Brasileiros escalam o Monte Kun, montanha de 7 mil metros no Himalaia indiano

0

Uma equipe organizada pela agência de expedições curitibana Soul Outdoor,  tornou-se a primeira expedição brasileira a alcançar o cume do Monte Kun, montanha de 7.077 metros de altitude localizada no maciço de Nun-Kun, na remota região de Ladakh, no norte da Índia.

Integrantes da equipe no cume. Foto: Pedro Hauck

Liderada pelos experientes guias Pedro Hauck e Maria Tereza Ulbrich, a expedição teve duração de 20 dias, sendo 14 deles dedicados exclusivamente a escalada na montanha. Além dos dois guias, chegaram ao cume os brasileiros Wenceslau Madeira, de Belo Horizonte, e Thiago Melo, de São Paulo. O grupo contou também com o montanhista russo Alexander Ignatov, parceiro de longa data de Hauck, com quem já havia escalado o Spantik (7.027m) no Paquistão, em 2024, além de outras montanhas nos Andes e na África; Ana Lícia Sudo, montanhista com ampla experiência em montanhas acima de seis mil metros nos Andes; além de Michele Bastos e Marcio Moreira, uma casal de montanhistas curitibanos apaixonados por alta montanha

Maria Tereza Ulbrich no cume do Monte Kun. Foto: Pedro Hauck.

O “Pequeno Tibete” e a tríplice fronteira nuclear

Essa expedição foi uma grande aventura não apenas pela altitude, mas pela complexidade do território. Conhecido geograficamente e culturalmente como o “Pequeno Tibete” da Índia, Ladakh é um deserto de altitude marcado pela forte herança budista e monastérios encravados nas montanhas.

No entanto, a paz cultural contrasta com a extrema tensão geopolítica. O território é disputado simultaneamente por Índia, Paquistão e China, configurando-se como a única região do mundo reivindicada por três potências nucleares. Como consequência dessa disputa histórica, Ladakh é uma área altamente militarizada e sob vigilância constante. Embora o último embate armado na região tenha ocorrido em 1999, durante a Guerra de Kargil — travada nas imediações do próprio acesso à montanha. Esse cenário de forte controle fronteiriço torna a obtenção de permissões e a logística local um desafio à parte para qualquer expedição.

Desafio técnico e a barreira do Acampamento 2

Superada a complexidade geopolítica e o acesso, o Monte Kun é conhecido por impor desafios físicos e técnicos logo nos primeiros dias de ascensão. Segundo o guia líder, Pedro Hauck, a progressão exigiu a montagem de uma estrutura rigorosa, dividida em quatro estágios: o Acampamento Base a 4.500 metros, Acampamento 1 a 5.300 metros, Acampamento 2 a 6.100 metros e o Acampamento 3 a 6.300 metros, de onde a equipe partiu para o ataque ao cume.

Trecho ingríme no Monte Kun. Foto: Pedro Hauck.

Ainda segundo ele, o trecho mais crítico e exaustivo de toda a escalada foi a chegada ao Acampamento 2. Para alcançar a cota dos 6.100 metros, os montanhistas precisaram superar uma impressionante parede vertical de neve e gelo, suportando o peso das pesadas mochilas cargueiras em uma atmosfera já bastante rarefeita. Essa barreira técnica testou o limite físico da equipe muito antes da investida final rumo ao topo.

Isolamento e o futuro das expedições

A conquista possui um peso ainda maior devido à extrema escassez de expedições sul-americanas — e especialmente brasileiras — no Himalaia indiano. Ao contrário das rotas tradicionais e amplamente comerciais do Nepal, a região de Ladakh oferece um ambiente de isolamento severo, demandando dos montanhistas uma enorme capacidade de autossuficiência e resiliência.

Grande platô que separa o Monte Kun e o Monte Nun na Índia. Foto: Pedro Hauck

No entanto, Hauck observa que apesar das dificuldades impostas pelo terreno técnico, pelo frio extremo e pela forte presença militar na região, o saldo da expedição foi além do feito esportivo. “A equipe retornou profundamente impressionada com o cenário do Himalaia indiano e com a simpatia genuína do povo ladakhi”, contou. A imersão nessa cultura resiliente selou a certeza do grupo: Ladakh é um destino de exploração com enorme potencial, e os guias da Soul Outdoor já planejam o retorno para organizar novas expedições brasileiras nesta região ímpar e selvagem da Ásia.

Compartilhar

Sobre o autor

Maruza Silvério é jornalista formada na PUCPR de Curitiba. Apaixonada pela natureza, principalmente pela fauna e pelas montanhas. Montanhista e escaladora desde 2013, fez do morro do Anhangava seu principal local de constantes treinos e contato intenso com a natureza. Acumula experiências como o curso básico de escalada e curso de auto resgate e técnicas verticais, além de estar em constante aperfeiçoamento. Gosta principalmente de escaladas tradicionais e grandes paredes. Mantém o montanhismo e a escalada como processo terapêutico para a vida e sonha em continuar escalando pelo Brasil e mundo a fora até ficar velhinha.

Deixe seu comentário