Nossas Serras (5/25): O Caparaó

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Por ser distante dos grandes centros, acho que muitos poucos andarilhos tiveram sua iniciação no Caparaó. Mas acredito que todos aqueles que se maravilharam pela natureza não deixaram de visitá-lo – e de considerá-lo um lugar magnífico e inspirador.

Como é típico da geologia brasileira, as rochas da Serra do Caparaó são muito antigas, de 600 milhões de anos atrás. Foram retrabalhadas por sucessivos dobramentos, com processos erosivos que as desgastaram para altitudes menores. O Caparaó é constituído por gnaisses e migmatitos, rochas aparentadas ao granito.

Montanhas do PN Caparaó, MG (Fonte: Léa Cristina)

Apesar de ser um maciço notável, o Caparaó tem uma dimensão limitada, que estimo como 50 km. Localiza-se na divisa entre Minas e Espírito Santo, correndo no sentido N-NE. Estende-se ao sul desde Dores do Rio Preto (ES) e Espera Feliz (MG) até Iúna (ES) e Alto Caparaó (MG) ao norte. Ele é um cotovelo da Mantiqueira rumo norte.

Mapa de Localização do PN Caparaó, ES e MG

O Caparaó é visitado por causa de suas montanhas e cachoeiras. Nele foi implantado o PN do Caparaó, com 32 mil ha. Ao longo de seus 30 km de extensão N-S, contém a maior parte da Serra, que se desmancha antes e depois em mares de morros, que envolvem as modestas vilas da região.

Hoje está bem melhor estruturado, com quatro locais de acampamento, dois em cada Estado. Em Alto Caparaó (MG) estão a Tronqueira e o Terreirão e, em Pedra Menina (ES), o Macieira e a Casa Queimada. Os primeiros em cada Estado estão mais próximos da chegada e mais distantes das montanhas.

A Casa de Pedra, Primeiro Abrigo do PN Caparaó, MG (Fonte: Anderson Testi)

Naturalmente, a maior atração é o Pico da Bandeira, nossa terceira montanha mais elevada. Na carta do IBGE, ele fica totalmente no ES, mas sabe-se que está realmente na divisa. No quadro anexo, você poderá conhecer as maiores altitudes da região.

As Altitudes da Serra do Caparaó

Veja como ela é elevada, todas as formações do maciço superando os 2.500m. Isto lhe confere um clima gélido no inverno. Mas a meu ver a mais bela montanha é o Pico do Cristal, com sua forma elegantemente triangular navegando no alto da serra.

Croquis da Trilha dos Picos da Bandeira e do Cristal (Fonte: José Henrique Fonseca)

Pico da Bandeira, PN Caparaó, ES-MG (Fonte: Edinho Ramos)

Existe o estranho conceito de que o Bandeira apresenta o maior isolamento topográfico entre todas as nossas montanhas. Esse isolamento foi medido como 2.340 km. Isto significa que, dentro deste raio, não há nenhum ponto com altitude maior ou igual. O ponto mais próximo está na Bolívia.

Pico do Cristal, Caparaó, MG (Fonte: Raphael Yamamoto)l

Em nosso continente, só obviamente o Aconcágua (Argentina), além do Denali (EUA) e do Orizaba (México), têm maior isolamento. Evidentemente, picos continentais culminantes, como o Everest ou o Aconcágua, terão os maiores isolamentos.

Embora este conceito não pareça ter sentido prático, ele decorre das grandes altitudes do Caparaó, do seu distanciamento das maiores serras brasileiras e do imenso desnível relativo à região próxima, em especial do lado capixaba.

Na realidade, o Caparaó apresenta o maior desnível do Brasil, com quase 2 mil m. Como consequência, a vista do Bandeira é espetacular, alcançando os demais picos da cadeia e, segundo dizem, até mesmo o mar. O nascer e o pôr do sol são inesquecíveis.

Poço no Vale Encantado, Caparaó, MG (Fonte: Divulgação)

As cachoeiras são especiais neste clima de altitude. São de acesso fácil, com mirantes, corredeiras e piscinas. No lado mineiro, o Vale Verde e o Vale Encantado são deliciosos e, no capixaba, há quedas e poços próximo ao primeiro acampamento. Talvez essa seja um aspecto do Parque: a facilidade das trilhas, que normalmente não passam de 12 a 20 km.

Percorrer a Serra do Caparaó é uma especial experiência de beleza e distância, ao longo de seus campos de altitude. Nas partes baixas, aparece a floresta alta, úmida e densa no lado capixaba e a mata estacional algo seca e menos exuberante no lado mineiro. Mas estas vegetações são hoje basicamente secundárias. A principal bacia da região é a do Rio Doce.

Vegetação do Caparaó, entre MG e ES (Fonte: Divulgação)

A fauna da região foi diminuída pela ação do homem, resumindo-se a mamíferos menores. No entanto, ainda resistem espécies ameaçadas como o mono-carvoeiro, o lobo-guará e o veado-campeiro. Mas as aves, menos sensíveis ao meio, são ainda abundantes. Observo que a natureza ainda se ressente do incêndio que lá ardeu por meses no fim do século passado.

Por ser afastado dos centros do Sudeste e do Nordeste, o Caparaó não foi importante na nossa história. A região só foi colonizada no século passado. Porém, militares cassados pela Ditadura e inspirados na Sierra Maestra de Fidel Castro, tentaram lá reviver a insurreição cubana na década de 1960.

Nada menos do que dez mil soldados os acuaram e prenderam. Hoje a serra só é invadida por alegres turistas e os campos à volta apenas produzem café de qualidade.

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Sobre o autor

Alberto Ortenblad - Colunista

Nasci no Rio, vivo em São Paulo, mas meu lugar é em Minas. Fui casado algumas vezes e quase nunca fiquei solteiro. Meus três filhos vieram do primeiro casamento. Estudei engenharia e depois administração, e percebi que nenhuma delas seria o meu destino. Mas esta segunda carreira trouxe boa recompensa, então não a abandonei. Até que um dia, resultado do acaso e da curiosidade, encontrei na natureza a minha vocação. E, nela, de início principalmente as montanhas. Hoje, elas são acompanhadas por um grande interesse pelos ambientes naturais. Então, acho que me transformei naquela figura antiga e genérica do naturalista.

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