A Ferradura do Sapo

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A Pedra do Sapo é o rochoso que destoa da morraria que aponta pro céu no sertão de Biritiba-Mirim (SP). Mas se destaca não pela altura e sim pelo peculiar formato da pedra que coroa seu cume, cuja semelhança com o simpático anfíbio depende muito do ângulo de observação. Além do mais, fora a trilha “oficial” o Sapo guarda pelo menos outros quatro acessos pouco divulgados que, menos óbvios e mais confusos, requerem pré-conhecimento da região ou técnica simples de navegação pra serem palmilhados com segurança. Sem grandes desafios e unicamente com o intuito de levar um amigo ilustre a pedra, resolvi subir pela picada oficial e descer por outra q percorre seu contraforte norte, num circuito q desenha uma “ferradura”. Contudo, este simplório rolê resultou naqueles raros casos em q o imponente pico foi mero coadjuvante. E isto se dá quando a companhia é verdadeiramente colossal.

Desde que fiz uma matéria de cunho próprio pro site “altamontanha.com” a respeito do grande Alberto Ortenblad * – montanhista veterano que a mais de 20 anos escreve pro informativo do Frechou – que estamos quase que diariamente em contato via e-mail, seja partilhando “causos outdoor” como trocando informação sobre trilhas. Disso pra cair num bate-volta no mato era pura questão de tempo. “Pra onde vou levar alguém que já conhece tudo e mais um pouco?”, pensei. E acredite, fiquei pasmo ao saber q o Alberto, versado nas mais variadas montanhas aqui e no exterior, mal sabia da existência dos picos da região de Biritiba-Mirim!!?? “Pronto, resolvido! Vou levá-lo ao Sapo!”, decidi. “É um rolê tranquilo, rápido e não demanda muito esforço!”, conclui, levando em consideração os 70 anos bem vividos do ilustre convidado.
 
Morando relativamente próximo de casa, o Alberto e sua simpática esposa, Alessandra, me pegaram cedinho em casa com sua possante Pajero, por sinal repleta de todo tipo de adesivo carimbando suas andanças mundo afora. O trajeto até a Rod. Mogi-Bertioga (SP-98) passou desapercebido diante de tanta tagarelagem no interior do veículo, onde o Alberto não se cansava de puxar causo atrás de causo de suas inúmeras peripécias. Em tempo, o pessoal novato pode não saber, mas o Alberto é um dos grandes nomes ainda dos primórdios do que hj se considera "outdoor", pois sua contribuição “montanheira” é tão (ou mais) importante como a doutro contemporâneo mais ilustre, o Sérgio Beck. Com o gde diferencial q o Alberto continua na ativa, pernando, escrevendo e divulgando o montanhismo através de sua série de deliciosos artigos no “Mountain Voices”.
 
Pois bem, chegamos na pacata Manoel Ferreira, bairro de ar interiorano situado as margens do km 74 da rodovia, por volta das 8hr. O tempo apresentava-se envolto naquela típica nebulosidade clara, mas felizmente sem previsão de chuva. Estacionamos o veículo ao lado do botequinho de paredes esverdeadas, ajeitamos as mochilas e iniciamos caminhada logo depois, tocando pelo chão empoeirado da “Estrada da Adutora”, sempre pra leste. Caminhada bem tranquila, pois, basicamente acompanha a vasta tubulação q se espicha no sentido Leste-Oeste, ora próxima ora afastada dela, conforme dita o relevo. Chácaras, plantações e alguns trechos florestados são o cenário recorrente desta bucólica estrada. Foi neste trecho q um pulguento colou na gente e nos acompanhou até o final. Misto de “cooker spanish” com vira-lata de coloração amarronzada, passamos a chamar nosso integrante animal de “Chocolate”, cortesia da Alessandra.
 
Após passar por baixo dos dutos e depois acompanhá-los um bom tempo num retão interminável, a vista se abre a nossa direta permitindo um vislumbre do discreto e abaulado serrote a sudeste, coroado por um cocoruto rochoso inconfundível q nada mais é q a famosa Pedra do Sapo. A estrada então vira pro sul, afastando-se dos tubos de modo a contornar um morrote, e mergulha num agradável trecho florestado q nos protege do forte mormaço palpável naquela manhã. Mas aqui q é preciso prestar atenção, pois não tardou a abandonar a estrada principal em favor doutra saída pela direita assinalada por um pórtico de cimento q leva noutra chácara.
 
Olhei pro celular e não eram nem 9:15hr. Logicamente que o tempo passou voando diante da animada conversa que tive com o Alberto, que me contou dos seus trocentos causos de travessias pioneiras; de sua preferência por montanha a cachoeira; de sua aversão a internet; de que qdo o tempo não tava bom na Mantiqueira se mandava pra Serra do Mar, q já rodou tds seus núcleos de tds as formas possíveis (e impossíveis); dos inúmeros contatos de gente q conheceu em suas andanças e que guarda até hoje; dos problemas de saúde que quase o impossibilitaram de cair no mato; de suas roubadas no exterior, etc.. Enfim, diante de tanta bagagem outdoor me senti saudavelmente acanhado diante do cabra. Por essas e outras q aquele senhor bonachão nunca deixou de ser uma gde referência e inspiração, ao menos pra mim. 
 
Voltando ao rolê, uma vez nesta via secundária supracitada não tem mto erro pois a mesma serpenteia a morraria sgte sempre sentido sul. Ignoramos então a primeira bifurcação, mas não a sgte, onde visivelmente tropeçamos com um caminho parcialmente gramado e uma cerca com uma placa não mto agradável: “Não entre – Somente pessoal autorizado” e “Cuidado com o cão – Rottweiller”!! E agora, Jose? Meu acesso sempre fora por ali e aqueles avisos eram novidade pra mim. Vai ver os donos se cansaram de ver gente (principalmente grupos irresponsáveis enormes!) na propriedade. Bem, eu até teria arriscado entrar mesmo assim, mas achei melhor não colocar meus convidados numa roubada já logo no início. 
 
O jeito foi apelar pra outro acesso, logo ao lado. Retrocedemos então alguns metros e tocamos pela continuidade da estrada, q termina no portão do Sitio Serra Verde. Dali bastou adentrar rápida e sorrateiramente (ali tb tem cachorros!), ladear o simpático espelho d’água do laguinho refletindo os manacás floridos da serra, e tocar pelo discreto rabicho de trilha q se embrenha morro acima. Pronto.  A subida transcorre de forma tão agradável qto imperceptível pela baixa declividade e o destaque do trajeto fica por conta da exuberante vegetação – q mesmo sendo secundaria apresenta belos exemplares de bromélias, merecedoras de mtos cliques – e pelos onipresentes fornos cavados na encosta serrana, a semelhança da “Trilha dos Carvoeiros”, em Paranapiacaba. Fornos estes q guardam a triste lembrança de terem consumido boa parte da vegetação original pra fornecer á Baixada Santista a energia necessária no começo da industrialização de SP.
 
A pernada prossegue ininterrupta até dar num ombro serrano onde nos deparamos com uma bifurcação em “T”, tocando pra esquerda. A trilha perde altitude um pouco mas logo se mantem em nível, acompanhando a crista florestada. Daqui a rota tende pra sul/sudeste ao mesmo tempo e q desce suave num selado, onde um espesso bambuzal serve como referência pra mais uma encruzilhada. Mas nos mantemos na principal, sempre tocando em frente. Dali a vereda prossegue em suave sobe e desce pra logo se manter um bom tempo em nível, bordejando a extensa encosta serrana. Qdo a rota faz um cotovelo é possível não apenas ouvir o murmúrio de água correndo num vale logo abaixo, como tb é possível perceber uma discreta picada q leva até ele. Como estávamos bem munidos do precioso liquido passamos batido.
 
Não demorou pra picada virar lentamente pro sul, fazer uma curva fechada e finalmente desembocar na crista serrana principal, assinalada por uma clareira em meio a mata e com mato cada vez mais baixo, típico de tropical de altitude. Dali basta prosseguir pela vereda sempre sentido nordeste, subindo suavemente. O caminho não tarda a sair no aberto onde as largas vistas tomam conta do quadrante noroeste e , num piscar de olhos, por volta das 10:30hr desembocamos na laje rochosa da Pedra da Forquilha, um mirante de onde se tem vista privilegiada (e clássica) da Pedra do Sapo bem de frente.
 
Mas nosso destino não é aqui e sim os 1007m do alto da “cabeça” do Sapo. Nos pirulitamos pelo selado de acesso a pedra através trilha estreita e logo nos vemos forçados a subir um trecho quase vertical, onde uma oportuna corda dá assistência necessária. Olha, o Alberto e a Alessandra tiraram este trecho de letra, já o Chocolate teve mais dificuldade mas com ajuda em conjunto o elétrico pulguento conseguiu subir pelo trecho de mata na encosta.
 
Uma vez no estreito cocoruto rochoso cercado de capim ralo e alguma vegetação de altitude, nos empoleiramos nas rochas do topo afim de receber a brisa refrescante soprando do leste. Assim, donos absolutos do cume, ficamos jogados ao ócio mais do q justificado, ora descansando, beliscando algo ou simplesmente saboreando o belo visu descortinado em 360 graus a nossa volta, pois agora o tempo abria sua fina opacidade sendo generoso com largas vistas: a cidade de Mogi aos pés da Serra de Itapeti, o espelho d’água do Represa do Rio Jundiaí e Suzano a noroeste; a faixa dourada de Bertioga contrastando com o verde da serra e o azul do mar, além da barbatana rochosa da Pedra da Boracéia, a sudeste; a silhueta recortada dos picos da Esplanada, Itapanhaú, Esplanada, Garrafão e Peito de Moça, a nordeste; e a oeste, com algum esforço, a geometria simples dos vilarejos de Taiacupeba, Quatinga e Biritiba-Mirim, em meio a muito verde.
 
Satisfeitos e revigorados, onde até um esfomeado Chocolate mandou ver no nosso rango, cerca de 20min depois começamos o longo caminho de volta. Minha ideia não era retornar pelo mesmo caminho e sim por outra vereda q desce o contraforte norte da pedra. Pra isso, descemos até o selado de interligação com a Pedra da Forquilha, e dali nos enfiamos na continuidade da crista do serrote do Sapo que se espicha na direção nordeste. Pra isto é necessário descer outro trecho vertical por corda, onde novamente o Chocolate deu trabalho pra alcançar o nível inferior da pedra, mas num audacioso lance (quase de rapel profissa) improvisado pela Alessandra, o temeroso pulguento alcançou seu objetivo.
 
Uma vez na picada da crista não teve mais erro, pois foi só acompanhá-la o tempo todo através dum terreno relativamente abaulado e cercado de mata. Claro q no caminho tivemos um breve desvio numa curta vereda q leva noutro mirante rochoso, de onde se tem vista do Sapo, porém de outro ângulo q em nada lembra o simpático anfíbio. Prosseguindo pela crista logo percebe-se q a vereda desce ate um novo colo serrano, onde a direção a seguir é mais que evidente e clara. Basta seguir a trilha mais batida.
 
Ali a vereda abandona a crista e claramente desce a encosta norte da serra. E tome piramba com forte declividade morro abaixo, onde novamente existem cordas fixas auxiliando a rápida perda de altitude, evitando q o incauto andarilho role piramba abaixo num piscar de olhos. A íngreme piramba desemboca numa trilha menor q, atravessada, bordeja a serra agora com suave declive pra esquerda, onde cai noutra vereda, q refaz o mesmo trajeto descendo a serra agora na diagonal. Em tempo, este acesso ao Sapo é mais curto e íngreme, e é utilizado pelos praticantes que rapelam a pedra. Claro q auxiliados por um veículo.
 
A picada desemboca numa larga estrada de reflorestamento pertencente a Faz. Forquilha q já reconheço de outros carnavais. Dali sigo sempre pela principal, descendo sempre e tomando algumas bifurcações q tomem sempre a direção norte. Naturalmente q os rapeleiros não fazem este caminho e sim outro, ascendente, e acedem de carro pela estrada a nordeste. De qq forma, após saltar vários troncos de eucaliptos atravessados, passar um trecho com alto capim-navalha no caminho, desembocamos nos fundos duma fazendinha, no caso, vizinha ao Sitio Serra Verde, ao norte. Olhando pra cima o Alberto e Alessandra admiram pela última vez o Sapo, reluzindo imponente no alto duma vasta encosta de eucaliptal.
Novamente na “Estrada da Adutora”, começamos a longa caminhada de volta onde o Alberto bem me recorda algo que nem me passou pela cabeça. “Poxa, Jorge.. poderíamos ter vindo de carro, deixado o veículo na fazenda e nos poupado de andar nesta estrada chata!”, diz ele. De fato, detalhe este q me passou incrivelmente desapercebido esse, ainda mais que naquele inicio de tarde o calor abafado cozinhava imperceptivelmente os miolos! No entanto, bastou passar pelo minúsculo e aprazível balneário dum afluente do Rio Jundiaí a beira da estrada, onde não pensei duas vezes em me lançar em suas águas refrescantes! Momento de tchibum merecido, que até o Alberto não recusou, claro! O pulguento Chocolate tb teve seu quinhão de banho, mas somente após beber metade do ribeirão. “Nossa, ele tava com sede mesmo!”, lamenta a única integrante q abriu mão do banho, Alessandra. “É que não trouxe roupa apropriada..”, revela.
 
Pisamos em Manoel Ferreira por volta das 14hr, onde passamos no único mercadinho aberto e nos regozijamos com refris e brejas. Até àquela altura o Alberto e Alessandra haviam se afeiçoado a tal ponto do Chocolate que estavam resolutos em adotá-lo, visto que aparentemente o bichinho não tinha dono e não possuía identificação alguma. Mas ficou na intenção mesmo pois logo apareceu um funcionário do mercado dando bronca no nosso integrante animal! “Melissaaaaa! O que você ta fazendo aqui??”, disse ele, indignado. Pois é, o totó era “ela” e não “ele”. Foi por pouco, hein, “Chocolate”?
 
Na sequência tomamos o asfalto de volta pra Sampa, dando adeus aquela bela região de Biritiba-Mirim que encantou o Alberto, e á qual pretende retornar em breve  afim de palmilhar seus demais "morrinhos". “É uma região interessantíssima q nunca tinha ouvido falar, Jorge!”, diz ele. “Diria que essa sucessão de morros forma uma ´mini-cordilheira´ com desenho vagamente oval, circunda a região baixa da estrada, que pertence à bacia do Rio Jundiaí. Isto parece tornar a região bastante abafada nos dias quentes.”, conclui. Pois é, essa foi a definição da região que sempre conheci por “Sertãozinho do Tietê”, só que através da ótica inconfundível e experiência irretocável do grande Alberto Ortemblad.
 
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Sobre o autor

Jorge Soto - Colunista

Jorge Soto é mochileiro, trilheiro e montanhista desde 1993. Natural de Santiago, Chile, reside atualmente em São Paulo. Designer e ilustrador por profissão, ele adora trilhar por lugares inusitados bem próximos da urbe e disponibilizar as informações á comunidade outdoor.

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