O pioneiro que mil vezes subiu o Pico dos Marins

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Há na história do Brasil aqueles homens simples, realizadores de infindas proezas, cujos nomes não ficaram registrados para a posteridade. Concorreram esses guias, mateiros e caboclos para muitas conquistas nas quais somente os líderes levaram o crédito. Justiça seja feita a um destes personagens, o senhor Afonso Ribeiro de Freitas, o homem que mais de mil vezes subiu o Pico dos Marins.

Seu Afonso em uma de suas ascensões, na cumeada do Cânion dos Marins.

Afonso é daqueles cuja atração pela montanha despontou desde cedo, talvez inspirado pelo seu avô, Joaquim “Português”, que o conduziu ao pico quando contava dez anos de idade. Mas bastaria isto para lhe direcionar o rumo da vida? Quantos como ele não nasceram aos pés da Mantiqueira, miraram o sol, a lua e as estrelas despontando do maciço rochoso, entretanto, jamais se dispuseram a dar um passo em direção ao cume? No caso de Afonso a magia da montanha já estava latente em sua alma, não fosse o avô outra ocasião o teria atraído aos cimos, tal qual o imã poderoso que atrai o ferro próximo. Nosso retratado transformou-se num montanhista rústico, daqueles que frequenta as serranias por que ali se sente pleno e completo. Dispensa protetor solar, botas impermeáveis e equipamento tecnológico. A calça jeans é o padrão e o alimento vai num pote de sorvete reaproveitado. Tão acostumado está com a subida que uma garrafa de 500 ml lhe supre a demanda, imagino que sequer transpire no trajeto.

Afonso construiu uma casa na árvore no sítio Candura onde foi caseiro.

Afonso e os amigos Rui Ribeiro e Carlos Artur a caminho do Pico, circa 2010.

Seu Afonso, como é conhecido, nasceu em 17 de fevereiro de 1962 no então distrito de Queimada, pertencente a Delfim Moreira, que seria elevado a município de Marmelópolis um ano mais tarde. Aqui faço a ressalva: “NÃO estamos falando do homônimo Afonso Egídio Inácio Xavier (191?-199?) que teve importante papel no caso do escoteiro Marco Aurélio”. No âmbito pessoal é casado com Rozeli com quem teve os filhos Jerônimo, Maria Elízia e Sandra. Sempre viveu e trabalhou nas fraldas mineiras do Pico dos Marins, foi caseiro, lavrador das mais diversas culturas, cuidou da plantação de limão siciliano, fez melhoramento de trilhas com escadas de madeira, abriu picadas, colocou mourões e todos estes serviços árduos a troco de modesta remuneração. Com muito esforço conquistou de seu patrão o pequeno sítio “Bicho do Mato”, cujo nome remete à sua própria figura de contato com a natureza. Ao casal se encaixam os versos da voz de Clementina de Jesus “moro na roça iaiá, nunca morei na cidade” pois jamais quiseram se estabelecer na urbe, onde o gasto seria maior e não contariam com o que a terra lhes oferece.

Casamento de Rozeli e Afonso, ao fundo pai do noivo e à frente filhos do casal, 1995.

Nosso Afonso concluiu o ensino primário, contudo, sua inteligência transcende a educação formal. Narra a história dos índios que no verão subiam a serra para catar pinhão, emenda sobre os bandeirantes, e pasmem, já encontrou uma oficina lítica com diversos artefatos arqueológicos pré-históricos quando trabalhava na lavoura de batatas. Intrigado com seus achados, os mostrou aos colegas que lhe forneceram a curiosa explicação de que são pedras formadas pela ação de trovões e raios, o que logicamente jamais encontrou guarida em sua sabedoria. Se fôssemos levar em consideração seu conhecimento do terreno natural seria mais que livre-docente. Consegue visualizar aquilo que ninguém percebe, as marcas das patas de um cateto no barranco. Literalmente já percorreu todas as trilhas do Marins, palmilhou todas as vertentes e vales mineiros da montanha. É um pioneiro porque estabeleceu um acesso até então inexistente para o Cânion dos Marins partindo da trilha principal a meio caminho entre o Morro do Careca e Pedra do Golfinho. Possui memória fotográfica de tudo (GPS, que nada!), estou convencido de que se lhe pusessem uma venda nos olhos conseguiria retornar do cume tateando as pedras tamanho é o modelo cerebral do terreno que possui.

Afonso com os artefatos líticos que encontrou, 07/04/2023.

Sua história com a montanha, como já narramos, começou por volta de 1972. Mais tarde, aos 17 anos (1979), ajudou a carregar tijolos e materiais para os escoteiros que tentaram erigir um oratório/capela no cume. Espírito desprendido, nada cobrou pelo árduo trabalho. Participou das buscas pelo escoteiro Marco Aurélio em 1985, quando tinha 22 anos. Nesta mesma época começou a guiar subidas ao cume. Muitas vezes, por morar no sopé do cume, se dava ao prazer de ascender durante a semana sem encontrar ninguém pelo trajeto. Em 2018 fez incursões por conta própria para ajudar nas buscas do corredor de montanha francês Gilbert Eric Welterlin. Me contou que inclusive entrou na parte alta do Grotão (Vale do Palmital/ Água do Marins / Cânion do Marins) e foi encontrando matos amassados aqui e ali, ficou umas três ou quatro horas neste rastro e contou ao amigo, porém, o amigo lhe disse que talvez fosse de outras equipes de busca anteriores. Mas eram os rastros iniciais de Eric conforme evidenciam seu tracklog recuperado mais tarde. Aqui abro um parêntese para mencionar a importância de Curso de Buscas em Áreas Remotas promovido pelo Clube Paranaense de Montanhismo. Para resgatar os montanhistas em apuros as pessoas acionam 193, mas a quem os bombeiros recorrem quando precisam fazer buscas especialmente à noite? Não poucas vezes Afonso auxiliou a corporação, paulista e mineira, por ser um dos poucos que moram perto da base, contudo, seu nome nunca foi citado nos créditos.

Quis estimar quantas vezes ele ascendeu o Marins, por meio de questionamentos pude estabelecer uma estatística. Eis o memorial de cálculo de uma estimativa mínima, ou seja, é daí para mais: (i) de 1979 a 1984 subindo duas vezes ao mês na época seca (AMJJAS) e uma vez na chuvosa (JFM-OND) resulta em 108 subidas; (ii) de 1985 a 2021 subindo três vezes ao mês na época seca e uma vez na chuvosa resulta em 888 subidas. Um total de 996 subidas ao Pico dos Marins, que por ser um cálculo subestimado poderá facilmente ser arredondado para mais de mil ascensões. Lembrando que Afonso é detentor de um feito inigualável na qualidade de guia (corrida de montanha não conta!): o de ter subido da base ao cume duas vezes no mesmo dia, na ocasião em que havendo retornado da subida com um grupo teve que conduzir outro grupo porque um guia não apareceu.

O leitor atento se perguntará o porquê de a contagem finalizar em 2021. Ocorre que em maio de 2022, apenas um mês após eu o contatar, Afonso sofreu um AVC isquêmico que lhe afetou os movimentos do lado esquerdo do corpo. Os anos de tabagismo cobraram seu preço e nosso pioneiro teve que interromper suas guiadas ao cume. Felizmente, por ser uma pessoa aplicada, foi recuperando os movimentos e hoje consegue levar uma vida sem limitações, mas tarefas árduas como o trabalho na roça e as guiadas não são mais possíveis. Para complementar a renda, sua esposa Rozeli recebe turistas no bucólico Sítio Bicho do Mato, onde mediante agendamento há refeições, estacionamento e área para acampar ao som das águas nas pedras do Ribeirão Saiqui. Confesso que poucos prazeres na vida se comparam a saborear uma deliciosa truta frita com arroz e feijão, por ela preparados, ao retornar extenuado da trilha.

Sítio Bicho do Mato, 18/06/2022.

Sítio Bicho do Mato, 18/03/2023.

Meu primeiro contato com Afonso se deu em abril de 2022, quando estava organizando uma subida ao Marins com a amiga Vanessa Mariano Rosa, seu esposo Rafael Moranga Gonçalves e o amigo Vinícius dos Santos Longue. Assisti no YouTube um vídeo do Luhmontanha em que seu Afonso aparece. Nesta época eu já estudava o caso Marco Aurélio e achei que Afonso fosse de Piquete. Já tinha o contato do Rodrigo Nunes, que fez um grande esforço para me arranjar uma cópia de seu livro “Operação Marins”, mandei o print de seu Afonso, e o autor me informou que o conhecia de vista e que era de Marmelópolis. Acabei conseguindo o contato na internet, não me recordo se no Facebook ou Google Maps, conversei por zap e expliquei minha hipótese e ele disse que compartilhava dela. Pude me hospedar no sítio para a subida de 17/06/2022. No mesmo ano publiquei a hipótese de desorientação e estabeleci amizade com Erasmo Henrique Belmar Arrivabene, o mais profundo estudioso do caso Marco Aurélio, e em 18/03/2023 fomos com seu Afonso localizar a cruz de ferro e a antiga trilha. Dois amigos que a vida me deu.

Erasmo e seu Afonso, procurando a cruz de ferro, 18/03/2023.

Há, porém, inúmeros feitos e realizações na vida deste desbravador que ainda espero vir a saber para poder aqui narrar. Seu Afonso vai contando as histórias lentamente, a fala já não é a mesma de antes do AVC, evita se gabar de seus feitos por isso temos que ir perguntando para que aos poucos ele relembre e nos conte as proezas de sua vida. Um fato é certo, muito tempo irá se passar até que outrem se aproxime da milésima subida ao Marins, mas pioneirismo cabe a seu Afonso.

Afonso e eu, 08/09/2023.

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Sobre o autor

18 Comentários

  1. Que matéria excelente! É tão importante conhecer as proezas e aventuras de um homem simples, sempre valente e criativo, mas muitas vezes esquecido da mídia especialista.

  2. Maria eloiza de Freitas em

    Esse guerreiro é meu irmão tenho orgulho dele , não tenho palavras pra agradecer esse testo ele merece todo reconhecimento (grata )

  3. Vinicius Ribeiro em

    Muito obrigado por contar a história do Afonso, ele foi a pessoa que me apresentou o montanhismo. Fico muito feliz em ver um pouco de suas conquistas contada aqui.

  4. André Martins em

    Grande Afonso! Já guiou a mim, um amigo e minha esposa e filhos no Marins.
    Achávamos engraçado justamente o fato de ele utilizar uma botina de couro, calça jeans, fumar um cigarro de palha, mascar capim e nem suar! Caminhava como se estivesse em um lugar plano, e ficamos envergonhados de bem mais jovens não termos a energia desse homem.
    Temos algumas fotos com ele!
    Espero que fique bem Afonso 🙏
    Grande abraço

  5. LEONARDO BOLONI em

    Nem todos estão aptos para este tipo de vivência. Não adianta comprar equipamentos caros, fazer parte de grandes grupos…..tem que nascer dotado de tal espírito!!! Dizem que a simplicidade é o estágio avançado da complexidade. Taí um exemplo!

    • Gesiel Nunes Machado em

      Cara vc tirou diamante de pedra bruta que matéria excelente sou viúvo de uma Ribeiro vou pesquisar depois retorno mais existe sim esses nomes da matéria na árvore genealógica e eu mesmo desconhecia a proeza desse Afonso como ele e outras milhares de pessoas ficam no anonimato.

  6. WESLEY BORACCHI em

    Eu tive o prazer de ter recebido duas guiadas com o senhor Afonso ao Pico dos Marins. Na primeira, em 2021, colhi assinatura dele que pedi para a capa do livro “Operação Marins”, que ganhei dos proprietários da base dos Marins: Dito e dona Dora. Na segunda guiada, em 2022, fomos almoçar no sítio do Seu Afonso em Marmelópolis. Nunca mais vou esquecer daquele almoço em sua casa no pé da serra. Ele sempre nos contava as histórias da montanha, do Caso Marco Aurélio e sobre a antiga trilha da cruz de ferro. Seu Afonso é um exemplo de humildade e capacidade física. Tivemos a sorte de poder conhecer e trilhar com um dos guias mais tradicionais e históricos do Pico dos Marins. Temos várias fotos com ele no topo da montanha que guardaremos com orgulho e carinho.

    Fico muito intrigado com o Caso Marco Aurélio. Neste ano de 2024, irei realizar minha 5ª subida ao Marins, mas na intenção de tentar localizar a antiga trilha da cruz de Ferro e de sua base metálica. Ano passado, tentei seguir reto pela encosta íngreme do Morro da Cruz de ferro, sem passar pela pedra do Golfinho, mas desisti devido a inclinação e a existência de uma fenda. Acredito que a antiga trilha que Marco Aurélio pegou devesse passar por ali perto. Uma coisa me deixou muito intrigado: na base do Morro da Cruz de Ferro existe uma fenda enorme e aparentemente profunda. Mirei um laser verde para averiguar a profundidade e parece ter uns 3 metros ou mais. Esta fenda possui abertura suficiente para cair um adulto. Imagino se Marco, franzino e com visão deficiente, não possa ter caído fatalmente nela em seu retorno. Isso poderia explicar várias coisas, como:

    – Nenhum dos montanhistas de outros grupos terem encontrado o Marco na trilha naquele dia fatídico de 08 de junho de 1985;

    – Ausência de marcações de giz feitas por Marco Aurélio nas partes mais baixas da trilha principal da montanha;

    – Não aparecimento de Marco no acampamento base em Piquete na tarde/noite de 08/06/1985 (embora exista a hipótese de assassinato na base), nem na parte mineira da montanha.

    Acho que a hipótese da queda na fenda da base do Morro da cruz de ferro possa, de algum modo, ser levada em consideração. Penso isso, pois quem desce a trilha do Pico dos Marins, após o Morro do “Elevador”, antes da sela topográfica (região onde o escoteiro Osvaldo Lobeiro feriu o joelho), só tem três opções:

    * Seguir no meio (trilha tradicional, que na trilha antiga não contornava pelo Golfinho, mas seguia por cima do Morro da cruz de Ferro e, provavelmente, passava próximo da referida “fenda”);

    * Seguir à direita e ir parar em Minas (por exemplo, a trilha que Juan e os garotos pegaram – nesta altitude e perspectiva o guia Afonso nos mostrou uma culmieira sentido Minas que ele chamou de “falso” careca e que pode induzir os montanhistas ao erro);

    * Seguir à esquerda, pela sela topográfica ou por outro ponto, e descer o vale do Marins, como fez o francês em 2018. Essa escolha é fatal, como você apontou brilhantemente no artigo sobre a hipótese de desorientação do caso.

    A hipótese de que Marco Aurélio tenha se desviado à esquerda da culmieira, tenha entrado no vale mortal do Marins e por fim, desaparecido é a mais provável. A chance de encotrá-lo lá é mínima, explicando e, se provado, resolvendo o caso.

    A chance de que Marco tenha seguido reto, retornando pela cruz de ferro e caído na fenda logo a seguir pode até ser razoável. Sendo assim, essa queda fatal pode ter sido por volta das 15h00 do dia 08/06/1985 (já que o acidente com o Osvaldo foi às 14h00 próximo ao Elevador, supondo que gastaram certo tempo para planejarem a separação e iniciarem o retorno).

    Entretanto, penso que nas buscas da época, essa fenda deva ter sido verificada várias vezes. Neste ano de 2024, vamos subir novamente o Pico dos Marins. Mas dessa vez, por curiosidade, vou investigar com mais detalhes a fenda da base do Morro da Cruz de Ferro. Vou levar e introduzir detector de metal, medidor indireto de profundidade e lanternas fortes.

    Acho que a hipótese de assassinato ou da descida ao cânion sejam mais prováveis. Mas, vou dar uma olhada na fenda para tirar a dúvida.

    Ótimo artigo,
    Abraços!

    • Daniel Iozzi Sperandelli em

      Importantes considerações, Wesley.
      Veja artigo aqui no site que o Erasmo Henrique Belmar Arrivabene e eu escrevemos, nele há a reconstituição do trajeto do Marco Aurélio numa imagem de tracklog sobre o Googe Earth. Inclusive tem as coordenadas da cruz de ferro. A antiga trilha derivava à direita pouco após a Pedra do Golfinho. Pelo paredão não dá para subir sem corda para não escaladores.

  7. Sou filha desse montanheiro, posso dizer que aprendi muito com ele o principal de tudo amar as montanhas, e lá criamos nossas raízes hoje poder contar sua história isso é maravilhoso, que deus continue abençoando sua caminhada 🥾🥾

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