Não é de hoje que o derretimento de geleiras revela capítulos esquecidos — e muitas vezes trágicos — da história do montanhismo. Em diferentes cadeias montanhosas do mundo, o recuo do gelo já expôs equipamentos antigos, vestígios de expedições históricas e até corpos de montanhistas desaparecidos há décadas. Desta vez, os restos mortais encontrados surgiram nas proximidades da Cascata do Khumbu, no Monte Everest.
Enquanto centenas de alpinistas aguardam um Serac gigante desabar e desobstruir as rotas para o início das primeiras rotações de aclimatação rumo aos campos mais altos da montanha, um grupo de pessoas encontrou restos mortais humanos a 5.300 metros de altitude. “Quando cheguei lá, descobri que restos mortais humanos tinham acabado de ser encontrados”, disse o guia Abiral Rai ao Everest Chronicle.
Logo após a descoberta, Rai se uniu a Sonam Tshering Lama, que também atua na montanha, e ambos iniciaram buscas na área para verificar se havia mais vestígios humanos. “Há dentes e fragmentos de ossos espalhados por toda parte aqui”, disse Sonam em um vídeo gravado por Rai. “São restos humanos — apenas o torso está visível acima da superfície.”
Os dois comunicaram as autoridades locais. Com o Acampamento Base já movimentado por expedições internacionais, diversos montanhistas foram até o local na tentativa de reconhecer o corpo. Até o momento, porém, a identidade da vítima permanece desconhecida.
Avalanche de 2014
De acordo com o Everest Chronicle, há indícios de que os restos mortais possam pertencer a um dos três guias desaparecidos em 2014, quando o colapso de um grande serac provocou uma avalanche na Cascata de Khumbu e matou 16 sherpas — um dos acidentes mais trágicos da história do Everest.
Segundo a Himalayan Database, principal base de dados sobre expedições no Himalaia, ao menos 339 pessoas morreram no Everest desde 1921. Outros levantamentos mais recentes apontam números entre 344 e 347 mortes, dependendo da metodologia utilizada. Estima-se ainda que cerca de 200 corpos permaneçam na montanha, muitos deles desaparecidos após avalanches, quedas ou soterramentos.
A recuperação de corpos no Everest exige equipes altamente especializadas, operações caras e envolve riscos significativos. Por isso, muitos permanecem na montanha por anos ou até décadas. Um dos casos mais conhecidos é o de “Green Boots”, corpo que ficou exposto por quase duas décadas próximo a uma caverna a cerca de 8.500 metros e se tornou uma referência macabra para escaladores que passavam pela região.
Até hoje, não há confirmação oficial sobre a identidade do “Green Boots”, embora muitos acreditem que o corpo pertença ao alpinista indiano Tsewang Paljor, desaparecido em 1996. Também nunca foi esclarecido oficialmente o que aconteceu com seus restos mortais. Em 2014, montanhistas relataram que o corpo já não estava mais no local onde permaneceu por anos. A principal hipótese é de que ele tenha sido removido por autoridades chinesas ou deslocado durante operações de limpeza realizadas na montanha.
Mudanças climáticas aceleram transformação no Everest
Além da descoberta dos restos mortais, montanhistas também vêm relatando mudanças visíveis na geleira do Everest. Nesta temporada, por exemplo, surgiu um curso de água na Cascata de Khumbu em um trecho onde anteriormente havia apenas gelo sólido.
“Um riacho com água até os joelhos agora corre ao longo de partes da Cascata de Gelo de Khumbu e acima dela. Não há mais necessidade de quebrar o gelo — a água está facilmente disponível, mesmo no Acampamento I”, disse Dorjee Gyaljen Sherpa.
Segundo ele, as transformações têm se tornado cada vez mais perceptíveis para quem frequenta a montanha regularmente.
“O derretimento do gelo no Everest começa rapidamente por volta da segunda semana de maio. Acelerou devido ao aumento da temperatura. Você definitivamente percebe a mudança se estiver na montanha”, disse Dorjee.










