A Ilha Anchieta

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De todas as ilhas do Sudeste, a Ilha Anchieta é a menor delas, o que lhe dá um aspecto próprio, mais isolado e delicado. Apesar disto, ela tem uma história selvagem e violenta, que surpreende quem aporta em sua mansa enseada.

A Localização A pequenina Ilha Anchieta fica no litoral paulista, praticamente frontal ao Saco da Ribeira, local de maior concentração de barcos em Ubatuba, aliás lindamente visíveis da Rio-Santos, a BR 101 de que comentei acima. É dele que se dá o acesso até a ilha, numa rápida travessia de menos de 10 km – ou, como diria um lobo do mar, 5 milhas náuticas. Ela é abarcada pela APA marinha de Cunhambebe, uma das três que em teoria protegem o litoral norte, desde São Sebastião (nos limites de Bertioga) até Ubatuba (na divisa com o Rio).

Mapa da Ilha Anchieta. Veja as praias, com o presídio no meio. De cada lado, existem dois morros (Fonte – Divulgação).

O Boqueirão  Existe uma ponta do continente que avança rumo à ilha. Neste local, o canal tem pouco mais de ½ km, podendo ser transposto por canoa com mar manso. Porém antigamente esta passagem era muito visitada por tubarões. Hoje a pesca dispersou-os e, só mesmo quando o vento leste agita o mar, o Boqueirão deixa de ser cruzado em segurança.

O Formato  A Ilha Anchieta teria um formato perfeitamente triangular em planta, não fosse pela presença de um grande arco, que forma a tranquila Enseada das Palmas, voltada a norte para o continente. Ficam nesta enseada cinco das sete praias da ilha – na realidade, estas prainhas são praticamente contínuas. As demais estão a sul e a leste, sendo que esta última não é aberta à visitação. É uma ilha pequena, com algo mais de 800 hectares – compare com os 20 mil para a Ilha Grande e 35 mil para Ilhabela.

O Relevo  De cada lado desta enseada existem elevações, com pouco além de 300 metros de altitude: os Morros do Papagaio e do Farol, à esquerda e à direita de quem chega. Por causa deles, os índios a chamavam de Ilha Poquã, ou pontuda. Provavelmente, foi por isto tida como Ilha dos Porcos até o século XX, quando seu nome foi mudado, em mais uma homenagem ao Padre Anchieta.

A Vegetação  É hoje totalmente secundária, devido ao corte da mata, às culturas agrícolas e à ação do fogo. Ela passa por processo de regeneração, desde a fundação do Parque Estadual em 1977. Não existem grandes árvores ou florestas densas, mas é perceptível a diferença entre os dois morros, pois o mais íngreme mostra uma mata quase contínua. Nela são encontradas aroeiras, figueiras e guapuruvus. Além da mata atlântica, a ilha abriga restingas e costões rochosos.

A Fauna  Na década de 80, houve um movimento para abrir a ilha à exploração privada e então grupos ambientalistas nela introduziram defensivamente diversas espécies animais. Na época, acreditava-se que a presença de vida animal permitiria proteger a ilha. O Zoológico de São Paulo lá instalou (entre outros) capivaras, macacos-prego, quatis, lagartos e tatus. Algumas destas espécies tornaram-se superpopulosas (como cutias e saguis), enquanto outras retrocederam devido à predação ou concentração genética (macacos e tatus). A presença de pássaros é discreta, mas os cardumes de tainhas, robalos, sardinhas e tartarugas são frequentes.

Cabe às abundantes capivaras da ilha apararem o gramado do antigo presídio.

A Colonização  No início da colonização, a ilha pertencia ao cacique tupinambá Cunhambebe, em cuja memória foi criado um PE próximo ao litoral do Rio. Ocupada a seguir por holandeses e franceses invasores, além de portugueses, a Ilha Anchieta nunca chegou a ter grande atividade, seja devido à sua topografia ou ao seu tamanho. Mas isto começou a mudar, com a instalação de uma colônia correcional no comecinho do século XX. Dizia-se esperançosamente na época que o internado de bom comportamento iria adquirir a posse de si mesmo até (…) a aproximação da liberdade.

A Imigração  Apesar do rápido malogro desta colônia, o Estado resolveu transferir para lá imigrantes europeus, talvez aproveitando os prédios ociosos. Nada menos do que duas mil pessoas de origem russa e romena aportaram na ilha, com resultado nefasto. Desconhecendo o efeito venenoso da mandioca, mais de uma centena delas veio a morrer – e as demais logo retornaram ao continente, sem deixar vestígio de sua passagem.

O Presídio  Depois de abrigar um cárcere para presos políticos, foi estabelecido na ilha um presídio de segurança máxima durante a Segunda Guerra, com 400 presos. Nele a relação entre os detentos era turbulenta, pois havia também presos comuns, além dos altamente perigosos. Um criminoso apelidado de Portuga conseguiu unir a população até então violenta e convencê-la a aparentar cordialidade. Foi então instalado um clima de confiança no presídio, que favoreceu o surgimento da revolta.

Vista aérea do presídio e do embarcadouro (Fonte – PEIA).

A Revolta  Num momento combinado em 1952, os guardas foram desarmados e os presos dominaram a ilha. Porém a barcaça Ubatubinha esperada para aquele dia não chegou e, impossibilitados de fugir em massa, os detentos incendiaram o local. Graças a um soldado que atravessou a nado o Boqueirão, a revolta foi dominada e os presos sentenciados. Mas alguns conseguiram embarcar na lancha do presídio, chegaram em terra e tentaram atravessar a Serra do Mar. Portuga, que era cardíaco, veio a falecer nos altos de Paraty, muitos dos demais sendo capturados. Ao total, foram apreendidos 129 presos – você pode imaginar quantos morreram. Em 1955 o presídio foi extinto.

As Ruínas  Num certo sentido, elas talvez sejam a principal atração da ilha, com seu formato simples, suas celas em oito casas separadas circundando um grande quadrado, na área plana frontal à serra. O quadrado é recoberto por uma grama cuidadosamente aparada – pelas capivaras, que dela se servem como alimento. No piso de uma das celas há o depoimento de um preso: é necessário conhecer o sofrimento para avaliar a felicidade. Acho um absurdo que este belo conjunto não tenha ainda sido restaurado, em mais um testemunho de nosso desinteresse pelo passado.

As Assombrações  Como costuma acontecer em locais de sofrimento e violência, houve muitos relatos de vozes e aparições ao longo da história da ilha. Estes foram aumentados pela queda de um avião em 1957, com quase trinta mortos. Se você for sensível, talvez capte o peso da dor nas celas hoje abertas à luz do sol, onde as grades e os muros parecem tão inocentes e indiferentes em relação a este passado cruel.

As praias ao norte, voltadas para o continente, são mais tranquilas (Fonte – wikimedia commons – Samantha Kfouri).

Os Filhos da Ilha  Você ouvirá esta curiosa expressão quando visitar a ilha. Há mais de vinte anos, são assim chamados todos aqueles que um dia moraram nela, sejam civis, militares ou detentos, bem como seus descendentes. São eles que, junto com a administração do Parque, credenciam os monitores e irão recebê-lo quando você estiver lá.

As Trilhas  Existem apenas duas trilhas visitáveis, infelizmente ambas curtas, com não mais de 3 km ida e volta, mas bonitas, largas e sombreadas. A mais interessante é a do Saco Grande, no lado sul da ilha, voltado para o oceano, uma espetacular enseada rochosa invadida pela espuma branca do mar revolto, que pode ser contemplada do alto de uma íngreme escarpa. Ao contrário, a Praia do Sul é uma bucólica extensão de areia, decorada por amendoeiras e banhada por um mar manso.

O Potencial  Mas a Ilha Anchieta tem a possibilidade de outros caminhos, mais longos e interessantes. A pequenina Praia do Leste é hoje fechada para pesquisa, mas é especial em seu isolamento. A ilha tem quase 15 km de costões, com belas vistas para o agitado mar ao sul, que poderiam ser parcialmente percorridos. E o Pico do Papagaio (345 metros) deve propiciar uma ampla visão do litoral, desde a longa Lagoinha até a distante  Ubatuba e, em especial, da Praia da Enseada e do Saco da Ribeira, que lhe são frontais.

Detalhe de uma das trilhas sombreadas da Ilha Anchieta.

A Visita  Você deve seguir as regras para agendamento, sua visita sendo acompanhada por um monitor. Se seu grupo for pequeno, procure uma embarcação de alumínio, são as únicas com preço adequado – as lanchas só compensam para grupos maiores. Um dia será suficiente para conhecer a ilha – e para mergulhar no seu costão norte, com visão dos peixes nos dias de verão. Apesar de restrita, a Ilha Anchieta é muito graciosa, com um aspecto pitoresco que você não encontrará nas praias do continente ou nas ilhas maiores.

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Sobre o autor

Nasci no Rio, vivo em São Paulo, mas meu lugar é em Minas. Fui casado algumas vezes e quase nunca fiquei solteiro. Meus três filhos vieram do primeiro casamento. Estudei engenharia e depois administração, e percebi que nenhuma delas seria o meu destino. Mas esta segunda carreira trouxe boa recompensa, então não a abandonei. Até que um dia, resultado do acaso e da curiosidade, encontrei na natureza a minha vocação. E, nela, de início principalmente as montanhas. Hoje, elas são acompanhadas por um grande interesse pelos ambientes naturais. Então, acho que me transformei naquela figura antiga e genérica do naturalista.

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