Subir montanha é inútil?

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Minha mochila, minhas botas de trekking e bastões, as roupas impermeáveis, a barraca são coisas úteis. Ajudam a melhorar meu desempenho, me dão mais segurança e conforto quando estou na montanha.

Mas qual a utilidade de subir a montanha? Essa é uma das perguntas mais feitas pelos que não as sobem.

Nenhuma! Não existe utilidade alguma em subir a montanha.

Coisas úteis são descartáveis, têm validade, são efêmeras. Se a mochila, a bota, as roupas ou a barraca estragarem, comprarei outras, se meu bastão quebrar, o troco também.

Mas como é que posso descartar, substituir, tudo o que vivo em cada montanha que eu subo?

Cada montanha é única! É muito difícil colocar em palavras o que sinto quando caminho por uma mata selvagem ouvindo o som do vento e de pequenos animais que vivem ali, o que sinto quando chego no cume, quando assisto o nascer e o por do sol dali de cima vendo o céu azul ficar amarelo, laranja, vermelho e depois preto, quando levanto no meio da madrugada e saio da barraca sem luz alguma e ao olhar pra cima e vejo aquele céu imenso, cheio de estrelas.

Me pergunto como posso atribuir utilidades a um sentimento que não sei sequer descrever?

E é em função desses sentimento sem nome e sem utilidade que muitas pessoas se embrenham no meio do mato para subir montanhas!

Agradeço muito a existência das coisas úteis que me permitem desfrutar do inútil que a vida me oferece!

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Sobre o autor

Marise Cestari

Marise Cestari é médica neurologista e aventureira. Começou sua vida de aventura no Caminho de Santiago, onde descobriu que o trekking é uma terapia para o corpo e a alma. Desde então não parou mais, já tendo realizando diversos trekkings e ascensões nos Andes e Venezuela, inclusive curso de escalada em rocha.

1 comentário

  1. “Escrever um livro inútil, que não conduzisse a nenhum caminho e não encerrasse nenhuma experiência; livro sem direção como sem motivação; livro disfarçado entre mil, e tão vazio e tão cheio de coisas (as quais ninguém jamais classificaria, falto de critério) que pudesse ser considerado, ao mesmo tempo, escrito e não escrito, sempre foi um dos meus secretos desejos.” (Carlos Drummond de Andrade). Então, Suba “tuas” montanhas, beije “tuas” plantas, ame “tuas” estrelas. O resto é sombra de inutilidades alheias.

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