Cerro Plata de forma independente: Final

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Leia a segunda parte do relato abaixo:

Cerro Plata de forma independente: Parte 2

DIA 07 – O último intento

Acordamos com aquele frio na barriga, sabendo que este seria o último dia para tentar cume, e se fracassássemos, não teríamos uma 3ª chance. Tomamos café reforçado e saímos do refúgio Ski&Montãna (2.900m) as 11h15 da manhã.

O tempo estava super aberto, até chegar em Piedra Grande (3.600m) havia poucos ventos, a partir daí, quando ganhamos o colo em direção a El Salto, o vento mostrou que realmente estava lá e não seria pouca coisa, tocamos pau pra cima e chegamos no acampamento de El Salto (4.300m) as 14h20, se sentindo mais fortes do que quando descemos, talvez por passar uma noite abaixo dos 3 mil metros.

Ao chegar fizemos um caprichado almoço, bebemos muita água, descansamos um pouco e as 18h00 contatamos via rádio novamente o refúgio, que nos confirmou a mesma previsão do tempo.

Estava decidido que seria isso, então fomos deitar as 21h30 e despertamos as 23h00 para o segundo intento ao cume, Ediceu e Mauro tomaram café, se arrumaram, e partiram para Hoyada as 23h45 do dia 30/12/2018, enquanto eu começava me trocar, esquentar a água para sair pouco depois, e logo os alcançar chegando no Acampamento de Hoyada (4.700m) por volta das 01h00 da manhã. Vimos 02 lanternas pouco acima, vestimos as botas duplas e partimos para o ataque ao cume, a condição estava parecida como da última vez, tempo aberto, muitas estrelas, sem nuvens e ventos aumentando conforme ganhávamos altitude e ficávamos expostos na montanha.

Chegamos no Colo (5.200m) desta vez aprox 03h30 da manhã, e os ventos estavam um pouco mais ameno comparado o último ataque, porém desta vez, sem parar no colo, eu continuei liderando montanha a cima, seguimos brigando contra as fortes rajadas que hora ou outra nos golpeava, e fomos então avançando para contornar a encosta da montanha, a neve começou a aparecer, e formar trechos nevados cada vez mais longo, porém todos navegáveis sem crampons, desce que tomasse bastante cuidado ao pisar.

Foto: Silvester Natan Sanches, Ediceu caminhando sobre trechos de neve e pedra pouco acima do Colo.

Mantendo um ritmo constante, logo alcancei a dupla que saiu uma hora a nossa frente, e eram 02 argentinos de Buenos Aires, que estavam perdidos com a navegação pois o caminho estava coberto de muita neve, eu informei que estava com GPS e poderiam vir junto comigo se assim quisessem, logo atrás chegava Ediceu e Mauro, se mostrando fortes e consistentes, mesmo depois de passar a casa dos 5.300 metros de altitude.

Foto: Silvester Natan Sanches, Nas encostas do Cerro Plata, já acima do Colo em aprox. 5.300m.

A partir daí os ventos ficavam cada vez mais fortes, sendo necessário mais força e equilíbrio para se manter de pé, e o frio castigava ainda mais devido a sensação térmica próximo dos -22ºC, se tornando um castigo parar para descansar.

Informei aos meus companheiros que eu estava com muito frio, e não iria fazer muitas paradas para descanso, iria manter um ritmo constante, mas iria abrindo o caminho e mantendo o contato visual.

Cada vez mais íngreme, com muita neve, algumas partes duras, o que necessitava de mais atenção e técnica para transpor sem crampons, continuei tocando pra cima.

As 06h00 cheguei na casa dos 5.750 metros, para enfrentar os 200 metros finais de desnível até o cume. Os primeiros raios de sol surgiam, levando a noite e trazendo a luz, se começava a ver toda cordilheira dos Andes ao fundo, até que o topo da face sul do Aconcágua começou ser iluminado pelo sol, que trouxe uma esperança de me aquecer um pouco mais mesmo exposto a todo aquele vento. Parei por um momento para retomar o folego e vi o Ediceu e Mauro parados descansando um pouco com os 02 argentinos que encontramos no caminho, imagino que também estavam pegando folego para os 200 metros finais.

Foto: Silvester Natan Sanches, Na casa dos 5.750m do Cerro Plata com o sol nascendo e clareando o topo do Aconcágua ao fundo.

A arrancada para estes 200 metros finais, é bem íngreme, sendo feita no clássico zig zag para poder ser transposta ainda andando, com muito gelo duro misturado as rochas, requeria muita atenção para não escorregar, alguns momentos próximos de bordas expostas a abismos, o vento batia tão forte nas bordas que fazia um rugido assustador, dava até medo de ser sugado para o vazio quando passava próximo.

Quando cheguei a um enorme glaciar próximo do que parecia ser o cume da montanha, avistei a ponta da hélice de um helicóptero destruído, soterrado na neve, sabia então pelos relatos, que agora estava muito próximo de finalmente fazer cume.

Foto: Silvester Natan Sanches, Glaciar onde tem o helicóptero destruido, próximo ao cume do Cerro Plata.

Os momentos que antecederam o cume, foram tão ou mais emocionantes que pisar no próprio dito cujo, lembrei das palavras de força e a vibe dos amigos no Brasil, que souberam da minha falha na 1ª tentativa, e mesmo assim todos acreditavam em mim numa 2ª tentativa.

5 minutos de subida e logo eu estava finalmente lá, as 07h05min do dia 31/12/2018 no cume do Cerro Plata (5.930m), o ponto culminante da cordilheira de Córdon del Plata. Os ventos batiam tão fortes, que a famosa cruz, fora derrubada na neve pelo vento, o que me deu um trabalhão para empilhar pedras e coloca lá novamente de pé, sendo espancado pelo vento e pelo frio extremo.

Foto: Silvester Natan Sanches, auto retrato no Cume do Cerro Plata (5.930m) com a câmera presa nas pedras.

O visual do cume é inenarrável de tão bonito, com a gigante sentinela de pedra Aconcaguá (6.961m) ao fundo, era possível ver todos os vales e montanhas nevadas ao seu redor e até mais onde os olhos alcançavam, acompanhado do belíssimo vulcão Tupungato (6.570m) a sua esquerda, e o tempo ensolarado e azul, com 100% de visibilidade em 360º graus.

Foto: Silvester Natan Sanches, Cume do Cerro Plata (5.930m) com visual para todas Cordilheiras dos Andes Argentina.

Após algumas fotos, me abriguei do vento deitado atrás de algumas pedras, tomando meu café quente,e  esperando os demais companheiros, quando depois de aprox. 30 minutos, chegaram os 02 argentinos que encontramos no caminho, conversamos um pouco, tiramos umas fotos uns dos outros, tomamos outra bebida quente, descasamos mais um pouco abaixo das pedras, e então resolvi descer pois já estava a muito tempo exposto ao frio extremo e o vento.

Foto: Silvester Natan Sanches, os 02 argentinos que conhecemos no caminho próximos do cume.

Foto: Silvester Natan Sanches, Mauro e Ediceu chegando próximo do Helicóptero destruído.

Após começar a descida, poucos minutos abaixo, no patamar do helicóptero, encontrei Ediceu e Mauro chegando, super fortes depois de enfrentar 3mil metros de desnível em 24 horas, informei que estava descendo, tiramos umas fotos juntos e continuei a descida, que se seguiu de fortíssimos ventos, porém com forte sol na cabeça, e claro, para descer a favor do vento gastei menos força do que para subir contra ele, e logo eu já estava em Hoyada (4.700m) aprox. 12h00, tirando as botas duplas, comendo umas castanhas e tomando o suco gelado para de hidratar.

Foto: Silvester Natan Sanches, Encontro na descida com Mauro e Ediceu próximo do Helicóptero destruido.

Fico feliz não somente pela conquista do cume, que é apenas um detalhe, mas pelo êxito do planejamento, de enfrentar alta montanha pela 1ª vez de forma autônoma,  pelo trabalho em equipe, mesmo que não sendo todos os participantes do plano inicial, os que pisaram ao cume,  mas cada um teve sua participação e colaboração na conquista, e principalmente pela força e determinação de encarar um ataque dos 2.900m para 6 mil metros de altitude em menos de 24 horas.

Agradeço a todos os amigos que colaboraram com as informações, seja de equipamentos, previsão do tempo, roteiro, GPS, logística e afins, como um grande amigo meu me ensinou, ‘’sucesso é voltar da montanha com vida para poder fazer o mesmo outras vezes mais’’, o cume é só consequência, e alta montanha não é somente competência, tem que contar com o fator sorte também, qualquer alteração climática pode impactar diretamente no sucesso ou fracasso de qualquer expedição.

Foto: Silvester Natan Sanches, Cume do Cerro Plata (5.930m) com foto do meu filho Otto Z. Sanches.

Esta expedição teve o apoio da Columbia Brasil e a loja Decathlon Morumbi, muito obrigado por acreditarem no esporte de montanha.

E Vida Longa a todos montanhistas e sonhadores, todos vocês são capazes de chegar à onde quiserem.

Expedição Cerro Plata 2018

22/12/2018 a 01/01/2019

Equipe:  Silvester Natan Sanches, Vinícius Mzk, Ediceu Pereira e Alexandre Grande.

Relato por: Silvester Natan Sanches

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Sobre o autor

Silvester Natan

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