A quinta montanha mais alta do Brasil? Onde?

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Fazia tempo que eu desejava conhecer esta parte da Mantiqueira que envolve montanhas emblemáticas do montanhismo nacional como por exemplo a Pedra do Baú. Foi de sexta-feira dia 07DEZ2012 e sábado dia 08DEZ2012 que fui a Campos do Jordão passar uma noite no famoso Pico do Itapeva, montanha que se encontra diferentes referências incorretas no google em só dois minutos de pesquisa.

Detectei pelo menos quatro revés contra a montanha, mas de fato duas características a seu favor. Vamos lá:

Na página do wikipédia já se encontra 2 inconsistências. Primeiro a altitude, o Pico não tem 2.030 metros como está registrado na página, medi 1.958 com meu gps, com precisão de 10 metros. Segundo a informação de que um dos pontos mais altos acessíveis de carro no Brasil. Outra inconsistência. Só a estrada da parte alta do Itatiaia encontra-se 500 metros verticais mais alta.
Continuando, na placa da entrada da rua da feirinha, onde se chega ao cume da montanha tido como principal (que também não é segundo o Google Earth), há a informação de que a montanha tem 2.035 metros de altitude, errado novamente.
Durante as buscas, é fácil encontrar pra todo lado a informação completamente errada de que o “Pico do Itapeva é a 5ª montanha mais alta do Brasil”. Sério? Em que Brasil? Neste aqui não é mesmo, esta posição é ocupada por nada mais nada menos que o Pico das Agulhas Negras. Já ouviram falar nesta montanha?  Se fosse categorizado em relação a altitude de todas as outras montanhas que se conhece, e nem cito morros desconhecidos de 2000m+ que existe por aí, o Pico do Itapeva ficaria por exemplo em 60º colocado no ranking nacional. É…

Vista da chegada ao topo, o Pico Agudo de Pinda. – Autor: Parofes

Agora vamos aos prós:

Declara-se abertamente que o ponto mais alto habitado do Brasil é o Morro da Igreja em Urubici, na altitude de 1.822 metros, já que os funcionários do controle aéreo pernoitam lá. Ponto positivo pro Pico do Itapeva como mais alto habitado! Dado que a 1.958 metros pessoas moram, pessoas que trabalham para as estações de rádio e TV, que dormem nas instalações das antenas, seguranças, e duas ou três famílias que trabalham na feirinha de artesanato que moram lá no topo ou talvez vinte metros verticais abaixo, mas mesmo assim ficando mais de 100 metros acima do Morro da Igreja.
A vegetação ao redor do cume é muito preservada, em algumas partes parece até que o homem nunca pisou, só mesmo as vacas e os cavalos que circulam por lá.
O inconveniente é que o homem não anda por essas encostas, mas joga seu lixo. Muito, muito lixo pra todo lado. O local onde acampei, me protegendo da visão da estrada pra não ser visto e portanto roubado, era praticamente uma lata de lixo enorme. Latas de cerveja, de refrigerante, papel higiênico usado, fezes humanas, preservativo usado, sacos de lixo cheios, entretanto desamarrados, pedaços de madeira que são resto de antigas construções, um pandemônio de lixo. Uma lástima. Infelizmente isso não é privilégio do Pico então não contei como “um contra” já que isso se vê a todo lado (apesar de ser um contra universal, não só no Brasil).

Protesto dos locais – Autor: Parofes

 

O coitado do animal tenta se alimentar em meio a tanta sujeira… – Autor: Parofes

Isso me irrita! A placa e ao lado uma sola de tênis. – Autor: Parofes

Bem. Peguei um ônibus acreditando inocentemente na previsão de tempo pra sexta-feira dia 7 de dezembro que daria uma pancada de chuva de 1mm a tarde e depois seria uma noite estrelada. Ótimo, eu poderia praticar fotografia noturna com minha câmera nova.
Sinceramente, não espero que as pessoas deem muita importância a esse relato, afinal de contas é uma montanha que se chega de carro literalmente até o cume! Mas já disse isso muitas vezes, montanha é montanha, e se você chega lá com suas forças, isso é o que conta. Não importa a altitude.
Assim que cheguei em Campos do Jordão consegui um táxi só pra encurtar um pouco a distância, sair da zona urbana da cidade, já que eu detesto caminhar em estrada urbana pra subir montanha. Se houver algum visual, legal, eu encaro. Então fiz de táxi creio que um pouco mais da metade da distância de 13kms que separam o topo da montanha da rodoviária. Comecei a caminhar. Aliás, fiquei surpreso com a honestidade do taxista da cidade mais alta do Brasil e provavelmente uma das mais turísticas, portanto cara, ele usou o taxímetro pra me cobrar a corrida!
Pouco depois andando, meia hora acho, cheguei a um mirante que dá pra ver o Hotel Mont Blanc, o Green Home e o Quatro Estações em uma mesma visão. Lindíssimos…Fotografei, continuei.
Daí mais uma hora e pouco cheguei ao lago a 1.865 metros, já sem ver nenhuma pessoa, sozinho, e era ultrapassado por algum carro a cada sete ou dez minutos, quase ninguém estava subindo. Fiquei surpreso, esperava mais movimentação. Descansei um pouco, fiz um vídeo e segui estrada acima…Daí mais dez minutos cheguei no topo. Habitado. Uma rua sobe a direita onde há uma feirinha que está fechada e com sinais de protesto dos donos das lojinhas.

O que acontece é que tecnicamente, o topo da montanha já está em Pindamonhangaba, mas todos que ali exploram seu sustento são de Campos do Jordão. O Prefeito de Pinda mandou revogar os alvarás de funcionamento por tempo indeterminado. Boa sorte pra essa turma, cheguei a conversar com alguns comerciantes e todos aparentam ser gente simples, boa, de família.
Fotografei o contorno da montanha, que é belo, florido, com formações rochosas bonitas e curiosas. O tempo começou a mudar, desci.

Passarinho no topo da montanha – Autor: Parofes

Chuva lá fora, logo que terminei de montar a barraca já ficou mais fraca – Autor: Parofes

Chegando no espaço bem vasto de camping na beira do lago e da estrada, me abriguei já sob chuva na plataforma de madeira que há pra uso de uma agência de turismo local que oferece tirolesa sobre o lago. Estrutura toda de madeira, cujo corte revela aqueles tradicionais buracos mínimos largos o suficiente para um prego passar, ou uma gota de água.

A chuva não era nada ameaçadora e eu tinha fome, pois já era cerca de 15:30h. Sem almoço, apenas com café da manhã na barriga, decidi soltar a mochila e começar a cozinhar meu macarrão de almoço. Montei o fogareiro no gás, comecei a ferver a água. A chuva tinha amainado um pouco e tão logo coloquei a massa na água fervente a chuva voltou a apertar. Não me incomodei, continuei a cozinhar…
Acontece que esse macarrão que eu compro pra comer na montanha não é como miojo, é massa de verdade, leva um tempo pra cozinhar. A chuva foi apertando, gotas começaram a cair pelos buracos e respingar sobre minhas mochilas e coisas espalhadas pela pequena plataforma que deve ter cerca de 8 metros quadrados. Ainda estava sob controle então continuei.
A chuva voltou a apertar, mais ainda. Agora era oficialmente um pé d’água. Córregos começaram a se formar ao meu redor, as gotas sobre minha cabeça se tornaram umas goteiras rápidas, e água começou a se acumular no chão, me forçando a juntar tudo dentro da mochila grande. A coisa foi ficando feia, e de repente me lembrei daquele relato do Marins onde o carinha se arrasou de verde e amarelo. Pensei “é, meu relato nunca vai ser tão engraçado como o dele”. E toma água…
Continuei mexendo o macarrão, mas a chuva aumentou mais ainda, ao ponto que caía tanta água que a visibilidade se encurtou pra uns dez metros, de tantas gotas caindo, e a água na plataforma era demais pra eu conseguir “chutar” pra fora, precisei colocar a mochila nas costas pra evitar que ficasse ensopada.
De repente começou a ventar. Como se alguém tivesse ligado um super ventilador, e a chuva passou a me atingir na horizontal, então o telhado que já não ajudava muito, passou a inexistir, e o fogo do fogareiro foi apagado com a ventania. Fechei a válvula pra não perder gás e me virei de costas pra chuva pra pensar um pouco. Decidi montar a barraca de urgência. Saquei da mochila a barraca e saí correndo pra mata.
Não pude escolher muito é claro, o primeiro canto disponível longe da vista da estrada (o que me daria pelo menos uma sensação de segurança, evitando assaltos comuns na região) foi o escolhido, mesmo que isso significasse dividir o espaço com papel higiênico usado, latas de cerveja e refrigerante, fezes humanas, fezes de cavalo, latas de tinta, e até uma camisinha usada. Montei em tempo record, 3 minutos acho.

O acampamento emergencial depois que recolhi lixo dos outros – Autor: Parofes

Voltei pra plataforma que estava completamente molhada, peguei tudo que larguei na correria e voltei pra barraca apressado, joguei tudo dentro da barraca. Retornei à plataforma pra pegar a panela, cujo conteúdo agora estava transbordando de tanta água, e o fogareiro com o gás. Peguei também o saco do macarrão que tinha saído voando pro brejo com o vento e voltei em definitivo pra barraca.
Deixei o fogareiro no avancê, tirei minhas botas e entrei na barraca. Ufa, que doideira…Me cansei só com isso. Deitei por uns cinco minutos sobre o isolante pra recuperar o fôlego e deixar o calor do corpo secar a camiseta e o suor. A chuva parou. Ah?!
Quando a adrenalina baixou a fome bateu. Liguei o fogareiro e terminei de cozinhar o almoço, comi, limpei a louça e recolhi o lixo. Recolhi também algum do lixo que me cercava mesmo não sendo meu, e pendurei o saco em uma árvore próxima pra não atrair animais pra minha barraca, já que ali há muitos relatos de onça, gato do mato, ratos, e até mesmo porquinho da índia que soltaram no pico, o que causou reprodução fora de controle.
No momento que terminei de arrumar tudo o céu estava parcialmente limpo. Resolvi andar um pouco. Peguei tudo de mais valor, coloquei na mochila de ataque e subi até o cume onde há a feirinha. Fiquei ali batendo papo com os moradores em um barzinho por cerca de meia hora, escutando causos do interior. Depois o tempo começou a fechar de novo, já era quase seis da tarde então comecei a descer rumo a barraca.

Hora de descer de novo, nuvens pesadas se aproximando. – Autor: Parofes

Assim que entrei escutei alguns trovões, tirei a bota, dei mais uma organizada nas coisas, e sem esperanças de ver estrelas, fiquei deitado olhando pro teto da barraca enquanto começava a chover novamente às 19:00h.

Felizmente tinha um ponto de antena no celular então a Lili conseguiu me ligar várias vezes, e nos falamos sem problemas, raro com o sinal inútil da Tim. Quando deu umas 20:00h dormi de sono. Acordei com o telefone tocando. Lili, nos falamos mais um pouco e eu voltei a dormir, do lado de fora, um raio seguido de trovão a cada 2 segundos, isso sem parar por quatro horas a fio. Parecia que a montanha não me queria ali.
O que podia fazer? Tentar dormir. As vezes era meio complicado com o chão tremendo por causa dos trovões, mas no geral consegui dormir bem até duas da manhã, quando acordei apertado pra aliviar a bexiga. Silêncio ao meu redor, tudo que eu escutava era sapos e pererecas. Abri o avancê da barraca e olhei ao redor, estrelas no céu! Não pensei duas vezes. Preparei as tralhas e saí da barraca pra fotografar.
Infelizmente tinha um pouco de vento então isso não duraria pra sempre. Uma fina camada de nevoeiro passava sobre a montanha, e a Lua não estava no céu, o escuro só era quebrado pelas antenas da montanha, então foi pra lá mesmo que precisei apontar a câmera se quisesse algum foco.

A foto com cinco minutos de exposição, as nuvens já zoaram com a foto. – Autor: Parofes

A foto de cinquenta segundos, não parece um foguete sendo lançado? – Autor: parofes

Lá estava eu, na mesma plataforma, com tripé e tudo, às 02:25h da manhã. Fiz uma foto teste com 50 segundos de exposição, boa. Acertei o isso em 400, fiz uma de cinco minutos de exposição e essa já não ficou muito boa por causa das nuvens entrando. Planejei mais tempo de exposição, dez minutos. Mandei ver. A foto rolou por dez minutos, encerrei a foto e deixei processar. Logo nos primeiros segundos de processamento da foto a bateria acabou e a foto foi devidamente destruída por não ter tempo de terminar o arquivo…
Afe…Olhei no relógio, era 03:00h. Olhei pro céu, em dois minutos a camada de nevoeiro tomou conta de tudo, nada mais de estrelas, desisti e voltei pra barraca pra dormir o resto da madrugada…Eu tinha mais duas baterias extras carregadas na barraca, mas o nevoeiro entrando cortou o clima.
Isso foi tudo que tive, quarenta minutos de chance. Dependendo do tempo de exposição que você queira trabalhar, isso não é suficiente, nem de perto.
Acordei antes do relógio despertar, as sete da manhã. Tomei café da manhã, arrumei tudo sem pressa, peguei de volta o saco de lixo cheio de água, amarrei e joguei no latão na beira do lago, e comecei a andar pela estrada pra chegar ao ponto de encontro com o taxista que me pegaria às 09:00h da manhã. Por sorte, ele veio meia hora antes e eu já estava no ponto de encontro, voltamos rapidamente pra cidade, a tempo de eu conseguir trocar minha passagem de retorno a São Paulo de meio dia pra saída das 09:00h mesmo. Faltando só oito minutos pro ônibus sair.
Comi um croissant maravilhoso, bebi um mate leão, o ônibus atrasou meia hora e deixei a cidade. Rapidinho estava na rodoviária Tietê e logo em casa.
Fotograficamente a viagem não foi nem 10% do esperado, a tempestade detonou com tudo. Mas, pelo menos, conheci mais uma montanha e mais tantas outras que visualizei de lá, incluindo o belo Pico Agudo de Pinda. Um dia volto lá!

Última foto antes de ir embora. – Autor: Parofes

Okay, quanta chuva…Quanto falta pro inverno mesmo? Ah, certo, algo como 190 dias…
Não me rendo!
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Sobre o autor

Parofes (in memorian) - Colunista

Parofes, Paulo Roberto Felipe Schmidt (In Memorian) era nascido no Rio, mas morava em São Paulo desde 2007, Historiador por formação. Praticava montanhismo há 8 anos e sua predileção é por montanhas nacionais e montanhas de altitude pouco visitadas, remotas e de difícil acesso. A maior experiência é em montanhas de 5000 metros a 6000 metros nos andes atacameños, norte do Chile, cuja ascensão é realizada por trekking de altitude. Dentre as conquistas pessoais se destaca a primeira escalada brasileira ao vulcão Aucanquilcha de 6.176 metros e a primeira escalada brasileira em solitário do vulcão ativo San Pedro de 6.145 metros, próximo a vila de Ollague. Também se destaca a escalada do vulcão Licancabur de 5.920 metros e vulcão Sairecabur de 6000 metros. Parofes nos deixou no dia 10 de maio de 2014.

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