Uma frente meteorológica severa originada na Baía de Bengala atingiu o Nepal com violência nos últimos dias, transformando a temporada de outono no Himalaia em um cenário crítico de emergência e instabilidade generalizada.
Enquanto montanhistas de todo o mundo enfrentam o cancelamento antecipado das investidas no Manaslu, um desastre de grandes proporções atingiu o Himlung Himal (7.126 m), montanha remota situada no vale de Nar-Phu, distrito de Manang, nas proximidades da fronteira com o Tibete.
Tragédia no Acampamento Base do Himlung
Na manhã de domingo, uma enorme avalanche desceu das encostas superiores e varreu com violência o Acampamento Base do Himlung, soterrando a estrutura que começava a ser erguida e deixando ao menos 14 trabalhadores locais nepaleses desaparecidos.
Diferente de acidentes convencionais de montanha que afetam clientes comerciais em rotas de cume, a tragédia no Himlung não envolveu alpinistas estrangeiros. O Departamento de Turismo do Nepal sequer havia finalizado a emissão de permissões para grupos internacionais, e as linhas de cordas fixas ainda não estavam prontas.
As vítimas são guias, carregadores de altitude e profissionais de cozinha de agências locais, incluindo a Himalayan Holidays e a Imagine Nepal. As equipes haviam subido com antecedência para adiantar a logística das expedições previstas para o mês de outubro.

Acampamento base do Himlung. Na direita observa-se uma barraca semi enterrada na neve. Fonte: Mingma G.
Local atípico e resgate travado pelo tempo
O fato de a avalanche ter atingido em cheio o Acampamento Base causou enorme choque entre os operadores. Tradicionalmente, o acampamento do Himlung fica instalado em uma planície glacial considerada segura e resguardada por uma distância considerável das encostas íngremes.
O alcance do fluxo de neve evidenciou o volume extraordinário de precipitação pesada e úmida acumulada nas cotas superiores da montanha.
As operações de busca e salvamento seguem extremamente lentas e complicadas. O teto baixo de nuvens, os ventos intensos e a precipitação contínua impediram que helicópteros se aproximassem com segurança da área atingida.
Por terra, o isolamento geográfico do vale de Nar-Phu e a instabilidade nas trilhas de aproximação dificultam enormemente o envio de socorro especializado.

Campo base do Himlung durante nevasca de 2021. Foto Pedro Hauck
Tensão no Manaslu e brasileiros na montanha
No Manaslu (8.163 m), oitava montanha mais alta do planeta e principal palco do montanhismo comercial neste outono, o cenário é de desmobilização quase total e muita apreensão.

Post de agência de montanhismo anuncia acampamento base soterrado no Manaslu.
Entre os montanhistas presentes na montanha nesta temporada estão os brasileiros Walmor “Pepe” Fiamoncini, Vanessa Oliveira e Julianu Lorne que acompanharam de perto a rápida deterioração das condições climáticas nos últimos dias. Os dois primeiros já anunciaram que desistiram da ascensão, enquanto que Lorne permanece em Samagaon, vila mais próxima do Manaslu, à espera.
O volume excessivo de neve fresca acumulada soterrou dezenas de barracas tanto no Campo Base quanto nos acampamentos avançados, inutilizando materiais e exigindo um esforço exaustivo com pás para impedir o colapso completo das estruturas.
Diante do risco inaceitável de placas de vento e avalanches contínuas sobre a rota normal, as principais lideranças de expedição bateram o martelo pelo encerramento das tentativas de cume, priorizando a integridade física de alpinistas e equipes sherpas.
Madrugada de pânico e o fantasma de Syabrubesi
Com o cessar das precipitações mais severas e uma sutil elevação nas temperaturas, a montanha entrou em um novo e traiçoeiro estágio de perigo caracterizado pelo ciclo de avalanches úmidas de degelo e saturação do solo.
O clima de tensão na região é evidente. O brasileiro Julianu Lorne relatou que, durante a madrugada, foi acordado pelo alarme de uma avalanche. Ele chegou a ver pessoas correndo desesperadas em meio à escuridão, mas a situação acabou se confirmando como um alarme falso: “Maior correria aqui. Acordamos com um sinal falso de avalanche (ou alguma coisa grande) acontecendo aqui no vilarejo“. Relatou em sua mídia social.
O aumento da temperatura e a água do degelo provocaram deslizamentos de terra pontuais e a formação de cachoeiras volumosas que desceram as encostas, embora sem força suficiente para atingir as casas das aldeias.
Ainda assim, o nervosismo foi generalizado. O pânico reflete o trauma recente e a memória viva da catástrofe de Syabrubesi, no vale de Langtang — varrido semanas atrás por um violento evento de deslizamento e inundação de detritos. O receio constante de que eventos extremos semelhantes possam se repetir em outros vales do Nepal mantém locais e montanhistas em permanente estado de alerta.
Ao mesmo tempo, o degelo acelerado combinado às chuvas nos vales inferiores provocou um aumento rápido no caudal dos rios glaciais ao longo do vale do Budhi Gandaki, danificando trilhas e pontes. O foco absoluto de todas as operadoras no Manaslu voltou-se agora para a evacuação segura de clientes e trabalhadores, enquanto a comunidade internacional do montanhismo segue em vigília por notícias do Campo Base do Himlung.







