O Morro dos Remédios

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Nossa Senhora dos Remédios é uma padroeira de origem portuguesa que geralmente é invocada com a finalidade de curar, salvar ou libertar, afirmam seus fiéis devotos. Devoção tanta esta que chegou ao ponto da santa emprestar seu nome a uma simpática serrinha situada na divisa dos municípios de Salesópolis e Paraibuna, a Serra dos Remédios. Ali, os quase 1200m do seu ponto culminante são motivo de peregrinação no mês de setembro. Mas também há andarilhos que fazem a mesma rota (ou uma parecida) atrás dos largos visus descortinados no alto deste pico de fácil acesso. E foi lá mesmo que resolvi acampar um final de semana bem descompromissado afim de palmilhar as trilhas desta serrinha simples e modesta, mas que consegue a rara façanha de juntar natureza e fé.

“Depois da tempestade vem a bonança”, diz o velho ditado. Da mesma forma, depois do tempo feio, cinza e chuvoso do último final de semana veio uma boa abertura de clima seco e limpo, ideal pra retomar as pernadas pelo alto de morros ou montanhas. E a bola da vez, algo que tinha engatilhado faz tempo, era visitar por conta a Serra dos Remédios. Já tinha tudo esquematizado: sair cedo, pegar trem da CPTM  até Mogi das Cruzes, tomar o intermunicipal da EMTU até Salesópolis e dali chinelar mais de 15kms até o pico. Mas aí surgiu a Carol demonstrando interesse de embarcar junto, dada a baixa dificuldade da trilha e a perspectiva de avistar uma chuva de estrelas cadentes anunciada pela mídia. Sim, e com ela veio a facilidade de deslocamento, ou seja, ir até o pico de carro, abreviando todo perrengue de chinelada a pé ao local. Enfim, uma mudança de logística de última hora que acabou favorecendo ambas partes.

Chiara guiando a trilha

Dessa forma saímos de Sampa pouco antes das 13hr em direção a Salesópolis, dando tempo de praticamente arrumar as mochilas no mesmo dia. Ela de motora, eu no banco do passageiro e a espivetada Chiara no meu colo, apreciando a paisagem na janela enquanto o vento esvoaça suas largas orelhas de forma compassada. Aquele comecinho de tarde radiava de tão transparente que o firmamento estava, tanto que a verdejante Serra do Itapeti parecia recortar o horizonte do azul do céu quando chegamos a Mogi das Cruzes, por volta das 15hr. Cruzamos a cidade e dali tomamos a SP-088 na direção leste, passando por Biritiba-Mirim e a discreta entrada do bairro Nossa Sra dos Remédios pra só chegar em Salesópolis hora depois.

Em Salesópolis fizemos uma breve parada num mercado pra pegar mantimentos que faltavam (e algumas latas de cerveja) e nos pirulitamos pelo restante da SP-088, que aqui informalmente é denominada “Estrada dos Pitas”, em direção á Rod. dos Tamoios (SP-099). Antes de chegar lá ficamos atentando uma entrada a esquerda que não poderíamos passar batida, por volta do km 115, entrada esta bem óbvia que surge poucos kms depois do “Restaurante Senzala” e a “Cachoeira da Porteira Preta”, atrativos bem conhecidos a margem da via. Ah sim, e depois de cruzar uma placa anunciando divisa do município com Paraibuna.

Estrada precária nos reflorestamentos

Abandonamos então o asfalto em prol desta precária via de chão, agora adentrando nos domínios da Fazenda Cachoeira, enorme área de reflorestamento de propriedade da Suzano Celulose, agora tocando sinuosamente na direção nordeste. E assim fomos avançando, ganhando altitude aos poucos, em meio aquela vasta área coberta de eucaliptos e alguns pequenos focos de mata ciliar, bordejando colinas, cruzando pequenos córregos e rasgando vales, eventualmente frestas na mata permitiam vislumbre do nosso destino cada vez mais perto. Vale salientar que o trajeto não tem sinalização nenhuma e está repleto de bifurcações, mas felizmente fui munido do impresso duma detalhada imagem aérea com as possíveis vias de acesso ao pico.

Depois de muita trepidação, paradas pra checagem de rota e dado uns perdidos (felizmente sanados a tempo) finalmente alcançamos a simpática Capela de Nossa Senhora dos Remédios, situada na cota dos 1050m, por volta das 16:30hr. O lugar parece um presépio e as paredes alvas da igrejinha brilhavam á luz daquele finalzinho de tarde, que divide espaço com um par de casebres abandonados, uma área coberta (provavelmente pra quermesses) e um belo jardim. Aqui pode se dizer que é um ombro serrano que dá acesso á crista da Serra dos Remédios, uma vez que daqui a estrada de chão desce pro outro lado da serra bem forte, em direção a Paraibuna.

Capela Nossa Senhora dos Remédios

Pois bem, estacionamos sob a sombra duma frondosa figueira, arrumamos as mochilas, alongamos aqui e ali, e começamos nossa chinelada pro topo. Isso não tem segredo pois daqui existe boa sinalização, embora seja meio óbvia, pro alto. A Chiara foi a primeira a explorar o entorno, demarcando um arbusto já logo de cara com seu pipizinho. Mas a perspectiva de que a montanha seria nossa logo se diluiu quando vimos um veiculo com placa de Paraibuna estacionando do lado do nosso, trazendo dois jovens casais com a mesma intenção de acampar no cume, munidos devidamente dum possante violão. Pelo jeito a montanha é “point” da molecada daquele município, uma vez que está situada muito mais próxima de Paraibuna que Salesópolis.

Da capela então tomamos uma estreita via de chão, muito mais precária que a anterior, que subia em definitivo pro alto da serra. A subida aperta e logo me vejo na frente da Carol, sendo acompanhado apenas por uma espoleta Chiara, cheirando a novidade do caminho a frente. Enormes cupinzeiros se reverzam com a vegetação a margem da vereda, que muda radicalmente conforme se ganha altitude. O bosque de eucaliptos não tarda a dar lugar a chaparrais de samambaias, que depois se torna vegetação de altitude na proximidade do topo.

Mas em bem menos de hora após ter estacionado veiculo, piso nas primeiras rampas aderentes de rocha dos 1200m do alto da serra. Uma lajota enorme se estende no sentido da crista, dividindo espaço com uma pequena clareira de pasto onde duas torres de telefonia descansam feito sentinelas do lugar. Com o dia caindo rapidamente, tivemos tempo apenas de armar a barraca entre as torres e apreciar o sol despencando a oeste, tingindo o céu duma tonalidade rubra espetacular. O visual infelizmente foi prejudicado pela presença da típica nebulosidade de outono de final de dia, mas estávamos certos que no dia seguinte amanheceria limpo e claro, de acordo a previsão. Ah sim, e a outra galerinha decidiu pernoitar numa clareira dentro da mata, no final da laje, protegidos do vento. “De noite venta muito ali nas torres!”, disseram eles pra nós, como se não fossemos calejados de acampamentos no alto da Mantiqueira ou no Ibitiraquire.

pernoite no topo do serrote

Quando a noite caiu a temperatura despencou junto, nos obrigando a trajar roupa mais quente. Na sequência pusemos o fogareiro pra ronronar sobre nossa deliciosa janta, sob o olhar de misericórdia da esfomeada cadelinha. As nuvens corriam velozmente pelo cume, deixando eventuais brechas que descortinavam luzes da urbe em meio aquele bréu noturno. No entanto a contemplação ficaria mesmo pro dia sgte, pois realmente estávamos cansados da viagem até ali e assim nos recolhemos a nossos respectivos sacos-de-dormir. A Chiara, coitada, ficou na indecisão em onde iria se enfiar, mas decidiu por dormir junto com sua zelosa dona. E assim a noite correu tranquila e sem incidentes. Eu particularmente dormi feito uma pedra, levantando apenas em duas ocasiões pra “regar a moita”. Ali me deparei com uma paisagem totalmente isenta de nuvens e lindamente estrelada, onde apenas alguns pontos isolados de luzes cintilantes ao longe denunciavam a presença das fazendas próximas. Das estrelas cadentes anunciadas nem vi sinal, pois o frio tava tão intenso que preferi em voltar pra dentro da barraca a ficar ali, congelando.

Tudo bem sinalizado

Na manhã sgte levantamos até cedo, por volta das 7hr, bem mais dispostos e revigorados pela agradável noite de sono. Desnecessário dizer que bastou abrir o zíper da barraca pra nos deparar com uma vista maravilhosamente linda e radiante, isenta de qualquer nebulosidade. Tomamos rapidamente nosso desjejum enquanto as mochilas cargueiras engoliam o equipamento na mesma medida, e imediatamente fomos pro mirante apreciar a vista. Ali encontramos os jovens do dia anterior e uma dupla de rapeleiros paulistas, com quem troquei informações valiosas da região e, principalmente, duma ótima logística que se valeram pra visitar o pico, com direito a pernoite na parte coberta da capela. Infos estas que repassarei no final do relato. E a vista? Sim, claro, ela privilegia todo quadrante norte, e se estende desde a morraria verdejante do “Vale da Fartura” até a minúscula Paraibuna, ao norte, as margens da represa do mesmo nome. Ao longe, percebe-se a silhueta difusa da Serra da Mantiqueira e, pequenina a seus pés, a geometria alva de São José dos Campos.

Mirante dos Remédios

Da pedra resolvemos conhecer a crista restante da serra, que pelas infos da galera se dava por uma trilha que nascia no final da laje e acompanhava a cumieira na direção nordeste e dava noutros mirantes. E lá fomos nos mergulhando na mata fechada palmilhando uma vereda bem batida a principio, cercada de muita vegetação, onde se destacava as inúmeras  teias-de-aranha reluzindo ao orvalho matinal. Passamos pelas clareiras onde os jovens estavam acampados e seguimos em frente, caminhando pela crista abaulada, cujas corcovas sucediam-se seguidamente, em meio a copa frondosa do arvoredo, que filtrava a luz solar antes de tocar o solo.

A chinelada prosseguiu compassadamente até que o caminho começou a se fechar cada vez mais, obstruído totalmente por voçorocas de chatos bambuzinhos e alguns gigantes da floresta tombados. Pelo visto ninguém pisava ali faz tempo, motivo pelo qual demos meia-volta e retornamos, afinal a ideia daquela vez era um rolê sem ralação no mato, bem “pantufex” mesmo. Foi aí que reparei que estávamos bem perto da borda da serra, até que achei uma trilha (que nos passara despercebida na ida) meio que escondida que ia ao seu encontro.

Panorâmica do mirante

Mais trilha no dia seguinte

Bingo, tomamos a tal breve vereda e num piscar de olhos nos levou noutro belo e rústico mirante do alto da serra. A rampa porosa de pedra dividia espaço com uma variedade enorme de flores, inclusive o conhecido Lírio-da-Mantiqueira, que no Pico do Lopo é conhecido como Amarilis. E foi ali, naquele pequeno paraíso do qual éramos donos absolutos, que ficamos descansando um tempo, apreciando a paisagem enquanto a brisa soprava o rosto. A Chiara aqui nos pregou um susto, avançando até a beira dum penhasco verticalizado onde suas patinhas quase escorregaram piramba abaixo. Goles de água se mesclaram a mordidas de salgados enquanto descansávamos empoleirados na rocha, que esquentava conforme se passavam as horas.

Voltamos então satisfeitos pelo mesmo caminho, tomamos outra vereda paralela que cruzou um antigo acampamento de caçador (com direito a grelha e mesinha de gravetos improvisada), rasgamos um trecho mais rústico do trajeto até que finalmente chegamos outra vez no “Mirante dos Remédios”, agora tomado por mais gente. É, pelo visto o lugar é figurinha carimbada da moçada de Paraibuna. Até ali era pouco depois do meio-dia e resolvemos retornar pra Sampa, afim de não pegar o trânsito habitual de final de domingo, dando as costas a sussérrima e charmosa Serra dos Remédios.

Descemos toda aquela piramba até a capela, arrumamos as coisas e zarpamos pelo mesmo caminho da ida. Nos sugeriram ir pra Paraibuna, mas apesar da tentação pessoal de conhecer a cidade decidimos voltar por Salesópolis mesmo, uma vez que o trajeto era menor e o caminho já nos era familiar. Fica pra outra, claro. Na volta passamos rapidamente pra conhecer o tal Casarão Senzala, um restaurante feito numa antiga casa de “taipa de pilão” e “pau-a-pique”, num lugar que serviu por muito tempo como ponto de compra e venda de escravos, além de repouso para os comerciantes que, vindos da Capital e Vale do Paraíba utilizavam a Rota do Sal para se dirigir ao litoral. Hoje o restaurante é um atrativo visitado por sua arquitetura e gastronomia. No entanto, seus preços de gringo nos obrigaram a comer algo em Salesópolis mesmo, numa padoca local. Resumindo, chegamos finalmente a Sampa pouco antes das 16hr, ainda com tempo suficiente pra outros afazeres domésticos.

A Serra (ou Morro) dos Remédios é um programa bem fácil pra levar toda família, tranquilo e incrivelmente sem muita muvuca. Claro, exceto quando ocorrem as romarias á capela do mesmo nome, quando o lugar fica tomado de fiéis. Mas é esta rota, vinda da pacata Paraibuna, que deve ser bem interessante de se fazer a pé e foi o trajeto feito pelos paulistas que encontramos, uma vez que a logística é mais simples e a distância, bem menor que de Salesópolis. Pra isso basta tomar condução direta do Tietê pra Paraibuna e dali chinelar pouco mais de 15km por vias de chão (muito bem sinalizadas) até a capela, passando por fazendas tradicionais, gente hospitaleira e muita comida caipira, sem se perder no confuso e interminável reflorestamento da Suzano que encaramos de carro. No entanto, a baixa distância é compensada altíssimo desnível. De Paraibuna até o cume é preciso vencer cerca de 800m, mas esse é o preço pago pelo trilheiro afim de ter seu quinhão de mato, quiném a “pagação de promessa” dos fiéis. Mas independente de logística adotada, seja a pé ou motorizado, vindo de Salesópolis ou Paraibuna, o Mirante dos Remédios estará sempre ali, abençoando todo e qualquer visitante. Seja ele alguém buscando apenas curtir largos visus ou aqueles buscando iluminação ou fé.

Altos visus

Outros mirantes da crista

 

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Sobre o autor

Jorge Soto - Colunista

Jorge Soto é mochileiro, trilheiro e montanhista desde 1993. Natural de Santiago, Chile, reside atualmente em São Paulo. Designer e ilustrador por profissão, ele adora trilhar por lugares inusitados bem próximos da urbe e disponibilizar as informações á comunidade outdoor.

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