Sete Picos

0

Embora não tão popular como os gêneros de romance, mistério ou autoajuda, considero fascinante a literatura sobre montanhismo. Ela alia a adrenalina da aventura à descrição de regiões afastadas e de culturas exóticas. Procurei pesquisar quais foram os mais influentes livros sobre o assunto.

Mas que critérios seguir? Escolhi três: a importância do autor, a singularidade da conquista e a popularidade da obra. Por exemplo, os trabalhos do médico e alpinista Charles Houston durante os anos 1950 foram importantes para conhecer os efeitos da altitude na fisiologia humana – assim, escolhi o seu livro sobre o K2. Bem como as trajetórias de Lionel Terray e de Walter Bonatti, entre os maiores alpinistas da Europa no século passado.

O alemão Heinrich Harrer e o inglês John Hunt lideraram duas das mais notáveis conquistas do alpinismo: a parede norte do Eiger nos Alpes em 1938 e o cume do Everest no Himalaia pela rota sudeste em 1953. Por isso, essas obras são aqui incluídas.

Grandes autores – Edward Whymper,

Maurice Herzog,

Heinrich Harrer e

Dick Bass.

Há também livros que se tornaram imensamente populares, normalmente pelos eventos dramáticos que relataram. Sem dúvida, a narrativa de Maurice Herzog sobre a conquista em 1950 do Annapurna, a primeira montanha acima de 8 mil metros, foi uma delas. Assim como a de Jon Krakauer sobre o desastre de 1976 no Everest e a de Joe Simpson sobre seu horrível acidente nos Andes em 1985.

Mas existe um livro que não foi escrito por montanhistas profissionais. Ele teve um grande apelo quando publicado em 1986, sobre os sete picos mais elevados em cada um dos continentes. Depois dele, muitas pessoas que tinham o dinheiro, o tempo e a coragem tentaram imitá-los.

Seu principal autor foi Dick Bass. Ele foi assim definido por um de seus parceiros, o alpinista David Breashears:  um poeta, um visionário e um montanhista com um coração de leão. Este capítulo foi inspirado, ainda que de maneira um tanto irônica, por seu exemplo.

 Grandes Obras sobre Montanhismo

1. Edward Whymper (1840-1911) – Scrambles Amongst the Alps. A trágica primeira ascensão do Matterhorn nos Alpes suíços. Whymper foi talvez o mais popular escritor sobre montanhismo de sua época – e certamente um dos melhores.

2. John Hunt (1910-1998) – The Ascent of Everest. O relato da histórica conquista do Everest por Hillary e Norgay. Hunt era militar, já conhecia o Himalaia e foi um chefe excepcionalmente capaz da expedição vitoriosa.

3. Charles Houston (1913-2009) – K2: The Savage Mountain. As expedições no Karakorum pelo médico montanhista Houston. Embora nunca tenha conseguido escalar o K2, seus trabalhos foram fundamentais para o estudo dos efeitos da altitude.

4. Maurice Herzog (1919-2012) – Annapurna. O relato da conquista da primeira montanha acima de 8 mil metros pelo chefe da brilhante expedição francesa. Este belo livro é até hoje considerado controverso.

5. Lionel Terray (1921-1965) – Conquistadors of the Useless. A trajetória do grande alpinista francês, no Annapurna, no Makalu, no Fitzroy e nos Alpes, onde faleceu prematuramente. Seu livro é hoje uma raridade esquecida, escrita num estilo elegante.

6. Dick Bass (1929-2015) e Frank Wells (1932-1994) – Seven Summits. Os dois autores, magnatas norte-americanos, não eram  montanhistas profissionais, mas se propuseram a escalar os sete cumes mais elevados de cada continente.

7. Walter Bonatti (1930-2011) – The Mountains of My Life. As montanhas dos Alpes, do Himalaia e da Patagônia pelo maior alpinista italiano. Sua trajetória foi polêmica, inclusive por sua aposentadoria precoce, apesar de seu enorme valor.

8. Tom Hornbein (1930) – Everest: The West Ridge. O relato da épica travessia da montanha pela crista oeste por Hornbein e Unsoeld, que a subiram pela primeira vez, retornando pela crista sudeste (Colo Sul).

9. Heinrich Harrer (1935-1962) – The White Spider. A primeira ascensão da Norwand, a gigantesca parede norte do Eiger nos Alpes suíços, pela expedição germano-austríaca, da qual Harrer foi um dos líderes.

10. Peter Boardman (1950-1982) – The Shining Mountain. O relato da ascensão da parede oeste do Changabang na Índia. Boardman escalou no Karakorum, Hindu Kush, Sudiman e Himalaia, onde faleceu. Seu colega Chris Bonnington foi também um excelente escritor sobre montanha.

11. Jon Krakauer (1954) – Into Thin Air. A narrativa por um dos seus participantes de uma das maiores tragédias do montanhismo, ocorrida no Everest. Ela é considerada por muitos como fantasiosa. Considero preferível o relato de The Climb por Anatoli Bukreev.

12. Joe Simpson (1960) – Touching the Void. O emocionante relato da expedição ao Siula Grande nos Andes peruanos. Apesar de seu acidente quase fatal, Simpson continuou escalando nos Alpes, no Himalaia e nos Andes.

Esta lista é naturalmente subjetiva. Os livros foram escolhidos considerando a importância do autor, a originalidade da conquista e a popularidade da obra. Deixei de incluir um dos muitos livros de Reinhold Messner, o maior alpinista vivo, devido a seu estilo árido. Infelizmente, só aparecem quatro cordilheiras: os Alpes, o Himalaia, o Karakorum e os Andes.

 

Sete Cumes

Mas que montanhas são essas? Considera-se que o mundo tenha sete continentes, dividindo a América nas suas metades Sul e Norte e incluindo a Oceania e a Antártica. Em cada um, foi escolhida a montanha mais elevada.

Mapa mundial dos sete cumes, com Cartensz e Koschiuszko alternativos (Fonte – wikipedia).

As elevações dos sete cumes (Fonte – wikipedia).

Porém a lista de Dick Bass, que incluía o Monte Kosciuszko na Austrália, foi rejeitada por Reinhold Messner, cuja autoridade era indiscutível. Ele escolheu no seu lugar a Pirâmide Cartensz (regionalmente, Puncak Jaya). Foi ele também quem elegeu o Elbrus como o ponto dominante da Europa.

Se Bass foi a primeira pessoa a fazer (na sua própria definição) os sete cumes em 1985, Messner foi o primeiro a fazê-lo nas duas versões, quando subiu o Kosciuszko no ano seguinte. Segue a lista dessas oito famosas montanhas:

Pico Altitu

de

Continen    te Conquista Pico Altitu

de

Continen te Conquista
1.Everest 8.848m Ásia 1953 2.Aconcágua 6.961m Am. Sul 1897
3.Denali 6.194m Am. Norte 1913 4.Kilimanjaro 5.895m África 1889
5.Elbrus 5.642m Europa 1874 6.Vinson 4.892m Antártica 1966
7.Cartenz 4.884m Oceania 1962 8.Kosciuszko 2.228m Oceania 1840

 

Acredite, existe também a lista do sete segundos cumes. Embora mais baixos, são considerados mais difíceis no seu conjunto. Foram completados pela primeira vez em 2013 pelo austríaco Christian Stangl. Eles são: o K2 na Ásia, o vulcão chileno Ojos del Salado, o canadense Monte Logan, o Monte Kenya na África, o russo Montanha Dentada, o Monte Tyree na Antártica e o Pico Mandala na Oceania.

Sete Cumes do Brasil

E se você quisesse conquistar os sete cumes brasileiros? Por princípio, seriam as mais altas montanhas do país. Mas acho esse conceito um tanto limitante, pois não considera a beleza cênica ou a importância histórica dos picos.

Claro que cada montanhista terá sua preferência, mas veja abaixo as minhas escolhas:

Montanha Altitude Localização Data Conquista
Pico da Neblina 2.995m Serra do Imeri, AM 1965 Roldão Pires Brandão
Pico da Bandeira 2.891m Serra do Caparaó, ES/MG Séc. XIX Anônimo
Agulhas Negras 2.792m Serra do Itatiaia, Mantiqueira, RJ 1856 Franklin Massena
Monte Roraima 2.739m Serra de Pacaraima, RO 1884 Everard im Thurn
Pico do Sol 2.072m Serra do Caraça, Espinhaço, MG Séc. XVIII Anônimo
Pico Paraná 1.877m Serra Ibitiraquire, Serra Mar, PR 1941 R.Stamm e A.Mysing
Dedo de Deus 1.692m Serra dos Órgãos, Serra Mar, RJ 1912 José Teixeira

 

Reconheço que fiz opções discutíveis. A Pedra da Mina é seis metros mais elevada do que o Agulhas Negras, mas não possui o seu impressionante desenho fraturado nem sua importância histórica. Por outro lado, o Pico do Sol não tem o aspecto maciço e a notoriedade do Itambé, mas é pelo menos vinte metros mais alto. Eu o escolhi também pela linda serra a que pertence. Em termos de beleza, lamentei ter omitido os Picos do Cristal no Caparaó e do Marins na Mantiqueira, os mais lindos que conheço no país.

O Agulhas Negras, PN Itatiaia, RJ.

o Monte Roraima,

o Pico Paraná e

o Dedo de Deus.

Existem duas formações na Serra do Mar, incluídas pela audácia de suas conquistas – as dificuldades em escalar o Dedo de Deus e em se aproximar do Pico Paraná. Entretanto, a ascensão do Pico Maior de Friburgo por Silvio Mendes foi tecnicamente mais complexa. Mas a meu ver não teve a importância histórica das duas outras. E também pode ser criticada a ausência de uma montanha nordestina, apesar dos dominantes dois mil metros do Pico do Barbado e o impressionante perfil escarpado do Pico das Almas, ambos baianos.

Enfim, esta foi a minha seleção. E qual seria a sua?

Compartilhar

Sobre o autor

Nasci no Rio, vivo em São Paulo, mas meu lugar é em Minas. Fui casado algumas vezes e quase nunca fiquei solteiro. Meus três filhos vieram do primeiro casamento. Estudei engenharia e depois administração, e percebi que nenhuma delas seria o meu destino. Mas esta segunda carreira trouxe boa recompensa, então não a abandonei. Até que um dia, resultado do acaso e da curiosidade, encontrei na natureza a minha vocação. E, nela, de início principalmente as montanhas. Hoje, elas são acompanhadas por um grande interesse pelos ambientes naturais. Então, acho que me transformei naquela figura antiga e genérica do naturalista.

Comments are closed.