Sou geógrafo físico formado pela UNESP Rio Claro e mestre pela Universidade Federal do Paraná (UFPR), onde dediquei minha pesquisa acadêmica à investigação dos paleoclimas, estudando como as flutuações climáticas do passado moldaram as paisagens ao longo dos milênios. Fora da academia, divido essa perspectiva com a vivência prática do montanhismo de altitude há 28 anos, guiando e explorando as altas vertentes dos Andes e de outras grandes cordilheiras do planeta.
Essa dupla condição, de cientista que entende a dinâmica do clima geológico e de montanhista que pisa no terreno temporada após temporada, me dá uma visão bastante incômoda. Quem olha para uma montanha a partir da planície costuma enxergar nela o símbolo máximo da permanência. A rocha parece eterna, sólida, impassível diante da passagem do tempo humano. Mas para quem dedica a vida a subir suas encostas, a realidade é outra: as montanhas estão vivas, e hoje estão desmoronando sob os nossos pés.
Nas minhas quase três décadas de atividade, eu não vi ciclos normais de oscilação ou temporadas de recuperação. Eu só vi as condições piorarem.
Há um sentimento amargo e difícil de engolir que me acompanha com frequência. Costumo pensar que, justamente quando chegou a minha vez, a maturidade física, a experiência técnica acumulada, a capacidade logística de encarar as grandes linhas e as lendárias paredes clássicas, as montanhas decidiram fechar as portas. Não por capricho místico, mas pela deterioração acelerada e sem precedentes do ambiente alpino. Compreender a escala de tempo dos paleoclimas torna ainda mais assustador testemunhar, na curta janela de uma única vida humana, o colapso físico de rotas e vertentes que levaram épocas geológicas inteiras para se consolidar. Somos a geração que herdou os relatos dourados do montanhismo clássico do século XX, mas que encontrou no terreno um cenário de ruína e escombros deixado pelo colapso climático.
O permafrost e a perda do cimento da rocha
O que o debate público costuma tratar de forma genérica como “aquecimento global” traduz-se em termos geomorfológicos muito concretos e violentos na alta montanha: degradação acelerada do permafrost, retração glacial vertiginosa, desestabilização de seracs e desmoronamentos maciços.

Fotos tiradas por Pedro Hauck na Bolívia
O gelo nas grandes paredes nunca foi apenas um elemento estético ou um suporte técnico para fixação de crampons e piolets; ele funciona como a verdadeira cola geológica que mantém paredões verticais coesos. Quando a isoterma de zero grau se eleva a patamares nunca antes registrados, esse cimento invisível derrete. A rocha que antes estava soldada pela temperatura negativa passa a se desagregar, e o que outrora era uma canaleta clássica de neve congelada transforma-se em um corredor de tiro constante de rocha podre.
Vimos as consequências dramáticas desse processo no Huascarán, na Cordilheira Branca do Peru, onde colapsos gigantescos de massas de gelo e rocha já não escolhem estação para despencar sobre vales e rotas de ascensão. Vimos isso recentemente no Himalaia, no Gangapurna West, onde linhas estéticas e ambiciosas em faces virgens cobram um preço trágico diante da instabilidade de terreno e da fúria meteorológica. E vemos isso, temporada após temporada, na maior sentinela das Américas: o Aconcágua.
A Parede Sul do Aconcágua: burocracia ou constatação fática?
Recentemente, a decisão da administração do Parque Provincial Aconcagua de formalizar o fechamento preventivo e as restrições à lendária Parede Sul gerou discussões acaloradas. Contudo, para qualquer um que conheça a dinâmica daquela vertente de quase 3.000 metros de desnível vertical, a proibição governamental nada mais é do que uma formalidade burocrática sobre um fato consumado pela própria natureza.
A verdade nua e crua é que há muito tempo praticamente ninguém se mete ali. E isso não se deve a uma suposta falta de coragem ou de equipamento de ponta da comunidade montanhista, mas sim à pura sobrevivência: quem se meter naquela parede fora de uma janela muito restrita vai, invariavelmente, se dar muito mal. Diante do bombardeio constante de pedras, do colapso de seracs e da impossibilidade física e técnica de qualquer operação de resgate naquela imensidão em ruínas, os gestores do parque apenas reconheceram no papel o que a montanha já havia decretado na prática.
Mais do que isso: qualquer alpinista experiente sabe que a restrição de calendário no verão é uma redundância fática, porque a janela de escalada técnica na Face Sul sempre foi ditada pelo frio rigoroso. Quem tem pretensão real de escalar aquela parede não vai esperar o calor seco de janeiro ou fevereiro; tem que entrar em novembro, aproveitando a umidade remanescente congelada, a consistência das canaletas de gelo e o frio do meio da primavera. O verão andino, no cenário térmico atual, transformou aquela vertente em uma roleta-russa intransponível.
Rotas clássicas que viraram fósseis
A Face Sul do Aconcágua é apenas o exemplo mais visível de uma realidade generalizada. Ao longo desses 28 anos, assisti ao desaparecimento de rotas históricas inteiras. Vias normais que se tornaram intransitáveis por gretamentos caóticos e imprevisíveis; corredores de neve que secaram por completo, expondo cascalheiras soltas e paredes instáveis; glaciares que se despedaçaram em campos de escombros e lagoas proglaciais de risco iminente.

Face Sul do Aconcágua vista de Plaza Francia
Trata-se de uma perda silenciosa e irreparável para a cultura do montanhismo mundial. O terreno para o qual nos preparamos tecnicamente ao longo de uma vida inteira já não existe mais como antes. O romantismo das grandes conquistas de outrora choca-se, hoje, contra a intransigência absoluta das grandes cordilheiras: a natureza não admite concessões.
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A gangorra dos extremos: da seca severa ao dilúvio
Mas o paradoxo dessa nova era não se resume a ver o gelo evaporar no calor. Ao mesmo tempo em que assisti ao recuo impiedoso das geleiras, presenciei o exato oposto: temporadas e anos anormalmente quentes marcados por tempestades brutais e volumes de precipitação muito acima de qualquer padrão histórico.
Essa é a física elementar da atmosfera: mais calor no sistema injeta mais energia cinética e evaporação, gerando massas de ar carregadas, convecção violenta e precipitação torrencial. Onde antes predominavam padrões sazonais previsíveis, passamos a viver em um pêndulo desgovernado entre extremos. Ou encaramos secas severas que esfarelam as paredes e secam os mananciais de altitude, ou somos bombardeados por nevascas e tempestades desproporcionais que soterram rotas e fecham janelas meteorológicas de forma abrupta.
O equilíbrio térmico e hidrológico necessário, aquela estabilidade serena de pressão e frio constante que consolidava o gelo e permitia progressões limpas e seguras, está cada vez mais distante. Hoje, planejar uma expedição tornou-se um exercício de gestão de anomalias meteorológicas contínuas.
Nas grandes altitudes, a bravura e a ambição de explorar linhas virgens ou reviver clássicas colossais precisam, obrigatoriamente, conviver com a lucidez fria diante dos perigos objetivos. Há momentos e montanhas que simplesmente não negociam. Saber reconhecer quando uma rota se tornou intransponível e aceitar os limites de segurança não é abrir mão do espírito do montanhismo, é demonstrar a sabedoria de quem compreende a dinâmica da Terra e pretende continuar vivo para testemunhar, e documentar, as transformações deste mundo que derrete e desaba diante dos nossos olhos.







