Guiar expedições e trekkings para o Everest Base Camp (EBC) é uma das experiências mais transformadoras que alguém pode ter na vida. Já conduzi esse roteiro mais de dez vezes, e cada subida por aqueles vales reforça o porquê de o Himalaia ser um dos lugares mais bonitos e impactantes do planeta. A grandiosidade das montanhas, a cultura sherpa e a jornada a pé criam memórias indeléveis. No entanto, retornar anualmente à região também tem me permitido testemunhar uma transformação perigosa nos céus e nas trilhas — uma realidade que cobrou seu preço de forma trágica mais uma vez.
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O recente e lamentável acidente entre helicópteros ocorrido em Pheriche não é um evento isolado ou mero fruto do acaso; ele escancara uma ferida aberta no turismo de montanha moderno. Para quem vive a rotina do Himalaia, a sensação de deja vu é amarga. No ano passado, exatamente nesta mesma época do ano, um helicóptero já havia sofrido um acidente nas proximidades de onde meu grupo estava caminhando em Lobuche. O que antes eram incidentes raros e estritamente voltados a resgates de emergência em condições limite, hoje se tornaram cenas recorrentes de um tráfego aéreo caótico.

Helicóptero na base do Everest. Foto Pedro Hauck.
O cerne dessa crise passa pela distorção comercial promovida por muitas agências. Uma prática que se popularizou enormemente foi a venda de pacotes onde o trekker sobe caminhando até o EBC, mas tem a volta por helicóptero. Ocorre que voar de helicóptero em altitudes extremas é inerentemente perigoso, incerto e complexo. Devido a isso, as autoridades de aviação civil impuseram restrições operacionais em Gorak Shep, a última vila antes da base, reduzindo pela metade o número de passageiros por aeronave e aumentando as filas e os preços.
Nesse cenário, surge uma cruel realidade financeira: embora os valores dessas viagens sejam relativamente acessíveis se comparados aos de outras regiões do planeta, esses voos passam longe de ser baratos. Cobrava-se cerca de US$ 2.500 por pessoa para voar do trecho de Gorak Shep até Catmandu. O aspecto financeiro, contudo, jamais atuou como um obstáculo verdadeiro na região do Everest, onde os viajantes pagam o valor que for preciso unicamente para se livrarem da jornada de regresso a pé.
Diante da pressão e do risco em Gorak Shep, as autoridades forçaram a operação a descer para Pheriche. Pheriche é mais baixa, mais ampla e oferece espaço de sobra para as operações aéreas. Ironia trágica do destino, ou consequência inevitável da pressão logística, foi justamente lá que o acidente ocorreu.
Isso tudo nos obriga a fazer a pergunta mais óbvia e incômoda: por que as pessoas simplesmente não voltam caminhando?
O trekking de retorno pela região é absolutamente espetacular, muitas vezes até mais bonito que o de ida, seja atravessando a exigência técnica e visual do Cho La Pass, seja descendo pelo lado oposto do vale e passando por Phortse. É um absurdo completo transformar uma atividade de montanha em um roteiro onde a volta é feita de helicóptero para atender à pressa ou ao comodismo de quem vai sem tempo ou totalmente fora de forma e sem preparo.
A negligência dos trekkers e a conivência das agências criaram uma saturação insustentável. A aviação na alta montanha deveria existir exclusivamente para salvar vidas em casos extremos, e não para mascarar o sedentarismo.
Venha para a base do Everest caminhando, desafiando seus limites e admirando a linda natureza do Himalaia, e não tenha no seu planejamento um voo. Pense em transformar sua volta num outro passeio, retornando pelo vale de Gokyo há um outro Nepal, com menos gente e muito mais autêntico. O trekking se faz andando.
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1 comentário
Lamentável o ocorrido. Aproveitando a oportunidade. Vimos que o clima no momento está estranho para a alta temporada, provavelmente devido ao El nino. A soul outdoor cancelou a expedição que ocorreria agora no trekking do EBC? Pergunto porque pretendo fazer o trekking, mas agora o dilema é: vou em abril/maio, quando é temporada de escalada e consequentemente mais caro e movimentado ou continuo tentando ir outubro/novembro?