Como nasceu o Paraná?

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Esse artigo foi escrito em parceria por Henrique P. Schmidlin  e Geraldo J. Barfknecht.

A responsabilidade foi de três importantes personagens: John Henry Elliot, Joaquim Francisco Lopes e o Barão de Antonina (João da Silva Machado). Vamos aos fatos.

A primeira informação sobre o Elliot veio através de Thomas Plantagenet BIGG-WITHER in “NOVO CAMINHO NO BRASIL MERIDIONAL: A PROVÍNCIA DO PARANÁ – Três anos em suas florestas e campos” (1872-1875). Edição de 1974, com notas biográficas do Newton Carneiro.

Aqui exibiremos ligeira sinopse, apoiada na obra TERRA Á VISTA: A OBRA DO VIAJANTE-ARTISTA JOHN HENRY ELLIOT E A FORMAÇÃO DA PROVINCIA DO PARANÁ NO SEGUNDO REINADO, escrito por José Luiz de Carvalho, em conclusão de doutorado na UFPR em 2018/Curitiba. (Pode ser acessada no acervo da UFPR, bastando digitar na busca, o autor + Elliott).

Bigg-Wither, inglês que veio integrar a expedição Paraná – Mato Grosso, sob a direção dos irmãos André e Antonio Rebouças, para a possibilidade da construção de uma estrada de ferro.

Nessa empreitada, em 1874, em visita a Tibagi, juntamente com o sertanista, político, fazendeiro Telêmaco Borba, alcançando o aldeamento indígena de São Jerônimo, através do seu titular, frei capuchino Luiz de Cemitille, que explicou que ali vivia um compatriota seu, chamado Elliot, já velho, cansado e pobre. Graças a esse contato, aos poucos foi se desvendando a saga desse norte americano, nascido em 1808, na Filadélfia (mãe inglesa), de família tradicional, envolvida na marinha de guerra, onde também ingressou.  Entre 1825 e 1827, a bordo do Cyane, aportou no Rio de Janeiro, entrando no Império do Brasil, que naquele momento vivia com problemas turbulentos pelas disputas no Rio da Prata e a falta de oficiais marinheiros, permitia a contratação de estrangeiros e assim, Elliot entrou na Guerra Cisplatina, pelo Brasil, que sofreu derrota, tendo amargado dois anos nas masmorras de Buenos Aires (Presídio do Rio Salado).

Uma vez retornando ao Rio de Janeiro, na década de 1840, Elliott foi contatado por João da Silva Machado, futuro Barão de Antonina, ex-tropeiro, político, com cargo militar e rico proprietário de grandes áreas de terras, para junto com o sertanista Joaquim Francisco Lopes, vasculhassem as Províncias do Mato Grosso, São Paulo, Santa Catarina e Minas Gerais e que efetivamente fizeram por quarenta anos, percorrendo grandes distâncias e por tribos hostis. Lopes vinha de família de mateiros e exploradores de sertões.

Elliot além de explorador realizou seis grandes expedições e incontáveis incursões ocasionais. Com seu talento para o desenho e mapeamento, e como marinheiro, aprendeu as técnicas topográficas, cartográficas, de navegação, manejo de instrumentos de medição de espaço e tempo, conhecimentos de matemática, geometria e trigonometria, que lhe permitiu produzir os primeiros mapas corográficos /cartográficos do Paraná, onde uma de suas primazias foi o de colocar matas com tons de verde e zonas campestres, de amarelo. Muito da toponímia, por exemplo, Kaingang, desaparecida da geografia, história em “tempos modernos” estão nas maravilhosas obras cartográficas de Elliott.

Pintura feita por John Henry Elliot

A técnica corográfica, arte que utiliza as representações entremeadas de desenhos e pinturas, com realçamento de cores, acrescido de informações e narrativas no próprio mapa, as aquarelas da paisagem, descrição geográfica, etnográfica, paisagística e biológica.

Seus trabalhos incluem planos urbanísticos, de várias localidades, a exemplo de Tibagí, São Jerônimo da Serra, Santa Barbara, Rio Negro e outras.

Elliot produziu sete mapas, cinco plantas e esboços cartográficos e 18 aquarelas. Elaborou a primeira aquarela da Vila de Curitiba, em 1855. Têm duas aquarelas, as primeiras envolvendo tanto os Campos de Guarapuava (1809/18010) como os Campos de Palmas (1839/1840).

Aquarela de Curitiba em 1855.

Em um dos seus relatos, escreveu: “a cerca de 28 milhas ao norte  quando estava na proximidades de Tibagí, cidade nos Campos Gerais de Curitiba, quando viu um pico escarpado atraente, que cremos tenha vista do caminho, divisor de águas entre o rio Iapó e Tibagi e afluentes da margem direita, próximo ao Parque Estadual do Quartelá,   quando viu os Agudos do Tibagi e o icônico Pico Ybiangi, alem do Platô do Apucarana (em tempos atuais, por desconhecimento histórico é chamado de Serra do Cadeado), quando além daqueles, depois de muito esforço, conseguem nesse subir o Morro do Apucarana, grande referência, farol orográfico para a região, galgando-o em 1846, onde os dois deixam gravado na rocha, suas iniciais e ano.  Oportunidade para logo depois, ocupar, os vizinhos (a leste)  Campos do Inho-hô, e os futuros de São Jerônimo e fundar a vila de São Jerônimo, quando avistaram da elevação isolada, as áreas campestres a Leste do morro da mitologia Guarani, o maior Eldorado do Estado do Paraná.  O Morro do Apucarana tem 1285 m de altitude e dentro do Platô, Alto Estrutural do Apucarana, a maior altitude da porção Norte do Paraná, exceto a Serra do Mar, o Morro do Tombú, com 1298.36m, marco geodésico do IBGE. Elliott tem também duas aquarelas que retratam fielmente as formas do Morro do Apucarana, visto da sua porção sul/sudeste, nesse que é um dos maiores referencias orográficos da região sul do Brasil, desde o histórico caminho do Peabiru e também depois, das incursões bandeirantes ao Guairá, no século XVII.

A Pedra de Elliot e Lopes no Morro do Apucarana (1285 m de altitude) após vandalismo recente

Infelizmente, apesar das referências ligeiras sobre Elliot, feitas por Rocha Pombo, Cassiana Lacerda, Júlio Moreira, Ermelino de Leão, Visconde de Taunay e Adalice Araujo, não chegaram a  se sensibilizarem  da relevância histórica paranaense da dupla Joaquim Francisco Lopes e principalmente de John Henry Elliott, mesmo na manifestação de David Carneiro sobre ele: “ cabe o mérito da singularidade da figura de John Elliot, até então desconhecido na Historia, Geografia e na historiografia regional”.

É nítida sua clara percepção da humanidade dos índios e suas diversidades, sendo inclusive autor da primeira novela indigenista do Paraná e das pioneiras do Brasil quando após uma visita logo após a ocupação dos Campos de Palmas, escreve a sua novela, que é a única da cultura Kaingang,  mais um tesouro.

Elliot com suas explorações contribuiu decisivamente na institucionalização da Província do Paraná.

Em Busca do Elliot, em 2020 em plena pandemia de Covid-19.

Juntamente com o geólogo, climatologista, botânico, ambientalista, historiador, fotógrafo e montanhista Geraldo Barfknecht, tínhamos associado antes as nossas incursões montanheiras no município de Sapopema, região da borda dos Campos Gerais, porção centro-oriental do Paraná, para importante resgate histórico-geográfico, onde conseguimos, sobre  seu  expressivo pico local, retornar ao seu nome original: YBIANGI, a primeira montanha  brasileira a aparecer na cartografia, de vasta região, no mapa com cerca de 4 milhões de Km quadrados, feita pelo  jesuíta da América espanhola, argentino, que estava na base da cartografia do Plata, em Assunção, Paraguai, Luis Ernot, mapa concluído em 1632,  que apareceu na Europa em 1647 e desde então copiado sucessivamente.

Prosseguindo nessa diretriz histórico-aventureira, resolvemos procurar no topo do pico do Apucarana (lamentavelmente hoje denominado Morro das Pedras Brancas -que são avermelhadas- ou das Antenas, na Serra do Cadeado – o Terceiro Planalto Paranaense,  nomes que esqueceram, desconheciam da toponímia original, Serra do Apucarana, devido ao morro mitológico, visitado pela estada do grande bandeirante Fernão Dias Paes Leme, entre 1661 e 1664) a pedra onde Elliot assinalou sua conquista, visita em 1846. Com apoio da advogada e guia de turismo Mariana Aparecida de Oliveira, conseguimos localizá-la e dada à fragilidade, danos encontrados, tivemos urgência em sua devida proteção.

O montanhista Vitamina visitando a rocha histórica.

É uma rocha de quartzito (arenitos da Formação Botucatu, metamorfisados, parte silicificados, fundidos parcialmente pela cobertura, proximidade das lavas da Província Magmática do Paraná, Grupo Serra Geral, vulcânicas há muito erodidas, removidas),   com mais ou menos as seguintes dimensões:  2,50 m comprimento, 1,0 m. de largura e o mesmo em  altura. Recorremos ao renomado arquiteto e também montanhista Júlio Fiori, que com sua equipe elaborou preciosa sugestão de proteção e que pretendemos executar. Exibimos para a senhora Lourdes Banach, diligente prefeita de Ortigueira, onde se encontra o pico e que generosamente nos recebeu e encantou-se com o projeto,  que pretendemos construir o monumento histórico – geológico no alto do Morro do Apucarana,  junto com o município de Ortigueira. Acesso fácil, próximo ao Km 313 da BR-376, Rodovia do Café, dotada de estrada com cerca de 2 km de extensão até o topo, construída para a instalação e manutenção e aportes técnicos das antenas, ali colocadas, pertencentes a Cia. De Telecomunicações OI, que acreditamos não irá obstaculizar , relevante e inédito aporte histórico.

Barão de Antonina (João da Silva Machado –1782-1875)

Estávamos em pleno período imperial e com os graves acontecimentos na Europa, que resultou na fuga planejada do Imperador de Portugal D. João VI e sua esposa Carlota Joaquina de Bourbon (infanta espanhola) em 27 de novembro de 1807, rumo Brasil onde assume a governança mantendo o Império. Exerceu excelente gestão, de imediato abriu os Portos as nações, remodelou o Rio de Janeiro, incentivou a instalação de indústrias, aparelhou as forças armadas, criou as Academias da Marinha e do Exército, criou o Jardim Botânico, o Observatório Astronômico, a Fábrica de Pólvora, o Museu de Mineralogia, o Teatro, a Biblioteca e a significativa Tipografia Real. Em 1821 decide incorporar ao Império, a banda oriental do Uruguai, batizando-a de Província Cisplatina. Em 07 de setembro de 1822, declara a Independência do Brasil, adotando o regime monarquista, com seu reinado que durou nove anos, quando em 07 de abril de 1831, abdicou em favor de seu filho, futuro D. Pedro II, que tinha 05 anos, e por isso impedido legalmente de exercer seu reinado que foi feita através de uma Regência Trina Provisória. Don João retorna para Portugal.

No Brasil, foi período de muitos levantes , apaziguados pela competente atuação do então Major Caxias, futuro Barão e com a Guerra do Paraguai, alçado a Duque.

Em 1827, Argentina e Uruguai entram em guerra contra o Brasil, para a recuperação do território Cisplatino que D. João VI havia conquistado. A batalha decisiva naval no Rio da Prata, do lado brasileiro sob o comando de Jacinto Roque de Senna Pereira, e dos nossos oponentes com nada mais que o inglês Brown, e decidida desfavoravelmente para nós, na batalha de Juncal, oportunidade que nosso Elliot foi preso e levado para as masmorras de Buenos Ayres, onde penou por 2 longos anos, como explicado antes.

Em 20 de setembro de 1835, os liberais do Rio Grande do Sul, levantam em armas contra o Império, em face de acintosa discriminatória política fiscal contra a Província e favorecimento ostensivo sobre os produtos concorrentes do Uruguai e Argentina (charque e sebo).Peleja durou 10 anos. Em 1842 irrompe movimento similar em Sorocaba (São Paulo) liderados pelo Brigadeiro Rafael Tobias e o padre Diogo Antônio Feijó, sobre o inconformismo da lei reconhecendo a maioridade do Imperador, então com 14 anos.

O governador de São Paulo, de imediato convocou ao Ten. Cel. da Guarda Nacional João da Silva Machado, residente em São Paulo, que juntamente com Caxias, conseguiram manter a neutralidade do Paraná, evitando perigosa junção com os estados sulinos naquele momento. Uma vez eliminada essa conjura, e a promessa de atender a reivindicação do futuro barão, da emancipação do Paraná, quando a promessa realmente foi cumprida pela emancipação do Paraná, tornando-se Província, que aconteceu em 29 de agosto de 1853 pela Lei 704, endossado pelo Barão de Macaé. São Paulo maliciosamente a sorrelfa, no dia 17 julho 1852, jogou o Paraná para a 10ª Comarca, para reduzir suas divisas originais e reduzindo sobremaneira nossa linha de marés, para menos de cerca de 100 km.

João da Silva Machado nasceu em Taquari, Rio Grande do Sul, exerceu várias profissões, começando como alfaiate, mas foi através do instituto do tropeirismo, que amealhou imensa fortuna e destacada posição social, tendo o privilégio de integrar a roda Palaciana. Foi senador do Paraná em São Paulo, onde residiu e está enterrado.

Não satisfeito e desejando explorar o imenso vazio paranaense, contratou os serviços do sertanista Joaquim Francisco Lopes e o agrimensor, topógrafo, cartógrafo, artista-viajante segundo o geógrafo e historiador José Luiz de Carvalho, em sua brilhante tese de doutorado em que resgatou a envergadura, trabalho extraordinário de John Henry Elliot, sua riqueza, técnica, humana, exploratória, cartografia pioneira e principalmente na formação territorial do Paraná.  Com os resultados altamente promissores, o Barão de Antonina, favorecido pelas leis imperiais, permitiu-lhe registrar todas as terras devolutas que encontrou, documentados, localizados, marcados no magnífico apoio dos mapas confeccionados pelo Elliot.

Sua competência e capacidade, permitiu –lhe ser agraciado com várias Comendas e Títulos, a exemplo do Grande Império; Cavaleiro Fidalgo da Casa Imperial, Grande Dignitário da Imperial Ordem do Rosa, Oficial do Cruzeiro e Cavaleiro de Cristo.

Responsável pela instalação da Colônia Alemã de Rio Negro e a Militar de Jataízinho.

CONCLUSÃO: a união desses três personagens implicaram profundamente no dealbar da Província do Paraná, que durou de 1853 a 1889, quando passou a estado.

Projeto de restauração da Pedra Elliot

O projeto foi desenvolvido por FIORI ARQUITETOS, Júlio e Isabela Fiori para a proteção, conservação, estrutura para o turismo para a Pedra de Elliott e Lopes no Morro do Apucarana, monumento histórico-geológico, após a gravura na rocha deles em 1846.

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Sobre o autor

Vitamina - Colunista

VITAMINA – Henrique Paulo Schmidlin Como outros jovens da geração alemã de Curitiba dos anos de 1940, Henrique Paulo foi conhecer o Marumbi, escalou, e voltou uma, duas, muitas vezes. Tornou-se um dos mais completos escaladores das montanhas paranaenses. Alinhou-se entre os melhores escaladores de rocha de sua época e participou da abertura de vias que se tornaram clássicas, como a Passagem Oeste do Abrolhos e a Fenda Y, a primeira grande parede da face norte da Esfinge, cuja dificuldade técnica é respeitada ainda hoje, mesmo com emprego de modernos equipamentos. É dono de imenso currículo de primeiras chegadas em montanhas de nossas serras. De espírito inventivo, desenvolveu ferramentas, mochilas, sacos de dormir. Confeccionou suas próprias roupas para varar mata fechada, em lona grossa e forte, cheia de bolsos estratégicos para bússola, cadernetas, etc. Criou e incentivou várias modalidades esportivas serranas, destacando-se as provas Corrida Marumbi Morretes, Marumbi Orienteering, Corridas de Caiaques e Botes no Nhundiaquara, entre outras. Pratica vôo livre, paraglider. É uma fonte de referências. Aventureiro inveterado, viaja sempre com um caderninho na mão, onde anota e faz croquis detalhados. Documenta suas viagens e depois as encaderna meticulosamente. Dentro da tradição marumbinista foi batizado por Vitamina, por estar sempre roendo cenoura e outros energéticos naturais. É dono de grande resistência física e grande companheiro de aventuras serranas. Henrique Paulo Schmidlin nasceu em 7 de outubro de 1930, é advogado e por mais de uma década foi Curador do Patrimônio Natural do Paraná. Pela soma de sua biografia e personalidade, fundiu-se ao cargo, tornando-se ele próprio patrimônio do Estado, que lhe concedeu o título de Cidadão Benemérito do Paraná.

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