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Uma história na Travessia Alpha-Ômega

A Trilha


Colunista:

A seguir o 3º capítulo desta história contada em 10 capítulos, escrita para esclarecer alguns mistérios da Serra do Marumbi e aprofundar outros, onde alguns personagens, lugares e acontecimentos são reais enquanto nomes, datas e outros tantos acontecimentos são fictícios. Tudo junto e misturado durante uma hipotética Travessia Alpha-Ômega.

Leia antes o capítulo 1 - A MARIA FUMAÇA e 2 - A CACHOEIRA DOURADA
 
               - Vamos, vamos pessoal. Acordem! – Aldo gritava na porta da barraca – Estamos perdendo um tempo precioso!
 
Aberto o zíper da barraca escapam duendes, gnomos e fadas para o interior da floresta e também o cheiro acre de maconha e sexo para a fria atmosfera do amanhecer. Procuraram curar a ressaca com café amargo, quente e forte ao lado da cascata que estranhamente perdeu o brilho dourado da tarde anterior. Escalaram os pequenos estratos da pedra com as mochilas nas costas e na beirada da grota, Anna voltou um último olhar para o vale mágico. Já não distinguia, dentre as lembranças daquela noite, a realidade da fantasia.
 
Subiam uma encosta inclinada com capim na altura do umbigo e a paisagem se alargava a cada novo passo. Apareciam imponentes montanhas de um verde soturno com o sol ainda baixo no horizonte e distantes montanhas de um azul claro na medida em que o calor da manhã dissipava as brumas etéreas que avançaram do mar durante a noite. A civilização ficava mais distante a cada passo e dela já restavam poucos sinais. Apenas uma rústica tabuleta amarrada a uma árvore solitária no alto de um degrau de terra.
 
               - Pelado é o nome da montanha, mas e aqueles dois símbolos? - Quis saber Oscar – Parecem um girino e uma ferradura!
 
               - É uma longa história. – intervém Aldo – Trata-se das letras Alpha e Ômega que vem a significar o início e o fim. Uma é a primeira e outra é a última letra do alfabeto grego. A trilha que estamos subindo se chama Free Way e na verdade é um atalho na mística Travessia Alpha-Ômega que começa no Morro do Canal e termina no Pico Marumbi. Atravessa na longitudinal toda a Serra do Marumbi e desde muito tempo atrás se acredita que separa os homens dos meninos.
 
               - Você está de sacanagem. Com exceção dos duendes no vale é uma trilha como qualquer outra. Basta andar e...
 
               - Engano seu, Oscar. A trilha acaba no cume desta montanha e dali em diante o bicho pega pra valer. É onde a criança chora e a mãe não ouve. Daqui até o Morro do Canal tudo, absolutamente tudo, pode nos acontecer. Desde ficar uma semana perdidos no mato até ataque de onça. Nesta travessia se começa menino e termina homem ou...
 
Mais não disse por que chegavam muito próximos do cume e no meio do capim brilhava um estranho objeto branco. Fizeram festa ao encontrar a asa de um avião toda amassada e repleta com nomes, datas e assinaturas. Ali depositaram também as suas.
 
               - E o resto do avião, está na grota?
 
               - Não, está no cume daquela montanha escura no horizonte. – apontou com o dedo – A última que se consegue ver daqui.
 
               - Mas como o avião está lá e a asa aqui? 
 
               - Se não foram os gnomos da Anna que a trouxeram é porque derrubou a asa aqui e caiu lá ou alguém arrastou. Sei lá, Oscar!
 
Não esclareceu ou também não sabia que se tratava de aviões diferentes e acidentes sem nenhuma conexão. Distraídos com os destroços nem repararam nas espessas nuvens que subiam do litoral e já encobriam os vales a leste, mas pior, induzidos ao auto engano resistem a enxergarem rachaduras na fortaleza do novo amigo, apesar das muitas evidências. 
 
A incrível distancia que separava os dois morros desestimulou um pouco os rapazes, mas Anna estava definitivamente convencida de que fazia uma travessia mística muito mais radical que Santiago de Compostela. Sentia a companhia de seres iluminados desde que penetrou no portal dimensional na cachoeira dourada e sairia muito mais evoluída ao final de sua jornada particular. Estava agora em busca do seu “eu” espiritual como tantos outros fizeram antes dela. Desistir jamais e compreendia que ainda deveria passar por intensas privações antes de evoluir para novo e mais elevado estágio. Repetia para si mesma que a escuridão da noite é muito mais densa nas horas que antecedem o amanhecer e se preparava espiritualmente para este momento.
 
O lado oposto da montanha era um terrível despenhadeiro que descambava para o fundo da grota não menos de trezentos metros quase verticais para subir tudo novamente até um pequeno campo entre duas outras montanhas desafiadoras. 
 
O campo escorregava para o buraco, sentiam nos pés a pedra inclinada por debaixo de uma fina camada de musgo. Cruzaram um estreito vale arborizado por entre camadas de folhas podres, troncos mortos e valetas gotejantes para novamente alcançar um trecho de campo espinhento que se estendeu até a beirada do precipício. 
 
Dependurados numa corda velha e suja conseguiram vencer o degrau de rocha para se verem tragados pela imensa floresta. Seguiram andando, deslizando encosta abaixo até outro precipício que venceram da mesma forma. A floresta ficou sombria com suas árvores ultrapassando os trinta metros de altura. Pouca luz chegava ao solo coberto por folhas mortas, xaxins e samambaias rasteiras. 
 
Renan, normalmente meio depressivo, se mostrava cada vez mais inquieto. Não aceitava ficar na retaguarda e dizia que estavam sendo seguidos por alguma coisa estranha.
 
               - Fica frio companheiro, são os elfos da Anna que zelam por nossa paz.
 
Mas mesmo a floresta lúgubre tem seus ruídos e o silêncio daquele lugar tornava-se cada vez mais ameaçador. A floresta fantasmagórica engolia a todos num abraço sombrio e depois de muito caminhar ouviram o ruído da água escorrendo por debaixo dos pés. 
 
Chegaram finalmente ao fundo da grota e um riacho subterrâneo cantava seu murmúrio triste por entre as frestas das pedras cobertas de limo verde. Escalavam agora por entre o caos de pedras desmoronadas, algumas imensas, por debaixo das árvores. Desviando gretas profundas e escuras, subindo por troncos de velhas árvores apodrecidas em meio ao limo escuro e bolsões de folhas fétidas. 
 
A inclinação começa a amenizar e as grandes pedras são substituídas por rochas menores e redondas e a água recomeça a escorrer pela superfície com seu lamuriar característico. Seguem um bom quilômetro antes de abastecer as garrafas com a água que jorra da nascente entre as rochas e flui sobre as lajes para formar o riacho. Enfrentam mata espessa a golpes de facão ao sair do vale para nos campos encontrarem um denso nevoeiro a tudo encobrindo. 
 
Imersos num mundo irreal, opaco, denso e úmido onde o som se propagava com imensa dificuldade, seguiam cabisbaixos, concentrados em seus próprios temores. Caminham pelo campo com visão limitada. Oscar no fim da fila indiana já não enxerga Aldo na vanguarda e Renan a poucos passos a frente de Anna segue aparecendo e desaparecendo na bruma fantasmagórica. Alcançam a borda do mato alto e seguem em paralelo procurando algum rastro, algum indício de que alguém ou alguma coisa já tenha por ali passado, mas nada encontram e param desorientados. Uma inquietação começa a brotar do fundo de suas almas querendo afogar seus espíritos enquanto esperam Aldo consultar seu GPS.
 
               - Merda, uma das pilhas vazou dentro do aparelho. Alguém tem fácil uma lanterna com pilhas boas?
 
Estavam congelando expostos à umidade penetrante. Aldo seca o receptáculo com a ponta da camisa e substitui as pilhas, mas o aparelho se nega a despertar. Vestem os anorakes e reiniciam todos os procedimentos com as mãos tremulas e as gotículas d’água se acumulando sobre as roupas impermeáveis e no próprio equipamento. 
 
Novamente sem nenhum sinal de sucesso resolvem por fim acampar para tentar resolver o problema dentro do aconchego da barraca.  
 
Iniciam os preparativos para a noite enquanto Aldo improvisa uma cobertura com uma lona azul a poucos metros de distância, no campo umedecido pela neblina. Estica seu saco de dormir sobre o isolante e se preparava para deitar com o estômago vazio quando ouve o chamado para comer. Numa barraca para dois dormem três empilhados e agora os quatro sentados dividiam as porções de macarrão instantâneo. Tinham alimentos para vários dias se devidamente racionado. 
 
A refeição quente lhes recuperou o ânimo e o humor e apenas Renan se tornava mais depressivo e ansioso que nunca implorando com os olhos para consumir seu doce, mas os outros lhe repreendem com sinais. Querem esperar Aldo resolver o problema de orientação e sair da barraca apertada. 
 
Pacientemente limpam e secam o aparelho, as pilhas e os circuitos mais expostos, remontam tudo várias vezes. Trocam as pilhas por outras sem nenhum sinal de vida. Finalmente desistem e partem para a interpretação da carta topográfica. Com a bússola orientam o mapa para o norte.
 
               - Estamos entre as duas montanhas que vimos do Pelado nesta manhã, então o colosso de pedra está embaixo e a mais alta, coberta de mato, está para cima do campo onde trombamos com o mato alto. Assim a direção é oeste até o fundo da grota quando viramos a 225 graus sudoeste, vou marcar na bússola para amanhã não ter o que discutir.
 
Aldo se retira para debaixo de sua lona encharcada, Oscar ronca feroz como uma onça esfomeada e Renan treme entre pesadelos, afogado em suor. Anna tenta resistir, mas acaba cedendo ao cansaço acumulado e adormece sonhando com seus elfos, fadas e duendes. 
 
A madrugada fria e úmida penetra pela porta aberta da barraca e quase congela Anna que se encolhe subitamente, despertando Oscar.
 
               - Porra Renan, feche a porta da barraca quando sair pra mijar!
 
Fecha o zipper lutando contra o sono e volta a dormir mais confortável com o momentâneo ganho de espaço. A barraca treme levemente com uma breve lufada de vento. Anna e Renan não ouvem as reclamações de Oscar e apenas Aldo, a poucos passos debaixo de sua lona, estava atento aos movimentos naquela noite estranha.
 
Despertava a intervalos irregulares, tremendo de frio e medo.
 
 

Continua no capítulo 4 - O SOCORRO

 

 




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