Huascarán: O colapso climático e o preço das montanhas que derretem

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Quando escrevi recentemente sobre a avalanche que vitimou Nimsdai no Paquistão, recebi inúmeros questionamentos sobre o peso das mudanças climáticas naquele trágico evento. Não posso cravar com absoluta certeza a influência climática direta no Karakoram, embora, quando estive lá, os relatos locais de que o clima “já não é mais o mesmo” fossem unânimes. Porém, quando voltamos os olhos para os Andes, e especificamente para o Huascarán, a vivência prática no gelo e a dinâmica geográfica me permitem afirmar com clareza: as mudanças climáticas transformaram a montanha mais alta do Peru. O que antes era um cume clássico e bastante escalado, hoje é um ambiente letal.

Huascarán Norte e Sul no Peru.

Testemunha viva das mudanças climáticas 

Já falei inúmeras vezes, por vídeo ou por artigos, o que vi e vivi nas últimas quase três décadas de ascensão em montanhas pelo mundo. Como destaquei em uma entrevista à Folha de S.Paulo em novembro de 2022, em uma matéria cujo título pontuava com precisão: “Sou testemunha viva das mudanças climáticas“, venho acompanhando esse derretimento de perto. Eu não preciso de uma projeção gráfica para saber que as montanhas estão colapsando; eu vi com meus próprios olhos geleiras imensas onde hoje só há rocha podre e cascalho instável. O recuo acelerado dos glaciares não é um processo distante, é uma realidade brutal que altera a topografia, destrói as rotas de ascensão nas montanhas e acaba com o frágil equilíbrio das cordilheiras.

:: VEJA MAIS: Vídeo de Pedro Hauck sobre as mudanças climáticas. Canal AltaMontanha no YouTube.

Esta temporada de 2026 na Cordillera Blanca tem sido brutal e não deixa margem para romantismos. No início de agosto, o jovem chileno Andrés Regueira perdeu a vida após uma queda impressionante de quase 900 metros enquanto escalava a complexa, vertical e perigosa rota Gusher.

Seu companheiro de cordada era Michael Millán. Conheci Millán no ano passado, no Alpamayo, quando ele fez o cume solando. Ele é um montanhista extremamente técnico, bem treinado e de uma força descomunal. Após a queda de Andrés, o preparo físico e mental de Michael foi testado ao limite absoluto. Ele conseguiu descer, dar o alerta, organizar a ajuda e, após dormir meras duas horas, voltou a subir a montanha, guiando as equipes de resgate exatamente até o local onde o corpo do amigo estava. O trauma dessa experiência cobrou seu preço. Em um desabafo recente, Michael afirmou não estar bem mentalmente e anunciou seu afastamento das redes sociais. É a montanha (e claro, as redes) cobrando não apenas vidas, mas a paz dos que ficam.

A montanha já havia cobrado outras vidas semanas antes. Os montanhistas peruanos Alejandro Ugarte, Saúl Mendoza e Artidoro Salas desapareceram em meio a uma tempestade depois de subirem pela rota do Escudo. Sem visibilidade, eles provavelmente caíram em uma das enormes gretas de quase 100 metros de profundidade que atualmente cortam o glaciar. Os corpos dos três continuam sumidos. Após essa tragédia, o Huascarán chegou a ser fechado, o que gerou ainda mais controvérsia em torno do posterior acidente com Andrés e Millán.

Avalanche no Nevado Huascarán. Foto Pedro Hauck

A morte ronda o Huascarán: Minha experiência na montanha 

A morte, infelizmente, rondou todas as minhas tentativas nessa montanha. A primeira, em 2016, terminou no saguão do aeroporto no Peru, quando recebi a notícia de que uma avalanche havia soterrado uma equipe mexicana, fechando a montanha. Fiquei anos sem poder tentar novamente, até que, em 2022, após ministrar um curso de alta montanha na Bolívia e estar perfeitamente aclimatado, encontrei a janela ideal.

Ao lado de Maria T. Ulbrich, encaramos o karma de carregar 40 kg de equipamento e comida, de forma totalmente autônoma, até o refúgio. A recepção? Uma operação de resgate de um equatoriano que havia caído em uma greta. Vi o corpo dele. O baque psicológico foi duro, mas o encontro fortuito com Maxi Cavallin e Christian Rivera nos deu fôlego para tentar. Após um ataque frustrado ao cume, em que a neve e a escuridão de uma noite sem lua nos forçaram a recuar, retornamos dias depois. Dessa vez, deparamo-nos com mais uma operação fúnebre: o mesmo glaciar que derrete rapidamente havia acabado de exumar os restos mortais de três montanhistas vitimados por uma avalanche há mais de duas décadas. O cenário de equipamentos e restos espalhados pelo gelo era horripilante.

Restos de um montanhista exumado no glaciar do Huascarán em 2022. Foto Pedro Hauck

Maxi decidiu recuar ali. Eu e a Maria seguimos para o Campo 2, passando novamente pela temida Garganta. O esforço físico e o desgaste foram tão extremos que a menstruação da Maria desceu, e ela, exausta e respeitando os limites do próprio corpo, não pôde tentar o ataque final.

Foi então que cruzei com os irmãos Alejandro e Ariel Alarcon do México. Juntamos forças em uma ascensão árdua. A rota estava minada de trechos perigosos, pontes de neve duvidosas e uma inclinação que testava as pernas a cada passo. Foi uma escalada de pura superação psicológica e física, exigindo concentração absoluta para ignorar a exaustão. Chegar àquele cume a 6.768 metros não foi uma conquista de ego, mas uma batalha de sobrevivência e teimosia. A descida exigiu ainda mais frieza para voltar ao acampamento em segurança.

Minha história com o Huascarán ainda não terminou ali. Tentei voltar mais duas vezes com a intenção de fazer o cume com a Maria e também escalar o Huascarán Norte, que é a décima montanha mais alta dos Andes. Na primeira tentativa, as condições climáticas e a instabilidade do gelo mantiveram a montanha fechada. Na segunda, a montanha foi fechada novamente após o trágico acidente que tirou a vida de uma montanhista japonesa.

O Huascarán popular e democrático do passado não existe mais. A rocha está cedendo, o gelo está apodrecendo e as rotas estão desmoronando. Continuar escalando nessa montanha hoje exige não apenas um preparo físico monumental e domínio técnico, mas uma reavaliação profunda do que consideramos um risco objetivo aceitável. As mudanças climáticas deixaram de ser apenas dados em gráficos científicos; elas são o som do gelo rachando sob os nossos crampons e o silêncio doloroso dos companheiros que não voltaram para casa.

 

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Sobre o autor

Natural de Itatiba-SP e residente em Curitiba-PR desde 2007, Pedro Hauck é uma figura proeminente no montanhismo brasileiro. Sua formação inclui graduação em Geografia pela Unesp Rio Claro e mestrado em Geografia Física pela UFPR. Com uma carreira de mais de 27 anos, ele é guia de montanha profissional e instrutor de escalada credenciado pela ABGM, a única associação de guias de escalada profissional do Brasil. Seu currículo inclui a ascensão de mais de 180 montanhas acima de 4 mil metros, com mais da metade ultrapassando os 6 mil metros, além de um pico de 8 mil metros no Himalaia e dois de 7 mil. Pedro Hauck também atua como empresário do setor outdoor, sendo sócio da Loja AltaMontanha, uma das mais conceituadas lojas de montanhismo do país, da Via AltaMontanha, um dos maiores ginásios de escalada de Curitiba, e da Soul Outdoor, agência especializada em ascensão, trekking e cursos de montanhismo. Acompanhe Pedro Hauck no Instagram: @pehauck.

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