Vou começar fazendo uma pergunta que nunca havia antes me ocorrido: por que os nossos índios historicamente nunca foram capazes de domesticar animais? Sempre que os visitei, só me lembro de bichos pequenos como cães, macacos, araras e algum eventual passarinho.
Mas já tivemos no Brasil animais de grande porte. Uma primeira constatação surpreendente é que havia durante o Pleistoceno (no fim do qual o homem já caminhava pelas Américas) abundantes espécies da megafauna. Mais aliás nas Américas do que na Europa e Ásia.
O Pleistoceno ou Era do Gelo foi período geológico que antecedeu o atual, quando houve grandes glaciações e variações de temperatura e, consequentemente, de vegetação. Havia então no Brasil animais muito grandes, como mastodontes, megatérios e gliptodontes (elefantes, preguiças e tatus gigantes).

A megafauna do Cerrado brasileiro.
Porém eles foram grandemente extintos no fim desta era, seja pela formação de florestas sob os climas mais úmidos (desfavoráveis à sua alimentação), seja pelo advento de períodos quentes (aos quais não estavam habituados) ou então pela ação dos homens (sua população havia crescido, com maiores necessidades e habilidades de caça).
Mas restaram alguns remanescentes, naturalmente diminuídos, entre os quais os maiores estão indicados abaixo (com os pesos médios dos animais adultos). Você verá a seguir porque mostrei uma lista tão longa.
| Peixe-Boi | 420 kg | Anta | 230 kg | Boto Rosa | 175 kg |
| Sucuri Verde | 175 kg | Cervo Pantanal | 125 kg | Onça Pintada | 120 kg |
| Tartaruga Amazon | 100 kg | Capivara | 65 kg | Tatu Canastra | 60 kg |
| Jabuti Tinga | 60 kg | Jacaré Cayman | 50 kg | Queixada | 40 kg |
A domesticação envolve três passos importantes: o controle da reprodução do rebanho, a prática de uma dieta viável, seja para animais ou humanos, e a seleção de um comportamento adequado para os bichos domesticados.
O geógrafo e ecologista americano Jared Diamond, autor do influente livro Guns, Germs & Steel, estudou a domesticação das plantas na Eurásia. Segundo ele, foi a possibilidade de controle das plantas selvagens que permitiu o sucesso daquela região em relação à América. Ele enfatizou os fatores geográficos e ambientais, por oposição aos culturais e genéticos.
Mas Diamond também desenvolveu um conjunto de critérios para a domesticação dos animais. O primeiro foi a alimentação – não por acaso os animais domesticados foram predominantemente herbívoros (ou onívoros que se alimentavam de restos), pois nutrir carnívoros é quase sempre inviável. O segundo foi o tamanho, pois não é vantajoso criar animais pequenos (e nem enormes). O terceiro foi a rapidez de reprodução e de crescimento, a exemplo dos bovinos por oposição aos elefantes.

Animais domesticados desde 15 mil anos.
A relativa docilidade foi outra das condições: por exemplo, pacas e zebras nunca foram amansadas devido à sua agressividade. E o temperamento é também importante, pois não convém desenvolver animais solitários e tímidos como lobos-guará e veados. Neste caso, o ideal são as espécies que aceitam hierarquias de comando, que favorecem a liderança dos humanos, como é o caso dos cães.
Veja agora alguns dos mamíferos domesticados na Eurásia: bovinos, caprinos, suínos, equinos e é claro caninos e felinos, nossos cães e gatos. Compare com os exemplares do quadro do começo desse artigo e constate que praticamente nenhum deles satisfaz aos critérios de Diamond. Afora os cães, os únicos mamíferos sul-americanos de porte domesticados foram a lhama e a alpaca e nenhum deles naquela época existia no Brasil.
A domesticação trouxe alguns efeitos importantes. O mais evidente foi na alimentação, pela presença do leite e da carne, que permitiram humanos mais robustos e longevos. A tração animal, o transporte, o vestuário e o uso nas guerras foram fatores importantes para o desenvolvimento humano, de que os nossos indígenas careceram.

Doenças trazidas pelos colonizadores.
Mas houve um outro efeito fundamental. O contato milenar com as zoonoses dos animais domésticos, como porcos, aves e bovinos, criou por seleção natural europeus resistentes a infecções como gripe, sarampo e varíola. Porém, quando da chegada dos colonizadores, elas simplesmente contaminaram e devastaram nossos nativos, que nunca possuíram essas defesas.
Existe a tese de que, por descenderem de comunidades pequenas que povoaram as Américas e permanecerem desde então isolados, os indígenas teriam um equipamento imunológico pouco variado. Portanto, menos resistente aos vírus que acompanharam a chegada dos europeus.
Os africanos trazidos como escravos também contribuíram com suas doenças próprias, como a malária e a febre amarela. Nestes casos, os brancos foram afetados, pois não tinham sido antes expostos a elas, mas devido à sua imunização mais variada, possivelmente bem menos do que os indígenas.

A evolução da população indígena – no início, talvez de 6 e não de 3 milhões de habitantes.
Foi assim que os 6 milhões de nativos do Brasil foram estupidamente quase extintos, quando se reduziram a menos de 100 mil indivíduos, antes que as reservas indígenas e os cuidados de saúde permitissem sua sobrevivência.
Mas será que a história teria sido diferente se tivesse havido domesticação no Brasil? Acredito que só as regiões de campos naturais do Sul ou de cerrados do Centro-Oeste pudessem comportar a criação de bovinos. A de caprinos provavelmente só se desenvolveria nos domínios das caatingas nordestinas. Mas imagino que, por ter o Brasil sido uma grande selva, o impacto dessas práticas teria sido bem modesto.
Porém existe o importante exemplo dos equinos, introduzidos no Pantanal do século XVI pelos espanhóis. Os cavalos procriaram e ficaram acessíveis aos habitantes da região. Os bravos índios guaicuru se tornaram exímios cavaleiros e, associados ao povo canoeiro paiaguá, ofereceram forte resistência aos colonizadores. Só no fim do século XVIII foi celebrado um acordo de paz com os guaicuru. No século seguinte, eles lutaram valentemente do lado brasileiro na Guerra do Paraguai.

Gravura de Debret sobre os guerreiros guaicuru.
Mas o que aconteceu com eles? Sofreram o assédio de outras nações indígenas e foram combatidos durante três séculos por portugueses e espanhóis. Os descendentes dos guaicuru foram os kadiwéu, que obtiveram no fim do século XX a sua reserva na região da Serra da Bodoquena (MS).
Porém, algo como 60% dela foi contestada e invadida por fazendeiros, um enredo que você já está acostumado a encontrar na Amazônia. O controle dos cavalos não impediu a decadência desses bravos guerreiros. Quanto aos paiaguá, lutaram como lanceiros contra o Exército brasileiro e acabaram extintos.
Assim, não acredito que a domesticação dos animais tivesse fundamentalmente impedido o infeliz destino dos índios brasileiros.







