A primeira via de big wall conquistada por uma equipe formada exclusivamente por mulheres no Brasil tem 22 enfiadas e graduação sugerida pode chegar até a 5.13+, equivalente ao 10b na escala brasileira.
No início de agosto, cinco escaladoras conquistaram a Sintonia, uma nova via de aproximadamente 800 metros na Pedra Baiana, em Nova Belém (MG). A linha foi aberta por uma equipe formada pela francesa Laura Pineau, pelas brasileiras Gisely Ferraz, Danielle Pinto e Julia Trojan e a pela norte americana Miya Tsudome, tornando-se, a primeira via de big wall aberta no Brasil por uma equipe exclusivamente feminina.

A equipe reunida na em Nova Belém, Minas Gerais. Foto: Gisely Ferraz.
Com 22 enfiadas, a rota percorre uma parede de granito com fissuras, pilares, placas, trechos de offwidth e setores de parede bastante vertical. A graduação indicada pelas escaladoras pode chegar até 5.13+, equivalente ao 10b na graduação brasileira, caso seja escalada integralmente em livre.

Mais do que os números, porém, a dimensão do projeto ajuda a entender a importância da conquista. Abrir uma via desse tamanho e dificuldade está entre as atividades mais exigentes da escalada em rocha. E não se trata apenas de conseguir escalar os movimentos difíceis: as próprias conquistadoras precisaram encontrar a linha, instalar proteções, lidar com terreno desconhecido, administrar equipamentos, água, alimentação e exposição, além de tomar decisões durante vários dias suspensas na parede.
Um projeto ambicioso
A ideia da Sintonia nasceu com a escaladora francesa Laura Pineau, que contou que há anos sonhava em conhecer o Brasil e abrir uma grande via no país. Depois de passar um ano escalando e viajando por Yosemite, nos Estados Unidos, ela decidiu transformar o projeto em realidade.

A encantadora Pedra Baiana, ponto mais alto do conjunto de montanhas. Foto: Pedro Paulo
A escolha da equipe começou por Gisely Ferraz, escaladora brasileira profissional com experiência em big walls e escaladas alpinas. Miya Tsudome, dos Estados Unidos, também se juntou ao projeto após ter trabalhado com Laura anteriormente em Yosemite. Danielle Pinto, instrutora de escalada e professora de yoga, entrou na equipe trazendo também um antigo desejo de realizar um big wall com outras mulheres. Julia Trojan, engenheira mecânica e escaladora com experiência internacional, completou o grupo. A escaladora brasileira Jordana Agapito também havia sido convidada, mas uma lesão sofrida cerca de um mês antes da viagem a impediu de participar.
Curiosamente, nenhuma das cinco havia escalado junto anteriormente. A equipe precisaria, portanto, construir sua dinâmica enquanto realizava um projeto de grande complexidade.
Encontrando a linha
Ao chegar à Pedra Baiana, o tamanho da parede impressionou o grupo. As escaladoras passaram dois dias procurando uma linha que pudesse ser transformada em uma nova via. A primeira tentativa terminou depois de apenas duas enfiadas, quando encontraram uma seção completamente lisa que inviabilizava a progressão planejada.

As cinco escaladoras buscaram juntas qual seria a melhor linha na montanha. Foto: Gisely Ferraz.
Assim, o grupo então desceu e voltou a procurar. Com o auxílio de um drone, encontrou uma possibilidade mais à direita da parede: um pilar acessível por fissuras na parte inferior e, acima dele, um grande headwall.
A abertura começou em 02/08, com a instalação das primeiras proteções. Danielle abriu a primeira enfiada e Gisely assumiu as duas seguintes. A equipe avançou progressivamente pela parede, procurando seguir uma linha considerada natural através dos diferentes tipos de terreno. Na oitava enfiada, as escaladoras chegaram a uma grande plataforma que posteriormente seria utilizada como local de bivaque.

Munidas com furadeiras e coragem, elas iniciaram a abertura da via. Foto: Gisely Ferraz.
Um projeto de alto comprometimento
A abertura de uma via nova é muito diferente de simplesmente repetir uma rota já conhecida. Não existe um croqui pronto indicando onde estão as melhores proteções, quais movimentos serão encontrados ou qual será a dificuldade de cada trecho.
A equipe utilizou os “negocinhos”, nome dado por elas a uma espécie de parabolt removível criado aqui no Brasil para auxiliar na conquista. O equipamento permite sustentar carga quando puxado para baixo, mas pode se soltar quando submetido a uma força para fora da parede. Foi justamente utilizando um desses pontos de apoio que Laura sofreu uma queda.
De acordo com o relato de Laura, durante a abertura de uma das enfiadas, ela passou cerca de cinco horas trabalhando em um trecho complexo e estava exausta e desidratada. Ao se inclinar para trás para observar a parede além de um teto, o “negocinho” se soltou e ela caiu de cabeça para baixo, levando consigo a furadeira, o martelo e todos os equipamentos de conquista. A escaladora conseguiu se recuperar e permanecer na parede, mas descreveu a queda como a mais assustadora de sua vida.
800 metros até o topo
O avanço continuou ao longo de agosto, até que, no dia 20, a equipe realizou o ataque final ao cume. As escaladoras começaram a jornada às 4h da manhã. Enquanto Danielle e Julia avançavam em outras enfiadas, Gisely, Miya e Laura trabalhavam simultaneamente em outro trecho da parede. Mais tarde, o grupo se reuniu novamente para seguir em direção ao topo.
As duas últimas enfiadas foram abertas por Gisely, que precisou navegar por uma região com grandes blocos de rocha soltos. Às 16h30, Laura Pineau, Gisely Ferraz, Danielle Pinto, Julia Trojan e Miya Tsudome chegaram juntas ao topo da Pedra Baiana.

Comemorando a chegada ao cume. Foto: Gisely Ferraz
Ao todo, foram 15 dias de trabalho na parede até completar a linha. Agora, a linha permanece na Pedra Baiana como um novo desafio para outros escaladores. E, independentemente de quem venha a repeti-la, a Sintonia já ocupa um lugar especial na história da escalada brasileira como o primeiro Big Wall conquistado exclusivamente por mulheres.
Convidamos a escaladora Gisely Ferraz para contar um pouco mais sobre essa experiência que gentilmente nos respondeu algumas perguntas:
Como surgiu a ideia e como a equipe foi formada?
A ideia partiu da Laura Pineau, que sonhava em abrir uma grande via com uma equipe 100% feminina. Eu a conheci em Yosemite, quando ela me convidou para participar do projeto. Até então, eu só havia aberto vias de até quatro cordadas no deserto, principalmente em fendas. Laura também tinha participado da abertura de poucas vias.
Como já tínhamos experiência em big wall, decidimos compartilhar essas técnicas com outras brasileiras. Laura convidou a cinegrafista norte-americana Miya Tsudome para registrar a expedição.
No início, ainda não sabíamos quem seriam as outras escaladoras. Convidamos Jordana, mas ela estava com uma lesão. Então, procuramos mulheres motivadas e dispostas a enfrentar o desafio. Foi assim que encontramos Dani Pinto e Júlia Trojan. Dessa forma, formamos uma equipe de cinco mulheres.
Por que escolheram a Pedra Baiana?
A Pedra Baiana é uma parede imponente, com aproximadamente 800 metros e muito potencial para novas vias. A beleza, o tamanho, a dificuldade e o desafio de explorar algo desconhecido chamaram nossa atenção.
Como vocês se planejaram?
Foram oito meses de planejamento. Escrevemos projetos para empresas, desenvolvemos o roteiro do filme, buscamos patrocinadores, um veículo e todos os equipamentos necessários, além de organizarmos a logística da expedição.

As cinco trabalharam em conjuto para a conquista. Foto: Gisely Ferraz.
Laura liderou o projeto e eu trabalhei como colíder. Corremos atrás de tudo e também aprendi muito como produtora. Conversamos com conquistadores brasileiros experientes, como Ed Padilha, Will Lacerda e Lucas, que nos ensinaram a arte da conquista. Também aprendemos a usar o “Negocinho”, um gancho brasileiro.
Convidamos Dani e Júlia apenas uma semana antes da conquista. Elas já tinham experiência em vias de várias cordadas, mas não em big wall e nunca haviam aberto uma via. Esse também era um dos objetivos do projeto: mostrar que, quando estamos motivadas, podemos aprender e realizar.
Durante a expedição, dividimos as responsabilidades entre dois times. Foi muito especial ver cada uma trazendo seus pontos fortes, embora todas ajudassem em tudo.
Como foi a logística da escalada?
A logística teve várias fases e foi muito intensa. Primeiro, saímos juntas para procurar uma linha e abrir a trilha até a base da parede.
Nossa primeira tentativa foi desmotivadora. Na segunda cordada, chegamos a uma parede completamente lisa e sem agarras. Tivemos que decidir se continuaríamos por uma face extremamente difícil, que talvez ninguém tivesse interesse em repetir, ou se procuraríamos outra possibilidade mais à direita. Queríamos abrir uma linha que as pessoas desejassem escalar, uma futura clássica. Quando encontramos essa nova linha, nossa motivação voltou com tudo.
No início da conquista, dividimos a equipe em duas duplas equilibradas para compartilhar as técnicas: eu escalei com Dani, e Laura fez dupla com Júlia. Conquistamos os primeiros 400 metros alternando os dias de trabalho e descanso para não acumular cansaço. Sabíamos que a investida final seria longa, então os dias de recuperação também faziam parte da estratégia. Subíamos e descíamos diariamente pelas cordas fixas para continuar a conquista.

As cinco escaladoras reunidas na base para organizar equipamentos e ideias. Foto: Gisely Ferraz
Quando já tínhamos aproximadamente 450 metros abertos, iniciamos a investida final. Levamos cerca de 170 quilos de equipamentos, água e comida. Utilizamos aproximadamente 320 parabolts e chapas da Bonnier para proteger a via. Içamos todo o material e montamos acampamentos em pontos estratégicos da parede. Escalamos em livre até a nona cordada. Depois, a parede ficou muito mais difícil. Eram cordadas lindas, mas tivemos que conquistar alguns trechos em artificial.
Nesse momento, começamos a trocar as parcerias, pois todas já estavam familiarizadas com o trabalho. Foi muito legal escalar com Laura. Tivemos um dia ágil e potente — ela é uma máquina!
No dia do cume, deixamos de lado as duplas fixas e todas escalaram com todas. Cheguei ao topo às 16h20, escalando em livre e carregando a furadeira. Minha experiência na Patagônia ajudou muito a lidar com os blocos soltos encontrados pelo caminho.
Depois, descemos para o acampamento. No dia seguinte, tentamos liberar as cordadas do headwall, mas já estávamos muito cansadas. Conseguimos escalar alguns movimentos, porém ainda ficaram cerca de quatro cordadas que não conseguimos liberar. Elas terão que ficar para uma próxima investida.
Qual foi a maior dificuldade?
Uma das maiores dificuldades foi o trecho mais vertical da parede, onde encontramos as cordadas mais difíceis.
Também enfrentamos chuva no dia em que estávamos içando os equipamentos. Foi um momento muito tenso, mas não desistimos até deixarmos os haul bags em pontos seguros. Tivemos ainda dias de vento, muito calor, cansaço e uma queda da Laura de cabeça para baixo durante a abertura.

Elas passaram dias na parede para a conquista. Foto: Gisely Ferraz.
Em vários momentos, precisamos parar, avaliar os riscos e mudar nossa estratégia para continuar com segurança. A parede era uma caixinha de surpresas — uma verdadeira fábrica de perrengues.
Como dividiram as tarefas mais pesadas?
Todas participaram dos porteios. Fizemos várias viagens carregando equipamentos, comida e água até a base e, depois, pela parede.
Todas participaram da abertura da via e fizeram um pouco de tudo. Cada uma oferecia o seu melhor para ajudar no progresso da equipe. Quando alguém estava mais cansada, outra assumia uma parte maior. O trabalho em equipe foi essencial.
Existe diferença entre equipes mistas e exclusivamente femininas?
Cada equipe é diferente, independentemente do gênero. Nessa equipe feminina, senti muita parceria e comunicação. Sinto que em um time totalmente feminino só cabe a nós fazer tudo; não tem ninguém para assumir a parte de força. Essa é a diferença com um time misto. Tudo era nossa responsabilidade.

As escaladoras alternavam entre momentos de trabalho e descanso. Foto: Gisely Ferraz.
Desde o início, sugeri que fizéssemos debriefings para evitar que pequenos problemas se transformassem em situações maiores. Laura era a líder e compartilhava suas ideias e estratégias, mas todas participavam das decisões. A proposta nunca foi mostrar quem era melhor ou mais forte. A ideia era que cada mulher trouxesse o seu melhor para o time. Trabalhamos juntas para encontrar soluções.
Qual foi a sensação de chegar ao cume?
Foi uma mistura de alegria, alívio, orgulho e emoção. Também foi a prova de que conseguimos, apesar de muitas pessoas terem duvidado de nós.
Depois de 15 dias trabalhando na parede, chegar juntas ao cume foi muito especial. Foi a realização de um sonho e a confirmação de que nós, mulheres, somos capazes de alcançar algo que, muitas vezes, parece muito distante.
Talvez a gente demore um pouco mais, mas isso não importa. Somos inteligentes e podemos realizar trabalhos que exigem força e muita logística usando estratégia, técnica e trabalho em equipe.
Terá algum documentário ou filme mostrando essa conquista?
Sim. Registramos toda a aventura e estamos produzindo um documentário sobre a expedição. A previsão inicial de lançamento é para 2027, mas a data oficial ainda será anunciada.
O que a Pedra Baiana representa para você hoje, após a conquista?
A Pedra Baiana representa coragem, união e superação. Quando olho para aquela parede, lembro de tudo o que vivemos e de como cinco mulheres, trabalhando juntas, transformaram um sonho em realidade. Para mim, ela também representa a força das mulheres na escalada.













