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Alexander Von Humboldt

Naturgemälde


Colunista:

Vocês já devem ter encontrado muitas vezes o nome de Humboldt na natureza: na famosa corrente marinha, na geleira da Groenlândia, em cordilheiras, rios, cachoeiras e parques no mundo todo – e em centenas de plantas e animais. Este homem notável inspirou o belo livro A Invenção da Natureza de Andrea Wulf, no qual esta coluna se baseia.

Foi quando Humboldt tentou escalar em 1801 o Chimborazo (6.400m), considerado a montanha mais alta do planeta, que ele provavelmente teve sua revelação do mundo como um único organismo vivo. 
 
Ninguém jamais concebera esse novo conceito, alpinista algum havia chegado tão alto e nunca desde então nenhum naturalista rivalizou com Humboldt em conhecimento e inspiração.
 
Ele escreveu que a natureza é um todo vivo (...) tudo emana de uma única fonte e tudo se aglutina numa força eterna e abrangente (...) numa profusão universal com que a vida está distribuída por toda a parte. Foi o primeiro ambientalista, numa época que entendia a natureza como uma mera engrenagem mecânica. 
 
Ele vislumbrou a existência da maravilhosa rede da vida e formulou o moderno conceito de natureza. Curiosamente, somos tão moldados por sua visão, que acabamos esquecendo esse poderoso criador por trás dela.
 
Nas minhas idas ao Pantanal, desenvolvi (modestamente) um sentimento semelhante. Comecei a perceber como o ciclo das águas, o fluxo dos rios, a forma do relevo, a ação do homem, as estações do clima, a variedade da fauna e a especialização da flora estavam tão íntima e maravilhosamente interligadas. 
 
Cada manifestação da natureza influenciava as demais, num ecossistema que me pareceu em formidável equilíbrio. Teve até certo ponto para mim a força da revelação. Se você tiver paciência, conhecerá nesta coluna os resultados de minhas andanças por lá, que me tomaram alguns anos felizes.  
 
Alexander von Humboldt foi um corajoso aventureiro e um incansável observador. Criou o conceito de isotérmicas, descobriu o Equador magnético e intuiu a existência de diamantes na Rússia. Fundou ou desenvolveu conceitos em disciplinas tão diversas como botânica, política, meteorologia, cartografia, geologia e demografia (e essa nem é uma lista completa). E conseguiu entender a unidade subjacente a todas elas.
 
Durante cinco anos Humboldt viajou às suas próprias custas pela América (ver mapa). Foi esta a grande experiência que norteou sua vida: nos contrafortes andinos, ele começou a esboçar o que chamou de Naturgemälde. Os que entendem alemão dizem que significa algo como pintura da natureza. Ela foi representada num enorme mapa (ver imagem).
 
Nós estamos habituados a um mundo visual, mas no século XIX predominava uma atitude de classificação ordenada da natureza, num rígido racionalismo. A Naturgemälde continha um corte leste-oeste do Chimborazo, com informações nas margens sobre temperatura, pressão, umidade e altitude – junto com a fauna e a flora que habitavam cada região ao longo da montanha (e também de outras). 
 
A Naturgemälde era um microcosmo numa página, segundo Humboldt. Era assombroso como toda a vida podia ser representada naquele belo e único desenho. Essa variedade e riqueza, mostradas com tanto impacto e simplicidade, criaram a noção radicalmente nova de unidade que até hoje molda nosso entendimento da vida.
 
Humboldt escreveu sempre e muito, voltou a viajar para terras distantes, tornou-se inacreditavelmente famoso, correspondeu-se com todo o mundo científico, influenciou desde sábios a poetas e continuou pesquisando a natureza e denunciando o colonialismo. 
 
Morreu pobre e velho na Alemanha – já doente, ao ver que o sol da tarde iluminava as paredes de seu quarto, disse suas últimas palavras: Como são gloriosos estes raios de sol! Parecem chamar a terra para os céus!  Como disse uma estudiosa, ele foi um manancial que jamais se extinguiu.
 



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