Embora não seja visualmente impressionante, Marajó é um lugar especial, por sua cultura passada, sua história complexa e sua situação única, na maior foz amazônica. Nesse relato, você saberá sobre a formação da ilha, a cultura marajoara, a história recente e a sua peculiar geografia.
A Formação Geológica
É curioso como o Planalto das Guianas, que contém as maiores elevações do Brasil, e o Vale Amazônico, que é uma baixa planície sedimentar, estão ambos assentados sobre as mais antigas rochas de todo o planeta.
Datados de uma era tão remota que sequer possui história, eles apresentam aspectos opostos: num caso, um formidável pacote rochoso que percorre nossa extensa divisa norte e, no outro, o maior vale aluvial do planeta.
O assoalho amazônico foi sucessivamente recoberto por terrenos sedimentares, desde períodos antigos até recentes, de poucos milhões de anos passados. Na extremidade leste ou atlântica da Amazônia eles são muito variados e distintos daqueles da Amazônia Central e Ocidental.
Coincidem com o Arquipélago de Marajó, que veio a ser separado do continente por um abalo tectônico, ou seja, resultante do movimento profundo da crosta terrestre. Essa separação teria ocorrido talvez a menos de 2 milhões de anos.
Acredita-se que Marajó esteve longamente submersa, talvez de 400 a 150 milhões de anos atrás. Mesmo depois, houve várias transgressões e regressões marinhas, ou seja, avanços e recuos do mar.
Além disso, existe no lado NE de Marajó um ativo solapamento ou erosão, compensado no lado SW por um processo inverso de deposição. É como se a ilha se movimentasse, o que teria causado muitas rupturas e falhas nas camadas sedimentares do seu solo.

Imagem de uma fossa tectônica, indicando o rebaixamento do relevo. A de Marajó é uma das mais importantes do país.
Os geólogos dizem haver na região duas fossas de 4 mil metros no sentido N-S, que originaram parcialmente as três grandes ilhas: Marajó, Caviana e Mexiana (ambas logo ao norte). O lado oeste de Marajó, junto com as inúmeras ilhas do arquipélago, teve origem fluvial. Desta forma, essas grandes ilhas têm uma procedência mista, tanto fluvial como marítima – por ser ainda pouco estudada, até hoje surpreende os pesquisadores.
A Cultura Marajoara
A história da Amazônia ainda não foi compreendida nem bem narrada, embora tenha sido cada vez mais pesquisada a partir do meio do século passado. Muitas descobertas foram surpreendentes, e você já se acostumou a encontrá-las nos meus livros.
Talvez a mais conhecida delas seja a cultura marajoara, que existiu provavelmente entre os anos de 400 e 1.400, ou seja, por um milênio. Mas a ilha já era habitada desde 3.500 anos passados, ou seja, por volta de 1.500 AC.
Os campos de Marajó, em especial a leste, são baixos, pobres e alagados, não sendo propícios ao plantio, inclusive de raízes como a mandioca. Ao contrário, o oeste da ilha é florestado e relativamente fértil, devendo ter acolhido no passado remoto lavouras em pequena escala.
Porém o principal alimento histórico foi o peixe, ativamente gerenciado pelo menos de duas formas: através de currais nas cabeceiras dos rios, bem como de lagoas, represas e canais artificiais ao longo deles, para a retenção do pescado. Essas ações, que alguns pesquisadores dizem ter sido enormes, permitiam alimento constante ao longo do ano, compatível com a população de então, estimada em 100 mil pessoas.

O Teso dos Bichos, o mais famoso de Marajó, junto com o desenho do seu relevo.

Anna Roosevelt é uma importante pesquisadora de Marajó.
Porém os vestígios mais importantes da cultura marajoara foram os chamados tesos, ou montes lineares, que funcionavam como plataformas elevadas para se sobrepor às enchentes e para vigiar e defender a região.
Durante as chuvas, mais de 2/3 da ilha ficava encharcada e às vezes submersa. Os tesos serviam a propósitos como moradia, proteção e cemitério. As habitações eram construídas no sentido E-W, distribuídas num desenho oval concêntrico. Os tesos maiores e dominantes sugerem a existência de uma elite no comando e de uma centralização do poder, algo raro nos povos amazônicos.
Nesses tesos foram encontrados tesouros cerâmicos, compostos por altas urnas funerárias, vasos e tigelas decorados, joias e tangas femininas, bem como grandes estátuas. Note que artefatos de pedra foram raros, pelo fato de a ilha não ser rochosa.
Diz o escritor Reinaldo Lopes (resumido): O extraordinário capricho na fabricação dos objetos nos grandes sepulcros indica que tais estruturas eram a marca registrada da elite nativa de Marajó. Cerimonias fúnebres elaboradas, bem como outros rituais, teriam funcionado como a marca da superioridade desses clãs nobres.
Foram surpreendentes trabalhos sofisticados de uma cultura complexa, que apresentava as mulheres como ancestrais míticas, que era voltada ao culto dos antepassados e que praticava uma cosmologia baseada na serpente. Porém, quando o Brasil foi descoberto, não mais estava acontecendo a construção de novos tesos. Embora houvesse habitantes, a cultura clássica marajoara já tinha desaparecido.
3(a), (b) e (c) – Cerâmica
O que aconteceu é um mistério. Talvez o clima tenha oscilado, com secas severas que devastaram o precioso manejo pesqueiro. Quem sabe houve uma revolta geral que expulsou a elite e destruiu a cultura. Talvez os marajoaras tivessem sido conquistados pelos aruak invasores. Foram eles, e não os nativos originais, que os portugueses encontraram no começo dos anos de 1.600 ao chegarem a Marajó.
A História Recente
Vou lhe falar brevemente da história posterior da ilha. A posição de Marajó é estratégica, no delta do maior rio do mundo, canal de ingresso para a imensa floresta tropical do planeta, potencialmente rica em frutos, especiarias e minérios. Grandes rios são como grandes montanhas, grandes exploradores sempre querem conquistá-los.

Urnas funerárias nos estilos Joanes (baseado em ave) e Pacoval (em cobra).

Tanga.

Vaso marajoara.
Especula-se que o almirante chinês Zheng He tenha alcançado a América no começo do século XV e que Duarte Pacheco tenha visitado Marajó no fim deste mesmo século.
São conhecidas as outras duas abordagens à região: Vicente Pinzón, companheiro de Colombo, que lá chegou à busca do caminho para o oriente, e Francisco Orellana, que alcançou a foz pelo longo trajeto interior a oeste e a quem devemos o relato das formidáveis guerreiras nuas, as amazonas, que até hoje frequentam meus sonhos agitados.
Depois, no século XVII, o português Pedro Teixeira inaugurou a ocupação portuguesa a oeste, ou seja, rio acima. Os espanhóis acabaram desistindo desse espaço, que lhes era vedado pelo Tratado de Tordesilhas e que não lhes prometia a prata abundante que extraíam do outro lado dos Andes.

Mapa de Marajó, indicando os Rios Amazonas e Tocantins-Pará, as Ilhas Caviana e Mexiana e as capitais Belém (PA) e Macapá (AP).
Holandeses, ingleses e franceses (esses menos do que os demais) acabaram se rendendo às dificuldades do trópico, da distância e da geografia. Os primeiros exploradores fizeram surpreendentes relatos sobre as grandes povoações às margens do Amazonas. Elas despareceram depois da colonização e são até hoje um enigma, que os arqueólogos tentam resgatar à busca de uma Amazônia anterior, mais populosa, plena e poderosa do que a atual.
E depois vieram os soldados e os jesuítas, conquistando as terras e as mentes nos séculos seguintes. Naturalmente, os indígenas foram sendo exterminados e os negros escravos, introduzidos. Os aruak talvez tenham lamentado sua migração séculos atrás desde o Caribe.
Durante os fracassados dois ciclos da borracha no século XIX, os nordestinos, destinados aos seringais amazônicos, migraram para as pequenas lavouras da ilha. Muitos ainda permanecem lá.
E chegaram os búfalos, que sobreviveram a nado a um naufrágio do navio que os transportava nos fins do século XIX com rumo à Guiana. Da raça filipina carabau ou das espécies indianas murah e jafarabadi, eles prosperaram enormemente na ilha, devido ao solo encharcado e ao clima quente. Forneceram a carne, o leite e o transporte e também enriqueceram a paisagem.

As diferentes raça de búfalos.

O maior rebanho de búfalos fica em Marajó, com talvez meio milhão de reses.
Quando penso sobre Marajó, percebo que a ilha sobreviveu bravamente à sua história anterior. Não houve desníveis de relevo que motivassem a criação das hidrelétricas devastadoras da vida. Nem reservas minerais (fora alguma canga ferrífera) que atraíssem as vorazes mineradoras. Ou a localização privilegiada que pelo menos facilitasse o corte raso das florestas. Assim, a natureza desse enorme território, apesar de tão antigamente explorado, conseguiu resistir ao menos em parte na sua rica plenitude e diversidade.
A Geografia de Marajó
O estuário amazônico é formado a partir do encontro de duas grandes bacias: do Amazonas a norte e a do Tocantins-Pará no sul, ambas desaguando no Atlântico. Entre a junção dessas águas doces e salgadas, situa-se Marajó, região formada por talvez 2.5 mil ilhas, constituindo o maior arquipélago fluvial e marinho do planeta. Este conjunto é teoricamente protegido por uma APA de 55 mil km².
Ele é dividido em duas áreas bem diferentes, que apresentam tamanhos parecidos. O território leste inclui grandes planícies cobertas por pastos abertos, enquanto no oeste existe uma região florestada.
A ilha possui uma enorme área de 40 mil km² e sua paisagem é uma mistura de campos alagados, mangues e praias desertas, com vegetações do Cerrado (como no Amapá logo ao norte) e da Amazônia (como na floresta em todo o oeste, ao longo do PA e do AM).

Fazenda situada nos campos alagados de Marajó.
As terras de Marajó incluem-se no baixo platô amazônico. São formações do Pleistoceno, datadas a partir de 2.5 milhões de anos atrás. Esses terrenos argilo-arenosos são pobres e ácidos, não se prestando à lavoura. Acolhem gramíneas e herbáceas nativas, arbustos como aningas, bem como palmeiras miriti, tucumã e inajá.
São frequentemente inundados durante as cheias da primeira metade do ano, quando chove pelo menos 2/3 da precipitação anual de 2.500 mm. Mais do que quente, o clima é úmido. Os campos parecem uma bacia plana e baixa protegida por bordas mais elevadas.
Essa planície inundável apresenta duas espécies de terrenos: o igapó, área inundável durante grande parte do ano, e a várzea, terreno alcançado pelas águas apenas na época das chuvas.
Na planície são encontrados inúmeros lagos (como o Arari) que recebem o excesso das águas dos rios durante as cheias, bem como frequentes elevações artificiais chamadas de tesos, não atingidas pelas águas e usadas para refúgio do gado durante a estação úmida. Essa é uma região com grandes fazendas de criação de bois e de búfalos.

Praia oceânica em Marajó.
O oeste marajoara ocupa um pediplano mais fértil e elevado, onde vicejou a floresta amazônica (sumaúmas, andirobas, seringueiras), fechada, quente e abafada, junto com uma intricada rede de rios.
Ao norte existem os mangues e os estreitos cordões arenosos de praias marítimas, onde estão as vilas de Afuá e Chaves – sem ligação por terra com a capital Soure. São povoados pitorescos, onde as ruas são trocadas pelos igarapés.
Mais além, as grandes ilhas de Caviana (Sul e Norte) e Mexiana, separadas por canais de águas perigosas – contêm florestas densas, várzeas e campos alagados, mas não possuem vilas. Os habitantes lá são os bovinos, pastando nos capins nativos ou nas canaranas ou quicuios plantados.
Ao sul operam as duas centenas de serrarias de Breves, que extraem os troncos das espécies mais valiosas, que são escoados flutuando durante as marés altas e as estações chuvosas. As madeiras nobres (maçaranduba, angelim, copaíba) se tornaram mais raras, restando hoje principalmente a virola.
A propriedade da floresta parece ser concentrada em grandes proprietários. Não existe ligação direta entre Breves e Soure. No noroeste, aparecem savanas com grandes florestas de buritis e açaís, que são ativamente exploradas.
Existem felizmente várias reservas extrativistas, especialmente na metade ocidental, para o manejo (espero que) controlado da floresta e a manutenção das comunidades tradicionais. Até mesmo o Parque Estadual de Charapucu, chamado de Veneza Marajoara, devido à presença de canais e palafitas. Existe muita tensão social e fundiária entre ribeirinhos, pescadores, patrões e fazendeiros.

Navegando num furo pela floresta de Marajó.
Não ocorrem grandes rios na Ilha, em termos de seus comprimentos. A exceção talvez seja o Ananás. Ele nasce no centro e corre para o oeste, cortando ao meio toda a zona ocidental de Marajó e desaguando no Amazonas.
O lado oeste possui cursos com grande largura, como o Jacaré. O desenho dos rios é muito confuso, uns entrando sucessivamente nos outros, em trajetos de muitos meandros. São cursos nada bonitos, barrentos e lentos.
Assim como a virola entre as árvores, o bagre e a traíra são hoje os peixes mais capturados, agora que tucunarés, surubins e pirarucus se tornaram mais difíceis. A fauna ainda contém importantes espécies amazônicas, como onças pintadas e gatos maracajá, botos e peixes boi, grandes e delicados macacos como guaribas e caiararas e, entre os pássaros, muitas aves pernaltas, japins cantadores e ciganas coloridas.
As Pessoas e as Águas
Marajó é bastante populosa, com 500 mil pessoas. Sua maior cidade é Breves, com 100 mil habitantes. Naturalmente, o extrativismo é a maior atividade – madeira, açaí, palmito e carvão, embora haja uma agricultura variada e, claro, a criação de búfalos e bovinos. Breves é também o maior centro econômico, mas fica estranhamente isolada – algo como 14 horas de barco até Belém.
Duas das maiores vilas da ilha, Soure e Salvaterra (população combinada de 50 mil), estão na costa leste, voltadas para a Baía de Marajó, que as separa de Belém – elas concentram a visitação turística. Descendo a borda leste da ilha, existe uma meia dúzia de povoações ao longo do Rio Pará, como Ponta de Pedras, Muanã e Curralinho.
De novo, não estão conectadas diretamente à capital Soure. A rigor, a própria Marajó é um arquipélago, pois todos seus municípios são ilhas, circundados por rios, o que dificulta suas conexões.
Por exemplo, Salvaterra é bordejada pelos rios Pará, Arari e Paracauari. E cada região possui suas tradições – dos pescadores, dos extrativistas, dos quilombolas ou dos pecuaristas.

Afuá, na borda atlântica de Marajó, é uma vila aquática.
As águas de Marajó, fora as internas, são três, todas elas enormes: o Rio Pará, que corre a sul, o Amazonas a oeste e o Atlântico a norte. As duas primeiras são divididas exatamente pelo corpo da ilha que elas abraçam e a terceira é o destino das outras duas.
Então, Marajó convive com as realidades do rio interior e do mar externo. Na seca, com rios menores, as águas invadidas pelo mar tornam-se salobras, navegadas pelos peixes marítimos. Nas águas, os rios caudalosos avançam mar adentro, abraçando seus peixes fluviais. A ilha tem as diferentes vidas de duas águas.
É o barqueiro apelidado de Imperial quem me conta que o Rio Paracauari no qual navegamos é regido por um ritmo de seis. A cada 6 horas, a maré vai e volta. A cada 6 dias, ela sobe na maré de lanço e desce na de quebra. A cada 6 meses, alterna entre os regimes de águas doces e salgadas.
Fico me perguntando o que acontece a cada 6 anos, mas talvez seja a lenda do Dia dos Mortos, quando o sinistro tronco que chega na enchente e volta na vazante anuncia a morte de alguém nas águas grandes do inverno, como ele conta.
Atrações Turísticas
O turismo em Marajó é principalmente contemplativo, baseado na visitação de praias e fazendas. O clima chuvoso e quente, o relevo sempre plano e as distâncias atravessadas por estradas pouco confiáveis não facilitam a visitação.
Aliás, a região turística de Soure e Salvaterra não é interligada ao resto da ilha, com exceção de Cachoeira do Arari, e mesmo assim com direito a uma balsa. São ambientes mornos e parados, com terras planas, águas calmas e céus nublados.
O acesso é naturalmente por Belém, através de balsa que, cruzando a Baía de Marajó, atinge a capital Soure depois de 2 a 3 horas. Porém poucos dos que conhecem Belém visitam Marajó, algo como 3%. E ¾ dos visitantes da ilha são locais, ou seja do Pará, o que mostra ainda não ter Marajó um apelo nacional.
Existem lá praias fluviais com situações interessantes, como do Pesqueiro, do Céu e do Caju´una e de Barra Velha – e mesmo Joanes (o nome antigo da ilha), onde existem ruínas do século XVIII. Você pode tentar também a praia do Jubim, entre Salvaterra e Joanes.
Mas não espere areias brancas e ventos frescos, nem ondas de surfe. Confesso que não sei se as praias marinhas do norte seriam mais bonitas. Mas as do rio podem ser especiais, com suas dramáticas raízes de mangue e coqueiros e seus singelos vilarejos coloridos. Têm uma beleza áspera e diferente.

Os municípios da ilha. Só dois deles são interiores, os demais sendo banhados por mar ou rio.
Nas fazendas, os atrativos são os passeios a cavalo ou búfalo e o avistamento de aves, que para mim são sempre especiais nas lindas revoadas das garças, maguaris e guarás através dos amplos campos das fazendas.
A navegação nos igarapés e nos furos (ligações naturais entre rios) é muito praticada, como naqueles de Breves e do Miguelão, que permitem o contato mais íntimo com a natureza envolvente da floresta. Acho o efeito dessas navegações deslumbrante, em especial ao pôr do sol.
Mas talvez a atração maior sejam os pachorrentos búfalos. No Marajó, o búfalo está presente na culinária, no policiamento, na produção do couro, nas apresentações culturais e no ambiente familiar dos moradores, diz o jornalista Marcus Passos. É de fato curioso como existe a polícia montada neles, não só em ações urbanas, mas também na ronda dos campos.
Singela e rústica, cercada de água e de calor, lenta e isolada, Marajó é um mundo à parte do resto da Amazônia. Com seu ritmo próprio, parece até uma ilha que ainda espera para ser descoberta.







