O dia que aprendemos muito com crianças de 6 anos no Bosque Reinhard Maack em Curitiba

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Surpreendente, experiência montanheira nos aconteceu, por ação e obra da Dra. Cinthia Hauer Leitão, do corpo técnico da Secretaria Municipal do Meio Ambiente, depois do telefonema da Escola CMEI Moradias Belém no Boqueirão, em Curitiba, Paraná, perguntando se poderíamos dar uma aula para crianças. O inesperado da pergunta nos fez titubear, pois não somos pedagogos ou com experiência em palestras para crianças. Arriscamos perguntar a idade.  Seis anos! Nossa!  Ainda surpresos ante a inesperada resposta, arriscamos mais perguntas: Onde? Por quê? Quando?  A escola exclusiva Pré-Jardim, instalada em região muito carente economicamente, nas proximidades do Parque/Bosque Reinhard Maack, bairro Hauer, para onde levam as crianças da escola, para conhecer esse único remanescente da cobertura florestal do planalto curitibano, que era constituído totalmente  por mosaicos de “mares de gramíneas, herbáceas e ilhas de  capões“. Recentemente revitalizado, reparado, o parque é um local ideal para levarmos filhos, sobrinhos, netos, menores, para iniciação à prática montanheira e conservacionista.

Acabou, como uma ilha verde num mar de concreto e asfalto, tons cinzas e um pontinho que destoa. Que inversão! Situado no final da Rua Waldemar Kost, com área preservada, pertenceu à família de Alfredo Hauer, pioneiro da ocupação da região e de múltiplas ações para a cidade e região de Curitiba, figura notável e de uma nobreza rara. A família Hauer sempre preservou essa área, que foi adquirida pelo município, que nominou homenageando o insigne geocientista, naturalista, múltiplo cientista, pioneiro na conservação do estado do Paraná, um visionário, com solida formação humanitária e cientifica cujos trabalhos ainda hoje causam espanto e profunda admiração, Reinhard Maack (Herford, Alemanha 2 de outubro de 1892 — Curitiba, 26 de agosto de 1969).

Pico do Paraná, 1878.7 m, desde o bairro Água Verde, cerca de 60 km, 300 mm, amanhecer de 30 de Maio de 2020. GB

Responsável em dois notáveis acontecimentos, entre muitos. Um de caráter universal e outro exclusivamente ao Paraná. Conseguiu comprovar a então Teoria da Deriva Continental (Pangeia / Gondwana) com minudentes observações que fizera na África, especialmente na Namíbia, onde residira muitos anos e, posteriormente, com observações diretas na Bacia do Paraná e da Serra do Mar.  Residia Maack na avenida Sete de Setembro, fronteiro à Praça Oswaldo Cruz, desfrutando privilegiada visão sobre a Serra do Mar, cujo prolongamento dessa avenida,  convergia diretamente  sobre uma ¨corcova de camelo”. Um cone duplo a leste. Em 1940 resolveu através de seu inseparável  teodolito e equipamentos de geodésia, determinar suas altitudes e constatou assombrado  que toda região  era mais alta que o pico culminante do Paraná até o inicio da década de 1940, o do Marumbi (que supunha-se, tinha 1810 metros). Como todo cientista  meticuloso, organizou oito expedições de medições, ao deredor daquele conjunto, todas  confirmando a novel descoberta. Por último,  subiu  o Marumbi e descobriu que ali bem próximo havia dois picos mais altos:  Leão (não temos, mas os senso é para o leão-baio, o puma) e Ângelo.  Desenhou o perfil  do inédito conjunto  que denominou de Ibitiraquire e depois das medidas cartográficas e fotogramétricas e inicialmente sem nome, pouco tempo depois, nominou cada pico com personalidades importantes do país e do Paraná.

Comunica oficialmente na suas descobertas na Revista Brasileira de Geografia, em 1942, edição de Jan-Mar, com o titulo Picos do Paraná, sem dar nomes e fornecer as altitudes finais, que estava processando os dados, corrigindo-as. Logo em seguida, pelas normas até hoje, forneceu ao antigo IBGE, os nomes dos picos e este de imediato responde, esclarecendo que pelas leis brasileiras é vedado o nome de pessoas vivas ou morta em monumentos naturais. Maack também historiador, optou exclusivamente por vocábulos derivados da Língua Geral Brasílica (LGB), a língua franca que diferentes culturas se comunicavam, derivada do Tupi e Guarani Antigos, com acréscimos de diversas outras culturas indígenas, de termos africanos, árabes, europeus e as línguas originais, foram extintas, e essa língua, uma espécie de inglês de quase três séculos, foi a mais falada do Brasil até o final do século XVIII.  Assim nasceram: Serra de Ibitiraquire (serra verde, serra chuvosa), Pico do Paraná (Paraná, do Guarani Antigo /LGB, o que se parece, assemelha-se com o mar, e importante salientar, que embora usemos com frequência Pico Paraná, é um equívoco, pois anotações do Maack, comunicações, publicações, mostram que o batismo foi, Pico DO Paraná), Camacuã, Camapuã (morros redondos), Tucum (uma espécie de palmeira), Itapiroca (pedra pelada), Siririca (mãe dos siris da terra), Taipabuçu (grande dente preto), Caratuba (taquara maciça, não oca), Ibitirati (montanha bicuda), Guaricana (outra palmeira), Tupipiá (montanha filha). Grandes desafios surgiram para alcançar aquelas cumiadas, a maioria ainda não visitadas em seus topos. Região inóspita, desconhecida e de difícil acesso.  Naquela época (1940/1941) só duas únicas estradas ligavam o planalto curitibano com São Paulo e o litoral. Eram a via por Bocaiúva do Sul, Pedra Preta (hoje Tunas do Paraná), Apiaí e a capital paulista. A outra, exclusiva para a costa: a Estrada da Graciosa. A cartografia inexistente, obrigou o Maack, com apoio do professor e piloto civil Ewaldo Schiebler, perlustrar todo o entorno do imenso bloco e determinar a rota para o ataque. Maak  monta uma expedição, com apoio de dois  consagrados marumbinistas,  Rudolfo Stamm e Alfredo  Mysing. Zarpam com apoio de uma “ramona” (Chevrolet), via Graciosa até próximo ao alto da serra, no paradouro Elpídeo, onde infletem por estrada carroçável para Timbó (hoje Campina Grande do Sul), e conseguem alcançar a localidade (sem mar) Praia Grande, onde contratam dois mateiros. Para dificultar, o Pico do Paraná não era visível do oeste, naquelas paragens, por ter outras montanhas na frente. Teriam que açomar qualquer pico da região, tentar identificar o Pico do Paraná e planejar o ataque final.  Assomaram o Tucum e pela primeira vez, tiveram vista direta desse ângulo do desejado pico, e perceberam a impossibilidade da rota escolhida, recuaram e por outras frentes, totalizando 16 dias, mas com extrema determinação, esforços de cerca de três semanas, no dia   13 de julho de 1941, o naturalista Reinhard Mack, os montanhistas Rudolfo Stamm e Alfredo Mysing e os mateiros Josias Armstrong e  Benedito Lopes alcançaram o Pico do Paraná (1878.7 m, 2010, UFPR). A própria odisseia de retorno, pela via da costa marítima, fundo da Baia de Paranaguá, por si, outro feito memorável, até assombroso.

Retornando ao inicio, com a incursão das professoras e seus alunos ao Bosque Reinhard Maack, veio à inesperada pergunta de uma menininha: Professora, como é que o Maack mediu e subiu as montanhas? Aparentemente simples, mas complexa explicar para crianças de seis anos! E algo que muitos adultos, nunca formularam ou penaram como o fez. Pergunta, que nos ensinou muito.

Aceitamos o desafio e no dia ajustado, fomos munidos de um “metro de costureira¨, loja de tecidos, uma traquitana de pedaço de conduit, papelão à guisa de transferidor (uma simulação do Vita de um teodolito para os pequenos) e um batalhão de fotos coloridas e  para não parecermos picos perante a classe, que estavam em circulo. Os 27 sentados no chão do auditório também circular, assim o fizemos, ficamos todos na mesma altura e percebia-se o frenesi deles e nossos corações batentes fortes, pela responsabilidade, pelo desejo que os fizessem entender de forma prazerosa, de descobertas, de imaginação deles e com ideia de como o fabuloso Maack  mediu. Geraldo deu um verdadeiro show de competência pedagógica, interagindo agradavelmente com as crianças, que inundaram-no  com perguntas, exibindo seus interesses e curiosidades e o dispositivo do Vitamina, com um tubo plástico, imitando um teodolito, deu clara, lúdica ideia as crianças, que quando mais inclinado para olhar para cima, na mesma distancia, mais elevada seria a montanha. Crianças aprendem, brincando e o teodolito foi usado.

Do nosso desafio extraímos mais uma lição, importante aprendizado em relação a essa escola e de seu professorado: comprovar que esse Pré-Jardim desenvolve o aprendizado baseado em projetos de ensino que fortalece o raciocínio cientifico, que ensina pensar com a metodologia das oitivas, em ambientes sem sofisticações e percorrendo interagindo com a natureza. Percebe-se nitidamente ter uma Direção e Equipe estável e comprometida com o aprendizado lúdico, interagindo com o meio, alem das salas de aulas.

Na oportunidade da primeira visita, a professora exigiu que cada um desenhasse o que viram ou sentiram. Ao final, duas alunas (Kauane para o Geraldo e Alice para o Vita) escolhidas pelas maravilhosas “Tias”, em que toda a classe fez pinturas, desenhos do Maack e suas montanhas, presentearam-nos com seus desenhos, lindos, sublimes e com selinho de “Com Amor” e informações no verso. Com esmero cuidado, estavam com papel plástico para protegê-los. Desenhos maravilhosos (que estão em nossos ambientes caseiros, onde mais permanecemos, de modo, que todo dia, ainda emocionados, os olhamos e que também o interpretamos, como espelho, do que podemos ser, como elas e eles), que nos deixaram, novamente, com os corações batendo mais rápidos e com “nevoeiros nos olhos”, que aqui reproduzimos e a Alice que deu ao Vita,  fez questão de esclarecer que ali tinham duas pessoas.  Ela apontou o da esquerda e disse: é você e o outro é o Maack.

Com o termino, fomos para a área externa, onde eles iriam percorrer as trilhas, por Araucárias, Pinheiros-do-Paraná majestosos, altos em profusão, desse paraíso, que precisamos ir mais vezes, conhecer, sentir a vida pulsando, nossas responsabilidades, necessárias mudanças de hábitos, de ter mais conhecimentos, desde que o dividimos, que aprender é a grande arte da vida, de praticar até o último respiro e que crianças, são professores e que tem a magia de nos surpreender de forma tão tocante, que ambos saímos de lá com sensação que tínhamos vivenciado algo que jamais esqueceremos. Como traduzir em palavras, que elas, eles, chegaram perto de nós, aproximavam-se e diante de “picos humanos”, de forma singela, pura, de uma ternura que a palavra orgulha-se, encostavam-se em nossas pernas… e então, foi uma sucessão de elevadores até a altura dos “cumes”., pois poucos “remédios” são tão potentes, eficazes, como os abraços.

Um agradecimento ao longo de nossas vidas as Professoras, Pedagoga e Diretora. Que tentamos, embora até hoje com calafrios ante a responsabilidade e que no final, fomos aprender.

Presente da aluna Alice ao mestre do montanhismo Vitamina

Desenho da aluna Kauane.

Atrás, de nossos desenhos:

As crianças são curiosas e tem olhos encantados, a partir de uma leitura, várias              curiosidades surgiram, uma dela foi: -Como Reinhard Maack, escalou e mediu o Pico            do Paraná? Muitas hipóteses foram levantadas por eles, pois as crianças são “competentes para elaborar teorias que interpretam a realidade e para formular          hipóteses e metáforas como possibilidades de entendimento da realidade” (RINALDI,               2016, p.223).

Pré- II 2019 / CMEI Moradias Belém – NRE-Boqueirão

Professoras:

Márcia Vitorino

Vanilza Nazareth

Pedagoga: Letícia R. S. Bruggemam

Diretora: Marisa P. do Rosário.

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Sobre o autor

Vitamina - Colunista

VITAMINA – Henrique Paulo Schmidlin Como outros jovens da geração alemã de Curitiba dos anos de 1940, Henrique Paulo foi conhecer o Marumbi, escalou, e voltou uma, duas, muitas vezes. Tornou-se um dos mais completos escaladores das montanhas paranaenses. Alinhou-se entre os melhores escaladores de rocha de sua época e participou da abertura de vias que se tornaram clássicas, como a Passagem Oeste do Abrolhos e a Fenda Y, a primeira grande parede da face norte da Esfinge, cuja dificuldade técnica é respeitada ainda hoje, mesmo com emprego de modernos equipamentos. É dono de imenso currículo de primeiras chegadas em montanhas de nossas serras. De espírito inventivo, desenvolveu ferramentas, mochilas, sacos de dormir. Confeccionou suas próprias roupas para varar mata fechada, em lona grossa e forte, cheia de bolsos estratégicos para bússola, cadernetas, etc. Criou e incentivou várias modalidades esportivas serranas, destacando-se as provas Corrida Marumbi Morretes, Marumbi Orienteering, Corridas de Caiaques e Botes no Nhundiaquara, entre outras. Pratica vôo livre, paraglider. É uma fonte de referências. Aventureiro inveterado, viaja sempre com um caderninho na mão, onde anota e faz croquis detalhados. Documenta suas viagens e depois as encaderna meticulosamente. Dentro da tradição marumbinista foi batizado por Vitamina, por estar sempre roendo cenoura e outros energéticos naturais. É dono de grande resistência física e grande companheiro de aventuras serranas. Henrique Paulo Schmidlin nasceu em 7 de outubro de 1930, é advogado e por mais de uma década foi Curador do Patrimônio Natural do Paraná. Pela soma de sua biografia e personalidade, fundiu-se ao cargo, tornando-se ele próprio patrimônio do Estado, que lhe concedeu o título de Cidadão Benemérito do Paraná.

2 Comentários

  1. Avatar

    Queridas crianças, tias, todas, todos envolvidos no CMEI Moradias Belem, saudações sempre! Como acordo e durmo, com o desenho, o quadro, isso significa que vou sonhar com aqueles anjos que tornaram nossas vidas melhores, num encontro que sempre iremos lembrar, buscar forças, riqueza espiritual e que acordo, pensando na esperança que o mundo possa ser melhor através das crianças, das tias, do CMEI e a nobreza de tantos gestos. Maack naquele dia, deve estar sorrindo desde então, assim como nós. E cada vez que lembramos, o sorriso e a alma são maiores. Muito obrigado Cynthia, “Irmão-brother” Mário, pois sem vocês, não teríamos esse imenso jardim ….da e na vida.

  2. Getulio R. Vogetta

    Parabéns aos grandes mestres, Vitamina Schmidlin e Geraldo Barfknecht!!
    Um grande e belíssimo exemplo do encontro que sempre deveria existir entre gerações para transmitir suas mútuas vivências e sentimentos umas às outras. Quiçá muitos outros encontros desses sejam possíveis e estimulados pelos educadores de nossas escolas.

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