Gisely Souza completa a escalada das 7 agulhas do Fitz Roy e destaca a necessidade de treino e dedicação

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A escaladora Gisely Souza entrou para a história do montanhismo ao se tornar a primeira brasileira a completar a escalada das sete agulhas que compõem o maciço do Fitz Roy, considerado um dos conjuntos de montanhas mais difíceis do mundo. O feito é resultado de quatro anos de preparação intensa, envolvendo treinamento técnico, evolução física e mental, além de muita determinação para enfrentar as condições extremas da Patagônia.

Gisely em frente as agulhas do Fitz Roy. Foto: Elida Zuchini.

Com mais de 30 anos de experiência no esporte, Gisely Souza começou a escalar no Morro do Anhangava, um conhecido campo escola na região de Curitiba, no Paraná. Ela também chegou a participar de algumas competições no início dos anos 2000 e dedicou parte da sua trajetória para a escalada esportiva, onde chegou a encadenar vias de nono grau na Serra do Cipó, em Minas Gerais, e na Barrinha, no Rio de Janeiro, antes de descobrir sua verdadeira paixão pelas grandes escaladas em parede.

Desde então, Gisely não parou mais. Ela acumula escaladas icônicas tanto em Yosemite, nos Estados Unidos, como no Brasil e principalmente na Patagônia. “No Cochamó Valley, no Chile, escalei o El Monstro em 17 horas. E, claro, minhas experiências na Patagônia, especialmente no Fitz Roy, estão entre as escaladas das quais mais me orgulho”, contou.

Atualmente, Gisely mora nos Estados Unidos e passa grande parte do tempo no deserto de Utah, onde é especialista em escalada em fenda e offwidth e criou sua própria Crack Climbing Clinic para ensinar outros escaladores sobre as técnicas de escalada.  “Esse estilo se tornou uma das minhas maiores paixões”, resumiu.

A escalada em fenda virou sua especialidade e paixão. Foto: Gisely Souza.

As sete montanhas do Fitz Roy

Escalar as montanhas do Fitz Roy era um sonho antigo que ela nutria com seu parceiro, que faleceu em um acidente de escalada no Canadá. Com a perda, a escaladora decidiu seguir com o objetivo dos dois como uma forma de homenagem. “Quando fui para a Patagônia, estava com o propósito de escalar e levar as cinzas dele para o cume, como uma forma de honrar ele e esse sonho”, revelou.

Mesmo com uma vasta experiência em escalada tradicional e até mesmo big wall, ao chegar pela primeira vez em El Chaltén, Gisely percebeu que precisava se aprimorar ainda mais para enfrentar os desafios da região. Gradualmente, adquiriu conhecimento e experiência até completar a escalada das sete agulhas que formam o maciço. “Foi um processo de quatro anos de desenvolvimento físico e mental, com foco na escalada em paredes longas, além da escalada em gelo e mista, ganhando experiência em diferentes lugares até me sentir pronta para El Chaltén”, contou. “As montanhas da Patagônia exigem muito mais do que apenas escalar: é preciso dominar navegação, clima, estratégia, escalada em gelo e mista, além de técnicas de resgate”, completou.

A brasileira escalando nas agulhas do Fitz Roy. Foto: Marcelo Machado.

Gisely contou ainda que, após sua primeira experiência no Fitz Roy, se apaixonou pelo lugar. “A vivência naquelas montanhas, apesar de muitas vezes perigosa, também é incrivelmente linda. Estar ali, escalando, caminhando e vivendo aquelas montanhas. Foi uma experiência muito forte, que me motiva a evoluir cada vez mais para voltar e escalar lá com mais autonomia”, resumiu. Segundo ela, com o tempo foi inevitável pensar: “E se eu escalasse todas essas montanhas?”

E assim fez, começando pela principal agulha que dá nome ao maciço, o Fitz Roy que escalou pela via Afanassieff em 5 dias. Sua segunda agulha foi a Saint-Exupéry pela via Chiaro di Luna que levou 25 horas. A agulha Guillaumet foi a terceira onde ela alcançou o cume pela via Comesana-Fonrouge três vezes. Ela escalou a Agulha Rafael Juárez em 23 horas, a Agulha de La S em uma cordada 100% feminina, a Agulha Poincenot pela via Whillans–Cochrane (Whillans Ramp)e a Agulha Mermoz onde concluiu a travessia Motocross.

A escaladora comemorando mais um cume do maciço. Foto: Gisely Souza

Os desafios de escalar na Patagônia

Mas escalar na Patagônia nunca foi fácil. Além de se aprimorar como escaladora, Gisely também destaca que as parcerias são fundamentais. Em sua primeira experiência, ela foi sozinha e encontrou outros escaladores por lá. Depois, contou com a parceria de um amigo dos EUA, Dave Katzenmeyer. E, por fim, dividiu a corda com Thiago Campacci. “Ele abraçou o meu projeto e me ajudou a focar no que eu precisava evoluir, principalmente na escalada em gelo e na leitura das janelas certas para buscar meus objetivos”, destacou. “Ter um parceiro que conhece sua escalada cria confiança e ajuda na tomada de decisões nos momentos mais críticos da montanha. Treinar juntos também permite evoluir com mais consistência. Eu gosto de escalar com autonomia e parceiros que focam em ter conhecimento na montanha. Pra mim é fundamental”, detalhou.

Gisely e Campacci. Foto: Gisely Souza.

Ela destacou ainda que Campacci tem uma boa habilidade com a leitura do tempo, o que é essencial em regiões como El Chaltén. “Na Patagônia, não se trata apenas de escolher uma via, mas de entender o que aconteceu na montanha antes e durante a janela. Com essas informações, é possível definir o que é viável escalar, e não o contrário”, contou.

Ao longo do projeto, Gisely enfrentou condições intensas e imprevisíveis. Um dos momentos mais críticos aconteceu durante um rapel no Fitz Roy. “Quando vimos estávamos no meio da nuvem, com vento forte e neve batendo no rosto, doía, e eu sentia muito frio. Tivemos que reescalar parte da montanha para reencontrar a linha de rapel. Ali, pensei que não queria morrer naquela montanha. Conseguimos nos reorganizar e começamos a descida, quando saímos de dentro da nuvem o tempo estava mais estabilizado e conseguimos descer rapelando, passamos por alguns acidentes e infelizmente um alpinista morreu nessa descida. Naquela experiência deixou claro que descer é, muitas vezes, mais complexo do que subir, e exige ainda mais preparo”, narrou.

Gisely conta com o patrocínio de marcas como a La Sportiva, uma marca reconhecida pela qualidade de seus produtos. Foto: Gisely Souza.

Outro episódio marcante ocorreu na escalada da Aguja Poincenot, quando seu parceiro sofreu uma queda e quebrou o pé. “Fizemos um resgate de cerca de 21 horas, em ambiente remoto. Foi uma situação que exigiu muito controle emocional e conhecimento técnico, desde primeiros socorros até montagem de rapéis e comunicação para resgate”, detalhou Gisely.

A escaladora revelou que sempre se posicionou dentro das cordadas e que sentiu mais pressão por ser brasileira do que por ser mulher. “Sempre deixei claro que queria escalar de forma igual, assumindo minhas responsabilidades e dominando a minha parte na escalada. O que eu percebia, às vezes, era que precisava me posicionar mais, falar duas ou três vezes para ser escutada. Mas nada que tenha sido um grande obstáculo”, contou.

“Curiosamente, senti mais pressão por ser brasileira em um ambiente de montanha com neve, que foge do nosso contexto mais comum. Independentemente de gênero, existe esse olhar, e isso acaba sendo um desafio maior do que o fato de ser mulher”, revelou.

Nem só de perrengue vive uma escaladora

Ao concluir sua última montanha, Gisely descreveu o sentimento de conquista. “No momento que estava escalando a última montanha senti que todo o esforço tinha valido a pena. O nível que construí ao longo dos anos me levou até esse momento, era para eu estar ali vivendo aquilo. Não tive dúvidas. A escalada na Agulha Mermoz pela travessia Motocross fluiu com maestria. Foi incrível”, disse.

Além dos desafios, a escaladora também teve grandes conquistas pessoais. Foto: Gisely Souza.

Ela afirma que se inspirou em outras escaladoras, como Roberta Nunes e Blanca Franco, e espera que sua história também inspire outras pessoas. “A mensagem que fica é que vale a pena correr atrás dos sonhos. Mesmo que, no começo, você não saiba exatamente onde pode chegar, com dedicação, treino e consistência, é possível. Eu nunca imaginei que me tornaria uma alpinista, e hoje sou uma brasileira alpinista que conquistou esses cumes, e ainda tenho muitos outros pela frente. Sim, podemos! Essa é a mensagem que fica”, contou.

Ainda assim, Gisely ressalta a importância da dedicação e do preparo, especialmente para as mulheres. “Treine, estude e busque autonomia. Ser autossuficiente na montanha abre muitas portas e te leva mais longe. E, principalmente, acredite em você. Às vezes, o processo pode ser mais lento, mas quando a gente confia no nosso potencial, a gente descobre uma força enorme — e é isso que faz acontecer”, concluiu.

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Sobre o autor

Maruza Silvério é jornalista formada na PUCPR de Curitiba. Apaixonada pela natureza, principalmente pela fauna e pelas montanhas. Montanhista e escaladora desde 2013, fez do morro do Anhangava seu principal local de constantes treinos e contato intenso com a natureza. Acumula experiências como o curso básico de escalada e curso de auto resgate e técnicas verticais, além de estar em constante aperfeiçoamento. Gosta principalmente de escaladas tradicionais e grandes paredes. Mantém o montanhismo e a escalada como processo terapêutico para a vida e sonha em continuar escalando pelo Brasil e mundo a fora até ficar velhinha.

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