A Tromba

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Situada entre as duas chapadas de Rio de Contas ao sul e de Lençóis ao norte, a Tromba é pouco conhecida, apesar do seu visual único, da sua posição surpreendente e da altura de suas paredes, que envolvem uma natureza áspera e bela.

Vista da Região da Tromba, Piatã, BA

Minha primeira experiência com a Tromba aconteceu quando ia para Catolés, na região da Chapada Diamantina. Queria subir a Serra do Barbado, ponto culminante do Nordeste. Naquela ocasião, nada sabia sobre a Tromba. Ela me apareceu como uma assustadora proa rochosa de uma enorme embarcação, singrando a caatinga em minha direção, à medida que dela me aproximava pela estradinha de terra.

Nunca mais a esqueci e acabei voltando lá três anos depois, com o propósito de vencer sua parede e conhecer seu interior. Mas fui impedido pelo mau tempo que a encobria completamente, de forma desanimadora. Não pude esperar, tinha uma travessia me esperando no Parque. Finalmente, no verão seguinte, fui capaz de realizar meu sonho, como você saberá a seguir.

Vértice da Tromba, Ouro Verde, BA

Mas, você perguntará, qual a razão de tanto assombro por um relevo que sequer é culminante e que é tão pouco conhecido? Bem, a Tromba é uma formação diferente de qualquer outra na Chapada: é um grande conjunto de duas serras que correm como paredes retilíneas, convergindo num vértice impressionante e ameaçador.

A serra a oeste chama-se Cravada e a leste, Tromba. São paredes escuras e sofridas em quartzito, cada qual com 20 a 25 km. Embora retas em plano, suas cristas são onduladas em altura, com dois picos pontudos na região do vértice, sendo o maior acima de 1.700m. A altitude média das cristas é da ordem de 1.600m, bem significativa para a região.

Gerais do Rio de Contas nos Altos da Tromba, Piatã, BA

Mas que segredo contém no interior este triângulo de pedra? Você verá que dentro da Tromba acontecem os chamados gerais, belos campos planos e rupestres, a 1.300m de altitude. É neles que nasce o Rio de Contas, correndo no sentido norte, antes de seguir rumo à sua foz em Itacaré, no distante litoral baiano. Calculo que este imenso conjunto tenha quase 10 mil ha.

São campos um tanto áridos, recobertos de gramíneas, plenos de flores das mais variadas cores e formas, em cujas encostas altas aparecem arbustos, como o alcaçuz e mesmo árvores, como o ingazeiro. Apesar do aspecto rude, contêm uma extraordinária diversidade de espécies vegetais.

A melhor vila para acessar a Tromba é Piatã, que fica num local sugestivo, no alto de uma colina exposta aos raios e ventos de um clima mutável. Este nome significa o canto triste de uma ave, infelizmente já extinta. Ela está fora dos dois polos da Chapada Diamantina, distando de 100 a 200 km de Rio de Contas e Lençóis. É por isto que a Tromba é tão pouco visitada. E, quem sabe, pelo frio que faz em Piatã, considerada a cidade mais alta da Bahia.

A Tromba Vista de Abaíra, BA (Foto Divulgação)

Existem pelo menos dois caminhos para penetrar no interior da Tromba, o primeiro deles por um colo lateral a leste, chamado de Boqueirão. O outro é pelo próprio vértice, mais radical devido ao aclive e à mata. Desconfio que haja uma passagem pela lateral oeste da Serra Cravada.

Por onde seja, você pode divisar do alto todo o esplêndido vale no interior da Tromba. Esta é uma visão rara e emocionante, com um pacífico campo verde limitado no horizonte pelos sinuosos perfis da região dos Três Morros. Observe que existem algumas plantações – seu acesso se dá por estrada que penetra na região pelo norte.

Mais além, ao norte deste conjunto de serras, existem as sugestivas formações dos Três Morros e da Serra do Navio. São paredes muito bonitas em arenito estriado, recoberto por gramíneas. Você terá de rodar uns 50 km ao todo, se quiser conhecê-las – será uma viagem cênica, vazia e silenciosa.

Serra da Tomba, Piatã, BA (Foto Divulgação)

Fico pensando que, junto com a Tromba, elas poderiam integrar um belo Parque, com uma razoável área de 20 mil ha e um acesso relativamente fácil. Seria como uma terceira Chapada, inserida entre o Parque Nacional em Lençóis e a Serra das Almas em Rio de Contas.

Além de campos e morros, existem também cachoeiras, visitáveis por trilhas moderadas. São quedas razoavelmente pequenas, em paisagens rústicas e em vegetações de cerrado, como as Cachoeiras do Coxó e do Patrício. Na secura do relevo alto e isolado de Piatã, podem lhe trazer um descanso refrescante.

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Sobre o autor

Alberto Ortenblad - Colunista

Nasci no Rio, vivo em São Paulo, mas meu lugar é em Minas. Fui casado algumas vezes e quase nunca fiquei solteiro. Meus três filhos vieram do primeiro casamento. Estudei engenharia e depois administração, e percebi que nenhuma delas seria o meu destino. Mas esta segunda carreira trouxe boa recompensa, então não a abandonei. Até que um dia, resultado do acaso e da curiosidade, encontrei na natureza a minha vocação. E, nela, de início principalmente as montanhas. Hoje, elas são acompanhadas por um grande interesse pelos ambientes naturais. Então, acho que me transformei naquela figura antiga e genérica do naturalista.

3 Comentários

  1. Avatar
    Maria Helena Xavier Pereira Matos em

    Sou piataense e peço licença para acrescentar que este significado da palavra Piatã, é popularizado na letra de uma música do cantador Bichão, mas a etimologia da palavra é outra: terras altaneiras.

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