Cada escolha, uma renúncia: A cicloviagem de Franciele Tais

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Encontrava-me em um momento que minha vida tinha se tornado um turbilhão de situações e emoções. Sentia que ali já não era mais meu lugar. Me joguei em uma aventura, e na época nem me dei conta de tudo que eu estava abrindo mão. Não pensei em nada. Nem ninguém. Só em mim. Queria muito viajar, conhecer pessoas, lugares, culturas, e principalmente fui em busca de autoconhecimento.., mas não sabia nem por onde começar.

Após uma breve conversa pelo Facebook, com um colega Argentino, onde ele contou que em poucos dias iria começar uma viagem de bicicleta com uma amiga, pensei “Ali esta minha oportunidade.” Conversei com ele novamente, e em 15 dias eu estava na Argentina.

Renunciei meu trabalho, vendi as poucas coisas que tinha, fiz uma festa de “despedida”, e comprei uma passagem de avião. Comprei o retorno para um ano depois, mas na verdade é que sai pensando em “não voltar”.

Chegando na Argentina, o Matyas e sua família me receberam em sua casa, e tínhamos 5 dias para organizar tudo, e comprar o principal, a bike. Sim, eu decidi viajar de bike, mas nem bike tinha!

Comprei uma GT Palomar 1994, algumas poucas coisas de camping, e saímos. Ele sua amiga Romina e eu.

Suas famílias e alguns amigos que nos ajudaram com a manutenção e fabricação das alforges pra bike, também nos acompanharam no primeiro final de semana.

Franciele sem dente na Argentina.

Pouco tempo depois que pegamos a estrada (já não éramos três se não que cinco ciclistas.). Na sequencia, me perdi em uma descida, já era noite e me acidentei. Fiquei cinco dias no hospital, e um dente a menos. Como minhas condições financeiras desde que comecei a viajar nunca foram das melhores rsrs, um dentista “del pueblo” fez um tratamento de canal (da raiz) e decidimos “colar” o mesmo dente para seguir viagem e em outro momento fazer o implante. O tratamento que o Dr Matias Paez fez, foi gratuito. E fiquei duas semanas convivendo com sua família, na casa deles.

Meus quatro companheiros acamparam os cinco dias próximo ao hospital e reconheço que por mais diferenças que tínhamos, o Matyas me acompanhou todo o tempo no hospital. Sua família me acolheu como uma filha, e também viajaram mais de 1.000km pra estar com a gente, e não apenas uma vez.

Na época só seguia os planos de viagem dos meus colegas, não tinha muito a ideia de onde chegar ou o que conhecer e fazer. Mas uma coisa era certa. Ali nascia uma paixão. Pedalar e viajar. Com o tempo, e a convivência que nem sempre são flores, já considerava a possibilidade de estar “sola”, comecei a pensar em minha viagem, nas minhas vontades e traçar minhas rotas. Onde eu queria ir, o que eu queria conhecer, e como eu iria fazer. Além de sentir uma certa necessidade de estar mais tranquila..

Compartilhamos momentos super engraçados, alguns desentendimentos, aprendemos muito um do outro, mas era hora de partir. Romina já havia seguido ruta com outros dois ciclistas que estavam com a gente. Um mês depois foi a minha vez.

Franciele e Mathias em El Palmar, Argentina.

Compartilhei duas semanas de viagem com a Carlinha, já havíamos compartilhado muitos campings em várias cidades. Ela ia de caronas eu de bike. Quando ela foi receber sua prima de férias por 15 dias. Eu decidi ir encontrar com o Matias Daniele no centro da Argentina. (Com ele compartilhamos um mês de rutas)

Já havíamos comentado sobre as possibilidades de trabalho por lá, e dar um stop no pedal, melhorar os equipamentos, fazer um pé de meia e planejar a próxima rota. Quanto tempo? Seis meses! Em seis meses foi o tempo que estipulamos para voltar para estrada.

Três meses que estava na Argentina, fui de Jujuy a Rosario.. Em menos de 15 dias consegui um trabalho de meseira e bartender, e aprendi na marra o espanhol.

Renovei todos os meus equipamentos, montei uma bike nova, vendi a velha pra terminar de pagar o implante do dente, que antes não tive condições e guardei uns trocados pra pegar estrada novamente. Tudo estava acontecendo dentro do planejado.

Com um mapa cheio de anotações, e aberta às possibilidades, mais uma vez peguei a estrada. Argentina – México, esse era o novo plano. Traçado por mim junto com o Daniele.

Viajamos juntos por um ano e quatro meses, algumas rotas nossos mapas se abriam, fazíamos cada um a sua escolha, e mais adiante nos encontrávamos, e seguíamos. E assim se repetiu por Chile, Peru, Equador e Colômbia também. Porem, neste momento já levamos alguns meses de distancia, e se voltamos a compartilhar rutas, será na América Central. Caso a rota nos encontrar.

Aprecio viajar com boas companhias, mas também gosto de estar comigo mesma.

Ainda no norte Argentino, adaptamos o mapa (como acontece com frequência) e fomos pra San Pedro de Atacama, no Chile. É uma ruta muito cobiçada e respeitada por ciclistas. Li muito sobre esse cruze, a experiência de outros viageiros, clima, altitudes, distâncias, etc., etc.

O Atacama.

Sabia que seria difícil, mas me propus el desafio. E, quería cruzar sola. Porque? Não sei rsrs. Na ida foram seis horas de caminhão. Na volta? Seis dias de bicicleta.

Em San Pedro de Atacama trabalhei em uma agência de turismo e também em um hotel. Ali estive por três meses, me apaixonei por esse deserto e toda sua diversidade. Acredito seja meu lugar preferido ate o momento.

Dia 29 dezembro 2016, carregando pouco mais de dez litros de água e comida para três dias, minha bike nunca esteve tão pesada. Era a primeira vez que iria pedalar sola por um trajeto de seis ou sete dias.

O primeiro dia foi o mais difícil, peguei a estrada as 5:30 da matina pedalando, terminei o dia as 4pm empurrando a bike morro acima, a maior parte do dia. Quilomegem do dia: 34km, sofridos. Sombra pra descansar? Só atrás das placas de trânsito.

Acampei em meio ao deserto, vento de todos os lados, quase puse fogo na barraca tentando cozinhar, me assustei e desisti da ideia. Comi meio pão, um salame, frutas, chocolate, e meia lata de feijão (risos). Sim era muita fome, ansiedade, aquele arrepio de acampar sozinha em meio ao deserto… sabe né, nós mesmos criamos nossos monstros em nossas cabecinhas hahaha.

Por ser uma ruta turística, tive muito incentivo das pessoas que passavam de carro para tours, os motoristas já me chamavam pelo meu nome, e me levavam agua, frutas e chocolates. Motociclistas brasileiros onde me diverti bastante em nossas breves conversas pelo caminho, e um casal de franceses acima dos 65 anos fazendo o mesmo cruze, na direção contrária, pessoas que cruzam com teu caminho e que renovam as energias.

No 3°dia, 31 de dezembro por volta das 17:50h cheguei na fronteira Paso de Jama. Uma euforia, felicidade, um suspiro de dever cumprido, de superação, de êxito. Um sentimento que é impossível explicar com palavras. Ria, chorava, gritava, e ria de novo. Nem parecia que estava na metade do caminho, e faltavam outros três ou quatro dias até Purmamarca.

Cruzando a altitude no vale de Humahuaca.

Acontece que os três primeiros dias não havia nada de nada, eram os dias mais difíceis em questões de altimetrias, chegando duas vezes aos 4800m sob o nível do mar. Três dias de muuuuito sol, vento constante (contra) e noites congelantes onde dormia com luvas, touca, jaqueta de plumas, duas calcas e meias térmicas. Passei frio igual!

Três dias sem banho.

Quando cheguei na fronteira o cansaço desapareceu. Sentei ali e um filme passava na minha cabeça.. poha! EU CONSEEEEEEGUI. Eu quis tanto, me preparei tanto mentalmente, e consegui!

NUNCA ME SENTI ASSIM NA VIDA. TÃO SATISFEITA, ORGULHOSA, FELIZ. TÃO GRATA COMIGO MESMA E COM AS PESSOAS QUE ME INCENTIVARAM PELO CAMINHO.
3 DIAS QUE EU ERA MEU MAIOR INCENTIVO, E MINHA PROPRIA COMPANHIA
VAMO MÃE LOIRA, VAMO QUE TU PODE!

* Me emociono tentando descrever essa travessia.

Travessia dos Andes em Humahuaca.

Na fronteira encontrei com outro casal de brasileiros que me pagaram uma refeição e também pagaram o “aluguel” de um chuveiro com água quentinha.

À noite, montei minha barraca em uma casa em construção. “Fui dormir em 2016 e quando acordei já era 2017” hahahahah

“E por ironia do destino” no segundo dia que havia saído da fronteira, já eram quase 20h, em ruta Argentina tive que pedir carona, escurecendo, o vento não me deixou avançar como o “calculado” e ali estava eu. No meio do nada, frio pra caralho e sem comida, pois havia planejado chegar a um povoado e também na fronteira era o local de abastecimento para outros dois dias. Não tinha muito que comprar, me confiei no “estoque” que eu tinha e não foi o suficiente.

O caminhoneiro que me levou os 15 km que faltavam, era o dono da casa onde eu passei a noite no dia 31. Como descobri? Hahaha inocente estava contando sobre os campings desse caminho e que na fronteira dormi na tal casa em construção atrás do posto de gasolina. Ele sorriu e disse: ah é? Essa casa é minha!

Fiquei sem reação kkkkk ele sorriu, e disse tudo bem. Muitos ciclistas que fazem essa travessia dormem ali.

Nesse mesmo caminho, um dia antes, aconteceu algo inédito: pela primeira e única vez ate hoje (2018) encontrei um pessoal da minha cidade. Quando vi o carro com placas de Timbó, não podia acreditar. Brasileiros sim, vários, mas da minha cidade e pela carreteira… nossa fiquei de cara rsrsrs. Claaaro que fiz gestos de todas as maneiras possíveis para que parassem o carro, e ali conversamos por um bom tempo. Não acreditávamos que esse encontro de timboenses estava acontecendo rsrs.

No sexto dia, cheguei à cidade de Purmamarca, Norte Argentino. Ali concluía a travessia Paso de Jama. Também dentro do calculado, 6/7 dias.

Nesses dois anos e meio desde que saí, pedalei em media 14.000 KM, mais uns 3.000 de caronas e um e outro ônibus. A rota foi Argentina, Chile, Argentina, Bolívia, Peru, Equador, Colômbia.

Me hospedei e me hospedo com muitas famílias. Algumas por iniciativas delas, outras tantas através das paginas de Couchsurfing e Warmshowers. Outras que são amigos de um amigo e por ai vai rsrs. Também algumas vezes faço voluntariados em troca de hospedagem, e as vezes inclui as refeições também.

Acredito que posso contar nos dedos as poucas vezes que paguei um hostel ou camping.

Já dormi em lugares inóspitos, inusitados e que NUNCA imaginei fosse acontecer. Mas acredite, viajando acontece. Escolas, igrejas, quartel de bombeiros (com frequência), posto policial, deserto, beira de estrada, carroceria de caminhão, ambulância, posto de gasolina, mirador, um aparentemente cemitério (chegamos era noite, e quando amanheceu, tinham varias cruzes espalhadas pelos cerros). Passei uma noite dentro de um ônibus. E também em um abatedouro. (no local apenas o segurança noturno e nos, três ciclistas.) Casa em construção, depósitos e um lugarzinho no pátio de alguém também entra na lista.

Contrastes. Num dia estava dormindo em um deposito e no outro dia eu estava em um condomínio beira mar junto a uma família, uma suíte só pra mim e almoços gourmet preparado ali mesmo, pela cozinheira da família rsrs.

Uma noite, na beira da estrada super transitada que quase não pude dormir, e no outro dia cheguei a um contato da pagina WS, e me deram uma cabana beira bar em praia particular. Uma semana.

Também já me hospedei com famílias que nem banheiro tinha na casa, por exemplo.

Cada dia é um capitulo! Cada dia um aprendizado. Coisas que só o dia a dia de viageiro, a vivencia pode te ensinar.

Nesses pequenos detalhes, que você aprende a valorizar, aquela cama que você tinha em casa, mas achava que o colchão poderia ser melhor, aquele chuveiro quente, mas que a água não era quente o suficiente (Perdi as contas de quantos banhos gelados no inverno, tomei, e de balde). Você aprende a dar valor ao que tem, quando tem.  Nesses pequenos detalhes, fui aprendendo que posso ser muito feliz com o que tenho.

Menos, pode ser mais.

Sofri um assédio que não se concretizou (foi por pouco), fui roubada duas vezes. A primeira recuperei tudo, até o dinheiro. A segunda levaram o celular, cartão de memória com mais de três mil fotos e vídeos do inicio da viagem e 200 dólares.

Agradeço a TREME TERRA, Imobiliária Central Alternativa, a MZ treinamento funcional e minha amiga Martina que me ajudaram financeiramente para repor outro celular, que é uma ferramenta indispensável pra todo viageiro. E algo de dinheiro para poder seguir viagem.

Argentina meu deu um grande irmão o “negro”. E Rosário é uma cidade na qual quero voltar em algum momento.

Nesse país fiz amigos no qual tenho contato até hoje. Muitas famílias abriram as portas de suas casas pra mim, e algumas inclusive nem queriam me deixar partir.

Conheci a quebrada de Humahuaca, os cerros de colores. As temperaturas mais altas até mesmo que o deserto. Ruínas. reserva natural Estero del Ibera onde avistamos vários tipos de aves, veados, macacos, capivaras, jacarés, tatu, e vários outros animais.

Bañado La Estrella onde acampamos e devido à época de seca, os locais pescavam com as mãos em grandes quantidades. E nós também, peixe para janta, almoço e café da manha.

Parque Nacional El Palmar.

Povoado de Liebig, atualmente com media de 1000 habitantes, que por meados da década de 80 foi à segunda produtora de carne em lata mais importante do mundo. Chegou ocupar 3500 trabalhadores em um enorme frigorífico que exportava carnes em lata para os soldados da segunda guerra mundial. Atualmente as instalações desse frigorífico são utilizadas para turismo local.

Franciele Tais no cume do Lascar.

Final de 2016 ainda em San Pedro de Atacama, junto com a equipe da TREME TERRA, que realizava uma expedição em seu motor home, subimos o vulcão Lascar, vulcão ativo a 5600m de altitude.

Bolívia, Pedalar nesse imenso deserto de sal (Uyuni, maior salar do mundo). As tradições desse povo, As comemorações em Oruro, acampar na Isla del Sol abaixo das ruínas, tendo o lago Titicaca (lago andino e considerado o maior lago da América do Sul, em volume de água, e o lago navegável mais alto do mundo, já que se encontra a 3.812m sob o nível do mar) foi uma experiência um tanto quanto forte, porem única.

No Peru, pela primeira eu vi um glaciar. Vi neve, pinguins e lobos marinhos. No Norte peruano nadei com tartarugas marinhas. Conheci um pouco da historia e do dia-a-dia das famílias que vivem em ilhas flutuantes em Puno- Peru, sob o lago Titicaca que é compartilhado entre Bolívia e Peru.

Machu Picchu por supuesto, a cidade sagrada de Caral, a mais antiga das Américas e uma das mais antigas do mundo com 5000 anos.

No peru encontrei deserto e mar “juntos”

Na reserva de Paracas foi onde voltei a me encontrar com o mar depois de um ano e oito meses. (Desde que saí do Brasil).

Senti o vento Paracas, cujo este sopra a mais de 40 km/h, e quando acontece esse “fenômeno”, dizem durar três dias, não sei por que no segundo dia fui embora rsrs. Desafortunadamente, em consequência desse vento, tive que comprar outra barraca. Sim, o vento causou alguns estragos nela rsrs.

No Equador fiz trabalho voluntário, vendi brigadeiros em parques. Tive dois campings dos mais lindos que foi na Laguna Quilotoa, e na Ilha Portete.

Laguna Quilotoa (de origem vulcânica) é a Laguna mais linda que já vi na minha vida! Fui privilegiada em poder ver ela em três tons diferentes devido ao clima..

Franciele pedalando no Equandor.

Equador através da página couchsurfing, ganhei um grande amigo. Santiago. Fiquei na casa dele duas semanas. E foi a despedida mais difícil da viagem. Já me sentia em casa, os cachorros, a gatica, a energia da casa jaguar. Seus amigos já eram meus amigos, minhas amigas de viagem, ele hospedou a todas ao mesmo tempo. Casa cheia. Foram duas semanas de muitos sorrisos, tardes de caiaque no rio, dias de muita Praia, camping e diversão. Santiago já recebe viageiros em sua casa por mais de cinco anos. E é bastante comum ele encarregar a casa a viageiros em quanto ele também sai para viajar.

Em Mompiche pude avistar baleias desde a areia da praia. Onde eu trabalhava, foi algo mágico.

Espetinhos de larvas

Na selva equatoriana, provei os espetinhos de larvas. (Gusano chontaduro) que medem em média cinco cm, são gordinhos e da certo nojinho kkkk

Comi na versão” assada, e é parte da alimentação diária desta zona e podem comer crus, assados, inteiros ou sem a cabeça. É estranho, mas gostosinho auhushuiahsi

No parque nacional Cotopaxi, foi um dos campings que mais tive medo, pude sentir o ruído do vulcão pela terra quando me acostei a dormir, além de muito muito frio. Vulcão estava em estado de alerta.

Também subi o Chimborazo, estratovulcão e a montanha mais alta do país, onde queimei a retina dos olhos e fiquei com os olhos vendados por quase 48h.

Se eu chorei com medo do dentista, quando queimei os olhos, a dor do dente quebrado “não foi nada” kkkkkkk

A “avenida” dos vulcões do Equador.

Colômbia aprendi em um voluntariado um pouco sobre o processo do café, pintei portão, fiz limpeza de jardim e alguns experimentos com bambu.

Em Cali, ganhei uma mãe. A dona Olga. Mãe da Juli que é mãe da Rayen uma mocinha de 5 aninhos que a conheci quando tinha 3, e me enche de alegria só de lembrar dela. Com Olga, Juli, Rayen compartilhamos dias super agradáveis por algumas cidades aqui da Colômbia.

Conheci a Juli na agência de turismo no Atacama em 2016.

No dia do meu aniversário, 6 março 2017 enquanto eu e mais três ciclistas saíamos em direção a Cusco, ela regressava a Chile, em carro com sua família. Por sincronicidade da vida. A gente se encontrou em carreteira, foi onde conheci seus pais, nos quais me receberam em sua casa por mais de 10 dias.

Ali, na casa da Olga, em novembro de 2017 deixei minha bike e minhas “trouxinhas” e fui para o Brasil, rever minha gente. Tinha um voo pra SP, e meu amigo MANU me presenteou com a outra passagem de SP a SC.

Cheguei a SC e no dia seguinte, nos reunimos no Station Bike Bar. (ideal para a ocasião e tudo a ver comigo rsrs). Foi nesse momento que percebi como era bom estar em casa de novo, e eu que algum dia pensei que nunca mais voltaria. (que bobinha).

Meus sobrinhos, como cresceram. Meus pais estavam muito mais “relaxados”, meu irmão. CARAAA! Quando eu vi o meu irmão eu quase desmaiei. Foi o encontro mais forte, mais emocionante. A gente sempre teve uma ligação muito forte. Tanto com ele como com a sua esposa Chirlley.

Fiquei surpreendida. Não tinha ideia que podia sentir tudo isso por eles. Não dessa maneira. Cheguei a pensar que quando visse meu melhor amigo Manny eu fosse desabar, mas quando nos vimos, rimos e nos abraçamos como se tivéssemos nos visto a tan solo dois dias.

Minha cachorrinha Kate, que tantas vezes chorei em meio a sonhos de saudades. Sim, chorei quando vi ela também rsrsr.

Minha sobrinha Djeni, que agora além de sobrinha, é minha amiga. Foi tão estranho e ao mesmo tempo engraçado, ter ela no meu circulo de amigos. Quando me vi, estava eu, ela, meus pais e meus amigos, sentados na mesa de um bar. EU, ELA, MEUS PAIS E MEUS AMIGOS!

Isso vai ficar para historia rsrs.

Minha sobrinha Evelyn que eu estava apenas conhecendo, pois quando sai do Brasil ela tinha apenas dois aninhos e nem se lembrava de mim, tampouco tínhamos muita convivência com a família da minha irmã.

Caramba. Estava anestesiada! Como a vida por esses lados estava leve.

Como já dizia CBJ, Cada escolha, uma renuncia isso é a vida.

Em 2015 eu só queria saber de ir embora, 2018 eu estava querendo era ficar. Nem que fosse apenas uns dias a mais rsrs. Quem sabe se tivesse ficado “apenas” esses dias a mais, hoje ainda estaria lá.

Aproveitei ao máximo, tudo que vivi ali nesses dois meses.

Meus amigos, “meus” bares e lares, MINHA FAMILIA.

Com o Manny tínhamos tanto pra contar um ao outro, que as noites em meio a conversas, muitas risadas, passaram voando. E sabe? Eu tenho muita sorte de ter essa cara na minha vida. A única pessoa que sabe todos os extremos do meu caminhar.

Com o Manny, tiramos uma semana apenas nossa. Com o apoio do Barreto Bikes, que nos disponibilizou duas bikes, fizemos o circuito do Vale Europeu.

Percorrendo pelo interior de uns nove municípios, relembrando os bons tempos que já havíamos vivido por estes caminhos. No meio do percurso, uma pausa de dois dias na Cachoeira Formosa em Palmeiras, ali era parada obrigatória, nossos grandes amigos Dezza e Ike que sempre nos recebem de braços abertos e despensa cheia.

Nossa a gente tem muita historia nessa casinha, quando ainda nem havia energia elétrica.

Manny, Ike e Dezza. Com eles me despedi do Brasil novamente. Abraço coletivo no aeroporto, coisa rápida, para nao dar tempo de chororo rsrs.

Eles são dessas pessoas que tu podes ficar meses sem se falar, e anos sem se ver, e quando nos encontramos tudo esta como sempre. “Nos vimos ontem”. É uma afinidade, uma amizade “para poucos”.

ENFIM… Os dois meses passaram voando.

Novamente agradeço a Treme Terra que me apoiou também com a passagem de SC a SP.

A partida foi uma mistura de sentimentos. De querer ficar, pois estava em um momento com minha família que sempre almejei, e por fim, tive o privilegio de sentir tudo isso.

Mas também a vontade de estar na estrada, de estar pedalando, de não saber onde vou dormir quem vou conhecer, como vai ser o caminho e tudo mais.. Acreditem, as pessoas que aparecem em nosso caminho tem muito a nos ensinar.

Apenas um mês que voltei pra Colômbia e a pedalar.

Já sinto saudade da minha família e dos meus amigos, já aconteceram tantas coisas por aqui também, tantos lugares, pessoas, vivências que um mês se transforma em pelo menos seis rsrs.

Também tiveram perrengues, e olha… que não foram e não são poucos rsrsr graças a Deus estamos ai para poder contar, e de tudo se aprende.

Chegando em Medellin, Colômbia.

Já bati em carreteira com uma moto, com outra bike, duas vezes. Uma foi onde quebrei o dente, a segunda foi na Bolívia onde caímos num esgoto céu aberto e tivemos que ficar dois dias sem tomar banho pois nessa região não havia água! Daniele ficou horas sem falar comigo, bravo pela situação, pois foi muito descuido e porque eu não parava de rir.
“já estava na m**** mesmo, só me restava rir” caímos em câmera lenta, os dois juntos, um em cima do outro.

No Peru em meio a uma tormenta na pampa saindo de Negro Mayo, tive que pedir carona, o gelo rapidamente tomou conta da estrada e deslizou o caminhão pra grota. Uns devem pensar “que azar” eu já penso que “sorte” fazia 5 minutos que eu estava dentro do caminhão, podia ser pior e eu estar pedalando nesse momento. E aí?!…..

Quando vi o caminhão deslizando da pista, em segundos passou um filme na minha cabeça de outros acidentes que já havia visto, e de verdade, pensei que ia morrer rsrs, ou no mínimo toda machucada. Caminhão ficou ali meio de lado na grota, um suspiro de que estávamos bem e em seguida sai do caminhão para ver se a bike ainda estava amarrada na carga, já que era aberta.

Apos uma hora e ajuda de outros caminhoneiros voltamos para estrada, pedi ao motorista pra me deixar no povoado mais próximo (já que a ideia era escapar da tormenta, e o susto foi grande haha). Comi e bebi “como se não houvesse amanhã” e me hospedei no primeiro hotel que encontrei! COISAS QUE NÃO FAZEM PARTE DO MEU DIA A DIA. O pressuposto de uma semana, em uma noite!

Recentemente, final de janeiro a 2 km de chegar a Chinchiná, na Colômbia, num “belo” dia de chuva, asfalto molhado e descendendo, um carro simplesmente parou no meio do asfalto porque ele queria entrar a direita, mas não parou no acostamento, parou em meio a estrada. Preciso continuar?

Eu vinha a mais de 50 km/h, já estava em cima e pah.. Bati atrás do carro. Agradeço meus anjos que vivem de plantão e me protegeram de mais essa.

Batidas e aranhões pelo corpo apenas. Uma alforja “destruída” e um capacete em mil pedaços.
Quando já chego à casa do Hernando que ia me hospedar e que também contatei pela pagina de WS, abro a alforje e quebraram também meus dois potes onde levo minhas marmitas..

Nesse dia lembrei da minha mãe que ficava brava quando eu sumia com algum pote dela kkkkkkk. Fiquei chateada pelos potes também kkkkkkkk. Colei a lona do alforje e um engate com superbonder e fui a um ferreiro fazer duas chapas pra substituir os engates principais. Gratidão ao Lucho que tem uma oficina de bicicletas e deu uma geral na bike e não me cobrou nada.

Atualmente estou há duas semanas na casa da Adriana, que contatei pela página do warmshowers em Manizales. Detalhe é que eu solicitei a Adriana hospedagem para “um par” de noites, onde considerava ficar de 3 a 4 dias. Ficarei um mês (ate março).

Já da para imaginar que estamos nos divertindo bastante certo?!

Fomos no PNN Los nevados. Rios de água termal natural com temperaturas acima dos 60graus e forte olor a enxofre (lugar esse que nem os locais conhecem), bosque de beija flor, recorridos pela cidade, e um pouco da gastronomia daqui. Estamos sempre em movimento, pedalando pelas fincas e interiores de Manizales. É super legal também que tanto a Adri como alguns amigos também falam português.

Já vejo tudo… Aqui, a historia se repete, como lá no equador com o Santiago. A amizade e a despedida, ….
Os planos para este 2018?

Continuar percorrendo por Colômbia ate o caribe, e entrar na América Central. Panamá, Costa Rica, Nicarágua, Honduras, Guatemala, Belize e México.

México é meu “destino estratégico” rsrs. A ideia é de chegar ainda este ano, porém como viajo sem tempo, as rotas mudam com bastante frequência, pessoas lindas que aparecem na minha vida, pode ser que um ano seja curto pra tanto rsrs.

A ideia é viver um tempo no México, trabalhar, aprender inglês e me preparar para Europa. África, Ásia e Oceania também estão nos planos. Não necessariamente nessa ordem. E também não sei, se pedalando.

É uma espécie de planos em longo prazo, eu sei, mas sabe? Quando pedalo, muitas vezes sonho acordada, e já me vi, fazendo toda essa volta ai.

Sem pressa, de pedalada em pedalada, chego lá!

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Sobre o autor

Franciele Tais

Franciele Tais, ou "Mãe Loira" é natural de Timbó, Santa Catarina e desde 2015 está viajando de bicicleta pelo mundo.

5 Comentários

  1. Belo relato. Pareciam várias histórias, múltiplas leituras. Uma miscelânea de causos, lugarejos, nomes e sentimentos. Parabéns, Mãe Loira!
    LuiZ 😉

    • Obrigaaado Luiz.. tentei resumir um pouco desses dois anos e meio rsrs
      Sempre faltam palavras pra descrever tanto sentimento..
      Logo logo tem mais, sobre as últimas semanas.
      No meu Instagram @projetovalvula podes acompanhar o dia a dia, saludos

  2. José César Antunes de Navarro em

    Espetacular Franciele! Parabéns pela iniciativa, coragem e determinação. Eu que também sou cicloviajante “amador” e já fiz duas viagens aqui no Brasil rumo ao Nordeste, totalizando as duas 1.300 km, e neste ano (maio próximo) pretendemos pedalar mais 900km, sinto-me pequeno diante do tamanho do seu feito, ao viver essa rica aventura pela querida América do Sul, de povos, culturas diversas e lugares maravilhosos. Viajar de bike é algo que só quem viaja, como você, pode explicar. A sensação de entrega é muito grande, onde tempo e espaço é o que menos importa. Se não tivesse começado tão tarde (tenho 63 anos), também faria essa aventura. Meus cumprimentos, torço para que você alcance todos os seus objetivos. Vá com Deus, grande abraço!

    • Olá José,
      Que demais!! Nunca tarde para aventurarnos na vida e fazer o que gostamos hahah.
      Conheci várias pessoas acima dos 50 pedalando pela América do Sul..
      Mais adiante está nos planos pedalar pelo Brasil.. quem sabe compartilhamos algumas rutas pelo Brasil ou quem sabe vc se anime pela América do sul hahah. Felicitaciones pra vc também José.
      Muito obrigadoo pelos desejos e saiba que são recíprocos! Bons ventos, buenas rutas e ótimas pessoas no nosso caminho hahah. Um abraço e Jah Blass

      *No Instagram @projetovalvula podes acompanhar as pérolas do dia a dia rsrsr

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