A dobra que já era montanha: origami e a arte de aprender com o corpo

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Foto por: Maria Clara Lins

Outro dia, revisando cadernos antigos de quando comecei a estudar origami a sério, encontrei uma anotação que eu tinha esquecido por completo. Toda dobra que existe, em qualquer modelo, em qualquer nível de complexidade, se resume a apenas dois movimentos: o yama-ori (山折り), a dobra de montanha, onde o papel sobe e forma um pico, e o tani-ori (谷折り), a dobra de vale, onde o papel afunda. Um grou, uma flor, um dragão inteiro de origami modular: por baixo de qualquer complexidade, só existem montanhas e vales se repetindo.

Na época em que anotei isso, a informação não significou muito pra mim. Eu ainda não tinha nenhuma relação com montanha de verdade, então “dobra de montanha” era só um nome técnico entre tantos outros que eu precisava decorar. Reencontrei essa anotação anos depois, já montanhista, e dessa vez ela me parou de um jeito diferente. Porque eu já vivia entre montanha e vale sem perceber, com o papel entre os dedos, muito antes de eu subir a primeira montanha de verdade.

Foto por: Maria Clara Lins

Papel, muito antes da montanha

Minha relação com origami vem de longe, muito antes de eu pensar em escalar qualquer coisa. Minha mãe é educadora infantil, e foi ela quem colocou papel nas minhas mãos ainda criança, os primeiros origamis simples que toda criança japonesa ou influenciada por essa cultura aprende na escola. Mas o encontro que realmente me mudou aconteceu mais tarde, já com dezenove, vinte anos, quando conheci uma vizinha japonesa e a avó dela, que dobrava origami com uma naturalidade que eu nunca tinha visto antes. Vendo aquela senhora dobrar, entendi que estava diante de outra coisa, não um passatempo, mas uma cultura inteira condensada num gesto repetido a vida toda.

A partir dali, mergulhei. Livros, vídeos, dobras repetidas até a memória do corpo aprender sozinha. Fui atrás de entender uma arte que exige uma precisão quase impiedosa: um vinco errado no lugar errado, e o modelo inteiro sai torto. Não tem como disfarçar erro em origami. Ou a dobra está certa, ou o papel denuncia.

Anos depois, transformei isso numa expressão própria: juntei origami com ilustração num projeto que chamei de Castelos de Papel. Assinava só assim, sem o meu nome, e por um bom tempo as pessoas achavam que era um coletivo de artistas, não uma pessoa só trabalhando sozinha num quarto. Fiz painéis, expus em galerias de arte em Curitiba, participei de festivais de música eletrônica com obras interativas, e dei aula de origami para crianças e adultos, sempre tentando passar adiante aquilo que a avó da minha vizinha me passou sem intenção nenhuma de ensinar, só dobrando na minha frente.

Foto por: Maria Clara Lins

O que a repetição ensina

Existe uma coisa que só quem pratica origami de verdade entende: a primeira vez que você tenta um modelo novo, as mãos tremem, o vinco sai torto, o tempo que você leva é absurdo perto do que deveria ser. Depois da centésima vez, o corpo já sabe antes da cabeça. A dobra fica limpa, rápida, quase automática, mas só porque antes ela foi lenta, cheia de erro, cheia de recomeço.

Acredito que seja exatamente isso que também acontece na montanha, e foi minha própria experiência que me fez enxergar esse paralelo. As primeiras vezes que fui à trilha, meu corpo não sabia nada. Caminhava errado, gastava energia em lugar errado, não sabia ler o terreno, não sabia onde pisar numa pedra solta ou como distribuir o peso numa subida técnica. Com o tempo, e só com o tempo, o corpo aprendeu sozinho o que a cabeça não conseguia ensinar de uma vez. Hoje leio um trecho de trilha quase sem pensar, do mesmo jeito que meus dedos hoje dobram um vinco sem precisar de instrução. Na escalada, esse processo fica ainda mais evidente. Quando estou tentando mandar uma via, vou buscando costura por costura, isolando cada movimento, decorando cada sequência como numa coreografia na parede, até que o corpo memorize o caminho inteiro e eu consiga, finalmente, mandar a via com maestria, sem pensar em cada movimento isoladamente.

Origami, montanhismo e escalada pedem a mesma coisa de quem pratica: concentração plena e repetição paciente. Nenhum perdoa a pressa. Um vinco malfeito estraga o modelo inteiro, e um passo mal calculado numa descida técnica, ou errar a posição dos dedos num réglete, pode custar caro. Todos exigem que a gente esteja inteiramente presente no que as mãos, ou os pés, estão fazendo naquele instante exato.

Oficina de origami – Festival Terra azul 2020. Foto por: Maria Clara Lins

Montanha e vale, sempre os dois

Gosto de pensar que o próprio nome das dobras já carregava essa lição antes de eu perceber. Yama-ori e tani-ori não existem um sem o outro: todo origami complexo precisa alternar entre os dois, subir e descer, repetidas vezes, até a forma final aparecer. Não é possível dobrar só montanhas. Também não seria possível caminhar só em subida.

Não acho que seja coincidência que um país inteiro tenha construído até o vocabulário de uma arte manual em torno da palavra montanha. O Japão carrega uma relação com montanha que atravessa séculos antes do origami existir como conhecemos hoje, com tradições como o Shugendō e a figura dos Yamabushis, que o Pedro Hauck detalhou recentemente aqui no portal, num artigo que recomendo bastante pra quem quiser entender essa raiz mais funda. A montanha, no Japão, nunca foi só paisagem. Era espaço sagrado, caminho de disciplina, lugar de transformação. Faz sentido que essa reverência tenha se infiltrado até nas mãos de quem dobra papel, décadas depois, do outro lado do mundo.

Acredito que essa seja a beleza real dessa conexão: uma arte nascida num país cheio de montanhas carrega, no vocabulário mais básico das suas dobras, a mesma alternância que a gente vive escalando. Subida, descida, subida de novo. Papel, trilha ou parede , o corpo aprende do mesmo jeito: devagar, errando, até que um dia a montanha, e a dobra, deixam de ser um desafio e viram parte de quem a gente é.

Projeto 2020 – 600 peças em 15 dias

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Sobre o autor

Emilin Lima é gestora de marketing na AltaMontanha e apaixonada por transformar em arte tudo que vive nas trilhas. Escaladora e montanhista, tem na Serra do Mar paranaense seu principal terreno de treino e contemplação. Antes de subir montanhas, subiu outros caminhos criativos: foi tatuadora, é ilustradora e origamista, e por muitos anos viveu da arte como profissão. Hoje mantém um estudo constante sobre história da arte e pinta, sobretudo, as montanhas que visita: cada cume que alcança vira, mais tarde, um traço no papel. Nesta coluna, junta as duas paixões que mais a movem: o ato de escalar e o ato de observar.

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