Minhas indicações para o Prêmio Mosquetão de Ouro 2026

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O Prêmio Mosquetão de Ouro, entregue anualmente pela Confederação Brasileira de Montanhismo e Escalada (CBME), é a principal premiação (embora seja a única) do universo da montanha no Brasil. Ele celebra as conquistas e os indivíduos que mais se destacaram, tanto em feitos nacionais quanto internacionais. O objetivo é reconhecer a excelência técnica, a ética e a determinação em ascensões notáveis, abertura de novas vias e projetos que contribuem para a nossa comunidade, servindo como um guia do que há de mais inovador e inspirador no montanhismo e na escalada brasileiros.

Como toda premiação relevante, o Mosquetão de Ouro sempre gera debate, e isso reflete a paixão e a dose de subjetividade inerentes ao nosso esporte. É importante compreender que nem sempre o feito mais popular ou mais famoso é o que ganha, e é por isso que, por vezes, o resultado surpreende o público. O ponto crucial de uma premiação seletiva é que os critérios, ocasionalmente, excluem atletas mais conhecidos, principalmente aqueles que não foram indicados ou que, por serem mais discretos ou terem pouca visibilidade, não divulgaram seus feitos. 

Muitos nomes com conquistas significativas relutam em fazer a autoindicação, mas considero que isso deveria ser amplamente incentivado! Afinal, quem melhor do que nós mesmos para discorrer sobre a complexidade e o valor do que conquistamos? Por fim, a premiação possui uma regra temporal estrita, validando apenas os feitos do ano anterior. Ou seja, conquistas muito recentes, ou as que já ultrapassaram um ano, ficam de fora, o que adiciona mais um elemento de controvérsia à seleção final.

Retomando uma tradição que iniciei em 2024, ao publicar uma coluna de indicações no Portal AltaMontanha, sinto que é novamente minha obrigação cumprir esse papel de observador e entusiasta do esporte. Naquela época, fiquei muito satisfeito ao constatar que várias das minhas sugestões foram aceitas pela comissão julgadora, e alguns dos nomes que citei chegaram a vencer o prêmio em suas categorias. Minhas intensas “campanhas” para incentivar as indicações ao prêmio acabaram gerando mal-entendidos. Fui, inclusive, alvo de críticas maldosas e infundadas, pois algumas pessoas pensaram que eu era o “dono” da premiação. É crucial esclarecer que a CBME é a responsável por toda a realização e avaliação. Portanto, é fundamental que todos conheçam os jurados e as regras, disponíveis neste site aqui.

Como indicar os melhores para o Prêmio Mosquetão de Ouro

Apesar das críticas que qualquer premiação recebe, e o Mosquetão de Ouro não é exceção, eu valorizo muito essa honraria, que tive a alegria de conquistar duas vezes, mesmo que a última já complete dez anos. Ao longo dos anos, tenho me dedicado a difundir a importância do Prêmio Mosquetão de Ouro, porque, diante da quase total ausência de apoios para o montanhismo brasileiro, este é um dos poucos eventos que realmente valoriza as conquistas esportivas e culturais do país. Seria lamentável se as críticas, muitas vezes provenientes de quem sequer se deu ao trabalho de indicar alguém, acabassem com a única forma de reconhecer e celebrar os feitos importantes do nosso carente esporte.

O processo de escolha do Mosquetão de Ouro depende fundamentalmente da participação ativa de todos, visto que a CBME, como organizadora, não indica ninguém por iniciativa própria. Portanto, é responsabilidade de todos nós, público, atletas, fãs, jornalistas e clubes, garantir que os feitos mais relevantes do ano sejam apresentados e considerados pelos jurados. Pensando neste princípio democrático, e na necessidade de dar visibilidade a conquistas que merecem reconhecimento, decidi mais uma vez apresentar minhas indicações de quem, na minha opinião, mais se destacou em 2025. Ah, e é válido lembrar que, neste ciclo, eu também contribuí para o esporte, sendo o maior feito ter completado, de forma inédita, a ascensão de todas as montanhas acima de 6.000 metros na emblemática província de Catamarca, na Argentina. Foi um feito de grande relevância no andinismo e o primeiro realizado por um estrangeiro.

Conheça minhas indicações:

Categoria Escalada

Conquista da via “Abismo dos Pingos”

A conquista da via “Abismo dos Pingos”, no icônico Morro do Sete, na Serra do Mar paranaense, representa um marco de persistência e técnica no montanhismo do estado. O projeto, idealizado por Leandro Cechinel, levou cerca de três anos para ser concluído e contou com uma equipe dedicada de escaladores, composta por Anderson Quinsler, Murilo Benvenutti, Antonio Grossl, Ruddy Proença, Ander Paz, Maurilio Vagetti Hadas e Otaviano Montes Zibetti. Juntos, eles superaram não apenas os desafios da rocha, mas também a logística complexa e o clima notoriamente instável da região, onde a umidade e a neblina constantes transformam qualquer tentativa em uma verdadeira prova de paciência.

A conquista é digna de enaltecimento por sua natureza exploratória e pelo esforço em “livrar” a linha, transformando trechos que antes seriam feitos em artificial para a escalada livre. Com uma extensão de 265 metros e graduação proposta de 7a (ou 8c A0) M1, a via Abismo dos Pingos é um teste de resistência física e mental. A dificuldade começa muito antes do primeiro grampo, com uma aproximação que exige navegação precisa em trilhas fechadas, travessia de rio e o uso de cordas fixas. Na parede, os escaladores enfrentam lances aéreos, negativos e tetos que exigem domínio técnico avançado e grande experiência em ambiente de montanha, consolidando esta linha como uma das novas joias da escalada de aventura no Paraná.

Escaladores abrem via inédita no Morro do Sete, na Serra do Mar paranaense. Confira o Croqui!

A primeira ascensão em livre da via “A Resistência”

A primeira ascensão em livre da via “A Resistência”, na Pedra da Fortaleza (ES), concluída em 23 de setembro de 2025, marca um dos momentos mais significativos do Big Wall brasileiro. O grande protagonista e motor desse feito foi o escalador Benjamin (Ben) Sotero, que retornou à montanha cinco anos após uma tentativa frustrada em 2020. Demonstrando uma resiliência impressionante, Ben Sotero liderou a estratégia e a formação de uma equipe de elite — composta por Chris Deuto, André “Zoio” Junior e Daniel Teitelbaum — para encarar os 750 metros de parede e 20 enfiadas de extrema dificuldade técnica (incluindo graus de 10a brasileiro).

Para Ben Sotero, a expedição foi uma prova de superação pessoal e logística. Radicado nos Estados Unidos e com vasta experiência em picos internacionais, ele classificou a Pedra da Fortaleza como a parede mais difícil de sua vida em termos de logística. Sob sua liderança, a equipe passou nove dias sem tocar o solo, enfrentando chuvas torrenciais que encharcaram os portaledges e um calor brutal que levou o grupo ao limite da desidratação. O feito de Sotero e seu time elevou “A Resistência” ao status de possivelmente a via de Big Wall em livre mais difícil do país, consolidando um projeto que, para Ben, teve um valor emocional profundo: o de conquistar com as próprias forças o topo de uma montanha que outrora o desafiara.

Primeira ascensão em livre da via “A Resistência”, uma das vias de Big Wall mais difíceis do Brasil

Abertura da via “Folia do Divino”

A abertura da via “Folia do Divino” na imponente Pedra Riscada (Minas Gerais), concluída em 25 de agosto de 2025, representa um dos feitos mais grandiosos do montanhismo brasileiro recente. Uma equipa de elite, formada pelos escaladores paranaenses Edemilson (Ed) Padilha, Valdesir Machado, Willian Lacerda e Elcio Muliki, desafiou aquele que é considerado o maior monólito de rocha do mundo para traçar uma linha monumental de 1200 metros de extensão.

O feito exigiu 10 dias de expedição, sendo sete dedicados exclusivamente à abertura da via. Os escaladores enfrentaram dificuldades técnicas extremas, com 26 esticões no total, dos quais oito apresentam graduações entre 8b e 9b brasileiro em trechos de parede vertical com agarras minúsculas. A logística foi brutal: a equipa dormiu na parede em portaledges, enfrentou racionamento de comida após mantimentos estragarem e utilizou mais de 300 proteções fixas para garantir a segurança da rota.

O nome da via é uma homenagem à calorosa receção dos moradores de São José do Divino, que acolheram os atletas com festividades tradicionais à chegada. Esta conquista não só reafirma a Pedra Riscada como um destino de classe mundial para o Big Wall, mas também enaltece a resiliência e a maestria técnica de Ed Padilha e seus parceiros, que entregaram ao Brasil uma das vias mais longas e comprometedoras do país.

Folia do Divino, como foi nova conquista na Pedra Riscada

Escalada do Cerro Torre

A conquista do cume do Cerro Torre pelo jovem escalador Ben Sotero e seu parceiro norte-americano Chris Deuto, em dezembro de 2025, representa um dos marcos mais expressivos do montanhismo brasileiro contemporâneo. Sotero tornou-se o quinto brasileiro a atingir o topo da montanha mais icônica da Patagônia, mas seu feito carrega um ineditismo histórico: ele é o primeiro do país a completar a ascensão após a polêmica retirada das chapeletas da via, o que elevou drasticamente o nível de exposição e a dificuldade técnica do percurso. A jornada de quatro dias foi marcada por uma logística de paciência, aguardando a janela ideal de tempo para enfrentar um terreno que exige domínio absoluto tanto em rocha quanto em gelo.

O desafio impôs provações extremas à dupla, que enfrentou momentos de alta tensão, como o corte parcial de uma das cordas após uma queda de Deuto e noites de bivaque improvisado, onde foram obrigados a dormir sentados em suas cadeirinhas devido à falta de platôs nas torres de gelo. Para Ben Sotero, que sonhava com esse cume desde os 11 anos de idade, a chegada ao topo foi a realização de um objetivo de vida e o ápice de sua evolução técnica. Ao superar a mítica “headwall” sem as proteções fixas de outrora, o escalador não apenas realizou um sonho pessoal, mas consolidou o seu nome e o do Brasil na elite do montanhismo mundial de vanguarda.

Brasileiro no Cerro Torre: Ben Sotero e Chris Deuto escalam a montanha mais icônica da Patagônia

Ben Sotero

O ano de 2025 marcou a ascensão definitiva de Ben Sotero à elite do montanhismo mundial, consolidando-o como um dos escaladores mais técnicos e resilientes de sua geração. Radicado nos Estados Unidos, onde aprimorou seu estilo em grandes paredes e fendas, Sotero protagonizou dois feitos monumentais que elevaram o nome do Brasil no cenário internacional. O primeiro grande marco ocorreu em setembro, na Pedra da Fortaleza, no Espírito Santo, onde ele liderou a primeira ascensão em livre da via “A Resistência”. Ao lado de uma equipe de elite, ele passou nove dias vivendo em portaledges para vencer os 750 metros da parede, enfrentando uma logística brutal que incluiu chuvas torrenciais e calor extremo, resultando na liberação de uma das linhas de Big Wall mais difíceis e exigentes do país, com graduações que atingem o 10a brasileiro.

O ápice de sua temporada, no entanto, aconteceu em dezembro, nas agulhas graníticas da Patagônia Argentina. Ben Sotero tornou-se o quinto brasileiro a atingir o cume do Cerro Torre, a montanha mais icônica e temida da região. O feito foi revestido de um simbolismo histórico por ele ter sido o primeiro brasileiro a completar a ascensão após a polêmica retirada das chapeletas de proteção fixa, o que exigiu uma escalada muito mais pura, técnica e psicologicamente desgastante. Acompanhado por Chris Deuto, Ben superou provações extremas, como bivacar sentado em plena parede sob frio intenso e lidar com uma corda danificada por uma queda, transformando um sonho de infância no que ele descreveu como o ápice de sua trajetória técnica. Com essas conquistas, Ben Sotero encerra o ano não apenas como um recordista, mas como um representante de uma nova ética no montanhismo, onde a autonomia e a dificuldade técnica caminham juntas.

Benjamin Sotero no cume do Fitz Roy

Categoria Escalada Esportiva

Anja Köhler

Anja Köhler consolidou-se em 2025 como o maior nome da escalada esportiva brasileira, vivendo um ano de domínio absoluto nas competições nacionais e de significativa projeção internacional. Filha de Andreas Köhler, nome histórico do montanhismo no país, Anja cresceu imersa na cultura de montanha, mas direcionou o seu talento para o alto rendimento competitivo, tornando-se a principal peça da seleção brasileira. Com dupla nacionalidade (brasileira e suíça), ela optou por representar o Brasil, destacando-se pela versatilidade técnica e pelo vigor físico que a permitem brilhar tanto no Boulder quanto na modalidade Guiada.

O ano de 2025 foi particularmente histórico devido à conquista da inédita Tríplice Coroa do Campeonato Brasileiro, onde Anja sagrou-se campeã nacional em todas as disciplinas: Boulder, Guiada e Combinada. Essa hegemonia reafirmou a sua posição como a atleta mais completa do país, superando adversárias experientes com uma superioridade técnica consistente. No cenário internacional, ela foi o grande destaque da delegação brasileira na Copa Pan-Americana na Colômbia, realizada em novembro, onde avançou com força nas qualificatórias e manteve-se na disputa direta por medalhas. Além disso, a sua participação constante no circuito da Copa do Mundo da IFSC elevou o patamar da escalada brasileira, consolidando Anja Köhler como uma forte promessa para os próximos ciclos olímpicos e uma inspiração para a nova geração de escaladoras no Brasil.

Anja Köhler competindo na modalidade boulder. Foto: Aline Machado.

Ian Padilha

O escalador paranaense Ian Padilha alcançou um marco histórico em sua carreira ao encadenar a via “Terceiro Elemento”, na Serra do Cipó (MG), no dia 3 de setembro de 2025. Com este feito, Ian atingiu pela primeira vez o 11a grau brasileiro (8c francês), um objetivo que perseguia com determinação há 12 anos. A conquista é particularmente notável pelo esforço e resiliência do atleta, que precisou equilibrar uma rotina intensa de trabalho na Conquista Montanhismo e narrações para a CEBescalada com viagens de 1.100 km e 15 horas de estrada para chegar ao setor.

A via “Terceiro Elemento” é um desafio de alta complexidade técnica e física: são cerca de 30 metros de extensão com 53 movimentos em uma parede negativa, incluindo dois boulders de graduação V9 e um de V8, além de sessões de resistência e um pêndulo. Ian realizou a ascensão de forma surpreendente durante uma investida noturna, superando obstáculos como a baixa visibilidade e a necessidade de desescalar trechos para ajustar sua lanterna. 

Ian Padilha encadena Via Terceiro Elemento e chega ao 11a grau

Felipe Camargo

Em setembro de 2025, o escalador Felipe Camargo atingiu o ápice técnico do esporte no continente ao realizar a primeira ascensão da via “Abaporu”, na Serra do Cipó (MG), propondo a graduação de 9b francês (13a brasileiro). Este feito histórico estabelece a via como a mais difícil da América do Sul e representa a culminação de décadas de dedicação do atleta, que precisou de um esforço físico e mental exaustivo para vencer a linha, chegando a cair nove vezes no último movimento difícil antes de finalmente completar a cadeia. Para Camargo, a “Abaporu” é uma obra-prima que traduz toda a experiência adquirida em anos de expedições internacionais para o solo brasileiro, consolidando o potencial técnico das montanhas de Minas Gerais.

A trajetória de Felipe Camargo, hoje com 34 anos, confunde-se com a própria evolução da escalada de alto rendimento no Brasil. Reconhecido como o maior nome da história da modalidade no país, ele foi o pioneiro em alcançar as marcas de 9a, 9a+ e, agora, o 9b em território nacional. Com uma carreira marcada por temporadas na Europa, onde repetiu vias lendárias como a El Bon Combat e a Papichulo, Felipe decidiu focar o seu legado no desenvolvimento de projetos autorais no Brasil. Ao estabelecer linhas como a Auto Retrato e agora a Abaporu, ele não apenas reafirma o seu domínio técnico, mas também eleva o patamar da escalada sul-americana, atraindo os olhos da comunidade global para a excelência das rochas brasileiras.

O escalador Felipe Camargo

Categoria Altas Montanhas

Fayson Merege e Dayane Damm

Num feito inédito para o montanhismo brasileiro, o casal de fotógrafos e aventureiros Fayson Merege e Dayane Damm conquistou todas as cinco montanhas acima de 6 mil metros localizadas na região de Arequipa, no Peru. A expedição, realizada entre os dias 15 e 25 de maio de 2025, exigiu um planejamento logístico rigoroso e grande cumplicidade para superar desafios extremos em apenas 16 dias de projeto. Durante este período, o casal alcançou os cumes do Hualca Hualca (6.025 m), Chachani (6.070 m), Ampato (6.300 m), Solimana (6.093 m) e o gigante Coropuna (6.425 m), consolidando-se como os primeiros brasileiros a completar esta lista específica.

Além do desafio físico e da resistência ao frio intenso da Puna peruana, a jornada teve um forte componente artístico, com Fayson e Dayane documentando cada passo em fotografia e vídeo sob condições severas. O cume do Solimana foi um dos pontos altos da expedição, exigindo escalada técnica em gelo e superação psicológica, especialmente para Dayane, que destacou a importância de representar o protagonismo feminino na alta montanha. O projeto, que contou com o apoio estratégico do guia local Roy Romero, não apenas registrou um marco esportivo para o Brasil, mas também celebrou a parceria do casal, que agora planeja transformar o vasto material audiovisual em um filme e um livro para inspirar novos exploradores.

Casal brasileiro escala todas as montanhas acima de 6 mil metros na região de Arequipa, no Peru

Wellington Miranda

O montanhista brasileiro Wellington Pereira Miranda, de 32 anos, realizou um feito raro ao escalar duas montanhas com mais de 6 mil metros de altitude num único dia, na região do Puna do Atacama. Em 16 de fevereiro de 2025, após subir o Ermitaño (6.145m), Wellington sentiu-se em boas condições físicas e aproveitou o clima perfeito para realizar uma travessia de aproximadamente 2h30 até o cume do Peña Blanca (6.081m), acompanhado pelo boliviano Alex Tinta. Com esta conquista, ele tornou-se apenas o quarto brasileiro na história a atingir dois cumes desta magnitude em menos de 24 horas. O atleta, que iniciou a sua trajetória nas montanhas da Serra do Mar paranaense, demonstrou um fôlego impressionante ao escalar ainda uma terceira montanha de 6 mil metros, o Nevado San Francisco, logo no dia seguinte, consolidando uma sequência de ascensões de alto nível nos Andes.

Montanhista Brasileiro escala 2 montanhas acima de 6 mil metros em um único dia

Ricardo Rui da Costa

O montanhista brasileiro Ricardo da Costa Rui alcançou um feito histórico ao realizar o primeiro voo de parapente do mundo a partir do Ojos del Salado, o vulcão mais alto do planeta, localizado a 6.893 metros de altitude na fronteira entre o Chile e a Argentina. Unindo sua paixão pelo montanhismo, que pratica desde os 17 anos, ao voo livre, Rui tinha o objetivo específico de “descer montanhas voando” e, para isso, realizou uma preparação intensa voando anteriormente em outros picos de 6 mil metros na região, como o Medusa e o Vicuñas.

No dia da conquista, após uma subida exaustiva, ele enfrentou ventos contrários e esperou por quase três horas no topo, chegando a considerar a desistência, até que as condições mudaram e permitiram a decolagem por volta das 11h30. O voo durou cerca de 15 minutos e exigiu um planejamento rigoroso de segurança, já que as condições extremas da Puna do Atacama, como térmicas fortes e redemoinhos de poeira, tornam o pouso fora do local previsto um risco de morte devido ao isolamento da área. O sucesso da expedição marca um novo patamar para o esporte brasileiro, unindo técnica de alta montanha com a precisão do voo livre em altitudes extremas.

Brasileiro realiza voo inédito de parapente do vulcão mais alto do mundo, o Ojos del Salado

Thiago Korb

O montanhista gaúcho Thiago Korb teve um ano notável ao escalar 37 montanhas com mais de 6.000 metros de altitude na Cordilheira dos Andes, abrangendo Argentina, Chile, Bolívia e Peru. Desse total, 26 ascensões foram inéditas para ele. Nunca na história houve uma pessoa que tenha escalado essa quantidade de montanhas de 6 mil metros nos Andes em apenas um ano. Entre os picos conquistados, destacam-se Veladero (6.436 m), San Pablo (6.110 m), Socompa (6.051 m), Salin (6.028 m), Pular (6.233 m), Chachani (6.075 m), Hualca Hualca (6.025 m), Ampato (6.288 m), Coropuna (6.425 m), Guallatiri (6.070 m), Acotango (6.052 m), Capurata (6.011 m), Parinacota (6.342 m), Pomerape (6.282 m), Alto Toroni (6.003 m), Ciénega Grande (6.075 m), Palermo (6.184 m), Cachi (6.380 m), Incahuasi (6.621 m), El Muerto (6.510 m), Sierra Nevada (6.127 m – uma das raras ascensões), Tres Cruces Sur (6.748 m), Tres Cruces Central (6.629 m), Nacimento (6.460 m) e Condor (6.414 m – montanha raramente escalada, cuja primeira ascensão ocorreu em 2003).

Tiago Korb chega a 51 montanhas de 6 mil metros e traz mais gente para o Clube do 6 mil

Categoria Vida na Montanha

Tiaraju Fialho

Tiaraju Fialho é uma das figuras mais respeitadas e atuantes do montanhismo brasileiro contemporâneo, conhecido por sua transição técnica da Serra do Mar paranaense para as verticais da Serra da Mantiqueira. Natural de Curitiba, Tiaraju iniciou sua trajetória no icônico Conjunto Marumbi, onde desenvolveu a base de sua técnica em rocha e a resistência física característica dos “marumbis”. Sua formação como geógrafo pela UFPR moldou não apenas sua habilidade técnica, mas também um olhar atento e preservacionista sobre as formações geológicas e os ecossistemas de altitude.

Radicado há anos na Serra da Mantiqueira, mais especificamente na região de Itamonte (MG), Tiaraju tornou-se uma referência fundamental para o montanhismo na Serra do Capivari e no Parque Nacional do Itatiaia. Sua atuação vai muito além da conquista de cumes; ele é um dos principais responsáveis pela abertura e manutenção de diversas vias de escalada tradicional e esportiva, além de trilhas técnicas que hoje são clássicas da região. Como guia profissional e instrutor, ele fundou e lidera a Capim Amarelo, agência pela qual compartilha seu vasto conhecimento sobre as montanhas de Minas Gerais, Rio de Janeiro e São Paulo.

O legado de Tiaraju também é marcado por seu compromisso com a gestão de riscos e o voluntariado em operações de busca e salvamento em montanha. Ele possui um histórico de ascensões expressivas não apenas no Brasil, mas também nos Andes e em outras cordilheiras internacionais, sempre carregando a ética do montanhismo clássico. Sua vida é um exemplo de dedicação integral ao universo outdoor, unindo a precisão técnica do escalador à sabedoria do geógrafo que vive e respira a montanha em seu cotidiano.

Escalador é montanhista: a filosofia de Tiaraju Fialho e da Capim Amarelo Escola de Montanhismo e Escalada

Tonico Magalhães

Tonico Magalhães é uma das figuras mais emblemáticas e respeitadas do montanhismo brasileiro, sendo um dos grandes pilares da escalada técnica e da exploração na região serrana do Rio de Janeiro. Natural de Petrópolis, sua trajetória confunde-se com a própria evolução do esporte no Parque Nacional da Serra dos Órgãos, em em diversos outros locais, principalmente nos Estados do Rio de Janeiro e Minas Gerais onde se destacou como um conquistador incansável de centenas de vias de escalada e setores inteiros. Reconhecido por um estilo purista e por uma ética impecável na abertura de novas linhas, Tonico priorizou ao longo de décadas o respeito pela rocha e a segurança, tornando-se uma referência fundamental tanto para veteranos quanto para a nova geração de escaladores.

Além de sua impressionante lista de conquistas técnicas em paredes verticais e fendas, ele desempenhou um papel institucional decisivo como um dos fundadores e principais incentivadores do Centro Excursionista Petropolitano (CEP), consolidando sua cidade natal como um dos maiores polos de montanhismo do Brasil. Autor de guias que mapearam e organizaram o conhecimento sobre as montanhas locais, Tonico Magalhães personifica a essência do montanhismo clássico, unindo a habilidade técnica de elite a uma humildade característica. Seu legado é medido não apenas pelas centenas de vias que levam sua assinatura, mas pela preservação da memória e dos valores de camaradagem que definem a cultura de montanha brasileira.

Antonio Paulo Faria

Antonio Paulo Faria é um dos nomes mais influentes e multifacetados do montanhismo brasileiro contemporâneo, destacando-se não apenas como um escalador de elite, mas também como geógrafo, historiador e um dos principais intelectuais do esporte no país. Carioca com uma ligação profunda com as serras fluminenses, ele construiu uma trajetória que une a prática técnica de alta performance à produção acadêmica e literária, tornando-se uma referência indispensável para a compreensão da cultura de montanha no Brasil.

Como escalador e conquistador, Antonio Paulo foi protagonista na abertura de algumas das vias mais desafiadoras e estéticas do Rio de Janeiro, com foco especial em grandes paredes (Big Walls) e na exploração de maciços icônicos como o Parque Estadual dos Três Picos e a Serra dos Órgãos. Ele é conhecido por um estilo de conquista rigoroso e exploratório, buscando linhas lógicas e comprometedoras que exigem grande domínio técnico e psicológico. Sua atuação foi fundamental para consolidar a região dos Três Picos, em Nova Friburgo, como o epicentro da escalada em grandes paredes de granito no Brasil.

Além das cordas e mosquetões, Antonio Paulo Faria é um prolífico autor e pesquisador. Ele assina obras fundamentais que documentam a história e a geografia do montanhismo nacional, como o livro “Montanhismo Brasileiro: Paixão e Aventura”, onde analisa as raízes e a evolução do esporte com boas informações e humor. 

Dono de uma ética purista e um profundo respeito pelas tradições do montanhismo clássico, Antonio Paulo Faria personifica a figura do “escalador-pensador”. Seu legado transcende o número de cumes alcançados, manifestando-se na formação de novos montanhistas e na construção de uma identidade sólida para o montanhismo brasileiro. Através de seus artigos, livros e conquistas, ele continua a ser uma voz ativa e respeitada, defendendo que o montanhismo é, acima de tudo, uma ferramenta de conhecimento geográfico e crescimento humano.

Antonio Paulo Faria

Categoria Homenagem Póstuma

Werner Edvino Wierme, Tarzan

Werner Edvino Wiermes, eternizado como o “Tarzan do Marumbi“, foi uma das figuras mais lendárias e emblemáticas do montanhismo paranaense e brasileiro. Nascido em Curitiba em 1926, Werner transformou o conjunto de montanhas do Marumbi, na Serra do Mar, em seu verdadeiro lar e santuário. Sua conexão com a montanha era tão profunda que ele passou grande parte de sua vida vivendo em condições rústicas na base do conjunto, onde construiu seu próprio abrigo e se tornou uma espécie de guardião espiritual e físico da região.

Sua fama como “Tarzan” não era apenas um apelido, mas um reflexo de sua agilidade e força física descomunais; conta a lenda que ele era capaz de subir as escarpas íngremes do Pico Abrolhos e do Olimpo com uma facilidade impressionante, muitas vezes descalço ou carregando fardos pesados. Werner foi um pioneiro na abertura de diversas vias de escalada e trilhas, contribuindo diretamente para o desenvolvimento do montanhismo técnico no Paraná. Além de sua habilidade atlética, ele era conhecido por seu temperamento forte e solitário, mas também por sua disposição em ajudar montanhistas em apuros e por seu conhecimento enciclopédico sobre a fauna e a flora locais.

Werner faleceu em 2002, aos 76 anos, deixando um legado de preservação e um misticismo que ainda envolve as encostas do Marumbi. Ele é lembrado não apenas como um escalador habilidoso, mas como o símbolo máximo de um estilo de vida purista e de uma entrega total à montanha, sendo hoje uma figura de culto para as novas gerações que buscam entender a história do montanhismo na Serra do Mar.

Falece Werner Edvino Wiermes, o Tarzan do Marumbi

Edson Vandeira

Edson Vandeira foi um dos nomes mais talentosos e inspiradores da nova geração do montanhismo brasileiro, destacando-se não apenas por sua habilidade técnica nas grandes altitudes, mas por sua sensibilidade ímpar como fotógrafo e documentarista de aventura. Natural de São Paulo, Edson transformou sua paixão pelas montanhas em uma missão de vida, utilizando suas lentes para registrar a beleza efêmera das geleiras e a resiliência humana diante das forças da natureza. Sua trajetória foi marcada por uma ascensão meteórica, tornando-se uma referência em expedições nos Andes e em projetos de conservação ambiental.

Ao longo de sua carreira, Vandeira conquistou picos emblemáticos e participou de expedições complexas, sempre com o objetivo de documentar as transformações climáticas e o recuo dos glaciares. Como fotógrafo, colaborou com grandes marcas e publicações do setor outdoor, sendo reconhecido por conseguir capturar a alma das montanhas em ângulos vertiginosos. Além de atleta, ele era um educador, compartilhando técnicas de fotografia e segurança em montanha, e era admirado por sua postura ética e pelo espírito colaborativo que demonstrava em cada expedição da qual fazia parte.

Em julho de 2025, o mundo do montanhismo foi abalado pela notícia de seu falecimento precoce no Peru. Edson estava em uma expedição na Cordilheira Blanca, uma de suas regiões favoritas no mundo, quando foi vítima de um acidente fatal. Sua partida deixou um vazio imenso na comunidade outdoor brasileira, mas seu legado permanece vivo através de seu vasto acervo fotográfico e das histórias de superação que documentou. Edson Vandeira não será lembrado apenas como o montanhista que alcançou grandes cumes, mas como o artista que ensinou muitos a olharem para as montanhas com mais respeito, poesia e urgência pela preservação.

Corpos dos três montanhistas desaparecidos no Artesonraju, incluindo de Edson Vandeira, são encontrados

Marcelo Motta Delvaux

Marcelo Motta Delvaux é um dos nomes mais respeitados e experientes do montanhismo de altitude no Brasil, destacando-se por uma trajetória marcada pelo rigor técnico, pela exploração de montanhas remotas e por uma profunda conexão com a geografia andina. Mineiro de Belo Horizonte e geógrafo de formação pela UFMG, Marcelo uniu o conhecimento acadêmico à paixão pelas grandes cordilheiras, tornando-se um dos poucos brasileiros a atuar profissionalmente como guia de alta montanha com certificação internacional. Sua carreira, que se estende por mais de duas décadas, é caracterizada por uma dedicação quase exclusiva aos Andes e aos Himalaias, onde acumulou um currículo impressionante que inclui a ascensão de dezenas de montanhas acima de 6 mil metros.

Como guia e expedicionário, Delvaux é reconhecido pela sua ética purista e pela busca por rotas menos convencionais, fugindo frequentemente do turismo de massa para explorar maciços isolados na Bolívia, Chile e Argentina. Sua especialidade em logística e aclimatação tornou-se uma referência no Brasil, sendo autor de diversos artigos técnicos e relatos que servem de guia para montanhistas que buscam autonomia em ambientes de ar rarefeito. 

Marcelo Motta Delvaux faleceu tragicamente em 2024, durante uma expedição no Vulcão Coropuna, no Peru. Ele foi vítima de um acidente fatal ao cair numa greta no vulcão mais alto do país. O acidente abalou profundamente a comunidade brasileira de montanhismo de altitude.

Marcelo Delvaux caiu em uma greta no Coropuna

Paulo Roberto Felipe Schmidt – Parofes

Paulo Roberto Felipe Schmidt, mundialmente conhecido no meio outdoor como Parofes, foi um dos montanhistas e comunicadores mais influentes do Brasil, deixando um legado que une a paixão pelas altitudes à conscientização social. Radicado em São Paulo, ele se destacou como colunista e editor do portal AltaMontanha, onde conquistou uma legião de leitores através de relatos que misturavam conhecimento técnico, um humor irreverente e uma profunda conexão com a natureza. Em sua trajetória, explorou intensamente as montanhas da Serra da Mantiqueira e da Serra do Mar, além de realizar expedições significativas nos Andes, alcançando cumes na Argentina, Chile, Bolívia, Equador e França.

A vida de Parofes tomou um rumo desafiador em 2012, quando foi diagnosticado com leucemia. Mesmo enfrentando o tratamento, ele transformou sua luta pessoal em uma causa coletiva, utilizando sua visibilidade para promover a doação de medula óssea no Brasil. Sua batalha terminou precocemente em maio de 2014, mas sua partida gerou uma onda de mobilização que expôs falhas no sistema de transplantes do país. Como forma de manter viva sua memória, amigos e grandes nomes do montanhismo realizaram o feito simbólico de espalhar suas cinzas por diversas montanhas sagradas ao redor do mundo, incluindo o Himalaia e os Andes, onde um cume virgem de 5.845 metros na Puna do Atacama foi oficialmente batizado como Monte Parofes em sua homenagem.

10 anos sem Parofes

 

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Sobre o autor

Natural de Itatiba-SP e residente em Curitiba-PR desde 2007, Pedro Hauck é uma figura proeminente no montanhismo brasileiro. Sua formação inclui graduação em Geografia pela Unesp Rio Claro e mestrado em Geografia Física pela UFPR. Com uma carreira de mais de 27 anos, ele é guia de montanha profissional e instrutor de escalada credenciado pela ABGM, a única associação de guias de escalada profissional do Brasil. Seu currículo inclui a ascensão de mais de 180 montanhas acima de 4 mil metros, com mais da metade ultrapassando os 6 mil metros, além de um pico de 8 mil metros no Himalaia e dois de 7 mil. Pedro Hauck também atua como empresário do setor outdoor, sendo sócio da Loja AltaMontanha, uma das mais conceituadas lojas de montanhismo do país, da Via AltaMontanha, um dos maiores ginásios de escalada de Curitiba, e da Soul Outdoor, agência especializada em ascensão, trekking e cursos de montanhismo. Acompanhe Pedro Hauck no Instagram: @pehauck.

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