O que aconteceu no Nepal? Entenda a inundação repentina que devastou a região do Langtang e deixou centenas de mortos e desaparecidos

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O colapso de uma geleira provocou uma avalanche de gelo e rochas e desencadeou uma inundação catastrófica no norte do Nepal; região atingida é importante corredor de trekking, montanhismo e peregrinação

Vídeos desesperadores de pessoas correndo e tentanto se salvar de uma enorme inundação tomaram conta das redes sociais e dos canais de mídia em 26/08.  Esses vídeos são registros de uma das maiores tragédias recentes registradas no Himalaia que atingiu o norte do Nepal, quando uma gigantesca onda de água, gelo, lama e rochas desceu pelos vales próximos à fronteira com o Tibete. O desastre atingiu principalmente o distrito de Rasuwa, uma região montanhosa conhecida por abrigar algumas das principais rotas de trekking do Nepal.

Câmera de segurança capta momento exato em que a inundação chega na fronteira do Nepal com o Tibete. Foto: Captura de vídeo

O fenômeno não foi provocado simplesmente por uma enchente causada pelas chuvas ou monções como costuma ocorrer no Nepal. As informações mais recentes indicam que o desastre começou com o colapso da parte inferior de uma geleira nas proximidades do Langtang Lirung, uma montanha de 7.227 metros. A queda de uma enorme massa de gelo e rocha desencadeou uma avalanche que atingiu o vale e provocou um gigantesco fluxo de detritos e água.

Langtang Lirung Foto: Stefanos Nikologianis / Wikimédia Commons

O material desceu em alta velocidade e atingiu o sistema fluvial da região, provocando uma inundação repentina que destruiu casas, estradas, pontes, instalações de energia e outras estruturas. A massa de detritos também atingiu o lado tibetano da fronteira, incluindo a região do porto de Gyirong, importante passagem terrestre entre a China e o Nepal.

Como uma geleira provocou a inundação

A sequência do desastre ajuda a entender a dimensão da tragédia. Segundo análises de imagens de satélite e informações divulgadas por especialistas, uma porção da geleira situada nas encostas do Langtang Lirung se desprendeu e caiu centenas de metros até o fundo do vale. O impacto desencadeou uma avalanche composta por gelo e rochas.

A enorme quantidade de material atingiu o rio Lhende Khola e provocou uma onda de detritos que avançou pelo sistema fluvial. A velocidade do fluxo chegou a aproximadamente 50 metros por segundo, segundo análise publicada pela Reuters.

O fenômeno foi tão intenso que alterou o curso de rios e deixou marcas de destruição por mais de 100 quilômetros rio abaixo.

Inicialmente, houve especulação de que um terremoto poderia ter desencadeado o episódio. O evento, porém, foi posteriormente associado ao próprio colapso e à avalanche de gelo e rocha. A causa exata da ruptura glacial ainda está sendo investigada.

Casas destruídas após a passagem da onda de água, gelo e rochas.

Especialistas alertam, entretanto, que o aquecimento do Himalaia pode estar aumentando a instabilidade de geleiras e encostas de alta montanha. O aumento das temperaturas favorece o derretimento do gelo, altera os ciclos de congelamento e descongelamento e pode contribuir para a instabilidade de terrenos congelados e estruturas glaciais.

Isso não significa que o desastre possa ser atribuído exclusivamente às mudanças climáticas. Segundo os especialistas, trata-se de um fenômeno complexo, no qual fatores geológicos, condições da montanha e o aquecimento do ambiente de alta altitude podem atuar conjuntamente.

Uma região conhecida pelos montanhistas

O desastre atingiu principalmente o distrito de Rasuwa, no centro-norte do Nepal, próximo à fronteira com o Tibete.

A região faz parte do entorno do Langtang, uma das áreas mais conhecidas do país entre trekkers e montanhistas. O Langtang Valley Trek é uma das rotas tradicionais de trekking do Nepal e leva os visitantes por um vale cercado por grandes montanhas, geleiras e comunidades de origem tibetana.

Entre os principais acidentes geográficos e montanhas da região está o Langtang Lirung (7.227 m), que domina a paisagem do vale e está diretamente relacionado ao fenômeno que desencadeou a inundação.

Também fazem parte do ambiente montanhoso da região picos como o Yala Peak, além de outras montanhas do maciço do Langtang e do Ganesh Himal. A região abriga ainda o Langtang National Park, uma importante área de conservação do Nepal.

Estacionamento de ônibus e Porto de Gyirong, na fronteira prestes a ser destruído pela inundação. Foto: Captura de vídeo.

O corredor atingido, porém, não é frequentado apenas por montanhistas. Rasuwa também é uma rota utilizada por peregrinos e turistas que seguem em direção ao Tibete, especialmente aqueles que viajam para o Monte Kailash e o lago Manasarovar, considerados locais sagrados por diferentes tradições religiosas.

Essa combinação ajuda a explicar por que tantos estrangeiros aparecem entre os desaparecidos.

Vilas inteiras foram atingidas

As áreas mais afetadas incluem localidades do distrito de Rasuwa, especialmente ao longo do corredor do Bhote Koshi e do rio Trishuli.

Entre os locais atingidos estão áreas próximas a Rasuwagadhi e Timure, além de outras comunidades e instalações ao longo dos vales. A destruição atingiu residências, estradas, pontes, linhas de comunicação e projetos hidrelétricos.

A dimensão dos danos também dificultou o trabalho das equipes de emergência. Diversas estradas e pontes foram destruídas ou ficaram bloqueadas, deixando comunidades isoladas e dificultando o acesso dos socorristas.

Até o momento, não há um número consolidado de cidades e vilas atingidas. As autoridades ainda trabalham para dimensionar os danos, especialmente nas comunidades mais remotas.

Centenas de mortos e mais de mil desaparecidos

O número de vítimas continua sendo atualizado conforme as equipes conseguem acessar as áreas destruídas.

No balanço mais recente divulgado em 27/08, a Associated Press informou que 359 pessoas haviam morrido no Nepal e no Tibete, sendo pelo menos 356 no lado nepalês e três no lado chinês. Mais de 1.400 pessoas permaneciam desaparecidas nos dois lados da fronteira.

No Nepal, as autoridades contabilizavam 910 pessoas desaparecidas, entre elas 517 estrangeiros. No Tibete, havia 558 desaparecidos, dos quais 260 eram estrangeiros.

Os números, entretanto, ainda devem mudar. O acesso a algumas áreas permanece difícil e existe também uma grande quantidade de pessoas inicialmente dadas como desaparecidas que posteriormente pode ser localizada.

Entre os estrangeiros estão cidadãos de mais de 30 países. A Índia é um dos países mais afetados, com centenas de cidadãos sem contato. Também há desaparecidos dos Estados Unidos, Malásia, Ucrânia, Reino Unido, Austrália, Canadá, Coreia do Sul, Japão e outros países.

Muitos dos desaparecidos eram turistas, não montanhistas

Embora o desastre tenha atingido uma das regiões mais conhecidas do Nepal entre montanhistas e trekkers, uma parcela significativa dos estrangeiros desaparecidos não estavam em expedições de montanhismo. Muitos eram turistas e peregrinos que utilizavam o corredor de Rasuwa para chegar ao Tibete e seguir posteriormente para o Monte Kailash.

Segundo informações divulgadas pelas autoridades de turismo nepalesas, cerca de 670 turistas estão desaparecidos no Nepal. Esse número abrange tanto extrangeiros como nepaleses que estavam na região para peregrinação.

Também há relatos de estrangeiros que estavam em viagens de trekking e grupos de caminhada. Assim, a dimensão internacional da tragédia fez com que governos de diversos países acionassem equipes consulares e linhas de emergência para tentar localizar seus cidadãos.

Uma emergência que ainda não terminou

Mesmo depois da passagem da primeira onda de inundação, a situação permanece perigosa. O enorme volume de gelo, rocha e sedimentos alterou o sistema dos rios e criou áreas de represamento. Autoridades nepalesas e chinesas monitoram a possibilidade de novos fluxos de água e detritos, enquanto equipes trabalham para localizar desaparecidos e retirar pessoas de áreas de risco.

A enchente atingindo a cidade. Foto: Captura de vídeo

A destruição da infraestrutura também tornou a operação especialmente difícil. Estradas e pontes foram levadas pela água, enquanto cortes de energia e comunicação dificultaram o contato com comunidades isoladas.

Helicópteros têm sido utilizados para operações de reconhecimento, resgate e retirada de pessoas, mas as condições meteorológicas e a geografia extremamente acidentada da região impõem limitações às operações.

Como o mundo pode ajudar

A dimensão da tragédia já provocou uma resposta internacional. A Federação Internacional das Sociedades da Cruz Vermelha e do Crescente Vermelho (IFRC) liberou quase 1 milhão de francos suíços em recursos emergenciais para apoiar a Cruz Vermelha do Nepal nas primeiras ações de resposta. A organização informou que os danos em Rasuwa e Nuwakot destruíram casas, estradas, pontes, instalações hidrelétricas e outras estruturas essenciais.

A UNICEF também iniciou a resposta humanitária e informou que mais de 17 mil crianças estão entre as pessoas que necessitam de assistência nos distritos afetados. A organização trabalha com o governo nepalês e parceiros para fornecer itens essenciais e apoiar a recuperação das comunidades.

Governos estrangeiros também anunciaram ajuda. Estados Unidos, Reino Unido, Índia, China e Coreia do Sul estão entre os países que anunciaram recursos, equipes ou materiais para apoiar as operações de emergência. A União Europeia também indicou disposição para ampliar o apoio.

Para quem está fora do Nepal e deseja contribuir, uma das alternativas mais seguras é utilizar os canais oficiais de organizações humanitárias que já atuam diretamente no país, como a Cruz Vermelha do Nepal/IFRC e a UNICEF, evitando campanhas não verificadas nas redes sociais.

Um alerta para as montanhas do futuro

O Nepal perdeu uma parcela significativa de sua massa de gelo nas últimas décadas, enquanto a velocidade de derretimento das geleiras aumentou. Especialistas ressaltam que o aquecimento pode criar condições favoráveis para uma combinação perigosa de degelo, instabilidade de encostas, avalanches e inundações repentinas.

Montanhas sempre foram ambientes dinâmicos. Geleiras avançam e recuam, encostas se movimentam e rios podem mudar de curso. O que preocupa especialistas é que o aquecimento global está alterando a velocidade desses processos e aumentando a instabilidade de alguns ambientes de alta montanha.

No Langtang, a montanha que por décadas atraiu trekkers e montanhistas agora é também o cenário de uma das mais graves tragédias naturais recentes do Himalaia.

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Sobre o autor

Maruza Silvério é jornalista formada na PUCPR de Curitiba. Apaixonada pela natureza, principalmente pela fauna e pelas montanhas. Montanhista e escaladora desde 2013, fez do morro do Anhangava seu principal local de constantes treinos e contato intenso com a natureza. Acumula experiências como o curso básico de escalada e curso de auto resgate e técnicas verticais, além de estar em constante aperfeiçoamento. Gosta principalmente de escaladas tradicionais e grandes paredes. Mantém o montanhismo e a escalada como processo terapêutico para a vida e sonha em continuar escalando pelo Brasil e mundo a fora até ficar velhinha.

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