Libélula, um personagem do Marumbi

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No início dos anos 80 as nossas idas ao Marumbi eram como sempre semanais, mas eram alongadas, podíamos passar diversos dias na Serra. Pegávamos o Gralha Azul (trem) na quarta-feira e regressávamos na segunda-feira seguinte e, não raras vezes, prolongávamos a estadia por duas ou três semanas. Havia trem todos os dias e o valor do bilhete era muito barato.

Ao regressarmos à estação de Curitiba sempre seguíamos a pé, inicialmente em direção à Praça Tiradentes e de lá cada um ou dupla seguia o seu caminho de casa. Quando ainda tínhamos algum dinheiro, parávamos em um bar ou lanchonete para alongar mais um pouco aquela aventura. Não queríamos que aquilo acabasse, mas era uma questão de dois ou três dias e estávamos reunidos novamente descendo ao Marumbi.

Em um destes retornos, paramos em um bar na rua Dr. Faivre para tomar um último gole. Era inverno, chovia e a noite estava bem fria, era uma quarta-feira. No balcão estava parado um rapaz magro, alto, bonito, bem tratado e vestindo, de forma elegante, roupas diferentes (sedas e gazes esvoaçantes). Ao reparar as nossas “roupas de serra” e mochilas, já puxou papo, queria saber de onde vínhamos.

Iniciamos uma agradável conversa com ele, seu nome era Pedro Emanuel, mas preferia ser chamado por “Libélula”. Queria muito saber como era o local de onde vínhamos. Em um tempo sem celular, resolvemos convidá-lo para estar na estação de trens de Curitiba na próxima sexta, o trem partia diariamente às 7,00 h. Imaginamos que nunca mais o veríamos.

Na sexta feira seguinte lá estava a “libélula” parada em frente à bilheteria da Estação de Trens, nós nos cumprimentamos alegremente e foi como se ele já fizesse parte da turma há muito tempo. Ficou encantado com a paisagem até o Marumbi. Lá chegando o apresentamos ao Serginho, que também se encantou com o nosso novo amigo. Imediatamente recebeu um quarto no rancho “Quatro Bicos” e passou a fazer parte da turma. Com o passar do tempo a “Libélula” ficava mais no Marumbi que em Curitiba. Às vezes uma semana inteira, uma quinzena ou um mês.

Pela sua aparência “diferente”, chamava a atenção de todos que não o conheciam, ou como preferia, dos que não a conheciam. Diversas vezes foi vítima de “bullying” e nós sempre estávamos atentos para protegê-la. Mas ela também tinha os seus caprichos. Em uma época que havia camping selvagem no Marumbi, as clareiras de acampamentos ficavam lotadas com dezenas de barracas e a “Libélula” adorava à noite dar um “rolê” entre as barracas para saber quem estava lá e o que estava acontecendo. Tornou-se uma figura conhecida e querida pelos campistas de Marumbi.

Uma noite, enquanto eu dormia no rancho alugado do Wilson Correa, comecei a ouvir uma confusão no Morro do Piquenique (ou Cruzeiro). Alguém gritava para ser tirado da cruz. Havia uma cruz enorme esculpido em granito no Morro do Piquenique, vandalizada anos depois, quando lá cheguei a “Libélula” dormia no chão ao pé da cruz. Eu a levei para o quarto que tinha no “Quatro Bicos”, estava suja e bêbada, mas era a nossa protegida.

Foram anos de convivência e de aventuras pelo Marumbi. Assim como apareceu naquele bar, um dia pegou o trem para regressar a Curitiba e nunca mais voltou. Nós a procuramos de todas as formas possíveis, contudo nunca mais soubemos dela. Era um amigo e como personagem do Marumbi cumpriu o seu papel. “Assim como veio, partiu não se sabe para onde”.

Texto escrito por Máfia, 2023.

 

 

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Sobre o autor

Texto publicado pela própria redação do Portal.

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