Maria Teresa Martinez Curial, uma marumbinista pioneira

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Quem vê a dona Teresa no alto dos seus 81 anos pegando ônibus para ir ao centro da cidade fazer suas coisas sozinha pode se admirar com tamanha vitalidade e coragem. Mas quem encontra essa senhora na rua não imagina o quanto de coragem cabe dentro dela. Nos anos 1950, ela foi uma das pioneiras do montanhismo no Paraná, com diversas escaladas no Marumbi. Até hoje um conjunto de montanhas muito respeitado e até temido entre os montanhistas brasileiros.

Dona Teresa com seu diário de montanha.

Dona Teresa, ou a espanhola como os desconhecidos se referiam nas conversas sobre os seus feitos, era montanhista e escaladora. A jovem de 14 anos recém-chegada da Espanha não só escalava as íngremes paredes rochosas do Conjunto Marumbi, como também guiava outras pessoas que tivessem interesse em conhecer as belas paisagens da montanha.

Em 5 de maio de 1953, Teresa desembarcou em Santos, vindo junto com sua família da Espanha. Ao chegar no Brasil, com apenas 13 anos, foi trabalhar em uma loja de roupas infantis como fazendo pacotes. Mal falava português, mas fez amizade com as outras funcionárias e com o técnico que fazia a manutenção da máquina de escrever da loja, chamado Quinhentão, que também era membro do Círculo de Marumbinista de Curitiba. Nas horas vagas, ela costumava ir com as colegas de trabalho nas reuniões do Círculo nas quintas-feiras e ao ver fotos das aventuras e ouvir as tantas histórias, começou a se interessar pelo montanhismo.

A primeira escalada

No dia 18 de outubro de 1953, a jovem Teresa embarcou em sua primeira aventura. Começou com um passeio de trem pela Serra do Mar paranaense. Após desembarcar na estação Marumbi, ela e o grupo do CMC seguiram até Prainhas, um local de banho no Rio Nhundiaquara, em Morretes. Foi amor a primeira vista. “Quando chegamos lá e vi tudo aquilo, fiquei louca. Nunca tinha visto nada igual assim na vida. Eu corria lá, para frente e para traz naquela picada de prainhas de tão feliz que fiquei”, contou Teresa enquanto se recordava de sua juventude.

Na sequencia ela fez uma excursão para o Salto do Inferno pelo CMC, este é um local até hoje pouco conhecido incrustado no meio da Serra do Mar Paranaense e com difícil acesso. E em fevereiro de 1954, aos 14 anos realizou sua primeira escalada na Via dos Bandeirantes, no Marumbi. Essa também foi a sua estreia na montanha.

Maria Teresa em sua primeira escalada na via Bandeirantes no Abrolhos aos 13 anos.

Ao ser questionada sobre a sensação de estar na montanha, Teresa revela que teve um pouco de dificuldade, mas a vontade de estar lá novamente era maior. “Cansei claro, porque nunca tinha subido uma montanha, nem escalado e nunca fazia exercício nenhum. Mas fiquei maluca com aquilo. Então todo final de semana eu ligava para o Senhor Dudu, presidente do CMC, pra saber para onde dava pra ir aquele final de semana”, revelou.

A paixão pela montanha

Desde então Teresa seguiu buscando novas aventuras e desafios, sua próxima escalada foi o Olimpo, ao lado do Quinhentão em um bate e volta. “Eu não podia dormir fora de casa porque minha mãe não permitia. Então tivemos que convencer o Quinhentão a ir durante o dia, porque naquele tempo se achava que para ira até o Olimpo era preciso ir de véspera, não dava para ir e voltar no mesmo dia”.

Teresa escalando a Chaminé do Gavião.

Ela escalou a Via Passagem Oeste, Chaminé do Gavião e outras tantas, com o figurino que mandava a ocasião daquela época. Calças grossas, camisa de gola para tentar não se queimar tanto com a corda durante o rapel, botas cardadas e corda de sisal.

Transversal acima da Chaminé do Gavião.

Teresa escalando com segue de corpo.

A montanhista escalando sobre o viaduto do Carvalho

Acima da Chaminé do Gavião no Abrolhos.

Teresa fazendo rapel no coro na Pedra Lascada

A montanhista escalando na Parede do Rochedinho

O Marumbi foi sua grande paixão, até mesmo porque era a montanha mais fácil de se chegar na época via trem. “Era tudo, eu respirava Marumbi a semana inteira, sempre esperando o domingo de manhã para encontrar a turma”, conta a montanhista. Ela teve diversos parceiros de escalada e conheceu cada pedacinho desse conjunto magnífico. Teresa guarda na memória suas aventuras e conta com o auxilio de um antigo diário e das fotos para não esquecer os detalhes.

A Dona Teresa e seus parceiros

Teresa foi parceira de nomes como Tarzan, Manolinho, Nelson Keller, Rudolfo Stamm, Osiris (Arame) e Orisel Curial (Vespa), entre outros. Ela conta que sempre a respeitaram e achavam normal uma mulher no meio deles e se havia ciúmes por ela fazer tais coisas eles nunca demostraram.

Erica Correa, filha de marumbinistas e dona de um rancho no Marumbi, foi sua única parceira mulher. Juntas, elas escalaram a Via Bandeirantes, sendo a primeira cordada feminina dessa via. Se seus parceiros tivessem ido trabalhar em alguma conquista nas paredes, Teresa esperava outros montanhistas para escalar junto ou então “laçava alguém para levar para Bandeirantes”, como conta com orgulho. Se ela encontrasse alguém que topasse a aventura, Teresa escalava a Bandeirantes mesmo que estivesse com o tempo ruim ou com chuva, tamanha sua paixão pelo lugar.

Teresa com 16 anos ao lado de Rudolfo Stamm e Classen na Esfinge.

Orisel Curial, Teresa e Nelson Keller.

“Eu levei tanta gente pra Bandeirantes. Até o professor (Erwin Gröger) eu levei uma vez guiando. Eu conheci o professor quando eu tinha uns 15 anos, naquele tempo se beijava a mão por educação, depois ele fazia uma cruz na testa da gente”, detalhou.

Teresa e seu parceiro de escalada na Bandeirantes.

Guerda e Teresa no Viaduto do Carvalho.

Aos rapazes desavisados que se encantavam pela jovem e demonstravam intenção de namorá-la ela logo avisava que ela só queria um parceiro de escalada. Assim foi até os 21 anos, quando depois de várias cordadas e um pouquinho de insistência, ela cedeu e aceitou se casar com Osiris Curial, o Arame, montanhista e conquistador de várias vias no Marumbi.

Teresa e Osiris após o casamento.

Após o casamento

Quando se casou com Osiris, ela continuou suas aventuras. Ainda precisava fazer muitos bate-voltas, pois deixava seus filhos com sua mãe. “Naquele tempo o que mais dava pra fazer era chaminés, porque para paredes não havia material. Eu e o Osiris tínhamos dois mosquetões, um era para puxar a mochila e o outro para a segurança”, contou dona Teresa se lembrando de suas escaladas com o marido.

Teresa e Osiris

Teresa, Osiris e outros montanhistas no cume do Olimpo

A montanhista no cume do Olimpo

Teresa escalou de 1954 até 1980 e só parou por questões particulares. Em suas aventuras a montanhista nunca se acidentou, nem precisou ser resgatada, ela conta que se lembra de apenas uma queda na trilha, mas que levantou e continuou andando até chegar em sua casa na base da montanha.  “O que eu fiz naquele tempo era uma coisa grande, que poucos homens faziam. Mas hoje em dia acho que não tem muita importância, achei que ninguém se lembrava de mim”, disse a montanhista.

Aos novos montanhistas, Teresa diz que não tem um conselho. “Não dá pra aconselhar nada, mas se gostam de ir, tem que ir”, completa.

Essa matéria foi construída em parceria com Rossana Reis.

Parede do Rochedinho

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Sobre o autor

Maruza Silvério é jornalista formada na PUCPR de Curitiba. Apaixonada pela natureza, principalmente pela fauna e pelas montanhas. Montanhista e escaladora desde 2013, fez do morro do Anhangava seu principal local de constantes treinos e contato intenso com a natureza. Acumula experiências como o curso básico de escalada e curso de auto resgate e técnicas verticais, além de estar em constante aperfeiçoamento. Gosta principalmente de escaladas tradicionais e grandes paredes. Mantém o montanhismo e a escalada como processo terapêutico para a vida e sonha em continuar escalando pelo Brasil e mundo a fora até ficar velhinha.

3 Comentários

  1. Rafael Martinez Curial em

    Tenho muito orgulho de minha mãe, Maria Teresa, que me influenciou bastante como montanhista, assim como meu pai, Osiris Curial e meu tio, Orisel Curial.
    Parabéns pelo resgate da memória dos antigos montanhistas, hoje ofuscados por feitos maiores, mas que cravaram as bases do que hoje é subir montanha no Brasil.

  2. Parabéns pelo artigo, uma narrativa afetuosa e que celebra a história desse pessoal de outros tempos, que nos mostraram os caminhos.
    Deixo uma sugestão: a Sra. Maria Teresa é merecedora de um Mosquetão de Ouro Especial, pelo conjunto da obra.
    Saudações.

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