O Espinhaço: Os Chapadões de Cerrado

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Você conhecerá dois parques próximos e parecidos, longos chapadões recobertos por um cerrado árido, numa condição bastante monótona. Mas acredito que eles são necessários para a preservação da pouca natureza que hoje nos resta.

Caminho dos Gerais: Gostaria de começar transcrevendo um texto bem sugestivo do site do IEF, levemente editado: As populações locais reivindicam a preservação dos mananciais e do domínio público sobre as áreas das nascentes, bem como o livre acesso aos gerais, antes serventia de todos e agora, não sabem como, de donos que plantam eucalipto, fazem carvão, acabam com os frutos de livre apanha anterior e secam as águas.

Como resultado das necessidades acima, foi fundado o Parque Estadual Caminho dos Gerais, ao longo da mesma Serra Geral que acolhera mais ao sul o PE da Serra Nova. É uma unidade grande, com 56.240 ha, entre os municípios de Mamonas, Monte Azul, Gameleiras e Espinosa, dos quais os dois últimos contribuem com a maior parte da área. Tem a forma de um C alongado, com comprimento de talvez 55 km e largura média de talvez 10 km (ver mapa).

Mapa de Localização dos Chapadões de Cerrado, MG e BA

Destas cidades, só Espinosa e Monte Azul têm um tamanho médio, as demais sendo meros vilarejos. Foi Gameleiras que liderou a criação do Parque, devido à falta d’água causada pelo plantio de eucalipto, que tem o nocivo efeito de ressecar o solo. A área do Parque encontrava-se muito desmatada, pois os fazendeiros produziam carvão vegetal mas não criavam gado.

Havia uma única empresa que detinha 20 mil ha, mais da metade dos quais reflorestados. Uma centena de pequenos proprietários possuía os demais 36 mil ha. Curiosamente, foram necessários apenas três anos para estabelecer a UC, talvez devido ao baixo rendimento que a terra propiciava, facilitando sua transferência. Está indenizada, mas não paga, numa situação bastante comum com o IEF.

A cobertura vegetal corresponde àqueles campos altos, áridos e pedregosos típicos das cristas deste trecho do Espinhaço, com as arboletas lenhosas, os arbustos esparsos e as gramíneas rasteiras do cerrado. É curioso encontrar bosques dispersos de eucalipto dentro do campo, progressivamente absorvidos pela vegetação nativa. A fauna é bastante presente, com espécies raras favorecidas pelo relativo isolamento. Desta vez, felinos não são tão escassos, com relatos de ferozes onças pintadas.

Vegetação do PE Caminho dos Gerais, Mamonas, MG

O PECG pertence à vertente ocidental da cordilheira, fazendo com que seus muitos cursos d´água vertam para o São Francisco. O clima é seco, mas com chuvas razoáveis. O relevo é principalmente plano, com altitude de 1.100m, compondo um chapadão meio feioso, sem aquelas paredes expostas de bela aparência.

Há estradas por Mamonas e Barrinha a leste e por Gameleiras a oeste. Usamos o primeiro destes acessos – ao chegar no alto do chapadão, pode-se escolher a esquerda ou direita. No primeiro caso, a direção será sul e você chegará depois de 21 km bastante monótonos ao pequeno lago da Barrinha. É uma região sombreada, com o frescor da água, mas nada tem de especial.

Poço da Barrinha, PE Caminho dos Gerais, Gameleiras, MG

Se você escolher a direita na encruzilhada, percorrerá uma região idêntica à anterior, apenas mais acidentada. A maior atração é a Cachoeira da Capivara, que verte num belo poço. A sede é situada na Fazenda Grande Sertão – não a visitei e soube que se encontrava deteriorada. Percorri ao todo 45 km dentro da reserva.

Cachoeira da Capivara, PE Caminho dos Gerais, Espinosa, MG (Fonte: IEF)

Serra dos Montes Altos: A Bahia conta que eu saiba com apenas cinco PEs, sendo três deles na região da Chapada. O Parque Estadual Serra dos Montes Altos resultou da demanda das comunidades, para proteção de sua natureza. Com 18.490 ha (ou 42.000 ha, com a área de amortecimento), abrange seis municípios do sudoeste baiano, dos quais o mais populoso é Guanambi.

Esta é uma região relativamente elevada, com altitudes de até 1.300m. Seu isolamento geográfico favorece a presença de mamíferos de porte. A fauna é a usual, com animais de médio porte, abundância de aves e muitos ofídios. Os felinos são diversos: onças pintada, preta e parda, jaguatirica, gato mourisco (preto e laranja) e maracajá (pintado). Existem relatos do cachorro vinagre, um cão pequeno, avermelhado e semiaquático. Aves como zabelês, ciganas e jacupembas são avistadas.

A cobertura vegetal varia das caatingas rasteiras e arbóreas aos cerrados, campos rupestres e matas de galeria. Mas tem uma variedade interessante: palmeiras licuri, que são relativamente raras; barrigudas, umburanas e itapicurus, que aparecem na mata seca; jatobás, angicos e jacarandás, que são típicas do cerrado.

Foram identificadas na região do Parque uma centena e meia de nascentes, das bacias dos Rios Espinho, Verde Pequeno e Verde Grande. Destes, o principal é este último, um dos maiores afluentes do São Francisco. Se ele é principalmente um curso mineiro, seu afluente Verde Pequeno percorre a divisa com a Bahia. Atravessam campos de agropecuária e agricultura irrigada. Isto não impediu, numa recente seca, que o Verde Grande simplesmente secasse.

O Parque apresenta uma face mais abrupta do lado leste, de Candiba e Guanambi. O visual da Serra de Mutãs é vistoso, com o recorte da crista da serra percorrendo o horizonte, desde Urandi até Palmas de Monte Alto. O lado oposto, voltado para Sebastião Laranjeiras, é mais suave.

Parede da Serra de Mutãs, PE Palmas Monte Alto, BA

Existem acessos por Palmas de Monte Alto ao norte, Candiba a leste e Sebastião Laranjeiras a oeste. Ele tem um comprimento de 50-55 km, mas é bem estreito, talvez apenas 8 km. É um grande chapadão, na altitude de 1.200m, num desnível de 650m em relação aos campos de baixo.

Ingressamos nele por Palmas de Monte Alto. Foram 22 km de asfalto mais 4 km em terra, até o início do Parque, dentro do qual percorremos 32 km. O percurso foi de jipe, com emocionantes trechos de barrancos e areões, de rampas e depressões, sob a displicente condução do baiano Bebé. Eu já havia conhecido 15 km no dia anterior.

Este Parque dispõe de atrativos bonitos. A graciosa Cachoeira do Buracão é alcançada por uma pequena trilha encosta abaixo. A Casa de Pedra é uma antiga estrutura para processamento do salitre, perto da qual você poderá conhecer a Cachoeira do Brucunum, uma agradável queda pequena.

Cachoeira do Buracão, PE Palmas Monte Alto, Candiba, BA

Mais interessante me pareceu a Cachoeira da Mandiroba, maior e mais espaçosa. Ela pode ser acessada a pé a partir de Mutãs, são apenas 8 km serra acima. O Pico da Tabatinga e a Pedra Três Irmãos são outros atrativos, que não conheci.

Cachoeira da Mandiroba, PE Palmas Monte Alto, Palmas Monte Alto, BA

Além do belo mirante da Fazenda Andes, o PESMA contém pinturas rupestres, das quais o maior sítio é a Toca dos Tapuios. E sabe-se lá mais quantos escondidos. Neste mesmo lado, se debruça a Cachoeira da Catinguiba, com paredões de 50 m, mas são necessárias pelo menos 4-5 hs para alcançá-la.

Mirante da Fazenda Andes, PE Palmas Monte Alto, BA

A razão das reservas: Mas devo reconhecer que estas duas reservas não são de fato visualmente interessantes – extensões planas e cansativas, recobertas por vegetações pobres, sem belos acidentes. Porque então foram escolhidas como unidades de conservação?

Nossa tendência é considerar válidos os parques cênicos. Porém nem sempre são criados segundo os critérios turísticos ou estéticos. Razões ligadas à conservação se mostram mais importantes. Considere por exemplo o cerrado, que é uma vegetação de aspecto pobre – porém rica em termos alimentícios e medicinais – e que está desaparecendo em nosso país.

Considere ainda a preservação da fauna. Existem animais, como o lobo e a onça, que necessitam de vastas extensões para sua sobrevivência, pois são grandes andarilhos. Ou a paca e a capivara, cujo habitat são os extensos banhados. E toda uma população de aves que se alimenta de frutos específicos ou se abriga sob determinadas árvores.

Durante esta viagem, atravessei uma região agropastoril onde a soja competia com o pasto, ambos substituindo os poucos remanescentes da flora original. As fazendas são obrigadas a manter 20% de sua área em vegetação nativa como reserva legal. E elas assim faziam, distribuindo retalhos inúteis ao longo do caminho, onde a natureza original nunca poderia prosperar nesses espaços dispersos e confinados.

Assim, benvindos esses parques feios, onde a natureza possa sobreviver, mesmo sem a admiração de nossos olhos.

Nos três capítulos finais, você ingressará na Chapada Diamantina, um território gigantesco que desconfio apresentar muitas outras belezas além das fantásticas atrações do Parque Nacional no seu centro.

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Sobre o autor

Alberto Ortenblad - Colunista

Nasci no Rio, vivo em São Paulo, mas meu lugar é em Minas. Fui casado algumas vezes e quase nunca fiquei solteiro. Meus três filhos vieram do primeiro casamento. Estudei engenharia e depois administração, e percebi que nenhuma delas seria o meu destino. Mas esta segunda carreira trouxe boa recompensa, então não a abandonei. Até que um dia, resultado do acaso e da curiosidade, encontrei na natureza a minha vocação. E, nela, de início principalmente as montanhas. Hoje, elas são acompanhadas por um grande interesse pelos ambientes naturais. Então, acho que me transformei naquela figura antiga e genérica do naturalista.

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