Quando o relógio quebrou: As monções tardias e o novo normal do montanhismo no Himalaia

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Há cerca de dez anos, sentar para conversar com operadores de expedição no Nepal trazia uma sensação quase reconfortante de previsibilidade. Entre uma xícara e outra de chá em Katmandu, ouvi do holandês Arnold Coster — veterano que fez do país sua casa e conhece as entranhas daquelas montanhas — uma explicação que resumia o otimismo da época: a cordilheira operava sob a precisão de um relógio suíço.

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As agências comemoravam a consolidação da temporada pós-monção no Manaslu. Era uma descoberta de ouro para o setor: um colosso de 8 mil metros viável comercialmente numa época em que o mercado tradicionalmente parava, oferecendo trabalho e cumes em série.

A engrenagem parecia matemática. A aproximação acontecia ainda sob a cauda do verão, caminhando com guarda-chuva aberto por trilhas engolidas pela lama do vale do Budhi Gandaki. Na montanha, a neve caía religiosamente à tarde, mas as manhãs limpas abriam a brecha exata para que sherpas e guias fixassem cordas e estabelecessem os acampamentos.

A mágica acontecia por volta do equinócio. As últimas chuvas despejavam uma nevasca pesada enquanto os alpinistas cumpriam o descanso final da aclimatação no Campo Base. Logo em seguida, por volta do dia 24 de setembro, o tempo limpava. Grandes avalanches naturais expurgavam o excesso acumulado nas encostas íngremes e, com o manto nival assentado, abria-se a janela perfeita. Foi seguindo à risca esse cronograma da natureza que, em 2018, alcancei o topo do Manaslu exatamente no dia 26 de setembro. Tudo fazia sentido. O Himalaia tinha suas regras e nós sabíamos lê-las.

Hoje, aquele relógio quebrou.

O primeiro sinal contundente de que a engrenagem havia emperrado me atingiu em outubro de 2022. Eu tinha um trekking agendado para o Acampamento Base do Everest, época historicamente marcada por ar seco e céus azuis impecáveis. Choveu com tanta violência e constância que voar para Lukla tornou-se inviável. A alternativa foi encarar uma jornada de jipe que se revelou uma aventura mais selvagem do que escalar um pico de 8 mil metros: pistas precárias de terra transformadas em atoleiros à beira de abismos, barreiras desabando ao nosso lado e rios enfurecidos que arrancavam pontes e cortavam vales inteiros.

Poderia ter sido um ponto fora da curva. Mas, em outubro de 2024, a história se repetiu de forma idêntica, exigindo jipes pela segunda vez. Diante dessa realidade incontestável, tomei a única decisão sensata para quem opera na região: mudei as datas dos meus trekkings de outono. A monção, que antes se despedia nas cercanias do equinócio, agora insiste em permanecer até depois de 15 de outubro.

De quem é a culpa?

Se isso não se chama mudança climática, eu sinceramente não sei o que é.

Muitos ainda reduzem o debate climático a um punhado de décimos de grau no termômetro. Mas o clima é um sistema dinâmico complexo: é umidade, radiação, pressão e vento. Mudar o clima significa alterar profundamente a circulação geral da atmosfera. Por alguma perturbação nesse motor planetário, as massas de ar quente e saturadas de umidade vindas da Baía de Bengala estão avançando com força desproporcional e estendendo seu domínio por quase um mês além do seu tempo histórico. Isso nos força a rasgar manuais antigos e reconstruir do zero as estratégias de escalada em alta montanha.

Aquelas mesmas operadoras que há uma década celebravam o Manaslu como uma máquina previsível de cumes agora desmontam acampamentos às pressas, acumulando prejuízos colossais e despachando seus clientes para casa sem um único cume para contar a história.

O mesmo drama atinge o Himlung Himal (7.126 m). Quando o governo nepales liberou as permissões para essa montanha remota no vale de Nar-Phu, as agências vibraram. Parecia a fórmula perfeita: um 7 mil “fácil” — entre muitas aspas, porque não existe 7 mil fácil —, considerado seguro contra avalanches e ideal para o outono clássico, quando os 8 mil ficam proibitivamente gelados, mas o tempo estabiliza com dias límpidos e frios.

Himlung Himal. Foto Pedro Hauck.

Tive o privilégio de ser o primeiro brasileiro a pisar no cume do Himlung, junto com o Thiago Melo e a Maria Tereza Ulbrich. Naquela expedição, sentimos na pele a fúria de uma frente vinda da Baía de Bengala. Foi a nevasca mais colossal que enfrentei na vida. A precipitação era tão absurda que soterrava nossas barracas, nos obrigando a sair duas vezes durante a madrugada com pás para não sermos esmagados pelo peso da neve. Perdemos uma semana inteira parados. Outras expedições tiveram barracas e equipamentos completamente destruídos e engolidos pelo manto branco. Quando o temporal finalmente cedeu, o sol abriu e conseguimos fazer cume.

Hoje, a história no Himlung é muito mais sombria. A montanha tida como “livre de avalanches” viu uma purga titânica varrer o próprio Campo Base, soterrando a estrutura e os trabalhadores nepaleses que preparavam a montanha. O terreno é o mesmo; a atmosfera sob a qual ele repousa é que mudou.

Campo base do Himlung durante nevasca de 2021. Foto Pedro Hauck

Enquanto a maioria das grandes expedições comerciais bateu em retirada do Manaslu nas últimas horas, conversei com o Julianu Lorne. Ele é o único brasileiro que decidiu resistir e permanecer na montanha. Após a debandada em massa, restou apenas um punhado de alpinistas experientes tentando cavar uma última oportunidade.

A tarefa que têm pela frente é monumental. Não é impossível, mas beira o titânico. Em situações assim, metros de neve fresca cimentada engolem as cordas fixas de forma irreversível. Para tentar qualquer investida agora, é preciso carregar nas próprias costas toda a infraestrutura montanha acima: erguer barracas do zero, transportar fogareiros, gás, comida e reabrir a rota no peito em meio a encostas sobrecarregadas.

Nós, montanhistas, guias e trabalhadores da altitude, não precisamos de modelos teóricos abstratos para entender a crise ambiental do planeta. Nós somos, a cada temporada frustrada, a cada rota destruída e a cada perda humana nos acampamentos base, as primeiras testemunhas e as primeiras vítimas das mudanças climáticas.

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Sobre o autor

Natural de Itatiba-SP e residente em Curitiba-PR desde 2007, Pedro Hauck é uma figura proeminente no montanhismo brasileiro. Sua formação inclui graduação em Geografia pela Unesp Rio Claro e mestrado em Geografia Física pela UFPR. Com uma carreira de mais de 27 anos, ele é guia de montanha profissional e instrutor de escalada credenciado pela ABGM, a única associação de guias de escalada profissional do Brasil. Seu currículo inclui a ascensão de mais de 180 montanhas acima de 4 mil metros, com mais da metade ultrapassando os 6 mil metros, além de um pico de 8 mil metros no Himalaia e dois de 7 mil. Pedro Hauck também atua como empresário do setor outdoor, sendo sócio da Loja AltaMontanha, uma das mais conceituadas lojas de montanhismo do país, da Via AltaMontanha, um dos maiores ginásios de escalada de Curitiba, e da Soul Outdoor, agência especializada em ascensão, trekking e cursos de montanhismo. Acompanhe Pedro Hauck no Instagram: @pehauck.

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