As Nascentes
Se você reparar no relevo do Brasil Central, notará que existem duas serras que se faceiam, ambas no seu rumo norte, a pequena Formosa e o grande Roncador. Da primeira desce a oeste o Rio Ferro, do segundo a leste o Coluene e, do sul, aparece o Batovi. Dos três, o mais importante é o segundo, um rio longo e barrento, com muitos afluentes.
O Xingu a rigor não tem nascente própria, pois é formado no Mato Grosso pela junção do Coluene com o Sete de Setembro. Mas esta afirmação talvez seja discutível, pois há pelo menos quatro outros rios que constam também como formadores. Existe uma razão para isto: a densa rede de drenagem local, com os muitos cursos se juntando e formando outros.

O Xingu atravessa no seu rumo norte o MT e o PA. Note a espessa rede de drenagem na sua cabeceira. E veja como a vegetação representada evolui do cerrado ao sul para a floresta ao norte.
É impressionante como o Guaporé (afluente do Madeira) e o Cuiabá (tributário do Paraguai), pertencentes a duas grandes bacias diferentes, nasçam nesse espaço. Os cursos formadores do Tapajós e do Araguaia, as duas bacias amazônicas a oeste e a leste, também percorrem o sul dessa região.
(Só um parêntese: a nação tupi-guarani aproveitou a localização dessas bacias para se espalhar pelo Brasil, a partir de sua provável origem no interior de Rondônia três mil anos atrás. Descendo rumo norte o Rio Madeira, alcançaram o Amazonas e, dali, o litoral norte do país, que vieram percorrendo e ocupando até o sul. Por outro lado, via o Rio Guaporé, chegaram rumo sul ao Pantanal e ao Prata, atingindo a Argentina e o Paraguai, subindo então o nosso litoral. O escritor Reinaldo Lopes conta que essas duas vertentes se encontraram nos arredores da vila histórica de Cananeia.)
Como se houvesse nesse interior um umbigo geográfico, talvez na Chapada dos Parecis, de onde as águas fluiriam para o sul e para o norte – eu digo que é lá onde fica a nascente do Brasil. É logo a leste, nesse rude mundo de arenito e de cerrado, com um calor forte e úmido, que surge o Xingu, um dos mais emblemáticos rios brasileiros.
O Alto Xingu
À medida que o Xingu avança, logo ao norte aparecem dois importantes tributários iniciais, o ameaçado e poluído Tanguro e o escuro e preservado Ronuro. E, depois, o jovem Xingu recebe de cada lado as bacias do Manissauá-Miçu e do Suiá-Miçu, que contam com uma incrível malha de pequenos afluentes. Foi neste lugar fundada uma das maiores fazendas de gado do mundo, quando a ocupação do nosso território avançava pelo Centro-Oeste.
As serras que definem o espaço das nascentes são baixas, não causando o carreamento de sólidos que ocorre nos rios amazônicos de águas brancas. Ou seja, o Xingu é como o Tapajós, com águas limpas e claras. Aliás, esse é o significado de seu nome indígena. Até aqui, ele não é um rio em geral rápido, até mesmo por ser grande.
Mosaico da Terra do Meio
| Esfera | Nome da Unidade de Conservação | Tipo de Uso | Datas | Área (mil ha) |
| Federal | Terra Indígena Kuruaya | área protegida | 2006 | 167 |
| Federal | Terra Indígena Cachoeira Seca | área protegida | 2006 | 734 |
| Federal | Terra Indígena Xipaya | área protegida | 2012 | 179 |
| Estadual | APA Triunfo do Xingu | uso sustentável | 2006 | 1.679 |
| Federal | RESEX Riozinho do Anfrísio | uso sustentável | 2004 | 736 |
| Federal | RESEX do Rio Iriri | uso sustentável | 2006 | 399 |
| Federal | RESEX do Rio Xingu | uso sustentável | 2008 | 303 |
| Estadual | Floresta Estadual do Iriri | uso sustentável | 2006 | 440 |
| Federal | Parque Nacional Serra do Pardo | proteção integral | 2005 | 445 |
| Federal | Estação Ecológica Terra do Meio | proteção integral | 1998-2005 | 3.373 |
| Total | – | – | 1998-2012 | 8.455 |
Notas: (1) As terras indígenas atribuem a posse permanente e o usufruto exclusivo aos indígenas. (2) As UCs de uso sustentável permitem a exploração do ambiente, porém de forma sustentável. (3) As UCs de proteção integral permitem a visitação, mas não a exploração dos seus recursos. (4) O Mosaico da Terra do Meio pertence 80% a Altamira e 20% a São Félix do Xingu no Pará. (5) A Terra do Meio integra-se a várias UCs e TIs desde o MT, alcançando 50 milhões de hectares. (6) Fonte: Plano de Manejo do PN de Serra do Pardo de 2015.
Nesses 150 km iniciais, o Xingu atravessa o Parque Indígena do Xingu, a primeira reserva indígena brasileira, existente há mais de sessenta anos. Agora, fora do Parque, encontra a TI Jarina e conhece a sua primeira ponte, que leva a São José do Xingu. Mas, até agora, o Xingu é puramente indígena, pois nenhuma cidade foi ainda fundada em suas margens. Após 500 km, ele já é um rio de porte, quando termina o seu trecho alto.
O Médio Xingu
A primeira das cidades no Xingu pertence a seu curso médio, já no Pará – é São Felix, aonde chega depois de corredeiras caudalosas no limite do imenso território caiapó, que ele contorna por 100 km. Neste local, incorpora o volumoso Rio Fresco, sobre o qual você voltará a ler. Continua descendo por uma região como sempre pouco habitada, tornando-se cada vez mais largo, com muitas ilhas, bancos de areia e corredeiras. Esse é um Xingu inquieto, diferente do inicial.

O Iriri é um rio raso, rochoso e quente, capaz de abrigar uma rica fauna aquática.
Recebe então seu maior afluente, o encachoeirado Iriri, um cênico rio rochoso, limpo e piscoso que nasce na Serra do Cachimbo e atravessa territórios indígenas, em especial dos caiapós, em todo o seu curso. Entre esses dois rios, existe a Terra do Meio, da qual falarei em seguida.
A foz do Iriri ocorre na Cachoeira do Espelho, que é na realidade uma larga corredeira. Termina aqui o enorme território indígena do Xingu, com quase 30 milhões de hectares e dezenas de diferentes etnias. É aqui também que se encerra o trecho médio, o maior deles, com cerca de 900 km.
O Baixo Xingu
Aparece às margens do Baixo Xingu a grande cidade de Altamira – como se fosse o último bastião de urbanidade antes da profunda e alagada selva amazônica a norte. Sua origem é relativamente tardia, tendo surgido como uma missão jesuítica no século XVIII, quando se chamava Tavaquara. Sua relativa evolução deveu-se à extração das drogas do sertão no século XIX. Foi o comerciante Francisco Gayoso quem depois nomeou o povoado como Altamira.
No século XX a construção da Transamazônica conectou a vila, então isolada, à malha rodoviária. Ela sedia o maior município brasileiro, maior do que todo o Acre. A pecuária, o extrativismo e a pequena agricultura criaram um moderado crescimento, impulsionado pela construção da HE Belo Monte.
Porém Altamira não conseguiu superar até hoje sua infraestrutura precária, sua saúde e educação deficientes e sua violência crônica. Mas pelo menos os empreendimentos de Belo Monte e Belo Sun puderam contribuir com investimentos sociais de que a cidade tanto carece.

As águas revoltas de Volta Grande do Xingu, o mais ameaçado trecho do rio.
É nessa cidade que o Xingu inicia um arco de 100 km chamado de Volta Grande. Foram no entorno dele instaladas as polêmicas Usina de Belo Monte e Mineração Belo Sun. Esse é o trecho mais crítico do Xingu, com suas águas rápidas que correm encachoeiradas em desnível sobre as pedras e seus impressionantes desafios e conflitos socioambientais. Não é atravessável por barco, pois há quedas de considerável altura, em especial os 4 metros da Jericoá.
Mas felizmente o Xingu continua a fluir e, a partir deste arco fluvial, ele se abre apaziguado em um lago imenso, de quase dez km de largura, com meia centena de magníficas ilhas florestadas.
O trecho do Baixo Xingu termina após 500 km, quando o rio mistura-se na foz com o Amazonas, abraçando a enorme ilha de Ururicaia. Aqui o Xingu passa a sofrer os efeitos de maré, devido à oscilação do nível da vazão do Amazonas. O grande rio recebe as águas do seu afluente, mas também avança ciclicamente sobre elas, nesse eterno balanço da natureza.

Este é um trecho do Baixo Xingu, um rio largo com muitas ilhas florestadas.
A Terra do Meio
Vou lhe falar de um enorme mosaico de proteção ambiental ao sul de Altamira, ainda no médio Xingu. Ele resultou do término da pavimentação da BR-163, que liga ao longo de 3.600 km o RS ao PA. Seu projeto foi definido na década de 1970 pelo Programa de Integração Nacional do Governo Militar. Na década seguinte, foi pavimentada até o MT, mas só atingiu Santarém (PA) completamente asfaltada em 2020, ou seja, meio século depois.
É exatamente em Altamira que ela cruza com a BR-230, a famosa Transamazônica. Com 4.300 km, foi também projetada na década de 1970 para unir o Nordeste ao Norte, desde a PB até o AM. O cruel impacto ambiental desta rodovia alertou os ambientalistas sobre o perigo do avanço da BR-163. Durante uma década e meia, foram criadas UCs para tentar defender a natureza do desmatamento, do garimpo e da grilagem.

Mapa do Mosaico.

O território indígena do Xingu vai desde o norte do MT ao sul do PA.
Essa foi a Terra do Meio, assim chamada por ocupar as áreas de terra firme entre dois rios enormes: o Xingu que você já conhece e seu grande tributário Iriri, que termina nas suas águas depois de 1.150 km. Conhecida desde o século XVII, começou a ser frequentada durante o ciclo da borracha e, depois, a exploração de cassiterita. Mas as agressões ambientais se avolumaram a partir de 1990.
É uma região recoberta pela floresta amazônica aberta com palmeiras e cipós, dotada de uma fauna variada, cujos mamíferos (gato maracajá, onça pintada, ariranha) foram implacavelmente caçados pelos gateiros das décadas de 1950-70, assim como foi o mogno nos anos de 1980-90. E então chegaram a partir de 2000 os grandes fazendeiros, avançando pelos ramais antes abertos pelas madeireiras.
E os conflitos sociais continuam até hoje, com o ataque aos indígenas e caboclos, a invasão dos leitos fluviais pelos garimpos, a ocupação das áreas protegidas pela pecuária, o corte clandestino de madeira. É surreal constatar que esta agenda macabra tem continuado impune pelos últimos 40 anos.
Belo Monte Ambiental
Deixe-me voltar a Volta Grande. Ela na realidade funciona como o sangradouro de Belo Monte, cuja geração funciona separadamente ao norte, próximo à Rodovia Transamazônica.
Acredito que seu projeto foi inovador, depois quase de meio século de debates, ao reduzir a área inundada inicialmente gigantesca, depois diminuída para 1.225 km², para apenas 480 km², ao concentrar as seis (depois duas) catastróficas barragens de reservatório antes previstas numa única e ao operar com turbinas a fio d´água, que funcionam sem um grande lago.
Creio que muitas das críticas a Belo Monte são injustas, pois ele é diferente do modelo tradicional brasileiro de hidrelétricas com imensos reservatórios. Nestas, a ampla água armazenada nos lagos permite o funcionamento mais regular da geração elétrica.
Porém causam um grande impacto ambiental devido à área alagada: plantas, animais e comunidades são fortemente afetadas. Veja que o lago de Sobradinho no São Francisco tem 4.200 km² – e todas (sim, todas) as cidades do entorno foram submersas e relocadas.

A usina de Belo Monte e a mineração de ouro de Belo Sun convivem com as reservas indígenas. A volta do rio entre a barragem e a casa de força em Belo Monte apresenta vazão reduzida.
No modelo de Belo Monte, a geração é necessariamente variável, em função da vazão cíclica do rio. Ou seja, não decorre da água armazenada e sim do fluxo do rio. E isso foi feito exatamente para atenuar problemas socioambientais, que seriam terríveis se o lago da usina fosse enorme, como costumava ser nas hidrelétricas antigas.
Porém deve ser lembrado que, numa forte seca, o nível do reservatório deveria ser rebaixado, para aumentar o fluxo d´água, e numa estação chuvosa, a vazão do sangradouro deveria ser fortemente aumentada. Ambas medidas trariam de qualquer forma um impacto ambiental – que Belo Monte amenizaria mas não eliminaria.
Assim, para uma potência instalada de 11.000 MW, a produção projetada foi de apenas 4.500 MW (mas pouco passou na realidade de 3.000 MW). Essa relação é bem menor do que a das usinas convencionais brasileiras – 40% vs. 60% (em Itaipu chega a 80%). O que sugere que o projeto nunca teria sido economicamente viável. Há a suspeita de que só haveria lucro na construção e não na operação da usina.
Belo Monte é a terceira usina a fio d´água construída no Brasil. As demais operam no Rio Madeira, com maior eficiência, embora inferior às hidrelétricas com grandes lagos de acumulação:
| Hidrelétrica | Início da Operação | Potência Instalada | Área Lago | Eficiência |
| S. Antônio | 2012 | 3.570 MW | 420 km | 48% |
| Jirau | 2013 | 3.750 MW | 360 km | 51% |
| Belo Monte | 2016 | 11.230 MW | 480 km | 28% |
Nota: Eficiência medida pela energia gerada no ano mais recente em relação à potência Instalada.
Sintomaticamente, depois de 44 anos, Belo Monte custou muito mais do que o previsto e terminou com seu controle acionário detido pelo Estado e financiado pelo BNDES – o esquema de sempre, que protege os lucros de poucos e distribui os prejuízos a todos. Foram R$ 30 bilhões, que correspondem a inacreditáveis US$ 10 bilhões (ao dólar médio entre o leilão inicial e a instalação da última turbina).
E o resultado parece ter sido lamentável. Belo Monte é refém da vazão irregular do Xingu, que tem variado 25 vezes entre a seca e a cheia (no Madeira, é de 10 vezes). Na estiagem, a usina chega a funcionar a apenas 3% da capacidade – algo que não foi jamais previsto. Essa situação é também resultado em grande escala do desmatamento causado pelo notável avanço da agropecuária no interior do Brasil.
Os modelos matemáticos que simularam essa grande obra não conseguiram entender o funcionamento da natureza e a ação do homem. E a segunda maior hidrelétrica brasileira (e terceira mundial) simplesmente nunca foi capaz de gerar energia suficiente. Foi projetada para suprir 12% do consumo brasileiro e não passou de meros 1%.

Uma das ilhas do Xingu que foi queimada para a construção de Belo Monte.

Essa visão não existe mais, depois da barragem de Belo Monte.
Por outro lado, a limitação na vazão do rio na Volta Grande (necessária para a eficiência da usina) comprometeu o meio ambiente. A natureza é um organismo integrado e a mudança e escassez no fluxo das águas afetou a quantidade e variedade da pesca, a possibilidade de navegação, o nível dos igarapés no entorno e os plantios de várzea, a população de aves e a saúde das árvores. Os pulsos de inundação periódica foram eliminados, empobrecendo toda a vida do ecossistema.
Da usina se diz: Atualmente, alguns moradores locais não a chamam mais de Belo Monte, mas de Belo Monstro.
Belo Monte Social
E houve também um agudo impacto social, no crescimento de Altamira (e outras cidades rio abaixo). Sua população aumentou em incríveis 40% durante os anos de construção da usina, para cair 15% após seu término. Os conhecidos problemas de migrações populacionais, de rupturas nas relações sociais, de realocações de populações afetadas, de drogas, violência e prostituição combinaram-se com os benefícios do emprego, educação, saúde e moradia.
Mas o desenvolvimento regional que resultou nunca foi planejado como deveria. Depois das Usinas de Tucuruí no Tocantins e Balbina no Uatumã, do gigantesco Projeto Carajás em Parauapebas, das recentes Hidrelétricas de Jirau e Santo Antônio no Madeira, das rodovias do Arco de Desmatamento na Amazônia, o Brasil se afirma como o país do futuro tragicamente incapaz de aprender com o passado.
Antônia Melo é uma ativista de Altamira, que fala assim da situação que viveu (resumido): É uma marca destruidora para sempre, que vai ficar no coração, na vida, na mente das pessoas do Xingu, que esse não é o modelo de vida, de progresso para os povos. Nunca somos respeitados e, por melhores que sejam as leis, elas nunca valem nesses momentos desses projetos desenvolvimentistas, destruidores da vida, do futuro das gerações.


A vitalidade diversa e desordenada da natureza é substitída pela regularidade dos projetos de engenharia e de moradia.
Às margens do Xingu em mais um dia quente, diante da imensidão do azul e do verde, eu olho perplexo para essa situação. A gente nunca aprendeu, temos de repetir os mesmos erros? Nunca se consegue acordo, conciliação entre os diversos agentes afetados? Só existe cobiça e nunca inocência no mundo? Que ignorância maliciosa é essa que nos condena à miséria? Por que temos de produzir riqueza eternamente à custa da desarmonia e da destruição?













