O Cerro Plata

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Este é o segundo artigo sobre o Cerro Plata na Argentina. Se interessá-lo, consulte a coluna anterior para mais informações.

:: Leia a coluna anterior

Vista Parorâmica do Cordón del Plata, Argentina (Fonte – Parofess.blogspot)

Trilha para o Cerro Plata, Argentina

O acesso ao Cerro Plata é simples, pois fica a apenas 80 km de Mendoza. A saída é pela estrada rumo a Uspallata, seguindo depois no sentido de Vallecitos, numa região conhecida como Vale do Sol, que é bastante visitada. Finalmente, você chegará ao abrigo do Instituto de Educação, de onde começará a caminhar.

Entre então na trilha, que sobe à esquerda do refúgio, é uma rampa suave, que vai deixá-lo 1 h depois nos belos campos de Las Veguitas. Lá, se quiser, poderá montar seu primeiro acampamento, a 3.200 m.

É um ótimo local, verde e protegido, que recebe visitas esfomeadas de um curioso zorro, uma espécie de raposa. Ele é fechado à direita pelo Cerro San Bernardo, impressionante por sua massa piramidal. Em frente, você perceberá os perfis dos Cerros Rincón e Vallecitos, dois cumes conhecidos, com cerca de 5.750 m.

É aqui que sua aclimatação deve começar. A menos que você já esteja bem condicionado, convém permanecer algum tempo em Las Veguitas. Um ótimo treino é subir o San Bernardo (4.100m) mas, se preferir, toque direto para cima.

Repare que você tem como que três vales à sua frente. Tome o central, onde uma rampa moderada irá levá-lo 1 h depois até um local de placas em homenagem a andinistas falecidos.

As próximas 2 hs serão consumidas em subir por trilhas cada vez mais íngremes, cujos dois trechos principais são chamados de Infernillo Uno e Infernillo Dos, acho que não preciso explicar a razão. À medida que for subindo, repare que você estará seguindo paralelamente a uma encosta à esquerda, as Lomas Amarillas.

Alegre-se, ao fim do segundo Infernillo você verá uma pequena queda d’água, indicando que você já está quase em El Salto, a 4.200 m. Apesar da neve, quando estivemos lá havia bastante gente, cerca de dez barracas. É um bom local, um platô protegido e banhado pelas águas do Rio Blanco.

Acampamento El Salto, Cerro Plata, Argentina

No dia seguinte, se tiver nevado você provavelmente já terá de usar botas duplas ou então rígidas. Subindo por 1h algo que me pareceu o Infernillo Tres, chega-se a um glaciar circundado de montanhas.

Você estará em La Ollada, assim chamada devido à sua forma de panela. É um local com água, são as nascentes do Rio Blanco, embora pouco usado como acampamento.

Repare agora na encosta à esquerda, o caminho de subida é bem nítido. Rapidamente, você galgará até a crista do Cordão do Plata, já acima de 4.500 m. Esta lombada onde você está agora é sua velha conhecida Lomas Amarillas.

Ela permite um suave acesso à crista do Plata, de cujo colo se bifurcam os caminhos para o Plata e o Vallecitos, à esquerda e direita. Você seguirá então com eventual uso de crampões, até atingir o cume, talvez 6 hs após o início.

Cerro Plata visto do Vallecitos, Argentina (Fonte – Parofes)

Mas tão custosa ascensão costuma recompensar os esforços.  Num dia claro (o que não foi o meu caso), é possível enxergar à frente a enorme massa do Aconcágua circundado por inúmeros cumes fraturados, o Cerro Negro isolado ao sul, o Vallecitos junto com a cadeia ao norte e o brilho dos vales de Mendoza no distante leste. Se não vimos muita coisa, pelo menos tampouco fomos vistos pelo Futre!

Pois existe um perigo semelhante ao clima traiçoeiro, embora não de natureza física. Trata-se do Futre, um empresário que trabalhou na construção da ferrovia local. Homem muito mesquinho, foi decapitado por um empregado, que o abandonou nos trilhos.

Aproximação do Cerro Plata, Argentina

A partir de então, conta-se que seu espectro sem cabeça costuma percorrer a cavalo toda a região serrana de Uspallata. Seu vulto é muito temido pelos que se aventuram naquelas montanhas.

Como a neve prosseguia, nossa volta até El Salto foi lenta e trabalhosa. Não havia mais ninguém, mal tive ânimo de desenterrar a barraca que lá havíamos deixado vazia. Voltamos a Las Veguitas envoltos no manto branco da nevasca e fomos os últimos a deixar a montanha.

No refúgio, o guarda parque comentou que por uma semana ninguém voltaria ao Plata, até que a neve cedesse. A montanha havia momentaneamente se livrado dos seus invasores, permanecendo apenas na companhia do Futre.

La Cumbre, Cerro Plata, Argentina

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Sobre o autor

Alberto Ortenblad - Colunista

Nasci no Rio, vivo em São Paulo, mas meu lugar é em Minas. Fui casado algumas vezes e quase nunca fiquei solteiro. Meus três filhos vieram do primeiro casamento. Estudei engenharia e depois administração, e percebi que nenhuma delas seria o meu destino. Mas esta segunda carreira trouxe boa recompensa, então não a abandonei. Até que um dia, resultado do acaso e da curiosidade, encontrei na natureza a minha vocação. E, nela, de início principalmente as montanhas. Hoje, elas são acompanhadas por um grande interesse pelos ambientes naturais. Então, acho que me transformei naquela figura antiga e genérica do naturalista.

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