Sete Cumes do Cipó

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Com objetivos bem mais modestos da coluna anterior, eu me propus a conquistar sete cumes especiais na Serra do Cipó. Lá foi implantado há muitos anos um Parque Nacional, que é um dos mais raros do país.

Esta é uma região de campos sinuosos, contidos pelas cênicas escarpas rochosas de quartzito da Cordilheira do Espinhaço, logo ao norte da capital mineira. Talvez seja a sua ondulação e seu colorido, a predominância de gramíneas e a generosa insolação, ou a graciosa disposição das corcovas montanhosas, junto com a presença de lindas cachoeiras geladas, que criam lá panoramas únicos e inesquecíveis.

Mapa da Serra do Cipó com contornos do PN e da APA e com as principais localidades (Fonte – ICMBio).

Devo explicar que o Cipó contém um Parque Nacional, circundado por uma Área de Proteção Ambiental. Essas duas unidades de conservação somam 100 mil hectares. Porém a serrania, formando um conjunto com geologia, relevo, hidrografia e flora comuns, se estende por uma área a meu ver de duas a três vezes maior.

O Cipó é atravessado por inúmeras serras, cada qual com vários picos, além de apresentar diversas montanhas isoladas. Não existe que eu saiba um levantamento oficial e sistemático das principais altitudes. Então, não me baseei exclusivamente nas elevações. Considerei também a beleza cênica, a importância da localização e, devo confessar, minhas preferências afetivas.

O Montes Claros

O Montes Claros é tão desconhecido, que nem mesmo na região ele é identificado e tampouco pertence ao vilarejo de mesmo nome que existe por perto. Ele está localizado na Serra da Mutuca, frontal à linda região da Lagoa Dourada, ao sul do Cipó.  Entretanto, seus 1.697 metros de altitude fazem com que ele seja reconhecido como o ponto culminante de todo o Cipó. Está fora das áreas de preservação.

O esquecimento do Montes Claros vem em parte do seu perfil. Como disse um montanhista: Diferente da maioria dos picos clássicos, o Montes Claros tem um formato alongado; ou seja, é um ponto elevado numa espinha de serra, não se destacando sozinho na paisagem.

Porém é possível que o ponto culminante do Cipó esteja no Pico do Curral, com talvez  1.703 metros. Ele faz parte da primeira travessia oficial do Parque, entre o Alto do Palácio (onde foi sua primeira sede) e  a Serra dos Alves (um vilarejo deslumbrante).

Mas o aspecto da montanha é um tanto lamentável, uma mera elevação pedregosa acima de um cercado para o gado. Ele é tão alto por partir de um platô elevado, a base do Palácio estando acima de 1.300 metros. O Bicudo, que você encontrará mais adiante no texto, desfruta da mesma condição.

O Montes Claros aparecendo por cima da serra discretamente culminada por ele.

Esta travessia passa pelo Travessão, um impressionante e profundo divisor das águas do Cipó. A leste corre o Rio do Peixe, tributário da bacia do Rio Doce. A oeste o Rio Bocaina, afluente indireto do São Francisco. Os contrafortes desta paisagem, a cerca de 1.500 metros, bem poderiam integrar um dos meus sete cumes cipolinos. Entretanto, não escolhi nenhum deles.

O melhor acesso ao Montes Claros passa pela vila de Altamira, porta de entrada do trek bastante praticado que vai à Lagoa Dourada. O início da trilha ocorre 9 km depois de Altamira, naturalmente por uma estradinha de terra. A trilha em geral num rumo oeste é um tanto óbvia, pois sobe inicialmente como um caminho largo dentro da mata, continuando a seguir pelos campos rupestres da região.

A montanha será a segunda corcova à sua esquerda, numa distância de apenas 3 ½ km. Como você começou a caminhar relativamente alto, a ascensão não passará de 450 metros. Assim, você experimentará uma rampa moderada de 12% nas confortáveis 1 ½ horas de caminhada até o topo.

Não é um cume particularmente formoso, mas sua visão é poderosa. Os perfis do Caraça e do Breu serão visíveis a sul e a norte. No oeste próximo, você verá a Serra da Lagoa Dourada logo à frente. E, no leste distante, a curiosa formação do Itacolomi de Itambé, à qual logo voltarei. E, envolvendo todo este panorama, os campos altos do Cipó, na sua coloração que o inverno havia tornado ocre.

Tivemos tempo de retornar ao Morro Redondo de Ipoema, vila distante 50 km do pico, onde estávamos alojados. Nosso propósito era chegar a tempo de desfrutar o pôr do sol. E, naquele mágico entardecer, enxergamos a discreta corcova do Montes Claros ao sol poente, com sua sombra preguiçosa crescendo em nossa direção. Mas nunca nos alcançou, pois o frio e a noite chegaram antes.

O Breu

O Pico do Breu é considerado erroneamente o ponto culminante do Cipó, talvez pelo fato de parecer tão dominante quando visto do distante horizonte dos campos altos da serra. E também por ser tão bonito, com sua ampla corcova abaulada. Fica a NW do Cipó, fora das suas áreas de preservação.

Você partirá do vilarejo de Lapinha da Serra numa direção sul, subindo uma rampa bem longa. A razão é que ela é relativamente afastada da montanha, que você contornará depois de 1 ½ horas de dura, porém agradável subida.

Agora você terá chegado aos belos campos rupestres do Cipó, por onde corre o ainda jovem Parauninha. Seu curso é caprichoso, com voltas sucessivas, até decidir-se pelo Rio Cipó, afluente do Rio das Velhas.

Meu destino nessa caminhada foi o pouso na casinha isolada de Ana Benta, às costas de uma serra, com suas janelas magicamente mirando a corcova do Breu. Você a alcançará após 11 km de caminhada e 300 metros de ascensão. Ana Benta sempre morou sozinha, durante os ¾ de século em que lá viveu – foi por isso chamada de guardiã da serra. Suas luzes apagaram-se em 2015 – no ano seguinte, sua casa foi ironicamente a última deste longo vale a receber iluminação pública.

O maciço do Breu é oposto ao da Lapinha, voltado para os campos de dentro da serra.

No dia seguinte, você subirá diagonalmente o Breu à direita da fenda que percorre sua parede. Embora nem sempre nítida, a trilha é relativamente cômoda, por ser visual, sem interferência de depressões ou vegetações. Serão talvez 2 ½ horas para percorrer 4 ½ km desde a casa. Você terá superado os 400 metros de desnível até o cume, a 1.686 metros.

É uma visão sugestiva: a oeste o maciço do Breu; a leste a Serra da Calçada e, ao longe, a da Ferrugem, que está sendo devorada pela mineração; ao sul e ao norte a Lagoa e o Lapinha.  Mas a figura mais emocionante aparece lá longe: o inconfundível perfil do Itambé, a mais emblemática das montanhas mineiras, com sua encosta inclinada e sua corcova abrupta. E, em toda a volta, os cênicos campos rupestres abraçando o claro quartzito das rochas.

O Itacolomi de Itambé

O minúsculo arraial de Cabeça de Boi, a 10 km da sede municipal de Itambé do Mato Dentro, abriga alguns dos caminhos até o Pico Itacolomi de Itambé. O vilarejo é maravilhosamente cercado por um arco de serras, com belos visuais e cachoeiras.

O curioso nome da montanha deriva do pontão semelhante ao conhecido Itacolomi de Ouro Preto, bem como do município a que pertence. Mas há outra interpretação, pois a carta do relevo nomeia como Itambé um segundo pico na serra.

Pois nossa montanha está localizada na esplêndida Serra do Lobo, entre as formações dos Linhares a oeste e a da Lapa a leste. O Lobo exibe um perfil único ao longo de seus 10 km, com três picos sucessivos emergindo empinados acima do maciço. Fica numa região muito acidentada na parte leste do Cipó. Ela não é alcançada pelas divisas do PN e nem as da APA, que entretanto são próximas.

O perfil único da face sul da Serra do Lobo, com o Itambé à esquerda e o Itacolomi no centro.

A Serra do Lobo me parece assentada de maneira parecida com a do Barbado, ponto culminante da Bahia e de todo o Nordeste. São acidentes destacados acima da crista de uma serra longa, frontal a um vale distante – o que lhes confere uma perspectiva imponente. Sua altitude é indicada dentro dos extremos de 1.426-1.666 metros, acredito que por incorporar ou não a agulha do Itacolomi.

O Itacolomi é uma montanha difícil, com ascensão por trilhas pedregosas e irregulares, com trechos verticais sob um desnível de talvez 600 metros. A parte baixa dos caminhos atravessa os campos abertos do Cipó, através de trechos ora gramados ora rochosos, e raramente florestados, com um aclive que se mostra no início ameno e depois abrupto. A parte elevada é naturalmente rochosa, com passagens difíceis e desorientadoras, às vezes apertadas e verticais. Mas, nas duas vezes em que estive lá, não completei a ascensão.

Os rochosos altos do Itacolomi de Itambé. A parede do Itambé está `frente e o Itacolomi ao fundo.

A subida pelo lado sul de Itambé pode ser feita pela parede frontal à Cachoeira Vitória ou pelo meio da serra. Pelo lado oposto de Cabeça de Boi, existem duas fendas que abrigam escaladas. A da esquerda é menor e facilmente visível, enquanto a da direita me pareceu estreita e abrupta. Finalmente, o caminho pelo declive da serra a oeste, no sentido do povoado, começa numa fazendola e é extremamente íngreme e rochoso, atravessado por matacões.

As trilhas não são extensas, por serem muito verticais, algo como 4 a 5 km a serem vencidos em 3 a 4 horas. É também possível atravessar toda a extensão de 10 km da serra, normalmente partindo da face sul de Itambé e chegando à norte, o que naturalmente exigirá um veículo para resgate.

A paisagem do alto alcança o chamado mar de morros, ao longo das regiões de Itambé do Mato Dentro, de Senhora do Carmo e da Serra dos Alves a sul e do Alto do Palácio a norte. A flora é peculiar, com enormes canelas de ema e raras orquídeas que florescem no inverno. Junto com a vegetação de gramíneas e arbustos que emerge do solo raso dos campos rupestres e que contempla de baixo as amplas escarpas de quartzito da serra.

O Alto da Lapinha    

Lapinha da Serra é um bucólico vilarejo a NW do Cipó, logo acima de Santana do Riacho, um enorme município que contém boa parte do Cipó. A sede do PN fica em um de seus distritos, mas a Serra do Abreu é ainda uma propriedade particular. Os Picos da Lapinha e do Breu dividem a mesma serra, um de cada lado dela, o primeiro na direção do povoado e o segundo voltado para os campos internos.

O cenário de Lapinha da Serra é deslumbrante, pois o vilarejo acontece entre as escarpas da Serra do Abreu e o espelho d´água da Lagoa da Lapinha, um lago que resultou de uma represa feita por uma empresa têxtil. Ao atravessá-lo na sua parte rasa, você encontrará um penhasco com dezenas pinturas rupestres.

O Pico da Lapinha chega a ser opressivo, devido à proximidade e elevação de sua parede, que parece observar com severidade o vilarejo lá embaixo. Sua trilha é um tanto óbvia, pois percorre suas encostas diagonalmente num sentido norte.

A parede do Pico da Lapinha debruçado sobre o lago.

E o panorama espetacular do cume, em imagens de Marcos Amend.

Mas esta não é uma trilha fácil – se é que existe alguma no Espinhaço. Seu piso é muito irregular, alternando trechos em rocha, pedregulho e terra, alguns espremidos entre matacões, outros bastante íngremes ou em sucessivos degraus. Serão talvez 2 horas até que você alcance uma casa de apoio 4 ½ km após a partida da vila. Ela mira diretamente o pico e pertence ao mesmo proprietário da montanha.

Dalí até o cume será uma rampa que, em 20 min, vence o ½ km final. Você estará a 1.585 metros de altitude, após uma ascensão total significativa, de quase 600 metros. Lá de cima você encontrará uma pequena cruz e contemplará o panorama de Lapinha da Serra à sua frente. Ao lado, verá a formação dos Três Irmãos e, às costas, a discreta corcova do Pico do Breu, que você já conheceu.

Com a sorte de um dia de sol e tendo saído cedo, você estará de volta no meio da tarde e poderá ver acima do pico o brilho do seu cruzeiro, iluminado pelo sol. Se a montanha aparenta ameaçar a cidade, sua cruz reluzente parece protegê-la.

O Refúgio

Nem existia há algum tempo esse nome, assim como o povoado de Serra dos Alves sequer era conhecido. Mas este é um local único, um esplêndido platô elevado acima de 850 metros, com uma minúscula população residente e um céu enorme, que ilumina generosamente cachoeiras, cânions e montanhas. Pertence aos limites da APA do Cipó.

O Pico do Refúgio culmina a parede do Cânion Boca da Serra, uma garganta relativamente curta e com chão curiosamente inclinado, cujas paredes escurecidas parecem ameaçar o pacato vilarejo. Ele é oposto, na direção e na intenção, ao delicado platô da Serra dos Alves, que contempla a vasta região serrana à sua volta.

A trilha acompanha a margem esquerda do Córrego da Boca da Serra, afluente do Rio Tanque, que cria muitas belezas ao longo do seu curso rumo ao Rio das Velhas. É uma antiga estrada, ora arenosa e ora pedregosa, que você subirá com algum esforço. Percorrerá terrenos arbustivos e depois campos gramados, até encontrar ambientes rupestres e rochosos acima. Como seu destino não será o cânion, continuará subindo sempre num rumo norte, agora por seu vale alto e seco.

O Pico do Refúgio, envolvendo o cânion e a vila abaixo.

Não é um caminho fácil nem variado até a base da grande corcova da montanha. Você deve contorná-la à esquerda, para evitar subir sua íngreme encosta. Prefira escalar a crista, à qual chegará depois de 6 ½ km de subida.

O cume deve estar entre 1510 metros (conforme carta do IBGE) e 1590 metros (conforme medição), o que significa um desnível considerável acima de 700 metros. A rampa média seria de quase 12%, quem sabe exigente considerando a extensão. Aviso porém que não completei esse trajeto e calculo que levaria mais de 2 ½ horas.

Esta é uma montanha elevada e recuada, no quadrante SE do Cipó. Isto significa que seu alcance será considerável. Você naturalmente enxergará o casario do vilarejo lá embaixo, mas mais além avistará a Serra da Mutuca a oeste e a Serra do Lobo a leste. Seu olhar poderá também chegar à bela região elevada do Alto do Palácio a norte.

Mas, neste caso, talvez não convenha demorar demais em cima, pois ao descer você encontrará um tranquilo vilarejo onde muitas surpresas deliciosas moram, terra das cachoeiras, dos beija flores, das canelas de ema, das seriemas e dos lobos guará, morada de pessoas que têm um modo de vida particular, de muita religiosidade, como conta o texto de apresentação de Serra dos Alves.

O Bicudo

O Bicudo tem um perfil sugestivo, dependendo do ângulo, de uma corcova a meio caminho de um pontão, aparecendo no alto da pequena serra por ele culminada. Fica a 24 km da sede de Ipoema, pertencente ao município de Itabira. Está na vertente SE do Cipó, fora da área do PN e da APA.

Não é uma montanha elevada, a 1.530 metros, e nem sua ascensão é longa, pois você terá de subir um pouco menos de 250 metros verticais. Mas, você já sabe, ele tem a vantagem de partir de um platô bastante alto. Se você conhece o Cipó, pode estranhar a escolha dessa montanha tão fácil. Deixe-me explicar que meu pico preferido em Itatiaia é a Pedra do Altar, mais acessível do que todas as demais. O mesmo acontece com o modesto Bicudo.

Não existe propriamente uma trilha e você caminhará de forma irregular por menos de 1 ½ km até o seu cume. Mesmo se for lenta, sua subida não passará de ¾ de hora. A paisagem é composta por campos rupestres com afloramentos rochosos, no meio de sempre vivas e canelas de ema.

O Bicudo é o ponto culminante de uma pequena serra, situada nos campos altos no rumo sul.

A vantagem de se situar numa serra separada é que o Bicudo desfruta de uma vista estupenda. As vilas logo abaixo, as serras tabulares à sua volta, o Montes Claros ao lado, o Caraça ao longe e até Belo Horizonte mais distante. Visitei o Bicudo ao chegar de uma viagem longa e a tarde desceu junto conosco montanha abaixo. Na volta, o vulto do Morro Redondo nos indicou o caminho de volta.

Mas, para chegar ao Bicudo, você já terá passado pela maravilhosa igreja no alto do Morro Redondo (1.220 metros). Reconstruída a partir de uma modesta capela, foi inaugurada em 2008, num estilo que chamaria de lírico, pois até parece obra de um sonho.

O Morro Redondo em si já é um cenário encantador, quando surge isolado no meio de uma depressão, circundado pelo arco de cristas da Serra do Cipó. Então, ele é visível sempre que você subir nas serras à volta – com a inconfundível marca dos muros singelos de sua igrejinha.

O Mãe d´Água

Bem, o nome desta montanha não existe, mas não ofende inventá-lo, assim como o montanhista Sérgio Beck criou o nome do Pico do Curral, com o qual esse texto começou. A Mãe d´Água em si é um vale abarcado pela parede que limita o vilarejo de Serra do Cipó. Este é a meu ver um nome infeliz, que confunde a vila com a região e que substituiu o anterior Cardeal Mota, que eu achava tão simpático.

Isto significa que o Pico da Mãe d´Água tem uma posição central em relação ao Cipó. Ele é próximo aos campos baixos onde começou o PN. Eles são atravessados pelos cursos formadores do Rio Cipó, cujo traçado sinuoso deu nome a toda a serra. Suas cachoeiras são os atrativos mais populares e sua sede está hoje lá localizada.

Chegar ao Mãe d´Água é relativamente simples, se você tiver como eu um amigo que resida no pequeno condomínio de casas do vale. Seu acesso ocorre por uma estradinha logo antes do Chapéu de Couro, um dos mais antigos restaurantes do local. Está à beira da Rodovia MG-10 que percorre todo a borda oeste do PN e que liga a região à cidade colonial do Serro. Caso contrário, terá de subir pela trilha dos Escravos, um belo caminho calçado de 2 km construído no século XVIII, com diversos poços e quedas.

Este vale é assim chamado porque nele confluem as águas do Ribeirão Soberbo que verterão pelo funil da Cachoeira Véu da Noiva. Ela desce até o tradicional camping instalado abaixo de sua parede. Junto com a Cachoeira da Farofa (o nome diz tudo), é uma das duas mais populares da região. Eu acho ambas inóspitas, sombreadas e barulhentas, mas o povo cipolino certamente discorda de mim.

O Pico da Mãe d´Água pousado sobre o belo vale que reúne as águas do Ribeirão Soberbo.

Tendo penetrado no interior do vale, você terá agora de subir a formação à sua frente, em meio a uma vegetação rupestre bem expressiva. Ao chegar ao amplo platô elevado, terá duas opções: à direita, uma elevação menor debruçada sobre a encosta do vale (que foi a que escolhi por comodidade) e à esquerda, uma bonita montanha, que chamo de Pico da Mãe d´Água, a 1.365 metros, cujo cume irá demandar um contorno à esquerda. Seu caminho desde o início, no sentido vagamente sul, deve se estender por 3 ½ km.

A visão principal é voltada para os vales da Bocaina e do Mascate, os dois cursos cuja confluência irá formar o Rio Cipó. Na sua parte alta, eles abrigam lindas quedas de águas límpidas, como as conhecidas Andorinhas, Tombador e Gavião. Entre os dois vales está a Serra do Caramba, cujo cume é o Pico do Doutor, com 1.411 metros. Ele é acessível por uma íngreme rampa de cerca de 4 km. Ele bem poderia integrar essa seleção, mas talvez o visual de sua trilha linear não fosse tão bonito como o da ampla Mãe d´Água.

É curioso como, apesar de não ser tão elevado, o Mãe d´Água alcance visões de acidentes distantes, como o Breu, o Travessão e até o distante Montes Claros. Isto se deve à sua posição desimpedida próxima à borda do grande paredão que conduz ao Alto do Palácio.

Uma bela região elevada, de um visual variado, inserida numa natureza rica e diversa, com o contraste entre os rústicos campos rupestres e as geladas águas dos poços e cachoeiras.

As Vilas

Este é o resumo dos sete cumes escolhidos:

Pico Vilarejo Posição Trilha5 Tempo5 Altitude
Montes Claros¹ Altamira S 3 ½ km 1 ½ h 1.697m
Breu Lapinha da Serra NW 15 km 5 ½ h 1.686m
Itacolomi² Cabeça de Boi E 4 ½ km 2 ½ h 1.426m  1.666m
Alto Lapinha Lapinha da Serra NW 5 km 2 ½ h 1.585m
Refúgio Serra dos Alves SE 6 ½ km 2 ½ h < 1.590m
Bicudo³ Ipoema SE 1 ½ km ¾ h 1.530m
Mãe d´Água⁴ Serra do Cipó C 3 ½ km 2 h 1.365m
  • Notas: (1) O Pico do Curral é considerado o mais elevado do Cipó.
  • (2) Indico as duas altitudes extremas reportadas para a montanha.
  • (3) Entretanto, o Pico próximo mais visitado é o Morro Redondo.
  • (4) Os Picos do Travessão e do Doutor poderiam ter sido escolhidos.
  • (5) Extensão e duração das trilhas, conforme descritas no texto, apenas para ida.

Queria agora lhe contar brevemente sobre os vilarejos por onde você passará ou pousará. Os principais são seis:

Vilarejos Posição População
Serra do Cipó Central 2.200
Lapinha da Serra Oeste 2.500
Itambé Mato Dentro Leste 1.000
Cabeça de Boi Leste 200
Serra dos Alves Sudeste 100
Ipoema Sul 3.100

 

Serra do Cipó é o centro turístico da região, porém com um traçado banal e retilíneo ao longo da rodovia, como se fosse um empório comercial. Ipoema é uma vila pacata, com uma praça central (ausente no vilarejo anterior), que não é entretanto valorizada por seu casario despretensioso. Itambé é uma típica vila interiorana, com casas modestas debruçadas ao longo da encosta.

Serra dos Alves.

E Cabeça de Boi, dois povoados abraçados pela natureza.

Lapinha da Serra dispõe de um visual único e espetacular, pela presença da serra e do lago, na extremidade do seu casario acolhedor. Este não é o caso de Serra dos Alves e nem de Cabeça de Boi, que são abraçados por um deslumbrante cordão de montanhas. São povoados minúsculos, o primeiro situado num platô aberto e o segundo ao contrário, numa concavidade fechada.

Estes três são locais mágicos, aos quais você sempre quererá voltar seja por sua presença física ou, inversamente, apenas na sua imaginação.

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Sobre o autor

Nasci no Rio, vivo em São Paulo, mas meu lugar é em Minas. Fui casado algumas vezes e quase nunca fiquei solteiro. Meus três filhos vieram do primeiro casamento. Estudei engenharia e depois administração, e percebi que nenhuma delas seria o meu destino. Mas esta segunda carreira trouxe boa recompensa, então não a abandonei. Até que um dia, resultado do acaso e da curiosidade, encontrei na natureza a minha vocação. E, nela, de início principalmente as montanhas. Hoje, elas são acompanhadas por um grande interesse pelos ambientes naturais. Então, acho que me transformei naquela figura antiga e genérica do naturalista.

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