A Pachamanca

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Faz muito tempo que foram publicadas duas colunas minhas sobre a Cordilheira Branca, em Huaraz, no Peru.

Naquela ocasião, nossos planos de fazer um cume nevado não deram certo. Acabamos caminhando em troca por várias quebradas (como são chamados os vales estreitos) naquela região.

Vista panorâmica da Cordilheira Branca (Fonte – Adventure Club).

Huaraz é, naturalmente, um lugar de montanhas – aliás o principal do país, abrigando seu ponto culminante, o Huascarán.

O montanhismo peruano teve um forte desenvolvimento a partir do Programa Alpes-Andes. Ele foi implantado durante vinte anos com apoio de instrutores suíços. Naquele período, formaram quase uma centena de guias locais.

Quebrada Santa Cruz, Cordilheira Branca, Peru.

Tinha estado no Peru 15 anos antes e percebi uma sensível melhora no nível técnico. Apesar disto, o alpinismo local pareceu-me um tanto conservador, com vias limitadas.

Mas as montanhas nevadas apenas serviram nesta ocasião de moldura para nossas atividades. Durante talvez duas semanas, caminhamos por vales e passos, bosques e rios, lagoas e campos.

Lagunas de Llanganuco, Cordilheira Branca, Peru.

Entre dois destes percursos, pensei que poderíamos desfrutar de um esplêndido almoço, quando parássemos de passagem por Huaraz.

O Peru talvez seja o país latino-americano com a culinária mais requintada. Tinha ouvido falar da pachamanca, um tradicional prato local.

Na Quebrada Cayesh, Cordilheira Branca, Peru.

Confesso que sou atraído por receitas que chamo de barrocas, feitas com opulência a partir de ingredientes rústicos. Normalmente, são saborosas e visuais, à semelhança da nossa cozinha mineira.

A pachamanca é um cozido de carnes e legumes variados, preparado no interior da terra. Pedi então ao rapaz que nos iria resgatar de um trek que a encomendasse para nosso almoço.

Óbvio que passei o dia pensando nela – mas sofri grande decepção ao descobrir que o dia da pachamanca era o anterior (algo como a feijoada dos sábados), ela não estava mais disponível!

A Pachamanca.

Ainda que decepcionado, continuava faminto e propus irmos mesmo assim ao restaurante da pachamanca. Fomos servidos um daqueles pratos fartos e variados das cantinas populares.

Era feito à base de um tipo de preá chamada cuí, muito apreciada pelos locais. Havia perto um grande saco branco, cujo movimento começou a incomodar minha esposa Alessandra.

Quando ela foi investigar, descobriu que estava cheio de cuís vivas. Elas eram simplesmente mortas ao serem lançadas na água escaldante dos tachos.

Enquanto olhávamos, chegou mais uma leva de cuís fresquinhas. Foram logo jogadas dentro do saco.  Alessandra ficou chocada e cortou o nosso barato – confesso que minha fome também desapareceu.

Mesmo depois, em Huaraz ou em Lima, nunca mais encontramos uma pachamanca – de forma que minha ânsia perdura até hoje. Quem sabe na próxima excursão andina possa achar estes dois ingredientes faltantes: um cume nevado e um suculento cozido.

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Sobre o autor

Nasci no Rio, vivo em São Paulo, mas meu lugar é em Minas. Fui casado algumas vezes e quase nunca fiquei solteiro. Meus três filhos vieram do primeiro casamento. Estudei engenharia e depois administração, e percebi que nenhuma delas seria o meu destino. Mas esta segunda carreira trouxe boa recompensa, então não a abandonei. Até que um dia, resultado do acaso e da curiosidade, encontrei na natureza a minha vocação. E, nela, de início principalmente as montanhas. Hoje, elas são acompanhadas por um grande interesse pelos ambientes naturais. Então, acho que me transformei naquela figura antiga e genérica do naturalista.

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