Diamantina x Conselheiro Mata via Serra do Pasmar – ARCANJOS e MDA

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Diamantina x Conselheiro Mata via Serra do Pasmar ARCANJOS e MDA A partir do percurso da trilha Verde da Maria Fumaça, roteiro de turismo rural, com presença constante de ciclo viajantes, o grupo Arcanjos desenhou uma travessia inédita, entre serras e cachoeiras, após um estudo detalhado, baseado em cartas topográficas, registros e relatos para otimizar a experiência, visando minimizar as áreas urbanas, através do Cerrado Mineiro.

Fig. 1 – Arranjo de equipamentos, autônomo, 3 dias, 6,5 kg sem água.

Mochila UL de 20 litros, fabricação artesanal da Falcão Negro. Mapas elaborados para redundância secundária de navegação. Em um feriado de grande ousadia, a Equipe Arcanjos partiu da estação de metrô Tatuapé para efetuar três diferentes travessias: a clássica e linda Lapinha – Tabuleiro, cumeando o Pico do Breu, a restrita Alto Palácio x Serra dos Alves, objeto de relatório específico para os gestores e a pernada objeto desse relato, uma extensa travessia autônoma entre a cidade de Diamantina e o vilarejo de Conselheiro Mata. Após uma longa viagem de 900 km em mais de 12 horas de van, chegamos a Diamantina. Desembarcamos, fizemos os últimos ajustes de equipamentos, nos despedindo do Ronald, que faria um percurso diferente, nos encontrando na pequena Conselheiro Mata, para o retorno. Esse é um aspecto que mais aprecio nos Arcanjos, o fomentar do montanhismo autônomo. Nada soube do trajeto que ele pretendia fazer, mas suponho que, dada a sua grande experiência, tenha tomado os cuidados devidos.

Fig. 2 – Gerson e Juninho, Cachoeira das Andorinhas, parte alta.

Com as mochilas nas costas, com todo os equipamentos necessários para os três dias de trekking, partimos às 10h19 para a Cachoeira das Andorinhas, alcançada às 12h06. Fizemos uma curta parada para banho e lanche, antes de retomarmos a caminhada, com as roupas encharcadas para enfrentar o intenso sol que não daria trégua durante todo o dia. Testamos um rastro que eu havia suposto viável à direita, que permitiria cortar alguns poucos quilômetros de trilha, mas a vegetação espinescente me fez optar por seguir o caminho mais batido, evitando o atalho pensado. Caminhar alguns “extras” seria uma regra para mim e para a Amanda, nessa pernada. Ela entrara na cachoeira com o celular no bolso do short e agora, tentava ressuscitá-lo por ser seu equipamento de navegação principal. Caminhando em passo tranquilo, apreciando a espetacular paisagem do cerrado, alcançamos a bifurcação que franqueia o acesso ao Poço do Alquimista ou do Gambá morto, a depender da referência. Às 13h50, fiz uma curta parada para banho, preparamos um litro de refresco em pó de guaraná para acompanhar os lanches que a Amanda trouxera e voltamos a caminhar. Agora, buscávamos uma tal “casa de pedra” e as pinturas rupestres que tínhamos informação de que existiam ali.

Fig. 3 – Amanda, Rafael e Diego. Cachoeira das Andorinhas, parte baixa.

O track de referência apresentava ali uma curva pouco orgânica, desviando do rastro batido e andamos algumas centenas de metros antes de nos atentar que o desvio dava acesso a casa de pedra e às primeiras pinturas rupestres da nossa travessia. Ao perceber, voltamos sobre nossos passos até interceptar um rastro que seguia na direção de interesse. Passamos sob os arames da cerca e, às 15h02 tiramos as mochilas para apreciar os registros e a singular habitação, que abrigaria até umas 10 pessoas em um acantonamento espartano. Ao sairmos, às 15h07, já tendo uma visão privilegiada dos arredores, traçamos uma rota mais curta para retomarmos o trecho de 2 estrada de terra que havíamos percorrido pouco antes. Ao nos aproximarmos, encontramos a Alacy que caminhava com alguma dificuldade. Saberíamos depois que estava com bolhas nos pés, já há algum tempo. Cruzamos a BR367 que conecta Santa Cruz Cabrália (BA) a Gouveia (MG), próximo à uma cruz em memória de alguém que falecera em acidente ali, e passamos a caminhar em fila indiana em seu estreito acostamento, no contrafluxo. Pouco depois, uma segunda cruz, de outro momento, nos fez perceber o quanto aquele trecho era exposto e delicado.

 

                                                                                               Fig. 4 – (E) Amanda e pictogramas na “Casa de Pedra” proximidade Guinda. (D) Amanda na entrada do intrigante abrigo.

Caminhamos em passo célere, pouco mais de 1200 m pela estrada asfaltada para, em um pequeno trevo retornar às estradas de terra que somariam a quase totalidade do nosso caminhar fora de trilhas. Pouco tardou e passamos a encontrar companheiros de viagem que vinham em sentido contrário: tendo chegado por demais cedo no ponto de acampamento, queriam aproveitar que ainda havia algumas horas de luz, já que era apenas 15h45 para adiantar um tanto a caminhada do dia seguinte. Fizemos uma breve avaliação das alternativas e decidimos por pernoitar no ponto planejado, por acreditarmos que seria a melhor opção. Durante o planejamento, como ignorávamos o horário real em que começaríamos a caminhada do primeiro dia e, caso todos pernoitassem juntos, haveria necessidade de uma área mais ampla, arbitramos nosso primeiro pernoite às margens da Lagoa Azul. Haveria tempo de montar um bom acampamento, em lugar plano e reservado. Talvez uma caminhada até o povoado para o conhecermos. O Denis, a Isa, o Caio, o Juninho e o Max seguiriam para buscar um ponto de acampamento mais à frente. O Davi manifestou que buscaria uma carona para evitar o trecho de estrada, o que não me pareceu fazer muito sentido, pelo planejado o trecho em estrada seria pouco extenso. De qualquer modo, cada um sabe onde lhe aperta o calo e informamos que manteríamos o planejado.

Fig. 5 – Totem Sinalizador da Trilha Verde da Maria Fumaça.

Caminhando sem forçar o passo, às 15h55 alcançamos o ponto de acampamento onde o Danilo e o Pássaro apreciavam o entardecer às margens da bucólica lagoa. Aproveitei para coletar água de uma nascente, escolhemos um local plano e abrigado da visão da estrada para montar nossas barracas e às 16h07 estávamos com nosso teto para a noite montado. Havia escolhido uma VIK, do tipo autoportante, para esse feriado, pois a altimetria era relativamente pequena. Tirei os tênis, constatando grandes bolhas nos pés, na sola e na lateral do calcanhar. Prometi que me livraria do tênis assim que concluísse a travessia, pois mesmo com uma amarração bastante criteriosa, ainda me causara doloroso desconforto. Como a Amanda transportava na cargueira dela meu par de Crocs, recoloquei as meias e vesti as sandálias e acompanhei a Amanda numa incursão para conhecer o povoado, buscar esparadrapo, Coca-Cola e conseguir uma omelete. Por telefone, a Michele havia sinalizado que estavam num restaurante muito singular, que merecia a visita. Aproveitando a abundante disponibilidade de sinal, o Cicero reportou ao Danilo que havia se perdido do grupo. Tranquilamente, orientamos que observasse o Protocolo de Emergência, identificando a sua localização para avaliarmos como poderíamos ajudar. Retornou a surpresa: não sabia fazê-lo. Em conversa com um ciclista, entendera que, se permanecesse na direção em que estava indo chegaria, a Tubarão. Deixamos a dupla Pássaro-Danilo tentando orientá-lo e tocamos para o povoado. Enquanto caminhávamos, ponderávamos as implicações do perder-se do Cícero, concluindo que ocorrera em um trecho com baixíssima exposição, pois contava com sinal de celular para comunicação, até mesmo de internet, era cortado por estradas e relativamente frequentado por ciclistas. Ele dispunha de equipamento completo para o pernoite, que se desenhava seco e prometia temperaturas amenas. O Danilo lhe enviara a localização do nosso acampamento e ainda havia um bom tanto de horas para desenrolar a coisa. Causava alguma apreensão a informação de que seguia em direção a Tubarão, pois com esse nome havia apenas um rancho, a cerca de 40 quilômetros de nós.

Fig. 6 – Amanda com a laboriosa omelete, em Guinda.

Quase chegando ao encontramos o povoado, trio de corredores, Michele, Fram e Sávio, rindo tão alegremente que desconfiamos que esse tal restaurante tivesse bartender no lugar de chef. Ledo engano, os pratos eram elaborados, mais que a simplicidade das casas faria supor. De passagem, encontramos um mercadinho onde compramos 4 ovos e duas latas de coca-zero, certos de que conseguiríamos a tão desejada omelete com queijo e legumes para o jantar. Às 17h11 chegamos ao POIZÉ Restaurante, uma charmosa fusão de antiquário com chácara, dotada de mesas rústicas e boa comida. Pedimos a gentileza de preparem a omelete com os ovos que havíamos trazido, queijo e legumes, descobrindo, ao passar os olhos no cardápio que ofertava ovos fritos. Como indagaram como fazia a tal da “omelete” ficamos matutando sobre a pergunta, pois na travessia Itambé x Rio Preto também pareciam não conhecer o prato. Algum regionalismo, talvez. Pedimos uma porção de carne seca com mandioca. Pouco depois, o Pássaro se juntou a nós e ficamos trocando impressões sobre a caminhada e sobre o pitoresco lugar. Ao voltarmos, encontramos o Cicero sendo guiado por moradores para a Lagoa do Padre, no povoado. Reportei no grupo o feliz encontro às 18h26, deixando o com o Pássaro para irem ao mercado e tratamos de retornar ao acampamento para um segundo jantar antes de cairmos para dentro da barraca, buscando nos recuperar do sono fragmentado da viagem. Não havia farmácia no pequeno povoado, de forma que, ao ceder meu esparadrapo para a Alacy, eu ficara sem. Deixei para me preocupar com isso quando, e se, fosse necessário. Nosso cardápio do jantar de camping foi polenta cremosa com molho de tomate seco e queijo ralado, acompanhado de última Coca Cola.

Fig. 7 – Primeiro acampamento.

Findamos o primeiro dia com 27,7 km percorridos, com 780 m de ganho de elevação, tomando para isso 7,5 h de caminhada, contando com as paradas. Comparando com os 21 km que haviam sido previstos, estávamos bastante satisfeitos com o realizado. Aproveitei o negrume da noite de lua nova para registrar nosso acampamento sob o lume das estrelas.

Dia 2

Levantei-me, como de hábito em trilhas, às 5h e tratei de escolher um local adequado para meu buraco matinal, que fosse distante pelo menos 40 m de águas, reservado e de solo favorável ao escavar. Com essas condições de contorno, praticamente voltei à estrada de acesso ao povoado. Aliviado fiquei apreciando a noite que findava, com o clarear do dia aos poucos tomando lugar das estrelas e curtindo o frescor da madrugada. Meu relógio, fora da barraca marcara minima de 15C, para o equipamento que disponhamos, bastante agradável. Certamente, não teria a mesma impressão estivesse com roupas molhadas e exposto às intempéries.

Fig. 8 – Ricardo Med e Gerson acessando o Condomínio Recanto Real.

Desmontado acampamento e arrumada a cargueira, partimos às 7h03 para o segundo dia, nosso crux. Partimos em trio: eu, Amanda e Alacy, confiantes de que o sexteto (Pássaro, Danilo, Cícero, Michele, Fram e Sávio) que ficava no acampamento nos alcançaria ao longo da manhã. Nesse dia, a maior quilometragem somava-se a trechos de que não disponhamos de registros de passagens pregressas que assegurassem a viabilidade do trajeto pensado.

Conectar o que aparenta ser rastros de passagens, observados em imagens de satélite, baseando-se em curvas de nível e no que se acredita fazer sentido organicamente como trilha, é sempre algo “ousado”. Não estudamos a história com profundidade, não conhecemos os fatores que geraram trânsito por aquelas plagas ao longo dos anos, a evolução do comércio, das fontes de renda e dos vetores de habitação. Por imagens imprecisas e estáticas, tenta-se entender a soma de décadas de deslocamentos, interesses e vidas. Para moradores dos arredores, a aposta é baixa, pode ser feita de forma menos compromissada… já para nós, que apenas no deslocamento rodoviário SP/MG/SP investimos mais de 20 h, a coisa funciona diferente: não temos suporte próximo, não temos oportunidade de conversar nos bares e comércios próximos para apurar o caminho. Estudamos, planejamos e arriscamos.

Para mim, trilhar a partir desses estudos é sempre algo estimulante, que me alegra. Caminhei ansioso pela estrada até o ponto em que a deixamos para enveredar por um loteamento quase que na planta. Poucas casas, muitos terrenos com porteira evidenciando o passado pastoril das terras. Caminhamos pelas ruas, cruzamos alguns terrenos até abandonar o loteamento, cruzando as terras do que acredito, seja o remanescente da fazenda que deu origem ao loteamento. Contornamos algumas cercas, passamos por baixo de outras e, às 10h estávamos a caminhar pelas margens do Córrego do Pasmar, seguindo o curso águas boa parte do tempo. Como havíamos cruzado diversas habitações e áreas de pastoreio, ao coletar água nesse trecho, por precaução, utilizei o filtro. Não foi exatamente uma surpresa, mas os trechos do que pareciam rastros e que poderiam apenas ser faixas de areia, às margens do córrego se mostraram praticamente contínuos, as partes em que as imagens de satélite não demostravam passagem clara decorriam de trechos com maior oferta hídrica, que permitia que a vegetação suportasse melhor o pisoteio.

Seguimos pela trilha batida até a proximidade de algumas casas, quando dobramos à direita para passar pelas ruas, conforme o track de referência. Apesar de ter um rastro tênue, na imagem de satélite que permitia supor ser viável cruzar os fundos dos terrenos até a linha de crista da serra, optamos por fazer o contorno por entender mais seguro. Os moradores, quando souberam da nossa pretensão de ligar Diamantina a Conselheiro Mata à pé, por ali, cruzando a Serra do Pasmar, afiançaram que não era factível, pois não haveria “passagem”. Os rastros que encontraríamos desautorizam totalmente essa leitura: houve passagem de tropeiros, transportando bens e riquezas entre os núcleos de ocupação mais remota, ainda antes do ramal ferroviário.

Fig. 9 – Trecho do mapa corográfico de 1927.

Com algum trabalho, encontrei esparsas referências a usos antigos, porém pouco estudados. Ou pelo menos, pouco difundidos para fora do ambiente acadêmico, caso dormitem nas bibliotecas de dissertações e teses. Observamos a presença de pinturas rupestres em lapas rochosas e aterros para a passagem das tropas. O registro visual mais antigo que encontrei, um mapa corográfico de 1927, apresenta destaque para a região do Guinda, fazendo crer pelas proporções entre as toponímias que, no momento da elaboração da obra, a lavra que daria origem a Lagoa Azul estaria em plena operação.

Voltando ao nosso caminhar, encontrei um rastro que seguia em frente, batido. Segui umas vintenas de metros por ele, buscando conferir se tratava-se de uma passagem consolidada ou apenas um dédalo que se apagava pela ausência de recorrências. Avaliei que seria seguro seguirmos por ali, mesmo fora do tracklog de referência, teríamos o Córrego do Pasmar à nossa esquerda e o trajeto rascunhado à direita. Talvez aquele caminho, não mapeado previamente, nos trouxesse surpresas. Depois de alguns minutos de dúvidas, ainda um pouco relutante, o Danilo chancelou a exploratória e o Cícero, mesmo ressabiado do perder-se da véspera, não vacilou em nos seguir. A Amanda, menos à vontade que o costume, pela perda de seu habitual equipamento de navegação, abraçou a causa, desejosa de encontrarmos uma cachoeira, ou poço, secreto. Eu segui majoritariamente à frente, caçando os rastros a cada laje rochosa mais extensa, escudado pela Amanda. Cicero e Danilo nos seguiam, distantes uma vintena de metros. Em certo ponto, o intenso som de uma corredeira (ou cachoeira?) fez com que ponderássemos descer ao curso d’água. Apesar de não me parecer oportuna a descida, à unha, até a água, fiz uma curva de 90 graus à esquerda e aproximei, sem perder muita altitude do cânion escavado pela força das águas. Dali, confirmei que a margem segue escarpada até interromper-se, de forma abrupta, uma centena de metros adiante.

Reportei a conclusão da minha análise e, seguimos em frente, eu de consciência tranquila e a Amanda ainda esperançosa que a incursão do Cícero e do Danilo trouxesse informação contrária a minha avaliação.

Fig. 10 – (E) Aterro em cantaria na Serra do Pasmar – ciclo do Tropeirismo. (D) Detalhe do aterro.

Em seguida, um longo aterro em arco, construído em cantaria e mais que centenário, evidenciava o quanto aquele caminho fora palmilhado no passado, antes que as ditas “facilidades” da modernidade o relegasse ao turismo de famílias em fins de semana e depois, nem mesmo a ele. No começo do século XX, ao inaugurar o ramal até Diamantina, a velocidade da Maria Fumaça, natural concorrente do tropeirismo, conquistou adeptos e mercados, apenas para ser sucedida pelo transitar de automóveis algumas décadas depois.

 

 

 

 

 

Fig.11 – (E) Poço na parte alta da Cachoeira do Pasmar. (D) Fogão e utensílios de cozinha.

Vencido o aterro, mais alguns metros de trilha nos levaram, numa curva suave à direita ao curso d’água, em um belo poço que parecia convidar ao banho e ao ócio contemplativo. Fiquei fazendo alguns registros enquanto a Amanda buscou acessar o poço, para após algumas tentativas, concluir que não seria seguro, pois a força da corrente ameaçava arrastar o incauto para o cânion à jusante. Contentava-me com algumas fotos do majestoso poço, quando notei, parcialmente oculto pela vegetação, sob uma laje rochosa, um fogão, panela, grelha e outros materiais de cozinha. O fogão havia sido obtido pela junção, de topo, de duas latas de 18 l costurados com arame. O encontrado me faz supor que ali tenha sido um ponto de descanso, em jornadas através da serra, talvez muito anterior àqueles itens.

Retomamos o caminhar, buscando a continuação do rastro que havíamos seguido até ali e, por erro meu, dobrei à esquerda, tentando acompanhar o curso d’água. Alguns metros adiante, o rastro sumiu totalmente, e ao olharmos para trás, para nossa direção de partida, avistamos o trio Michele, Fram e Sávio que por feliz casualidade errara o rumo pouco antes e, com isso, chegara ao ponto em que estávamos. Uma rápida avaliação constatou que, nesse momento, nos encontrávamos a 97 m, em linha reta, da trilha. Para ganhar tempo, consideramos varar mato em linha reta por esses “poucos metros” e iniciamos o deslocamento nesse sentido. Percorridos apenas 50 m, constatamos que um penhasco nos separava da trilha, talvez uma trintena de metros abaixo. Retornamos sobre nossos passos ao ponto do feliz encontro e, a partir dali, sob os passos do trio até encontrarmos a bifurcação que haviam tomado por engano, ao descerem.

Fig. 12 – Fran, Michele e Sávio cruzando os campos da Serra do Pasmar                                       

No tracklog de referência, bastou 6 minutos de caminhada para vencermos pouco mais de 300 metros e encontrarmos, às 11h40, um abrigo estruturado sob uma lapa. Algumas varas formavam o estrado de uma cama e ainda havia algumas posicionadas na vertical, para ancorar “paredes” de palha, que já haviam se perdido no tempo. O pessoal optou por deixar as cargueiras nesse ponto e seguir para a cachoeira do Pasmar apenas com lanche e celular. Por precaução, tanto eu quanto a Amanda efetuamos o ataque com as mochilas.

Fig. 13 – Amanda nos campos rupestres da Serra do Pasmar.

Fig. 14 – Pictograma na Serra do Pasmar. Foto de Caio Kenji,

Após dedicarmos algum tempo apreciando a beleza da queda e nos refrescando do intenso calor, às 12h20 retomamos o trekking, apanhando um pouco dos dédalos e descaminhos que há ali. Após 20 minutos de busca e baterão de cabeça, às 12h40 estávamos novamente no rastro batido do tracklog de referência e adotamos, ali, nova formação, com a Amanda verificando os rastros e eu conferindo bifurcações e nosso progresso pelo GPS. Em pouco tempo alcançamos a dupla Pássaro e Caio e seguimos a partir do rumo do deslocamento deles, vez por outra encontrando trechos em que a passagem mais frequente deixara rastros no campo. Acabamos de deixar passar, por descuido meu, o ataque às pinturas rupestres desse trecho.

Fig. 15 – Igreja Nossa Senhora de Conceição em Barão do Guaicuí.

Pouco depois, às 12h46 cruzamos o Córrego do Pasmar e passamos a ganhar altitude buscando o divisor de águas deste com o Córrego Bacalhau, um dos afluentes do Córrego do Capão. Mantemos agora, os contrafortes da Serra do Caboclo à nossa esquerda e passamos a perder altitude em direção aos aterrados do ramal Corinto – Diamantina. Cruzamos o Córrego Braúna, acessando a pequena vila de Barão de Guaicuí. Fiz uma breve passada pela Igreja de Nossa Senhora da Conceição às 14h25, depois conheci parte da história do ramal e da própria estação de Barão de Guaicuí, construída entre 1909 e 1913 que buscou facilitar o escoamento de têxteis da região e induzir o desenvolvimento da região do Alto Jequitinhonha. Com o avanço das rodovias, em 1960, esse ramal será declarado deficitário e, em 1973, a Estrada de Ferro Central do Brasil desativa a linha Corinto – Diamantina.

Fig. 16 – Abrigo rústico em lapa.

Próximo da Cachoeira do Pasmar. Às 14h43, fizemos uma curta parada para almoço no simpático restaurante Trem Arrumado, da pousada Barão de Guaicuhy, com direito a omelete mineiro, Coca-Cola zero gelada e sorvete. A d. Aninha e o sr. Pierry Caetano nos atendaram de forma tão acolhedora que, confesso, não foi simples retomar o nosso caminhar. Em um pequeno milagre, conseguimos com a Neuza um rolo de esparadrapo, que permitiu que tratássemos as bolhas e machucados de forma a tornar menos árdua a caminhada do último dia. Fica aqui registrado, nosso profundo agradecimento.

Fig. 17 – Rogério, Amanda e Cícero cruzando a Serra do Pasmar. Trecho de campo arenoso.

Saciados, partimos às 15h23 para o conhecer a Cachoeira do Barão, facilmente acessada com carro ou moto, fazendo com que o afluxo de visitantes seja consideravelmente maior do que as demais que havíamos passado nessa travessia. Nossas paradas costumam ser breves, um ganho alguns registros, um ou outro lanche ou petisco, à depender do horário. Nesse caso ficamos apenas com um breve mergulho e retomamos o caminhar.

Fig. 18 – Amanda e Rogério Pássaro, Cachoeira do Barão.

Às 16h05 passamos por uma ponte metálica que aproveita a estrutura da ferrovia, permitindo cruzar o Córrego Tamanduá, afluente da margem esquerda do Córrego do Capão. Seguimos alternando aterros e trechos remanescentes do alteamento para a estrada de ferro, cruzando nova ponte, agora sobre o Córrego Mangabeira, acessando logo depois, alertados pela imensa mangueira a beira da estrada, a Cachoeira do Lúcio, onde a carta topográfica registra o Sítio Mangabeira. Ali, encontramos um pomar com uma frondosa árvore de caqui chocolate frutificando, colhemos uns poucos, descemos até a linda queda d’água, com uma generosa praia de areia. O local era tão aprazível que cogitamos acampar ali, mas ainda estava cedo e fugir da nossa programação tornaria a pernada do dia seguinte mais longa. De forma que apreciamos a tranquilidade do lugar mais alguns minutos e tratamos de retomar nossa caminhada, agora com destino ao ponto de camping pensado, um trecho de campo, a alguns quilômetros, na margem direita do Rio Pardo Pequeno. Partimos da Cachoeira do Lúcio às 17h12 e, pouco depois, às 17h40 cruzamos um dos cortes de rochas efetuados para a passagem da ferrovia. Essas obras de engenharia, por vezes me encantam mais que as cachoeiras, de forma que pedi que a Amanda fizesse um registro. Nesse momento, atrás de nós, com alguma distância caminhavam o Danilo e o Pássaro. Não tínhamos certeza quanto a decisão deles de acampar – ou não – às margens da paradisíaca cachoeira do Lúcio, pois ainda não haviam decidido a respeito quando nos separamos.

Fig. 19 – Pontilhão sobre o Rio Pardo Pequeno.

Ao final do dia, sob os últimos raios de sol, cruzamos o pontilhão sobre o Rio Pardo Pequeno, confiando com alguma emoção, nas telas que formam o piso. Adotei a cautela de pisar sempre sobre as regiões de estrutura metálica. Ainda que curto, o movimento da tela, quando recebe o peso do corpo, traz algum frio na 14 barriga. Nesse ponto, os milhares de anos do escoar das águas, escavaram a maior profundidade que encontramos em toda a travessia, pelo menos 20 metros verticais, ali, nos separavam do rio que corria, manso, naquele momento.

Fig. 19- Terminador registrada a partir do acampamento. Foto de Caio Kenji, com o alerta da Alacy.

Alcançamos o ponto de acampamento previsto às 19 h, montanos nossa barraca com a tranquilidade que a prática proporciona. Enquanto preparava nosso último jantar de trilha dessa travessia, duas fartas porções de purê instantâneo de batata com molho de tomate, proteína de soja saboooor frango e queijo ralado. Para acompanhar, chá de morango silvestre e refresco de limão. A Amanda se abrigou na barraca para fugir dos insidiosos insetos hematófagos que se banqueteavam em nossos corpos, misturados às infinitas nuvens que rodeavam as luzes das nossas lanternas. Enquanto eu cozinhava, ela tratou de furar as bolhas que tinha, aplicando rifomicina e permitindo que drenassem durante a noite. Ficamos mais algum tempo trocando impressões sobre outras trilhas, momentos e ações singulares antes de nos recolhermos. Aproveitei para fazer mais algumas fotos do nosso hotel de “um milhão de estelas” antes de dormir.

Fig. 20 – Segundo acampamento, margens do Rio Pardo Pequeno.

Dia 3

Levantei-me às 5h, como de hábito e fui apreciar o findar da noite e o avermelhar do céu que anunciava o nascer do nosso último dia dessa travessia. Aproveitei para fazer cuidadosos curativos nas bolhas que tinha, aliviando bastante o caminhar. Guardei meu saco de dormir junto com as roupas secas. Por precaução, mantive uma segunda pele, protegida por uma camada plástica, no topo da mochila, de fácil acesso, para pronto emprego. O Denis e a Isa partiram mais cedo, pouco passado das 6 h. Com a mochila já aprontada, tratei de buscar um local mais reservado para o buraco matinal. Ao retornar, a Amanda também já estava com a mochila pronta e, feito os últimos ajustes, partimos pouco antes das 7 h, em passo tranquilo. Pouco depois, o Cícero nos alcançou e trilhando em trio por algum tempo, até cruzarmos o Córrego Mocambo, quando o Cícero quis ir até um conjunto de grandes fornos de carvão, à direita da trilha. Seguimos em frente e às 7h22 encontramos um fruto caído no chão, que reconheci como marolo. Me pareceu que o fruto estava “de vez”, ainda bastante firme e para conseguir abri-lo bati contra a tronco da árvore.

Fig. 21 – Marolo “de vez” O marolo, fruto endêmico do cerrado, é uma anonácea assemelhada com a pinha, mas de porte muito maior.

Levamos metade da fruta conosco, deixando a outra metade para o pessoal que vinha na sequência. Com o tempo que ficamos parados para abrir o fruto, pouco depois fomos alcançados pela Alacy e pelo Cícero, passando a caminhar, em quarteto agora, até alcançar o aglomerado de casas de turma de Mendes.

Fig. 22- Amanda e o casal Pinga-Fogo e D. Aparecida. Casa de Turma de Mendes.

O sr. Pinga-Fogo e a dona Aparecida nos ofertaram água gelada e um cafezinho mineiro, divinos. A hospitalidade do povo mineiro é algo que ainda me surpreende. Mais tarde, ao encontrar o restante do grupo, saberíamos que houve quem jantasse e pernoitasse ali, com eles. Encantador testemunhar quem divide o pouco que tem, apenas pelo prazer de ajudar. Seguimos em frente e Alacy conversando com o casal conseguiu uma carona para lhe poupar dos muitos quilômetros que ainda andaríamos aquele dia. Passaria por nos pouco depois, na garupa de uma moto, faceira. Às 8h27 passamos pela Pedreira ViaCielo Maestro da GEMMA BRAZIL que extrai grandes blocos de mármore, nesse momento cruzamos uma das nascentes do Ribeirão das Varas, cuja margem esquerda passaríamos a seguir até Conselheiro Mata. Alcançamos a primeira cachoeira desse dia, a da Raiz, às 11h17. Optamos por não seguir alguns rastros que encontramos em direção ao rio, para assegurar a conclusão da jornada no prazo proposto. Ficamos alguns minutos apreciando a queda e nos refrescando no poço de meia altura da cachoeira, antes de retomarmos o caminhar em suave declive. Passamos pela Cachoeira do Tombador às 11h44 e entramos na área rural de Conselheiro Mata às 13h20, contornado uma lavoura de maracujá e alguns pés de abóbora. Quase finalizando, cogitamos nos abrigar da chuva que se aproximava no coberto da Estação de Conselheiro Mata, alcançada às 13h22. Protegemos melhor os eletrônicos e prosseguimos, supondo que a chuva seria, como foi, passageira.

Fig. 23 – Estação de Conselheiro Mata.

Apesar de passageira, durando perto de 20 minutos, foi bastante intensa, o que nos fez apertar o passo até encontrar um ponto de ônibus coberto, onde nos refugiamos por alguns momentos. De repente, de forma inesperada, percebemos a van do 17 Edson. Uma pequena caminhada adicional e chegamos ao ponto de resgate, de onde cruzamos a rua para almoçar na Pousada Beira-Rio, comida preparada em fogão à lenha, por preço fixo e com direito à ovos fritos. Não tinha Coca-Cola, de forma que fui até o mercadinho próximo buscar algumas latinhas. Alimentados, nos instalamos às mesas do pequeno mercadinho, alternamos as “roupas de trilha” pelas “de viagem”, tomando banhos “de gato”. Tratamos das bolhas nos pés e ficamos proseando enquanto aguardávamos que os amigos tentassem os últimos acessos de cachoeiras dessa travessia. A soma de chuva, bolhas nos pés, “área urbana” e estômago cheio me levaram a preterir esses ataques.

Fig. 24 – Corte de fralda serrana para passagem da ferrovia.

Com o reunir de todos, pouco mais de 3 horas adiantados ao horário previsto para iniciarmos a viagem de volta, partimos de Conselheiro Mata para São Paulo, na segura condução do Edson. Na viagem de retorno, extensa, observamos dois caminhões tombados, o segundo na descida da serra de Mairiporã, com potencial de complicar muito o trânsito da volta do feriado. Sem intercorrências, às 7h peguei o carro no estacionamento, em São Paulo. Aproveitamos a chegada antecipada para providenciar um novo aparelho para a Amanda, por ser equipamento de trabalho e de coordenação dos grupos. Dali, passaria na casa dos meus pais antes de descer para Santos. A travessia total, com os erros e descaminhos que fizemos, totalizou 96 km com pouco menos de 1 km de ganho de altimetria, percorridos com alguma sobra em 3 dias. O trajeto que escolhemos contou com boa disponibilidade de água. A presença de habitações e áreas de pastoreio tornam recomendável o tratamento. A exposição ao sol é quase que ininterrupta, prevenção nesse sentido é crucial. Participantes dessa travessia: Amanda Rossi Mascaro, Alaxy Pardo, Caio Kenji, Cícero, Danilo, Davi Ribeiro, Denis, Fram, Isa, Gerson, Juninho, Michele Morais, Ricardo Med, Rodrigo Mutuca, Rogério Pássaro, Rogério Alexandre, Sávio Ribeiro.

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Sobre o autor

Brinco que sou Montanhista de fim de semana. Engenheiro por formação, mestrado aplicado ao entendimento da massa de ar que chamamos de vento. Grande apreciador de leituras históricas e do entendimento geográfico/político/social. Diletante no estudo de biologia aplicada - basicamente flora comestível. O cume não deve ser a maior alegria do rolê. Me divirto em planejar prévio, estudando cartas topográficas e relatos. Detalhista no arrumar da cargueira, buscando a melhor relação peso-segurança. Trilhando em família desde os anos 80… e hoje sigo os passos do meu irmão, que em meados dessa década já se aventurava pela Serra do Mar com toneladas de equipamentos e tento honrar seus ensinamentos. Busco, no divulgar das aventuras estudos contribuir com o Montanhismo Nacional e seu desenvolvimento sustentável como esporte e como atividade econômica.

2 Comentários

  1. Belo registro! Sou de Diamantina e fiquei deslumbrado com a riqueza de detalhes ao descrever nossa região. Quando quiserem retornar ao Espinhaço pode contar comigo para um possível apoio! Grande abraço aos expedicionários.

    • Rogério Alexandre em

      obrigado pela gentil crítica. Minas Gerais tem potencial para ser uma das mecas para as atividades outdoor, com bastante destaque para o Montanhismo. Temos um amigo percorrendo a TransEspinhaço nesse momento. O Henio (soumaaventura) está fazendo, em solitário, umas das TLC (trilha de longo curso) que estão se consolidando com destinos para montanhistas e esportistas.

      Há uns meses, fizemos uma travessia entre o PE Biribiri e o PE Rio Preto, cruzando a APAM Rio Manso. Há previsão de retornamos para fazer outras trilhas nas Alterosas terras mineiras.

      Forte abraço