A história da NORO7 começou a ganhar forma em abril de 2026, como consequência de um projeto maior: estabelecer novos e mais lógicos eixos de ligação entre as serras do Ibitiraquire e da Farinha Seca, destinados principalmente às grandes travessias Alpha Crucis Express (ACE) e Transparaná (TPR).
Em 3 de abril, eu, Ezequiel Moraes e Ricardo Monteiro, havíamos aberto a Trilha da Sussuarana, ligando o Recanto Cascata ao colo entre os morros da Anta e da Grota. Dali, a intenção era interceptar a crista Noroeste do Morro Sete e descobrir, na prática, se aquilo que parecia tão promissor nas cartas topográficas realmente funcionaria no terreno.
Dezesseis dias depois, em 19 de abril, partimos para o primeiro reconhecimento integral da região. Éramos nove montanhistas: Arturo Alapont, Emerson (Simepar), Ezequiel Moraes, Fabiano Leite, Maurício Vieira, Maximiliano Oliveira, Rafael Galápagos, Raquel da Serra e eu.

A partir do colo entre a Anta e o Grota, o terreno mostrou rapidamente os dentes. A inclinação aumentou drasticamente e, em alguns pontos, a caminhada virou quase escalada, entre pedras soltas, árvores e raízes.
Foi também nessa primeira investida que a crista ganhou seu nome: NORO7.
Mais adiante, percebemos um problema importante. O traçado existente abandonava a lógica da crista e produzia sobe-desces desnecessários. Para uma trilha destinada a integrar grandes travessias, aquilo precisava ser corrigido.
Havia ainda outro elemento que despertava nossa curiosidade.

A drenagem daquela grande formação geológica na parte superior do conjunto Sete/Mãe Catira alimentava uma cachoeira sazonal, visível da região de São João da Graciosa depois de períodos de chuvas torrenciais. A água convergia para uma canaleta e despencava pelos grandes paredões do Sete. Queríamos chegar até ela, mas não seria desta vez.
A primeira investida terminou no cume do Morro Sete, confirmando que o projeto era viável, mas também deixando evidente quanto trabalho ainda havia pela frente.

A busca pela Sazonal
Voltamos em 31 de maio.
Desta vez, éramos Anderson, Emerson (Simepar), Raquel da Serra e eu.

O objetivo era muito mais ambicioso: corrigir o traçado da NORO7, mantê-lo o máximo possível sobre a crista e procurar uma passagem que nos levasse à Cachoeira Sazonal.
Depois do Morro Grota e do Rio do Corvo, começamos efetivamente o trabalho de abertura.
Vara-mato, GPS e duas prioridades: crista e curva de nível.
A nova linha logo começou a revelar suas recompensas. Entre árvores retorcidas, surgiam janelas para o Siririca e os Agudos, com destaque para o imponente Agudo da Cutia.

Mas exploração raramente acontece em linha reta.
Em determinado ponto, seguindo uma passagem aparentemente lógica, percebemos que havíamos abandonado a NORO7 e entrado na crista Sudeste do Morro Sete.

Estávamos no lugar errado.
Ou quase.
Porque foi justamente desse erro que conseguimos enxergar, pela primeira vez, um pequeno filete de água despencando no vazio.
Era a Cachoeira Sazonal.
Falhamos com sucesso.
Voltamos ao traçado correto e iniciamos a procura por uma passagem até ela.
A primeira tentativa nos levou ao rio errado.
Recuamos.
Na segunda, avançamos por uma bela crista até encontrar um degrau de aproximadamente quinze metros, sem passagem viável.
Novo recuo.
Já eram 14 horas e começávamos também a lutar contra o relógio quando encontramos um caminho de água pouco convidativo, úmido e fechado.
Era nossa última tentativa.
Seguimos por ele.
Pouco antes das 15 horas, ouvimos água corrente.
Então surgiu um pequeno córrego de águas levemente esverdeadas, serpenteando pelo terreno praticamente plano e formando pequenas piscinas entre as pedras.

Simepar imediatamente encontrou um nome:
Rio Gracioso.
Seguimos seu curso.
O bosque começou a abrir, a vegetação baixou e, poucos metros adiante, aquele tranquilo córrego simplesmente desaparecia no horizonte.
À nossa frente havia apenas o vazio.
Tínhamos chegado à Cachoeira Sazonal.
O nevoeiro, entretanto, havia tomado conta do lugar e escondia completamente o vale. Depois de horas de céu aberto, chegávamos ao principal objetivo do dia para encontrar apenas uma parede branca.
Naturalmente, atribuímos aquilo ao velho personagem conhecido de tantas histórias na Serra do Mar: o Zombador.

Ainda naquele dia avancei algumas dezenas de metros margeando o beiral e confirmei que a continuação da NORO7 era possível.
A próxima missão estava definida.
Seis dias depois:
Em 6 de junho retornamos.
Comigo estavam Arturo Alapont, Carlos Eduardo Branco (Cadu) e Fabiano Leite.

Desta vez o tempo colaborou.
Quando chegamos ao Rio Gracioso, os raios solares atravessavam a floresta e iluminavam suas pequenas piscinas esverdeadas.
Logo depois, alcançamos novamente a cachoeira.
Agora não havia cortina.

O cenário finalmente se revelou: o pequeno curso d’água desaparecendo sobre um enorme precipício, cercado pelos vales e montanhas da Graciosa.
Depois de tantos erros, retornos e vara-mato, finalmente conseguíamos enxergar o lugar que havíamos procurado durante tanto tempo.
Mas a missão daquele dia estava apenas começando.
Precisávamos levar a NORO7 até o cume do Sete.
Retomamos a abertura a partir do ponto onde havíamos parado seis dias antes.
A vegetação era dura, dominada em muitos trechos por caraguatás, e a progressão exigia trabalho constante.

Até que ouvi água.
Aquilo era inesperado.
Se havia outro córrego correndo em direção ao beiral, a conclusão parecia óbvia:
havia outra cachoeira.
Pouco adiante encontramos um segundo curso d’água, menor que o Gracioso, também desaparecendo sobre o precipício.
Uma grande rocha arredondada, praticamente na borda, dividia seu fluxo antes da queda.
Estava descoberta a segunda cachoeira.
A partir daquele momento, a primeira passou a ser chamada de Sazonal Maior e a nova, Sazonal Menor.
As duas estão separadas por aproximadamente cem metros e cerca de vinte metros de desnível.
E ainda não seria a última surpresa.
Vale Perdido
Por volta das 13 horas encontramos uma pequena depressão lateral à crista.
A curiosidade nos levou até ela.
Conforme avançávamos por aquela espécie de vale suspenso, começaram a surgir diante de nós as enormes paredes superiores do Morro Sete, observadas de um ângulo completamente diferente.

Era como olhar a montanha “de fora”.
Batizamos o lugar de Vale Perdido.
Ali encontramos ainda duas cordas firmemente amarradas numa árvore, desaparecendo pela forte inclinação abaixo. Posteriormente descobri, em conversa com Giancarlo Castanharo (Cover), que haviam sido deixadas por Leandro Cechinel durante uma exploração com o objetivo de escalar aqueles paredões.

Era um curioso encontro de histórias de exploração naquele pedaço remoto da serra.
Mas precisávamos continuar.
E então vieram os caraguatás.
Não alguns.
Um verdadeiro oceano de caraguatás pré-históricos assassinos.

A vegetação tornou-se tão fechada que houve momento em que recuar pareceu uma alternativa razoável. Cada metro precisava ser literalmente conquistado na marra.
Mas havíamos avançado demais.
Seguimos.
Vara-mato, corpo, paciência e teimosia.
Muito tempo depois, a vegetação finalmente começou a dar trégua.
Às 15:30 interceptamos uma antiga trilha que eu havia ajudado a abrir com Taylor Thomas ainda nos anos 1990, para acessar a Janela do Abismo.
Foi um encontro curioso entre duas épocas da minha própria história no Sete.
Uma trilha aberta décadas antes encontrava agora outra que acabávamos de estabelecer.
Faltava pouco.
Às 16 horas de 6 de junho de 2026, alcançamos o cume do Morro Sete.
A NORO7 estava concluída.
Uma nova leitura do Sete
O resultado foi muito mais do que simplesmente outro caminho para chegar ao cume.
A NORO7 criou uma nova leitura da montanha, atravessando cristas, bosques, rios, mirantes, as duas Cachoeiras Sazonais e o Vale Perdido antes de alcançar o alto do Sete.
No retorno, já com pouca luz, ainda tivemos um susto sério quando uma pedra solta ganhou velocidade numa das descidas e passou zunindo perigosamente perto de mim.
Foi um lembrete bastante objetivo de que, na montanha, a aventura não termina quando se chega ao cume.
Às 19:35 estávamos novamente no Recanto Cascata.
O projeto, entretanto, ainda não terminou.
Permanecem nos planos novas ligações pelo divisor de águas entre o Morro Sete e o Morro Mãe Catira e, depois, uma conexão mais objetiva deste com o Morro Polegar.
Quando esses trabalhos forem concluídos, toda aquela região contará com um eixo muito mais lógico para as grandes travessias ACE e TPR.
Mas isso pertence ao futuro.
A NORO7 nasceu de cartas topográficas, curiosidade e uma pergunta simples: será que existe um caminho melhor por ali?
A resposta exigiu três investidas, navegação, erros, recuos, quilômetros de exploração e quiçaça no peito.
No processo, encontramos dois novos cursos d’água despencando sobre os paredões, um vale escondido, vestígios de outras explorações e uma forma completamente diferente de percorrer uma montanha que conhecemos há décadas.
Talvez esteja aí uma das maiores recompensas do montanhismo exploratório.
Às vezes, o desconhecido não está numa cordilheira do outro lado do planeta.
Está numa montanha que você observa há trinta anos.
Basta olhar para ela de outro jeito.







