A Teoria dos Refúgios

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Paulo Vanzolini foi descrito pelo jornalista Silvestre Gorgulho como um pouco de artista, muito de músico, bastante de cientista e um colosso de brasileiro. Vou começar pelo começo, quando ganhou aos dez anos uma bicicleta – ela o levou até o Instituto Butantã de São Paulo e isso mudou sua vida. Pois lá ele se encantou com as serpentes e resolveu que queria ser pesquisador.

Com 14 anos, Vanzo era estagiário do Instituto Biológico e, dez anos depois, havia se formado em Medicina pela USP. Esses foram anos boêmios, quando seu talento o fez compor algumas músicas conhecidas, em especial a delicada Ronda, que foi plagiada por Caetano Veloso (esse não serve para nada, comentou). Mas seu irônico autor uma vez disse sobre sua composição: É muito piegas. Tem gente que diz que é o hino de São Paulo. Que belo hino! É a história de uma prostituta que vai matar o amante.

Paulo Vanzolini – (1924-2013) no seu barco amazônico.

Ronda foi criada depois que voltou da Universidade de Harvard dos EUA com o doutorado em Zoologia. Curiosamente, só aos 40 anos seu primeiro LP foi produzido, por seus amigos do Jogral, a principal boate da época. Ele já era diretor do Museu de Zoologia, cargo que exerceu por trinta anos. Miguel Trefaut da USP diz: Quando ele assumiu a direção, havia pouco mais de mil exemplares catalogados. Hoje são mais de trezentos mil. A coleção de répteis é uma das maiores e melhores do mundo.

Vanzolini na realidade dedicou sua vida ao Museu e à sua coleção de répteis, que continuou visitando diariamente, mesmo depois de aposentado, até sua morte dez anos depois. Dele falou coisas bonitas como: Porque o museu tem a decantação no tempo. O museu tem a ciência decantada no tempo. Você tem toda a herança. O museu não é só o que se vê. É uma herança. É Isso. Museu é uma história.

Ele também disse: Reverencio a natureza. E tive uma carreira gratificante. Posso dizer que sou um pesquisador completamente realizado. Mas talvez seja possível afirmar que sua morte foi mais lastimada pela confraria do samba do que pela comunidade da ciência.

Depois de meados do século XIX, se expandiu a antiga a curiosidade dos naturalistas com a biodiversidade, especialmente a partir da geração de novas espécies em locais diferenciados.

Obras de zoogeografia começaram a pesquisar a influência das barreiras ecológicas na geografia e na vegetação para o surgimento, adaptação e irradiação de espécies. Uma barreira é o limite de expansão de uma dada espécie – por exemplo, uma região desértica, uma carência alimentar, um novo clima ou uma espécie rival.

O Neotrópico.

Esses estudos foram aplicados às aves da Austrália, aos macacos da Malásia e à África tropical. Mas eles repercutiram de verdade quando alcançaram a região chamada de neotropical. Ela se estende desde o México, o Caribe e a Flórida até a América do Sul.

Contém uma exuberante biodiversidade, com a floresta amazônica, a caatinga, a mata atlântica, a floresta andina, o cerrado e os pampas. Ela resultou antigamente da união do continente ancestral Gondwana com a América do Norte.

No Neotrópico, as variações do solo e do clima são extremas, com diversidade de precipitação, temperatura, umidade e aridez. A interação entre esses fatores cria importantes mudanças na vegetação, na paisagem e na vida animal, originando ambientes naturais radicalmente distintos. Então, ela se tornou o foco das pesquisas sobre as origens da biodiversidade.

Foi para este ambiente que o biogeógrafo alemão Jürgen Haffer propôs que a enorme variedade das aves amazônicas teria surgido devido a períodos de umidade e de seca decorrentes das glaciações durante os períodos do Pleistoceno (2.5 milhões a 10 mil anos atrás) e Holoceno (desde então até o presente). Calma, vou explicar.

Existem mudanças periódicas na inclinação, na órbita e na oscilação do eixo da Terra que influenciam a luz que incide nela, afetando o clima. Ao longo de ciclos de dezenas de milhares de anos, o planeta oscilou entre períodos secos e frios, chamados de glaciais, e outros mais quentes, chamados interglaciais.

Nos últimos um milhão de anos, houve quatro (ou seis) grandes glaciações, a última das quais atingiu seu clímax há 20 mil anos, durante o Pleistoceno.

O gelado Pleistoceno.

E as principais glaciações.

Na realidade, os chamados refúgios evoluíram durante a Era Cenozoica (de 65 milhões de anos ao presente), e não apenas durante o Pleistoceno, como achava Haffer. Foi no Cenozoico que a superfície da Terra adquiriu a distribuição atual, com seus cinco continentes, que antes estavam interligados.

E aconteceu a aurora da humanidade: os modestos hominídeos primitivos evoluíram para o dominante Homo Sapiens, talvez 200 mil anos atrás. Ele teve companhia dos mamíferos, dos quais os maiores, chamados de megafauna, vieram a desaparecer com o aquecimento do planeta, especialmente os lanudos.

Os oceanos se expandiram, as placas tectônicas se estabilizaram, ocorreram frequentes mudanças climáticas, com diversificação das vegetações e dos animais. Aconteceu a grande glaciação do Pleistoceno, ao fim do qual apareceram as savanas, as flores e as gramas.

Os mamíferos herbívoros, como cavalos e vacas, prosperaram, bem como os moluscos e os corais. E o clima estável e ameno favoreceu o desenvolvimento da humanidade, com a agricultura, as cidades, os impérios, a indústria, a era digital e a gradual redução das espécies.

Deixe-me explicar que a palavra refúgio é também usada num outro contexto parecido. Trata-se de uma unidade de conservação (chamada de RVIS – Refúgio de Vida Silvestre) que busca preservar uma espécie ou uma paisagem. Abundantes nos Estados Unidos, são poucos e recentes no Brasil, relativamente focados em ambientes marinhos. Diferentemente dos parques nacionais, não são abertos à visitação.

A Teoria dos Refúgios é uma elegante e potente solução da ciência para a biodiversidade e o endemismo na floresta amazônica e na mata atlântica brasileiras. Entretanto, a proposta de Jürgen Haffer não se baseou em dados empíricos.

Baseado na precipitação atual, ele supôs que os vários períodos de seca desde o Pleistoceno dividiram as grandes florestas em pequenas matas. Esses fragmentos florestais ou refúgios estariam separados entre si por áreas abertas com pouca vegetação – savanas, campinaranas, cerrados.

Refúgios ecológicos identificados por Haffer.

Nesses períodos de isolamento, as aves (Haffer era também ornitólogo e foi aluno do grande cientista Erwin Stresemann) estariam se especiando, ou seja, gerando novas linhagens nos refúgios capturados pelo clima.

Quando voltavam os períodos úmidos e quentes, a vegetação recobria as áreas abertas, a floresta se fechava e favorecia a distribuição dessas novas linhagens. Assim, observando hoje a floresta contínua, não teríamos noção dessa dinâmica ao longo do tempo.

Ou seja, a variação do clima causou a fragmentação dos centros de origem das espécies e o isolamento de uma parte delas em refúgios separados entre si. Neles, as populações ou se extinguiram, ou sobreviveram inalteradas ou então se diferenciaram em novas linhagens.

O modelo mais comum foi a alopatria, ou seja, o isolamento gerador de estirpes novas. A simpatria, ou convivência de espécies diferentes habitando uma mesma área, teria sido mais rara, em especial quando houvesse barreiras ecológicas.

Vanzolini, de forma independente e contemporânea, estudou a evolução do lagarto amazônico anolis, e descobriu que, além de se especiar nos refúgios úmidos, também se adaptara aos novos ambientes abertos.

Assim, foi afirmada a possibilidade da vicariância das espécies, ou seja, a existência de linhagens com ancestrais comuns, que teriam entretanto vividos apartados em locais distintos. Quer dizer, biodiversidade em dobro.

Esse processo teria sido repetido inúmeras vezes, gerando uma rápida diferenciação das espécies amazônicas. Ou seja, a biodiversidade não resultou de uma evolução lenta e estável, e sim da formação de ilhas de isolamento e mudanças frequentes. Em 1970, com o apoio do grande geógrafo Aziz Ab´Sáber e do colega Ernest Williams, Vanzo publicou seus achados num vasto artigo.

Lagarto da famíla Anolis.

Há muitos indícios de um seco passado intermitente na Amazônia, com rios de vales encaixados e divisores estreitos durante as glaciações (quando caiu o nível dos mares), que teriam ressecado a vegetação.

A presença de sedimentos grossos e pobres, de extensas camadas de areia, de afloramentos de granito causados pela erosão, e de savanas associadas a mamíferos fósseis são evidências adicionais. Com o tempo, estudos voltados para a paisagem, o clima, o solo e a flora vieram a se integrar à Teoria dos Refúgios.

Ab´Sáber comenta que a Teoria dos Refúgios ocupa a interface entre as geo e as biociências e que nada tão abrangente e dinâmico aconteceu na interpretação da origem dos domínios paisagísticos e ecológicos dos trópicos americanos (resumido). Assim como Ab´Sáber, Vanzolini era um profundo conhecedor da natureza brasileira – só na Amazônia (brasileira, peruana e equatoriana), realizou algo como trinta viagens, com mais de dez mil km percorridos.

Os trabalhos de Vanzolini mudaram a nossa zoologia, até então dedicada à descrição isolada dos animais – ele comentava que a zoologia brasileira é uma coleção de selos. Miguel Trefaut comenta assim: Ele reorienta esses estudos e passa a se preocupar com os mecanismos de especiação, com a perspectiva evolutiva, reunindo conhecimentos biológicos e geomorfológicos e avaliando os bichos em função das paisagens que habitavam.

Jürgen Haffer (1932-2010).

Aziz Ab´Sáber (1924-2012).

Deixe-me dizer que toda essa investigação da natureza como que retorna a Humboldt, o maior de todos os naturalistas do século XIX (e de sempre). Ele percebeu e documentou que a natureza era todas as coisas numa só, na interdependência maravilhosa da vida.

Os cientistas de quem falo nesse artigo estavam como que recuando em seus passos e percebendo a conexão preciosa entre a geografia, o clima e a biologia.

Paulo Vanzolini foi uma pessoa irônica, com opiniões francas e fortes sobre a ciência e a política. Manteve um longo conflito com o Museu Emílio Goeldi, a maior instituição de pesquisa do Norte – disse um dia que o trabalho do Museu na Amazônia é zero.

Sua análise sobre as obras de naturalistas do passado como von Martius e Agassiz partiu das fontes originais, num esforço raro no país. Sua relação com os acadêmicos de humanidades e com os pesquisadores de gabinete não foi fácil, pois ele era um cientista com experiência de campo, pouco afeito às superficialidades.

Vou lhe dar um exemplo da rude franqueza de Vanzo: A Amazônia inteira quer derrubar a floresta. Principalmente o pessoal que vive lá mesmo. O único jeito seria diminuir a população … Não existe desenvolvimento sustentável. É uma besteira completa. Enquanto tiver gente e gente fazendo mais gente, como você vai comer sem plantar, sem matar os bichos que estão por lá? Agora pense um pouco, é exatamente o que tem acontecido.

Isto contribuiu, segundo a Fundação Osvaldo Cruz, para o modesto impacto dos escritos de Vanzolini na corrente dominante da ciência no Brasil. E talvez por sua própria modéstia, que ele chamava de generosidade. Nem deveria chamar Teoria dos Refúgios. Fizemos apenas um modelo de especiação de uma espécie. Um bicho. Nós não desenvolvemos nada. 

Mas Haffer também era generoso e, quando soube do estudo brasileiro, viajou para conhecer e apoiar Vanzolini. Assim, a teoria ficou ligada a ambos. Como eram membros de escolas importantes, seus ensaios logo atraíram atenção da comunidade científica. É evidente que receberam críticas, que a meu ver não pareceram refutar a teoria, apenas aperfeiçoá-la.

No fim da vida, Vanzo deu uma entrevista, em que comentou: Com alguns de meus amigos, ainda me encontro para bater papo e ouvir música. Outros já foram embora e me sobrou a sensação terrível de perda pessoal. Sem eles, diminuí, fiquei menor … Sou um homem em paz. Feliz? Não sei qual foi o filósofo …  que disse só ser possível julgar se uma pessoa foi feliz ou não depois de sua morte, porque é imprescindível ter uma morte feliz também.

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Sobre o autor

Nasci no Rio, vivo em São Paulo, mas meu lugar é em Minas. Fui casado algumas vezes e quase nunca fiquei solteiro. Meus três filhos vieram do primeiro casamento. Estudei engenharia e depois administração, e percebi que nenhuma delas seria o meu destino. Mas esta segunda carreira trouxe boa recompensa, então não a abandonei. Até que um dia, resultado do acaso e da curiosidade, encontrei na natureza a minha vocação. E, nela, de início principalmente as montanhas. Hoje, elas são acompanhadas por um grande interesse pelos ambientes naturais. Então, acho que me transformei naquela figura antiga e genérica do naturalista.

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