Cainã, em verde: Danilo, em preto: Ricardo, em ciano: Michele e em vermelho: Gustavo.
Uma primeira errada de navegação me tomara precioso tempo, mas nada que chegasse próximo ao ocorrido quando deixei o acesso ao Pereira para trás. Aproximadamente às 13h16 entrei num trecho de bambuzal que me tomou duas horas para avançar menos que 60 metros em linha reta. Encontrei rastros de passagem recente por todos os lados, inclusive cascas de ovo que o Rafael Soares deixara e conseguir contato por rádio com eles. Me orientaram a retornar cerca de 20 metros “trilha” acima e buscar uma fita zebrada à esquerda, o que ajudou muito. Meu psicológico trabalhava o mesmo empenho que o corpo se entregava ao varar de mato, uma grande pedra rolara, ao me apoiar nela. Caí de um barranco ao apoiar-me em um bambu que, seco, quebrou com um estalo seco. Com a informação via rádio referendada nas cascas de ovo, e todo o estresse que as tentativas e sustos haviam trazido, forcei-me a parar e a avaliar o terreno. Depois de parcialmente palmilha-lo pude mapeá-lo mentalmente: havia uma grande grota a frente e não fazia sentido que a trilha mergulhasse por ali. Entendi então que precisava retornar encosta acima e essa percepção, somada ao informado via rádio, me permitiu sair daquele labirinto (Danilo).
Vencida a guerra contra o bambuzal, interceptamos um rio, e uma trilha bem aberta, praticamente uma avenida perto do havíamos passado. Fizemos uma boa pausa para hidratação, descanso e alimentação. Danilo, que vinha logo atrás nos questionou por rádio, se o caminho era ali pelas cascas de ovos, e se nos que as havíamos deixado ali Confirmei, e orientei que subisse uma vintena de metros procurando a fita à esquerda, em meio à um embolado de bambus. Prosseguimos já por volta das 13h, rapidamente pela trilha aberta. Rafael Pereira, já havia proposto abortar a missão no próximo povoado, Santo Aleixo, e prontamente concordei, visto a surra de bambu que havia tomado. Com o avançar a passos largos, o grupo que até agora era composto por oito resistentes montanhistas, dividiu-se em dois: Rafael Soares, Ricardo, Fran, Gustavo e Diego manteriam a frente e Rafael Pereira, Cainã e Michele na retaguarda. Chegamos ao final da trilha Caxambu – Santo Aleixo e pelo t racejado do mapa, vimos uma oportunidade de cortar o caminho. Paramos em um portão com a placa propriedade privada, e tratamos de esperar os companheiros logo atrás. Com a demora destes, Diego voltou por algumas centenas de metros para comunicá-los desse atalho que faríamos, mas em vão, pois não os encontrou, mesmo esperando por 30 minutos (saberíamos depois que haviam feito uma parada para banho em uma cachoeira do Rio do Pico), enquanto Ricardo, Fran e eu descansávamos (Rafael Soares).

Figura 13. Rafael Soares na Cachoeira do Rio do Pico.
Com o retorno de Diego e a informação de que não os encontrara, tratamos de decidir nossas próximas ações: Ricardo, Fran, Diego e Gustavo estavam empenhados em prosseguir, enquanto eu, na incerteza do que haveria pela frente e no tardar das horas, afetado pelo cansaço e privação de sono da noite anterior, me despedi e tratei de voltar ao encontro dos demais, para uma possível desistência por Santo Aleixo (Rafael Soares).

Figura 14. Rústico e acolhedor rancho na descida.
Agradecemos a hospitalidade do proprietário. Já passava das 15 horas, quando os encontrei descendo, decididos a continuar também. Haviam parado em uma queda para se banhar. Sem opção, tratamos de prosseguir no plano, e enquanto passávamos pela propriedade privada (possivelmente Rancho Laurindos), encontramos o dono que foi super solicito e este nos orientou sobre a trilha que vinha a frente. Prosseguimos em uma trilha bem aberta por aproximadamente uma hora, transpondo algumas árvores caídas pelo caminho, quando subitamente a trilha desapareceu, submersa na lama de um grande deslizamento. Contornamos facilmente o trecho e com o chegar da noite nos propomos em fazer nossa pernoite no lugar mais acessível para nosso descanso. Por volta das 18h após cruzar um riacho, em uma área relativamente plana, finalizamos nosso primeiro dia. Michele montou sua barraca enquanto eu, meu xará e o Cainã ajeitamos nossos bivaques, cada um no pedaço de terreno que lhe pareceu mais favorável. (Rafael Soares)
Danilo reportou que havia vencido bambuzal e prosseguia. Orientei que seguisse o tracejado do mapa e abandonasse o desenho, e que havíamos estancado cerca de 1h30 adiante. Enquanto jantávamos, Danilo chegou, era próximo das 19h30, ao som de nossos parabéns, pois passar sozinho por aquele trecho certamente não foi dos momentos mais tranquilos da travessia e, certamente trouxe intenso aprendizado. (Rafael Soares).
Foi uma noite agradável, seca e amena. Nem o isolante inflável enchi. Só coloquei o EVA, saquei o saco pra 11ºC e dormi, sem roupa devido ao calor. Já passava das 20 horas. Combinamos de fazer o alvorecer às seis horas e retomar a pernada às sete (Rafael Soares).
Após pararmos para comer, tendo saído do “perdido da casca de ovo, decidi ir à frente no vara mato de bambuzal uma vez que eu havia estado sempre mais pra trás, porém o Ricardo estava atrás de mim e auxiliava a navegação… aí percebi o quão ruim e desgastante era estar na frente nessas horas. Acredito que tenha permanecido cerca de uma hora na dianteira, mais ou menos, até acabar o bambuzal (Gustavo).
Com a decisão de parte do grupo parar para pernoite ou abortar (não sabíamos o que decidiriam), eu, Ricardo, Fram e Diego seguimos em frente pensando nas possibilidades de acampar na base da Pedra Mãe ou até mesmo no seu cume, objetivo idílico, naquele momento. Pegamos uns trechos de trilha aberta, progredíamos bem e parecia que chegaríamos logo, até que começou a escurecer e o caminho voltou a ficar fechado. Daí em diante, foram 3h com lanternas no vara mato com espinhos, mas pelo menos sem bambus (Gustavo).

Figura 16. Terceiro acampamento. Ricardo, Fran, Diego e Gustavo.
Lembro que pegamos alguns trechos de subidas retas e laterais bem íngremes. A terra fofa, árvores velhas e espinhos segurando a gente favoreceu bastante à tomarmos uns tombos e à errarmos o caminho algumas vezes (Gustavo).
O Ricardo seguia acompanhando o avanço no relógio, o meu nem resolvia muita coisa pois não tinha um desenho que cobrisse onde passávamos e estava com pouca bateria já. Achamos um ponto que daria para passarmos a noite, porém ainda estava longe da Pedra da Mãe, então seguimos o que nos pareceu meia hora, talvez uma hora até achar um ponto ainda melhor, e dessa vez bem próximo da base da Pedra Mãe, então decidimos passar a noite ali mesmo. Estávamos todos exaustos, bem antes percebemos que já não seria possível chegar no cume no mesmo dia. Foi um espaço bom o suficiente para o Diego e a Fran armarem a barraca, enquanto o Ricardo e eu nos arrumamos para um bivaque bastante tranquilo. (Gustavo).
Dia 2
Acordei pouco após as 5h com os arrebóis das cidades ao longe se destacando em dupla com o luar que ainda se apresentava intenso. Verifiquei se havia sinal de internet ou de telefonia (Vivo), sem sucesso. Conferi as mensagens no comunicador via satélite (IReach mini) que mantenho sempre comigo em trilhas: também sem novidades. Nesses casos, ausência de noticias costuma ser uma boa notícia. Qualquer coisa que houvesse ocorrido com os demais companheiros de desafio, não havia sido solicitada nenhuma ajuda ainda. Ou não precisavam (mais provável) ou não podiam nos contatar. Deixei as apreensões para quando houvesse indicativo, ainda que fraco, de que era o caso. Todos os que estavam com paradeiro desconhecido eram muito capazes e competentes, tanto em navegação quanto em dar a melhor solução aos problemas inesperados que surgem em trilhas. Todos portavam equipamentos adequados e estavam em grupo. Todos… exceto o Danilo, até onde sabíamos.

Figura 17. Nascer do sol a partir do Ventania. Levantei, andei um pouco testando se em algum ponto havia sinal.
Retirei o saco de dormir de dentro do saco de bivaque que, se por um lado protegera a pluma do reduzido orvalhar que se observava nas folhas da relva, por outro lado provocara intensa condensação na superfície do tecido. na aresta. Troquei de roupas, vestindo minha farda de montanhista. Fiz um (mau) registro do primeiro bivaque do Lucas. Deixei as coisas preparadas para o café da manhã e esperei que os outros despertassem.

Figura 18. Amanda com Pico Maior de Magé e a crista pretendida ao fundo.
Havíamos previsto partir tarde do cume, pois a descida até a cidade tomaria cerca de 3h. Às seis estávamos despertos, preparamos o café da manha com chocolate quente e café com leite para acompanhar os últimos lanches. Estendi os sacos de dormir na relva, banhada pelo sol, tendo o cuidado de colocar as mochilas dentro deles para evitar que uma rajada mais forte de vento os levassem embora. Enquanto aguardávamos que os outros desmontassem acampamento e arrumassem as tralhas, a Amanda lembrou que descendo pela crista conseguia-se acessar um mirante rochoso que renderia boas fotos. Com tempo sobrando, tratamos de encontrar o acesso, parcialmente tomado pelo avançar da vegetação.

Figura 19. A equipe “Pereira-Ventania” Sávio, Rogério, Lucas, Maroka, Amanda, Cícero, Eduardo e Ivanildo. Registro: Ivanildo.
Descemos até o mirante, fizemos alguns registros e, 8h50 retomamos à área de acampamento, para aguardar os últimos arranjos de mochila e, às 9h37 iniciamos a descida pra cidade, passando por um ponto d’água e por algumas pessoas que desciam após terem acampado no Ventania, concluindo a travessia Cobiçado x Ventania clássica. às 11h23 fizemos uma parada em um pequeno e pouco guarnecido estabelecimento (Bar Caminho do Ventania), ponto final do ônibus, onde o único refrigerante diet era um guaraná com chapéu de couro na composição, em garrafa de 2 litros. Inusitado. Peguei alguns petiscos, mas a variedade era pequena e, para o meu paladar, pouco convidativa. A Amanda aproveitou que ali tínhamos internet, compartilhada pelo estabelecimento, para falar com a mãe dela, que estava muito apreensiva. Parece que houve uma tentativa de golpe telefônico, desses de chamadas de madrugada, muitas vezes efetuados a partir de presídios. Tudo esclarecido, prosseguimos em direção ao ponto de encontro, a Padaria Morim. Avaliando a distância e a conveniência de apressarmos nosso embarque na van para equacionarmos o resgate dos colegas que, agora sabíamos ter alcançado o cume da Pedra Mãe, prosseguimos mais algum tempo, passando em uma padaria, onde finalmente consegui uma coca-cola zero e um sorvete. Avançamos ainda uma meia hora antes de decidirmos que alcançar a padaria à pé dentro do horário previsto para resgate era menos importante que concatenarmos, de forma tão eficaz quanto possível o resgate de todos, para que o retorno a São Paulo iniciasse mais cedo, reduzindo o risco de que não houvesse metrô funcionando ao chegarmos.

Figura 20. Equipe Pedra-Mãe no cume da dita-cuja: Ricardo, Gustavo, Diego e Fran.
A Amanda contatou o Messias, nosso competente motorista e paramos para Às 13 h reportei no grupo que estávamos na padaria ( Amanda, Cícero, Eduardo, Ivanildo, Maroka, Lucas, Sávio, Matheus, eu e a moça que decidira fazer apenas o Cobiçado x Ventania Clássico). A Fran nos reportou que estavam indo em direção ao Eco Camping do Véu. Num primeiro momento orientamos para que continuassem a caminhar em direção à casa Fragoso, beira da estrada RJ 107, mas acertadamente nos informaram que havia gente que estava mais lenta e que isso tornaria o resgate menos eficiente. Nos informaram onde estavam, rua calçada.
Vamos retomar a fala aos nossos bravos e persistentes montanhistas que enquanto avançávamos de van serra abaixo, percorriam os últimos quilômetros de sua ímpar e desgastante travessia: Às cinco horas, eu já estava acordado, porém só fui dar alvorecer às seis horas conforme combinado, já cumprimentando os companheiros de pernoite. Ali mesmo, sobre o isolante saquei fogareiro e alimentação para um lauto café da manhã. Partimos às 7h20, animados pelo caminho aberto que nos era apresentado naquele trecho. Nossa alegria durou pouco pois a larga avenida, alguma estrada de outrora, foi se tornando picada, e algumas árvores caídas já prenunciavam o que nos esperava. Sem perceber, em pouco tempo já estávamos varando mato novamente, após um lance arvore gigante que caiu e derrubou toda vegetação. Na track estávamos sobre o caminho, exatamente, mas na prática, a mata não se apresentava tão fechada, sendo possível o avanço lento, em aclive. Interceptamos a trilha do desenho compartilhado, que seguiria pra base do Pico Agulha do Itacolomy. Danilo, seguindo individualmente sua track já havia se distanciado novamente (Rafael Soares).

Figura 21. Reporte preciso da equipe Santo Aleixo para a equipe Pedra Mãe. Registro do Ricardo.
Às 9h50, encontramos as cargueiras dos companheiros da equipe que prosseguira durante a noite até a base da Pedra Mãe, e concluímos que haviam partido para atacar a Pedra Mãe, trecho que já havíamos concordado previamente em abortar. Deixamos um bilhete escrito em papel de Band-Aid, informando quem compunha nosso grupo, hora em que passamos e para onde prosseguíamos.. Aproveitamos pra ficar uns minutos ali e comer algo, enquanto o Danilo já se avizinhava atrás. Tratamos de descer em uma vala que se confundia entre trilha e corredeira de água, até que após cerca de uma hora de vara mato, encontramos a trilha principal, no mapa nomeada como Travessia Andorinhas X Alvejamento (Rafael Soares).
Para encerrar essa parte, um pequeno testemunho do que foi o desafio, ainda que tenhamos exagerado um pouco na dose, trouxe evolução para todos: “Boa-noite gostaria de agradecer pela viagem , foi a trilha mais desafiadora em 10 anos e aprendi muito! Muito obrigado mesmo! Baita escola. Gostei da ideia de voltar para terminar o que ficou faltando, a região é linda e inóspita” (Danilo).
Empolgados em saber do sucesso de nossos companheiros que atacaram a Pedra Mãe, e tranquilizados por não estarmos atrasados, deixamos a tensão de lado e prosseguimos mais tranquilos, até que por volta das 10h30 saímos em uma “trilha” que claramente foi estrada em outros tempos. Essa trilha era formada por pedras de ladrilho, onde inferimos ter sido colocadas por escravos em tempos coloniais, afinal, estávamos em Petrópolis, a cidade do Império. Em cursos de água, havia pontes, e em um deles, um poço de águas esverdeadas nos cativou o olhar exausto. Tratamos de nos fixar por ali uma boa meia hora, nos banhando e tirando a nhaca de praticamente 2 dias de vara mato. Já víamos canos de água, certos de estarmos próximos à civilização, vimos pessoas transitando, depois de um isolamento quase que total, e quando partimos, cruzamos com uma moradora local, de cabelos grisalhos e galochas de borracha, muito solícita. Soubemos por ela que estávamos próximos da Cachoeira do Véu da Noiva. Se não me estou enganado, chamava-se Laura. Mora ali há uma boa trintena de anos e tinha muitas histórias adoráveis para contar. Ficamos uns bons minutos na escuta, mas precisávamos avançar. De “grupo da retaguarda”, havíamos nos tornado o “grupo da vanguarda”, mas desconhecíamos ainda como faríamos para alcançar o ponto de encontro no horário previsto (Rafael Soares).
Mais tarde saberia, pelo Ricardo que ela os informou de nossa passagem, ainda antes de encontrarem nosso bilhete. Teriam até ficado em dúvida, pois desconheciam que seguíamos seus passos. Pouco depois chegamos ao bairro de Piabetá, distrito da Vila Inhomirim, no municipio fluminense de Magé. Caminhamos um pouco mais e encontramos uma vendinha, onde um jovem comerciante, muito gentil, nos trouxe mais informações. Já se passava do meio-dia e ainda tínhamos alguma ilusão de vencer os 15 quilômetros serra acima pela trilha dos brejos, até o ponto de encontro combinado. Com o chegar do Danilo, que racionalmente ponderou impossível a proeza dentro do tempo que dispúnhamos (Rafael Soares).
Resignados de que, para atingir o ponto de resgate previsto por trilha não havia tempo suficiente, precisávamos aguardar os amigos do “grupo da retaguarda“. Procuramos adiantar a coleta de informações a respeito da trilha que deixaríamos para outra oportunidade, entre a Cachoeira Véu da Noiva e a Vila de Morin, em Petrópolis, cumeando os dois Irmãos e também os dois Brejos. Subimos até a cachoeira Véu de Noiva, 15 minutos trilha acima. À todos que encontrei ali, perguntei sobre a famigerada trilha dos Brejos, sendo totalmente desconhecida pelos moradores locais. Chegando a cachoeira, notamos que a trilha seguia serra acima pela margem direita, ou seja, à esquerda de quem sobe o rio (Rafael Soares).
Trazendo voz ao Ricardo, agora: após nos separamos do grupo que pensamos, abortaria em “Santo Aleixo” formamos um quarteto (Fran, Diego, Gustavo e eu). Apertamos o passo, sabendo que alcançar o cume da Pedra Mãe tomaria mais algumas horas de caminhada e possivelmente uma investida que se estenderia pelo noite adentro. Eram 15h45 quando nos despedimos do Rafael Soares e seguimos adiante, sem saber que o segundo grupo seguiria nossos passos, defasados de menos de uma hora. Às 16h45 já estávamos em uma subida extensa, porém suave, com momentos de vista panorâmica para o outro lado da Serra dos Órgãos e contornando a base do que acredito ser o Morro da Capela. Nesse momento olhei a altitude pelo relógio e me animei. Estávamos em cerca de 650 m, o que, comparando com a altitude que anotara ao nos despedirmos do Rafael Soares, 350 m, e progredíamos em uma trilha aberta e agradável. Nesse ponto o cansaço misturado a uma ingenuidade otimista me fez fazer as contas: sabendo que o cume da Pedra Mãe se encontra em 1000 metros de altitude e estávamos progredindo bem, os planos mudaram e cogitamos fortemente em não apenas cumear o objetivo do dia (!), mas também fazer sua descida e montar nosso acampamento/bivaque mais perto da interligação que determinava a cachoeira Véu da Noiva com a entrada para a parte dos Dois Irmãos e Brejos Maior e Menor. Não podíamos estar mais enganados! Pois o trecho seguinte foi marcado por uma descida constante nos fazendo olhar com uma certa melancolia aqueles valiosos metros tão árduos de ganhar, sendo perdidos tão rapidamente até atingir 450 metros. Após passarmos pelo rancho já citado adentramos em um bosque, onde, após o cruzo do rio, a densidade da mata roubou o a última luminosidade natural, de forma que as 17:40 já se fez necessário ligar as lanternas para caminhar, mantendo enquanto possível, o mesmo ritmo que havíamos conseguiríamos forçar até o momento. Rapidamente tomei a dianteira, reduzindo a intensidade do caminhar para que andássemos os quatro juntos (Ricardo).
Apesar da plena autonomia de todos, grupo, fiz isso por um motivo em especial: o traçado desenhando sugeria uma investida na Agulha do Itacolomi (topônimo Tupi para “Pedra com Filho”) para acessar a Pedra Mãe. Sabendo que os traçados em expedição devem ser analisados na lupa pois podem não refletir a realidade de campo, comecei a suspeitar da viabilidade de fazer essa investida entre um cume e outro, portanto, durante a semana, tratei de avaliar melhor e procurar rotas alternativas para chegar à Pedra Mãe sem necessariamente passar pela Agulha do Itacolomi. Minhas suspeitas ganharam tons de certeza quando, da Pedra do Diabo (no início da travessia), consegui observar a Agulha do Itacolomi e da Pedra Mãe, não me restando dúvidas de que seria impossível ligar diretamente os dois cumes. Ainda no Alto Ventania tratei de difundir a novidade para todos do time que estavam próximos, porém entre nós quatro, apenas eu disponha do traçado “ajustado”. Fran, Diego e Gustavo possuíam apenas o traçado original, sem esse ajuste crítico, tornando essencial que prosseguíssemos juntos. Outro ponto que condicionou nossa união foi o extenso vara mato que impôs um deslocar árduo e moroso até alcançarmos a trilha original da Agulha do Itacolomi e da Pedra Mãe. Ganhamos elevação dos 450 metros de altitude até os 720 metros. Nesse trecho, nosso caminho se mostrava escassamente aberto exigindo especial atenção na navegação, adicionalmente dificultada pela menor visibilidade. Ainda que houvesse luar, o dossel vegetal não lhe permitia iluminar nossos passos. Nesse ponto eu caminhava a frente varando o mato pelos pontos mais acessíveis declinando sempre na direção da intersecção. O Gustavo me seguia logo atrás, sendo acompanhando pela Fran e pelo Diego. Usávamos sempre a lanterna de cabeça para auxiliar aos amigos a localização relativa. Com a trilha complicando cada vez mais, o evoluir do cansaço nos obrigara a modificar os planos de outrora. Se antes ousamos cogitar cumear e descer a Pedra Mãe ainda no primeiro dia, revisamos os planos: primeiro para apenas acampar cume e madrugar para prosseguir e depois, para acampar no cume e descer com calma no dia seguinte, abandonando os Dois Irmãos e os Brejos para uma futura investida. Ao chegar na internação da trilha para Agulha do Itacolomi e do que eu havia colocado como alternativa para Pedra Mãe, consultando o relógio tive duas informações: estávamos novamente acima dos 700 metros e já eram 19:45 da noite. Exausto por acumular a função de navegador com o abrir de mato, somado às quase 14 horas de trilha, propus ao grupo uma parada mais longa, pois precisava urgentemente ingerir algumas doses de glicose. A proposta foi prontamente aceita pelos meus três companheiros, visto se encontrar em estado similar. Aproveitamos a parada para revisar uma vez mais os planos, dessa vez reconhecendo que acampar o mais próximo da base da Pedra Mãe, sem pretender cume-á-la aquela noite era grande e prudente conquista (Ricardo).
Nova conferência no mapa me fez obrigou a informar aos meus companheiros de que eu tinha uma boa e uma má notícia e ambas eram, ironicamente, a mesma: iríamos começar a descer de novo, pois a base da montanha apresentava cerca de 400 metros de altitude. Esse ponto permite ressaltar que apesar de todo desgaste, do cansaço acumulado e todos os desafios enfrentados durante o dia, o bom humor sempre se manteve presente e nós quatro, e esse trunfo, somado a um companheirismo ímpar, foi essencial para cacifarmos adiante. A interseção das duas trilhas era um espaço relativamente plano e aberto que caberia com tranquilidade uma barraca e dois bivaques, mas nesse ponto a Fran lembrou que estávamos bem longe do nosso objetivo e que se quiséssemos ao menos fazer a Pedra Mãe no dia seguinte, seria necessário andar um pouco mais. Todos de acordo, tomei novamente a dianteira e começamos a descida que, apesar de não ser uma trilha totalmente aberta, se encontrava em condições bem melhor do que a subida, rendendo um bom fim de caminhada, quando, ao chegar perto do que seria a base da Pedra Mãe, encontramos um ponto ideal para acampamento, perto do rio e lá ficamos. Nessa ocasião informei para o grupo que eu tinha em meu mapa duas entradas possíveis para iniciar a subida da Pedra Mãe. A primeira iniciando em 450 metros e a segunda iniciando em 340 metros e que eu não sabia qual das duas seria a mais fácil ou sequer se haveria alguma fácil. Mas naquele momento, já alcançadas as 21h, ninguém estava muito interessado em análises de mapa e então decidimos deixar a decisão para o dia seguinte. Despertamos as 05:30 da manhã para um café da manhã e levantar acampamento com calma. As 06:30 do segundo dia continuamos seguindo a trilha principal, já bem mais aberta, até alcançarmos o que seria a entrada dos 450 metros para Pedra Mãe. Optamos por deixarmos as cargueiras e seguirmos em modo ataque desse ponto, o que, no futuro, se revelou a opção de subida mais desafiadora, tomando a dianteira novamente, mas já com certo cansaço, fomos em subida constante e bem íngreme até o primeiro objetivo, nos 800 metros (onde as duas trilhas propostas no dia anterior se encontrariam). Apesar da subida não ser um vara-mato, os obstáculos eram variáveis: atravessar e pular galhos, escalaminhadas em caminhos de pedras, plantas com os mais diferentes tipos de espinhos e chão com terra deslizante. Vencemos com certo custo essa subida até encontrarmos um paredão intransponível, ao ponto que, consultando o Gaia, percebi que estávamos mais à esquerda do que a trilha de acesso e sugeri ao Diego trocar de lugar comigo e tomar a dianteira seguindo à direita para que eu pudesse descansar um pouco a mente e evitar a recorrência desses erros. Seguindo ora para direita e ora para cima, depois de um tempo, Diego encontrou o único trecho de escalaminhada que franqueava chegar ao falso cume. Subimos nos agarrando em pedras, troncos e raizes, sempre cuidando de não pegar em galhos podres e colocar tudo a perder, no trecho que, no meu ponto de vista, foi o mais exposto e arriscado de toda a travessia. Ao alcançarmos o ponto em que as duas trilhas se encontravam, tivemos a surpresa de que, caso tivéssemos optado por subir iniciando nos 340 metros, encontraríamos uma trilha menos íngreme, totalmente aberta, demarcada com fitas amarelas e que, aparentemente, passara por manutenção há pouco tempo. Nesse ponto tomamos a decisão de vencer os últimos 200 metros de subida para o cume e regressar por esse caminho mais acessível até a base, voltando em seguida para pegar as mochilas e concluir a travessia (Ricardo).
Era 9h40 da manhã quando alcançamos o cume da Pedra Mãe ( e por destino o mesmo horários que nossos amigos Rafael, Michele, Cainã, Rafael Pereira e Danilo passavam pelas nossas mochilas deixando o carinhoso bilhete). O tardar do horário, somado a pouca disponibilidade de água para todas as pessoas e o sol escaldante que fazia arder os ferimentos sofridos no varar de mato do dia anterior nos fez ficar no cume da Pedra Mãe por pouco menos que 15 minutos, onde tivemos a oportunidade de tirar várias fotos, apreciar a paisagem e assinar o livro do cume com nossos quatro nomes e o da Equipe Arcanjos. Após terminar a descida pela segunda trilha sem maiores percalços e sem muito contra-tempo, tivemos ainda que voltar para buscar as mochilas. No caminho encontramos a Laura, moradora local que andou um pouco com nosso grupo, apresentando várias dicas de como seria a trilha para o Véu da Noiva, falou sobre o turismo da região e nos informou que ela tinha encontrado um segundo grupo um pouco mais cedo. Naquele momento, não suspeitamos que fossem nossos amigos. Nos despedimos animados e fomos em direção às mochilas, chegando nelas por voltas das 13 h, encontrando o bilhete que foi um bálsamo em nossas dores e angustias. Rapidamente, nos equipamos para a parte final da nossa travessia encontrarmos nossos amigos da equipe Santo Aleixo e a van que trazia a outra metade da equipe para nos resgatar e retornamos a São Paulo (Ricardo).
Aproveitamos o tempo de contemplação para perguntarmos sobre locais de internet, ônibus e formas de nos locomover até o ponto de encontro, na Padaria Morin em Petrópolis, e a Sandra, jovem muitíssimo gentil, nos ofereceu carona até a rodoviária onde conseguiríamos um UBER serra acima. Descemos todos juntos, felizes pela carona que nos pouparia tempo. Passando novamente pela venda, tomamos cerveja e refrigerantes gelados, pegamos sinal de wifi, quando vimos mensagens no grupo informando da localização de todos e que vocês nos resgatariam próximo dali. Agradecemos reiteradamente a Sandra pela gentileza ofertada a completos estranhos e reportamos as boas novas, via rádio, à equipe que vinha em nosso rastro, cerca de 30 minutos atrás de nós. Brindamos à mais uma exitosa e marcante aventura por mais algum tempo. Depois caminhamos mais alguns minutos, até uma via asfaltada, onde nos instalamos na sombra de uma centenária mangueira, permitindo enfim que nossas pernas cedessem ao cansaço acumulado. Ali, enviamos nossa localização à Amanda e nos deixamos ficar curtindo o ócio, findada a nossa empreitada da vez. Às 14h27 vimos a chegando pela tranquila rua em que aguardávamos (Rafael Soares).
Partimos para o resgate, comigo informando de quando em quando a nossa previsão e chegada até eles, que ocorreu às 14h28. A estrada que utilizamos para acessá-los já nos colocava em Magé, a caminho de SP. Ao chegarmos, ainda faltava a Fram e o Gustavo que vinham em passo mais tranquilo, conversando sobre esportes. Fui até eles para verificar se havia alguma necessidade de ajuda com as cargueiras, mas estava tudo bem. Trocamos de roupas, nos arranjamos na van e retomamos o retorno a SP, agora com a equipe completa, fazendo uma parada para almoço e uma para banheiro.
Chegamos em SP 22h30 e eu, pegando o carro, em Santos às 01h10 de segunda.

Figura 22. Registro preciso e conciso da passagem no livro de cume da Pedra Mãe. Respeito à tradição do montanhismo e ao trabalho voluntário de manutenção dos registros e reposição dos livros.
Avaliação simplificada, imprecisa e despretensiosa do Desafio, por equipes: Equipe Pedra-Mãe (total): 37,56 km perfazendo 70% dos 53,48 km propostos. Equipe Pedra Mãe (parcial): 29,71 km (56%). Equipe Pereira-Ventania (total): 23,34 km (44%). Equipe Pereira-Ventania (parcial): 21 km (40%). Os números registrados acima não tem nenhuma pretensão de ranquear os participantes. A extensão percorrida por cada equipe não foi depurada de eventuais valores espúrios ou ponderada pela dificuldade de progressão de cada trajeto, e apenas está organizada por extensão de forma a reconhecer o imenso esforço que foi despendido por cada integrante no extenuante varar-demato serra abaixo e montanhas acima. Cada um de nós trilhou sob diferentes restrições, teve gente de costela quebrada (antes da trilha), teve quem não conseguiu fechar os olhos durante a viagem de ida, teve quem fazia seu primeiro bivaque, na confiança de que tudo daria certo. Independente do percentual percorrido e, mesmo do trajeto executado, todos experienciaram e se provaram fora da zona de conforto do trilhar por caminhos batidos, sob condições consolidadas. Há muito para se conhecer no mundo e o montanhismo autônomo pode propiciar esses momentos de forma segura e prazerosa. Fica o convite para se aventurarem, sempre com conhecimento, equipamento adequado, ética e, claro com responsabilidade, tanto consigo mesmo quanto com as demais pessoas envolvidas na atividade. E isso inclui os moradores das “áreas remotas” que pisamos, sejam eles humanos ou não. Nos vemos por esse mundão sem fim, paradoxalmente, minúsculo e frágil. Abraços!!








