Travessia solitária

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A Serra do Ibitiraquire entrou na minha vida através de uma pequena matéria na antiga revista Aventura Jah de Sergio Beck, pois até então eu nem sabia que o Paraná tinha montanhas… De certa maneira, o Estado que abriga o Marumbi (uma serra pouco mais ao Sul do Ibitiraquire) e uma das mais ricas culturas do montanhismo é fechado e divulgar suas belezas e seus encantos foi durante muito tempo algo proibido…


Mas foi assim que este pequeno paulista do interior conheceu o Ibitiraquire, com notícias de um já famoso montanhista paulista, hoje distante das montanhas…  Fui ajudado também por site paranaense que mais tarde mudou minha vida…

Ainda sem conhecer a região, desembarquei na ponte do Rio Tucum, às margens da BR 116, naquele começo de ano de 2007 e caminhando cheguei num pequeno paraíso de montanhas como não via há muito no Brasil. Um lugar cheio de verde, aventura e muita liberdade!

A primeira montanha que eu subi no Paraná, este estado que aprendi a amar, foi o Itapiroca e ainda sem querer. Isso porque no cruzamento entre esta montanha e o Pico Paraná eu peguei o caminho errado! Entretanto não me arrependi deste engano e nestes 40 minutos perdidos, eu tive a primeira vista daquela impressionante montanha conquistada em 1941 pelos marumbinistas Rudolf Stamm, Afred Mysing e o geógrafo e explorador Reinhaard Maack, tão importante no desenvolvimento de minhas pesquisas científicas e que me causa extrema admiração.

Um pouco mais de 3 anos depois, eu já sou grande conhecedor destas matas, montanhas e gente, mas igualmente chego à ponte do rio Tucum por um ônibus da Princesa dos Campos. Meu destino desta vez não é o ponto culminante do Sul do Brasil, mas sim aquele cume secundário que foi minha primeira montanha nestas serras. Ele na verdade não é meu objetivo final, mas sim o meio do caminho para uma das poucas pernadas que eu ainda não havia feito no Ibitiraquire. E assim vou eu, sozinho…

Chego à Fazenda em menos de meia hora e meia hora mais tarde já estou no morro do Getúlio observando o Caratuva e sua enorme cicatriz causada por um incêndio gigantesco em 2007. Ao seu lado está o Itapiroca, Taipa e Ferraria, além de inúmeras falhas, superfícies de erosão e blocos soerguidos e basculados, meu objeto de pesquisa para os próximos anos…

Em pouco tempo eu cruzo a floresta que separa o Caratuva do Itapiroca, galgando as raízes que protegem o solo e que servem de escadas naturais até chegar ao topo deste segundo cume, de onde eu vejo uma massa de nuvens vindo do litoral, que em pouco tempo encobre o Pico Paraná, deixando exposto seu cume e do Ibitirati apenas…

Dali para frente é uma novidade para mim, mas não é difícil encontrar o caminho entre a florestinha nebular, que começa a fazer jus a seu nome.

Desço até a fenda que separa o Itapiroca do Cerro Verde, onde ficam as falhas que dizem ter conexão com Machu Pichu. Se é verdade a lenda eu não sei, mas se for, tenho certeza que este túnel secreto deve fazer uma conexão em São Tomé das Letras…

Sem visibilidade alguma, eu chego ao cume do Cerro Verde, onde aproveito para fazer o almoço: Feijão com calabresa e farofa, liofilizado é claro! É assim que tenho conseguido levar mochilas pequenas para a serra, com pouco peso e muito conforto. A farofa é apenas item a mais para fazer jus ao tipo de montanhista que os invejosos dizem que sou…

Sem visão, peguei uma trilha errada que me conduziu para dentro de uma matinha nebular, onde eu não achei uma saída fácil e acabei retornando… De volta aos campos de altitude pude perceber como que, mesmo com tão poucos freqüentadores, as trilhas nesta parte da serra se mantém abertas e também fecham de repente. Elas são trilhas feitas por um animal Nativo: a Anta…

Mas não foi difícil me encontrar, mas em pouco tempo já estava me perdendo de novo no vale entre o Cerro Verde e o Luar, novamente nestas matinhas de altitude casca grossa. Desta vez perdi uns 40 minutos e deu até pra sentir um frio na barriga. Mas que diabo, se eu tinha comida barraca e tudo mais nas costas, tinha medo de quê?

Foi assim que saí do mato perdido e reencontrei o caminho, ainda fechado Nas Nuvens. Dei-me conta apenas de que cheguei ao cume do Luar pela caixa de livro já destruída pelas intempéries…

Sem opção deixei a zona de cume para buscar um lugar para acampar e encontrei numa ombreira plana cheia de capim de anta, onde montei a barraca debaixo de uma chuva que caía na horizontal.

Sem coragem para procurar o liquido precioso, dormi com os 300 ml de água que restava, suficiente para me hidratar e fazer um ovo mexido liofilizado que ganhei do Parofes. Estes Liofilizados são ou não são o bicho? Dormi bem, mas com pensamentos perturbados pelo vento que não parou de soprar.

Para caminhar leve e com mochila pequena, eu tive que levar um saco de dormir de +15 graus e para não ficar com frio, tive que usar todas as minhas roupas + a mochila e ainda ficar em posição fetal com as mãos entre as pernas. Assim eu fiquei a noite inteira com os pés e mãos quentes e pude ter uma boa noite.

Desmontei a barraca e montei a mochila pela manhã. Não foi uma tarefa fácil com o vento e a chuva, mas até que fiz com rapidez, de forma que nem deu tempo para sentir muito frio, só as mãos duras quando ficaram em contato com as varetas de alumínio…

Rapidamente desci as encostas da montanha e cheguei à floresta. Esta travessia é assim, sempre com desencontros nas partes baixas e encontros nas partes altas… Me reencontrei novamente com a trilha no cume do Ciri e com alguma dificuldade de navegação me guiei para dentro do rio da última chance, que leva até os pés do Ciririca, a montanha com trilha mais distante da Serra do Mar do Paraná, onde parei para tomar meu café da manhã: Macarrão à bolonhesa, uma delícia!

No meio do meu banquete fui surpreendido por mais chuva, que agora caia das folhas da copa das árvores. Já era 10 da manhã e decidi não subir ao cume do Ciririca, pois senão teria que dormir na fazenda para esperar o ônibus do dia seguinte. Ao contrário, preferi fazer uma volta tranqüila, curtindo aquele bosque molhado cheio de subidas e descidas por vales de rios encachoeirados que me levou até a Fazenda da Bolinha, ponto de partida para aventuras no Parque Estadual Roberto Ribas Lange, onde fica o Tucum, Camapuan, Ciririca e a Serra dos Agudos, mais um parque de papel na Serra do Mar do Paraná, mas que está muito bem preservado mesmo assim.

Dali foi mais uma hora de estrada de terra até a BR 116 e outros 40 minutos até o Posto Tio Doca, começo e fim de qualquer aventura no Ibitiraquire onde há deliciosas coxinhas e doces…

O Ibitiraquire e todas estas paisagens fizeram parte de minha vida de maneira muito intensa nestes últimos anos. Visitar a Serra, no entanto, pode ser uma tentativa de rever estes sentimentos, mas as pessoas com quem estivemos nestas experiências não estão mais lá. Todos estes lugares tiveram seus momentos, mas infelizmente, a própria serra, ou interesses particulares de uns, fizeram deste local o motivo para a divisão…

Deixando estes problemas de lado, eu sei muito bem onde encontrar minha liberdade. A Serra do Ibitiraquire sempre será um destes locais… Por mais que digam que ali é um lugar destruído precisando ser remediado pela ordem e moral dos donos da montanha, o que é uma grande bobagem, pois disso sabemos que resultou apenas a proibição (não para todos), fato evidenciado numa outra serra mais ao sul.

Como eu dizia no começo desta história, até pouco tempo atrás eu nem sabia que o Paraná tinha montanhas, mas hoje todos acham que eu sou paranaense. Nestes anos que se passaram, me tornei um paranaense de coração, mas infelizmente este coração ficou um pouco doente depois que eu descobri os motivos para que toda a história, cultura e tradição do montanhismo do Paraná fossem escondidos.

Se hoje eu sei sobre esta cultura e me identifico com ela, isso é graças àquele site que me deu dicas de como ir ao Ibitiraquire pela primeira vez e que mais tarde divulgou minhas idéias ao Brasil inteiro, fato que despertou a ira do Sombra, que tanto insiste em querer controlar, proibir e esconder isso tudo… Conseqüentemente também odeia este site e todos que dele fazem parte…

Todos sabem que sou uma pessoa que preza a aventura e a liberdade, por isso voltarei muitas vezes para lá e empreender muitas outras travessias, com amigos e também de maneira solitária. Escrevo estas linhas para deixar bem claro onde me procurar, pois há gente que diz que me conhece, mas na verdade não. Dizem coisas erradas e ainda me procuram no lugar errado. Se prezo a liberdade, então porque me procuram onde ela não existe?

:: Veja mais fotos no meu blog

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Sobre o autor

Pedro Hauck - Equipe AM

Pedro Hauck é montanhista e escalador desde 1998. Natural de Itatiba -SP, reside atualmente em Curitiba-PR. Pedro gosta de escaladas clássicas e também de montanhismo de altitude, já tendo escalado algumas das mais altas dos Andes. É geógrafo, mestre em Geografia Física e atualmente faz doutorado em Geologia ambiental. Visite o Blog de Pedro em www.pedrohauck.net

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